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[L] O Dia da Noite sem esperança [Alcarinollo]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Alcarinollo, 1 Fev 2008.

  1. Alcarinollo

    Alcarinollo Usuário

    O Dia da Noite sem Esperança








    Eu estava lá, no dia longo da noite sem esperança. Do fundo da mina escura, sob as horrorosas grotas, dentro da grossa muralha eu e meus desesperados amigos ouvimos o som claro e desafiador da trombeta de um anjo.
    Alguns de nós, que já não mais tínhamos nomes, jogavam-se ao chão aos prantos, murmurando “meu senhor”, “meu senhor”, “é chegada a hora do raiar da esperança”, mas não tinham forças para quebrar as amarras que os prendiam à dura rocha.
    Nossos algozes também rolavam ao chão, em agonia, as mãos em torno dos ouvidos tentando impedir inutilmente que cada nota graciosa retumbasse em suas cabeças, pois a luz era o som, vibrava através dele e se entranhava pelo ar, se propagava pelas paredes, lascava madeira, trincava rocha, rasgava o aço frio e cruel dos pesados portões da cidadela do terror.
    Era chegado o dia da esperança, a hora da luz divina, e os exércitos do mal, companhia após companhia, quedava-se amedrontado ainda no interior da muralha, os vis orcs sendo pisoteados e agredidos pelas bestas que os acompanhavam em suas batalhas. Até mesmo ele, o grande terror negro dos ares, orgulho e glória do senhor do escuro tapou as enormes orelhas e encolheu-se dentro de seu covil horrendo, ferido pela luz que penetrava através daquelas notas encantadas.
    Eu estava lá quando a voz de um anjo chamou, ordenou, desafoiu o senhor do desespero, o traidor da luz, e até ele teve medo de sua majestade e potência. Eu ewstava lá quando a chama pareceu reviver não só em meu coração, mas no de milhares de escravos que, juntos, começaram a cantar um louvor a Varda, a Elbereth, e sentimos a dor desaparecer e fomos afastados do cansaço do mal. Eu estava lá quando a voz chamou e exigiu a presença do senhor do escuro e ele, por instantes, sozinho e amedrontado no mais profundo covil sob a terra teve medo e vacilou. Eu estava lá e subi, acompanhado por centenas, passando por portas arrebentadas, cruzando pátios onde exércitos quedavam-se em desespero, subindo por escadas fendidas até o topo da grande muralha para, do alto, contemplar a planície vasta e deserta de Anfauglith e encontrar ali não um poderoso exército conquistador mas, para meu espanto e desespero, apenas um cavaleiro solitário, fulgurando na prata e no azul de sua armadura, um anjo de Oröme montado em um garanhão tão alvo e imponente quanto a maior e mais branca nuvem. O tremular de sua bandeira em azul e prata quebrava a opressão do cinza que dominava a árida planície morta. De frente para a muralha, a mão direita erguia, de tempos em tempos, a poderosa corneta á face que, coberta por um majestoso capacete, refulgia com o brilho frio das primeiras estrelas colocadas no escuro da noite por Varda, num amanhecer há muito esquecido.
    A maravilha e o desespero lutaram por um breve instante em meu coração quando aquela voz imponente, mas solitária, exigiu a presença do senhor do escuro e, desta vez, as próprias fundações da terra se agitaram com a sua subida. As legiões, outra vez sob a influência de seu horrendo general, recompunham-se, mas ainda amedrontadas empoleiravam-se ao longo da vasta muralha, mirando, estupefatas, a figura solitária na planície imensa. Poucos ali conheciam seu real poder, alguns sabiam seu nome, outros conheciam o corcel de batalhas passadas mas nenhum delas, nem mesmo eu que ali habitava como prisioneiro por duzentos anos, havia presenciado a encarnação de um poder tão negro e horrendo, o poder do antigo Vala que se erguia agora da mais profunda e escura câmara sob a terra em resposta ao desafio que, agora sabia ser um ato de desespero e loucura.
