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[L] [Ristow] [A Doença]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Salamanca, 8 Fev 2004.

  1. [Ristow] [A Doença]

    Tá, é um conto completamente non-sense que fiz sem compromisso e sem a menor idéia do que ia escrever no próximo parágrafo... só fui escrevendo o que veio na mente. Não é verossímel e não tem o menor compromisso com a realidade, e não faço idéia se funcionou. o_O
    Bom, vou arriscar e colocar aqui, de qualquer maneira. :obiggraz: Divirtam-se (ou não)

    **************************


    A Doença

    Era uma vez uma cidadezinha cujo nome e localização não vêm ao caso. O pequeno povo que nela vivia era simples, vivia sob um rotina imutável, e já fazia muito tempo que tinha perdido a esperança de uma quebra ou mudança nos afazeres do dia-a-dia, de modo que já havia entrado num estado de acomodação e portanto era feliz da mesma maneira. Um dia, porém, receberam uma visita inesperada. Surgiu em meados de novembro um grupo de viajantes com traços fisionômicos demasiadamente semelhantes, podendo-se até imaginar a primeira vista que fossem irmãos. No total eram 15.

    Nenhum dos habitantes lembrava-se de ter presenciado análogo acontecimento antes, mas encararam a situação com curiosidade e sentiram-se entusiasmados com a idéia de ter contato com gente do exterior, pois talvez finalmente pudessem ter notícias e histórias do mundo afora.

    No começo, foi bom. Os viajantes não podiam ir embora devido a chegada do inverno, quando a região ao redor da pequena cidade ficava impenetrável: os rios e lagos congelavam, estradas eram engolidas pela chegada da neve e passagens eram bloqueadas por rochedos tombados após uma tempestade. Mas o povo, por fim, apesar da inexperiência, hospedou com cuidado e atenção cada um dos homens. Nas primeiras semanas eles contavam histórias que faziam as crianças rirem, o que dava tempo às mulheres para que pudessem fazer afazeres extras nas horas que deveriam estar concentrando sua atenção nos filhos. Viraram espécies de babás, como disseram alguns. Também tinham costumes estranhos mas interessantes, que eram observados por olhos curiosos porém admirados, como uma criança vendo os presentes debaixo da árvore na noite de Natal.

    Mas devido ao clima a colheita fora suspendida, já que naturalmente os solos tornaram-se inférteis e inapropriados para qualquer tipo de cultivo. É claro que o povo já havia se preparado para isso, colhendo o máximo que puderam no mês anterior e armazenando o arrecadado num conservador no centro da cidade. Em época de inverno, tais provisões tinham de ser repartidas igualmente para as famílias - na verdade em proporção, dependendo da quantidade de membros dentro de uma casa, o que era um sistema inteiramente justo. Obviamente tinham trabalhado um pouco mais, porque desta vez haviam mais pessoas na cidade.

    Foi então que não muito tempo depois notaram que as estimativas não foram bem sucedidas: os estrangeiros comiam mais do que tinham imaginado, e incessantemente reivindicavam por mais alimento, e os moradores não tinham coragem de recusar depois de tudo o que os 15 homens tinham feito; na verdade não tinham feito muita coisa na prática, mas mudaram um pouco a rotina das pessoas e trouxeram novas informações, e em meio àquele povo, isso era muito. Para piorar a situação, mais viajantes apareceram na cidade - o que foi uma surpresa, levando em consideração o clima violento que a estação trouxera. Tinham a fisionomia também parecida com os estrangeiros que chegaram antes, e depois ficou esclarecido que todos estavam emigrando da mesma cidade, há muitos quilômetros dali, devido a repentina aparição de uma doença mortalmente contagiosa que começava a se espalhar por alguns habitantes. No caminho, portanto, acabavam encontrando a pequena cidade.

    Como você já pode imaginar, a escassez dos alimentos tornou-se alarmante. Foi então que os estrageiros tomaram uma decisão: eles teriam a maior parte da comida, deixando apenas uma pequena quantia para os moradores. Se os mesmos cooperassem e tivessem paciência, poderiam sobreviver até a próxima primavera, a qual chegaria em torno de 23 meses (sim, neste mundo em particular as estações eram mais alongadas). Os habitantes, obviamente, ficaram revoltados, com os emigrantes obtendo controle da situação desta maneira, mas contiveram a emoção dentro de si, afinal, depois desse tempo os homens iriam embora, e esse sofrimento passageiro existiria apenas no passado e em breve seria esquecido com a mesma certeza que uma folha cai no outono. Além do mais, isso poderia valer a pena se causassem uma boa impressão entre os viajantes, pois mais tarde poderiam criar uma aliança econômica ou cultural entre os dois povos, ou até mesmo pedir coisas em troca pelo favor não retribuido.

