1. Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

Dismiss Notice
Visitante, junte-se ao Grupo de Discussão da Valinor no Telegram! Basta clicar AQUI. No WhatsApp é AQUI. Estes grupos tem como objetivo principal discutir, conversar e tirar dúvidas sobre as obras de J. R. R. Tolkien (sejam os livros ou obras derivadas como os filmes)

[L] [Mornion] [Velho, Cadê Minha Bengala?]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Mornion, 10 Fev 2005.

  1. Mornion

    Mornion Usuário

    Eu escrevi esse texto por pura diversão. Não me preocupei muito com nada, por isso ele está bem simplista e tudo o mais. Não é muito longo e metade dele é apenas de diálogos. Bem, leiam, comentem e façam o que quiserem :mrgreen:

    (A minha revisão foi meio falha, então agradeço se avisarem de erros que me passaram despercebidos.)

    VELHO, CADÊ MINHA BENGALA?



    Capitulo 1 de 2 – De Seu Zé e o Inferno.


    Existe um certo ponto na vida de cada um em que nada mais é novo. Você já teve seu primeiro beijo e seu primeiro amor, já vendeu o primeiro carro, se mudou do primeiro apartamento. Até mesmo já se separou da primeira esposa (e da segunda também) e os derrames já se tornaram tão normais que você já consegue fazer tudo apenas com o lado direito.

    Quando você alcança esse ponto, você já ta velho. Seu primogênito já teve seu primeiro filho que, ao contrário do que você esperava, é um pentelho. Depois de vomitar no seu colo algumas vezes e te impedir de dormir quando você cuidava dele para os seus pais se divertirem, ele cresceu. Com 5 anos, te deu o primeiro chute na canela. Com 13 colocou o primeiro pircing. Com 17, esqueceu que você existe.

    É injusto, você sabe, mas é como as coisas acontecem. O mundo muda tão rápido, não dá de todo mundo acompanhar. Principalmente você, preso nesse asilo sem graça.

    Quando se tem tanto tempo ocioso, não lhe resta muita coisa. Você sonha em vencer o campeonato de dominó da terceira idade, que aquele jovem decrépito sempre teima em ganhar de você. As lembranças da comida de verdade são anuviadas pelo cheiro daquela mesma mistura de coisas que teimam em lhe servir.

    As coisas são tristes e dolorosas, mas para que se importar? Você sequer precisa se preocupar em limpar a bunda agora, já que todo mundo faz tudo por você.

    Bem, talvez tudo isso não seja verdade, mas era assim que Seu Zé se sentia.

    Seu Zé andava triste com o mundo. As injustiças da vida pesavam em seus ombros e, vezes ou outras, faziam-no molhar os seus óculos. Ele odiava quando isso acontecia. Aquele maldito buraco mantinha um clima constante de inverno glacial, como se toda a sobra de pele que cobria o seu corpo fosse quente como os fogos do inferno. Isso o forçava a usar pesados casacos de lã, desfiados e cheio de marrons sem-graça, que só eram piores para limpar óculos que um grande pedaço de concreto.

    Toda vez que ele acordava, ele olhava pela janela. Quando chegara ali, a vista era bela, com árvores e passarinhos cantantes que voavam docemente por entre a natureza. Agora havia um grande prédio cinza, cheio de pessoas barulhentas e jovens, que gritavam por qualquer pedaço de pão que caísse com a manteiga para baixo. Manteiga que, por acaso, ele não podia comer por culpa do colesterol alto ou algum outro motivo besta.

    Interessante tocar no assunto, mas ele não podia comer mais nada. Tudo preenchia suas veias e artérias com camadas e camadas de gorduras que fazia ele passar mal. Ou melhor, que deveriam fazer ele passar mal. Ele nunca se sentira mal, mas os médicos teimavam em lhe tirar a última alegria da vida: comer frango com farofa e beber uma cerveja bem gelada. Mas cerveja destruía seu fígado e a farofa, não sei, deveria derreter o seu cérebro ou qualquer outra coisa sem sentido.

    Bem, o que realmente importa é que, um dia, Seu Zé acordou. Olhou pela janela, que começava a se cobrir de gelo, ignorando todas as leis climáticas e físicas não só do verão, mas de um país tropical em sua totalidade. Ele se sentia um palhaço andando com aquele agasalho grosso e um gorro cobrindo a careca quando, olhando pela janela, via todas aquelas pessoas seminuas e o calor elevando-se em ondas do asfalta quente.

    Seu Zé ignorou os ovos murchos que esperavam ao seu lado, implorando para serem comidos. No começo ele se sentia mal em desperdiçar comida, pensando em todas aquelas pessoas esqueléticas, morrendo de fome pelo mundo. Mas depois de uma semana mordiscando aquilo, ele chegou a uma óbvia conclusão: aquilo não era comida. Ele, inclusive, achava que seria falta de respeito com a necessidade daquelas pessoas comer aquilo.