    E então o senhor do escuro apresentou-se e assomou pelos portões que eu jamais vira abertos. Fumaça e cinzas foram lançados ao céu, cobrindo o sol e anulando a fraca brisa que ainda restava na planície estéril. Da muralha imensa soou em uníssono um grito selvagem que misturava terror e medo, e trazia endelével a morte em cada nota. Os olhos de fogo de Morgoth fitaram a noite e o brilhodas estrelas de Varda contidos no olhar daquele ser altivo que porém não se desviou, mantendo-se firme até que sua brava montaria, num resfolegar inquieto, fizesse com que ele a acalmasse com um toque suave e desviasse anadvertidamente o olhar.
    Uma gargalhada horrenda, que fendeu a terra e fez tremerem as montanhas ao longe foi o único som que escapou da boca do Valar que, agora, brandindo Grond, o enorme martelo do submundo, avançou para o campo de batalha. Como uma montanha que desaba sobre um vale, assim o Vala se lançou sobre a figura pequena que reluzia sob sua sombra. Negro era o seu escudo, negra a armadura, negro o enorme martelo, e a luz do dia que atingia seu corpo era consumida sem dela retornar, e o ar que o martelo fendia impregnava-se de enxofre, e a terra abria-se em crateras sob o peso dos enormes pés calçados em pesadas botas de ferro.
    Dentro daquela poderosa sombra, o cavaleiro desmontou de seu irrequieto corcel, tomou docilmente sua cabeça entre as mãos firmes e, dando as costas para o Vala que avançava, afagou a testa do magnífico animal, despedindo-se dele e enviando-o livre, em vertiginosa galopada, para nunca mais ser visto por elfo ou homem enquanto o mundo não mudasse. E os filhos dos filhos daquele que cruzou como o vento a planície desolada de Anfauglith ainda correm altivos pelas planícies da Terra Média, sempre negando e combatendo a sombra, e o chão treme quando lançam-se a batalha guiados pelos valentes filhos da casa de Eorl, o loiro.
    Então, quando ainda estava de costas para o Vala, tão rápido quanto um raio Grond foi alçado às alturas e desceu sobre a pequena figura, fendendo a terra e lançando fogo e destruição da enorme cratera por ele aberta. Entretanto, um instante antes de atingir o chão, da escuridão brilhou a malha do guerreiro, como um facho de luz que escapa da noite profunda e cruza os céus maravilhando os viventes. Logo um grito selvagem e horrendo nasceu da boca do Vala, que cambaleou e defendeu-se atrás de seu grande escudo negro, a malha sobre a perna direita cortada na altura do tornozelo, o sangue negro e fétido escorrendo da ferida ali aberta.
    - A mim, vil Morgoth, tu não irás atingir pelas costas como fizestes com meu pai em Thirion!
    - Farei a ti muito pior que fiz a ele, tolo insolente! Serás hoje o alimento de meus chacais!
    E outra vez o gigantesco martelo cruzou o ar e fendeu a terra. E outra vez a luz surgiu dentre o fogo e os destroços, e outro grito horrendo escapou da boca do Valar, o sangue jorrando de uma ferida aberta desta vez na outra perna.
    - Noldo maldito, esmagarei a ti e a toda a tua descendência!
    - Assim fala o ladrão e o assassino que implorou e novamente implorará clemência aos pés do Rei Mais Velho!
    Por mais cinco vezes Grond subiu e desceu sobre o rei noldo. Por mais cinco vezes ele surgiu um instante antes sobre o corpo de Morgoth e lhe fez mais cinco ferimentos. E a cada grito do Vala suas hordas quedavam-se em desespero, suas feras ganiam, seus demônios encolhiam-se de medo, seus capitães sentiam o medo tomar seus negros corações. Por fim, cansado pelo esforço e acuado na terra arrasada pelo combate, sob o peso do escudo imenso o noldo curvou-se, sustentando o peso e a força de morgoth com a ajuda de seu pequeno escudo, já fendido.
    - Quem és tu, pobre demente, que desafiastes a ira do rei supremo de Arda? Esmagarte-ei como fiz a teu pai em Thirion!
    E novamente o refulgir da prata e a luz dos olhos do eldar feriu os olhos de Morgoth, e seu escudo foi repelido, e suas legiões vacilaram.
    - Rei dos ladrões! Rei dos assassinos, Morgoth Bauglir, rei de covardes e escravos!
    - Morra, verme noldo, moooorrraaaa!