    O que eles não imaginaram era que a quantidade que recebiam era ridiculamente pouca. Uma hora não agüentaram e avisaram aos homens que precisavam de mais alimento: as crianças estavam famintas, não conseguiriam continuar vivendo com aquela quantidade de ração. Mas os homens não cederem e recusaram o pedido.

    Um dia, um dos habitantes tentou clandestinamente penetrar no conservatório para roubar comida. Na volta, porém, foi visto e assassinado pelos homens, como advertência para o próximo habitante que tentasse realizar uma façanha parecida. Claro que todos ficaram espantados com a hostilidade inédita daqueles homens, que até pouco tempo pareciam confiáveis e honestos, mas por serem simples e desprovidos de consciência de uma iniciativa de revolta, não contestaram. Mas uma hora ou outra tinha um que arriscava, sem sucesso, e perdia a vida. Outros acabavam morrendo de fome.

    Cinco meses depois, com exceção dos estrangeiros, todos os habitantes da pequena cidade morreram.

    E mais estrangeiros - que agora não se podia chamar de estrangeiros, já que eram todos contemporrâneos - chegavam. Curioso era que não chegava uma mulher sequer. Pelo jeito a maior parte delas ficara doente e conseqüentemente não tinha capacidade de viajar, além de quererem evitar o alastramento da doença. Também ficou esclarecido que, apesar do clima, era possível chegar até a pequena cidade por um caminho que contornava uma montanha ao nordeste, que por pouco tempo estava intacta. Mas sair era impossível.

    Não demorou muito para que a comida fosse racionada também entre eles. Cada um recebia uma quantidade X de comida por dia, que foi diminuindo ao longo das semanas, até que a situação ficou preocupante.

    Foi então que chegou a primeira mulher. Estava exausta, a expressão pálida, carregando olhos inchados e vermelhos, lábios roxos e secos. Perceberam logo que não duraria muito. Os homens, então, com tantos meses sem satisfazerem seus desejos sexuais, reprimindo os hormônios toda vez que estes avisavam que estava na hora de esvaziar seus sacos escrotais [com perdão da expressão], estruparam-na. Na verdade fizeram até um esquema de fila, afinal, organização era essencial! A mulher sentia dor, é claro, mas não tinha força para reclamar ou impedir. No total eram 39 homens.

    Um dia ela morreu. Até pensaram que um corpo sem vida ainda poderia ser útil no sentido de satisfação sexual, mas ela começou a feder e desistiram da idéia, e a queimaram - a carne pelo menos era comestível. Durante o banquete, que alegrou o espírito dos homens, se deram conta que estavam todos roucos. Diriam que era uma gripe comum de inverno se não fisse o fato de serem literalmente todos que adquiriram o problema na voz: seria demasiada coincidência. Naquela noite, então, em volta da fogueira, comeram o churrasco em silêncio.

    Na manhã seguinte, estavam todos mudos. Aos poucos foram acordando, um por um, e deram-se conta que não conseguiam dizer "bom-dia", e ficavam todos olhando em todas as direções, dirigindo o olhar entre os que dormiam e os que estavam em pé, confusos, como se esperessem que a qualquer hora alguém pudesse explicar o acontecido.

    Se houvesse médico competente naquela época, teria explicado: a doença se manifestava de maneira diferente dependendo do sexo. Nas mulheres, era mortal: deixava-as fracas e doentes, e dentro de poucas semanas morriam. Nos homens, apenas dava uma infecção na traquéia e rapidamente os impedia de falar. A doença se passava das mulheres para os homens através da relação sexual, mas entre os homens, era facilmente transmitida, pelo próprio ar. Mas ninguém sabia disso.