    Novamente o escudo foi forçado para baixo, outra vez o rei, elmo trincado, escudo fendido sustentou e repeliu o peso enorme do senhor do escuro, mas a sorte finalmente abandonou o rei que, cansado, tropeçou e foi imediatamente esmagado pelos pés de Morgoth.
    Porém o rei noldo, num último alento, cortou com sua espada malha, ferro e carne, ferindo Morgoth profundamente e o sangue negro e fétido, quente como o vômito mais terrível das entranhas da terra jorrou e preencheu as fendas feitas na terra, e o rei por fim afogou-se, mas Morgoth não pôde rir-se de seu feito, pois urrava de dor, uma dor que a partir dali o acompanharia para sempre. Então, cego de ira, apanhou o corpo sujo e alquebrado e o partiu em dois, preparando-se para atirá-lo aos lobos no interior da muralha.
    Nesta hora uma canção pôde ser ouvida, fraca mas constante, entoada pelas vozes reunidas de centenas de escravos que se haviam reunido ao longo da muralha enquanto as hordas de Melkor haviam fugido amedrontadas. E essa canção era um louvor a Varda, e havia ali também o nome do rei supremo Finwë e de seu filho primogênito, o grande Fëanor, mas então surgiu o nome do rei que ali tombara em glória e finalmente o véu da maldade foi retirado de minha mente e minha voz se soltou, e pude acompanhar meus irmãos na última saudação ao grande Fingolfin, o mais valente e forte entre os eldar, que combatera sozinho o senhor do escuro às portas de sua fortaleza de terror.
    E Morgoth, por um instante, interrompeu seu gesto e voltou-se para a muralha, e todos os que cantavam começaram a ser mortos ou atirados para baixo, ainda vivos, mas a canção ainda estava em seus lábios enquanto caíam, e eu mesmo fui apanhado e jogado, quase morto, do alto da muralha, e o espírito só não abandonou este corpo porque caí sobre uma pilha de corpos de tantos irmãos que já se encontravam espalhados ao longo da muralha. E naquele dia sem esperança milhares morreram cantando, acompanhando seu senhor que os viera chamar para, com ele, seguir para os palácios de Mandos.
    E enquanto perdia minha consciência ainda pude ouvir Morgoth mais uma vez amaldiçoar, pois uma grande ave descera dos céus como um raio de prata e lhe arrebatara o corpo do rei guerreiro, levando-o veloz para muito além dos círculos do mundo. E essa enorme ave feriu com suas garras o olho direito de Melkor, rasgando pele e carne num ferimento que jamais cicatrizou.
    Como escapei da planície vazia e desolada, como vivi e me escondi por toda uma era para chegar até vós e vos trazer este relato, oh Pedra Élfica, glória dos reis de outrora, é uma história por demais longa e enfadonha, povoada por fome, sede e humilhações, que se tornaram comuns em minha vida de andarilho. Embora tenha ainda em meus ouvidos o som do chamado do rei dos noldor, não posso dizer que pertenço ou pertencia a alguma casa deste povo valente, pois minha memória perdeu-se nas masmorras de Angband muito antes que os pais dos altos homens fossem encontrados por Felagund nas planícies vastas da extinta Beleriand. Sei apenas que sou elfo e de minha história ofereço como prova este broche , que encontrei naquela noite negra enquanto me esgueirava através das enormes crateras abertas pela batalha. É sem dúvida pertencente ao rei noldo, a runa da casa de finwë está incrustrada nele com pedras que os noldor trouxeram da Thirion que espero ainda ver, se por sua graça e da Rainha Estrela Vespertina permitirem-me estar junto aos meus irmãos nesta última embarcação que se dirige as terras sem mácula, onde espero encontrar a cura de meus males e a lembrança de minha vida perdida.
    Assim falou aquele que foi conhecido como Telessar, o último noldor a pisar na Cidade dos Reis, postado diante do Rei Elessar, que mandou escrever sua história na tradição da grande cidade. E a Rainha Arwen depositou A Elessar sobre a fonte cansada do elfo e aliviou assim o peso de muitos anos, dando-lhe forças para a viagem de retorno a Eldamar...




    **** **** Alcarinollo 23/09/07
     

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