    Um dia chegou mais um homem. Por ser um lugar pequeno, logo deu de vista com o conservatório, e por causa do fato de ninguém ter voz e não poder avisá-lo que a comida estava sendo economizada, foi até o local e comeu tudo o que podia, depois do cansaço da viagem. Poderiam até impedí-lo de entrar lá através da força física, mas, de qualquer maneira, ninguém o viu, pois não colocavam vigia no conservatório, e, mais tarde, quando viram o subto furto de comida, a ira subiu na cabeça de cada um deles. O novato queria explicar que havia sido ele, mas que não tinha feito por mal; mas também perdera a voz, e os homens estavam com as cabeças quentes demais para interpretarem alguma coisa através de mímica.

    Entre os 40 homens haviam algumas pequenas rivalidades, e desconfianças surgiram rapidamente. Naquela noite houveram algumas brigas, e como uma flor brotando em câmera rápida, elas cresceram até que todos eles estivesse no chão, feridos, quebrados e sangrando sem parar.

    No outro dia, chegou outro homem. Como era de se esperar, entrou no conservatório e comeu. Este sequer se deu conta que a comida estava sendo racionada, mesmo depois de observar a selvageria das pessoas. No mesmo dia, todos brigaram novamente, e desta vez houveram várias mortes.

    Assim, toda vez que alguém chegava, havia uma batalha e homens morriam. Um dia finalmente se deram conta que era sempre que um novato aparecia que uma parte da comida - que agora era pouca, não duraria mais de 10 meses - sumia. Então toda vez que um chegava e entrava no conservatório, era espancado pelos homens - que agora eram menos de 20. Os que eram espancados não sabiam o motivo pelo qual isso acontecia, mas por pura influência e instinto, também faziam o mesmo com os viajantes que chegavam posteriormente.

    Passaram-se semanas. Já havia cerca de 100 homens, e dentro dessa proporção poucos sabiam por que batiam em homens, mas não haviam voz para questionarem a situação, tampouco consciência para questionarem a si mesmos. Então chegou a primavera (que na verdade tinha vindo um pouco mais tarde que o de costume) e finalmente não dependiam mais do conservatório para sobreviverem, mas ninguém saiu da cidade. Todo esse tempo, todos já terem devidamente apanhado, em silêncio, num estado vegetal, tinha feito com que esquecessem o propósito pelo qual haviam parado ali, ou se tinham algum objetivo de saírem do lugar. Apenas aceitavam as coisas como estavam, se acomodaram naquela pequena cidade isolada de tudo, sem informações, vivendo na mais completa ignorância, como bichos.

    Naturalmente passaram a extrair alimento da própria natureza, mas inevitavelmente de quando em quando algum viajante entrava por aquelas áreas e era recebido por uma série de socos, mordidas e arranhões, além da bênção da mudez, e até se recuperar dos ferimentos já tinha sido contaminado não só pela doença, mas pela completa ignorância e estupidez do povo. Assim passaram-se anos e anos. Os primeiros estrangeiros morreram de velhice (que veio mais cedo: a estimativa de vida abaixou bruscamente) e a população era recomposta por viajantes que apenas estavam de passagem mas acabam caindo na teia da cidade. Todo inverno o esquema do conservatório se repetia, e era a época em que a população mais crescia; e batiam nos que chegavam, antes mesmo que pudessem chegar perto da comida. Eram bichos, ignorantes, que batiam porque viam alguém diferente deles. Tornara-se instinto, e portanto jamais se dariam o trabalho de questionarem a si próprios por que faziam isso.

    Se pudessem falar e se perguntasse a eles por que faziam aquilo, responderiam: "Aqui sempre foi assim."
     
  2. Leir

    Leir Quem é vivo, né...

    Caraca,eu achei o texto mais Psicodelicamente Bizarro que eu já lI!!!!


    Muito boM!parabéns!
     
  3. Skylink

    Skylink Squirrle!

    Eu adorei o texto. Já tinha feito algo assim, sobre a completa ignorância decorrente da rotina... Mas no meu texto, era em menor escala, e tinha um final felizinho, embora talvez seja decorrente apenas de sonho.

    Parece que é assim que caminha a nossa realidade hoje... O que é realmente uma pena, visto que existem uns poucos que ousam contestar certas coisas do nosso sistema social. E quando fazem isso, são logo reprimidos. Espero realmente que não nos tornemos como os homens do texto. :|
     

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