    Depois da primeira semana, ele nunca mais encostara nos ovos. Agora, depois de tanto tempo, ele podia jurar que ninguém fazia novos ovos pra ele. Eles apenas levavam os pratos e traziam-nos de volta durante meses, até o ovo começar a evoluir e desenvolver pulmões. Ou simplesmente quando começassem a nascer batatas em seu miolo, o que era um pouco menos comum.

    Sentou-se na cama, as juntas duras pela falta de uso. Deu uma respirada profunda, talvez a única coisa que ainda fizesse bem e que não fosse pensar. Ele nunca havia fumado. Ou pelo menos assim contara para todos. No colegial ele fumara alguns cigarros, mas depois de cuspir alguma coisa cinza que ele nunca soube o que era, resolveu parar. Parou em tempo e seus pulmões se tornaram belas bolsas vermelho-saudáveis.

    Com um impulso, desceu do fino colchão. A primeira vez que se deitara naquela cama lhe remeteu a noite em que, após brigar em um bar, teve que dormir na prisão. A cama de lá era mais macia, e oferecia resistência maior que a de uma tábua calombada, coisa que esta de agora sequer arriscava. Depois da primeira semana, Seu Zé perdeu a compaixão pelos meninos de rua, dormindo em suas confortáveis caixas de papelão. E, sim, talvez você esteja pensando isso agora: a primeira semana naquele lugar fora a pior de sua vida.

    Agora com os pés no chão, calçou suas pantufas. Ele não gostava de pensar em pantufas. O simples fato das suas terem pequenas orelhas já dizia tudo que ele podia pensar sobre elas. Ia arriscar um pequeno passo, quando notou uma coisa terrivelmente errada. Todos os dias, enquanto a primeira perna (a esquerda, que era a que funcionava melhor) ia pra frente, a mão direita procurava pela forte bengala que dormia sempre recostada em sua cama. Mas, hoje, ela não estava lá.

    Essa é umas das injustiças que molhavam os seus óculos. A única coisa que ainda o fazia gostar de viver era aquela bengala. OK, a enfermeira de terça-feira também ajudava o fim da sua vida a se tornar melhor, mas a bengala o acompanhava todos os dias. Ela era de madeira, com o punho de ferro reluzente, e fazia “tec tec tec” quando batia no chão.

    Andando pelos corredores brancos e compulsivamente limpos, fedendo a anti-séptico e morte, a bengala o fazia se sentir um rei. Ele se via de smoking, sapatos brilhantes, monóculo de ouro e luvas brancas, andando em sua enorme mansão. Ele nunca tivera uma mansão, nem empregados, mas podia se ver espancando eles com sua bengala por o chá não estar na temperatura ideal. Um pensamento cruel, é verdade, mas ele não tinha muito o que fazer naquele lugar, a não ser jogar dominó e pensar.

    Dominó! Era isso! Fora Seu João que roubara sua bengala!

    Seu João era um homem detestável. Por ter mais cabelo que os outros, se achava superior. Era arrogante, nojento e irônico. Sempre comia o seus ovos!

    Além disso, era um exímio jogador de dominó. O único lá que alcançava sua habilidade era Seu Zé e, com o se aproximar das finais de dominó Seu João passava os dias preocupado. Ficava mais quieto, mal beliscava a clara de seus ovos, não passava cantadas pervertidas nas jovens enfermeiras para ganhar um beijinho na testa... Tornava-se outro homem.

    Já Seu Zé ganhava forças nesses dias. Andava mais tranqüilo, arriscava um sorriso vez ou outra, mas ainda não comia os seus ovos. Ele gostava de parecer calmo para deixar o Seu João ainda mais cabisbaixo. Seu arquiinimigo tinha que sofrer durantes as curtas semanas que tornavam a vida lá dentro mais interessante.

    Seu Zé estava preparado para ir até o quarto de Seu João ter uma pequena discussão, quando se viu incapacitado. Digo, mais incapacitado. Sem a bengala, tudo que Seu Zé podia fazer era ficar em pé ou voltar a sentar na cama. Ele podia arriscar alguns passos, mas cairia antes de chegar à porta, provavelmente.

    Ele entrou em pânico. Um pânico bastante calmo e lento, para o seu coração não falhar no meio de tanta emoção. Apoiou os braços cansados na cama à suas costas e pensou no que fazer. Ele deveria ter comprado uma bengala extra, igual àquelas que via nos filmes antigos. De repente, já sabia o que queria de Natal.

    Ficou parado mais alguns instantes e, no fim, resolveu se sentar. Ia esperar a enfermeira vir buscar o ovo intocado e pedir ajuda a ela. Olhou o relógio na parede, branco como tudo mais naquele lugar, e viu que já estava quase na hora dela aparecer. Esperou, olhando os ponteiros girarem sem pressa, enlouquecendo com o constante “tic tac”. Sempre que ia dormir, esse barulhinho infernal o incomodava. Uma dúzia de vezes ele jogou suas pantufas no relógio, mas tudo que conseguira fora duas torções no ombro e algumas pantufas caídas no meio do caminho.

    Logo, a enfermeira apareceu. Ou melhor, alguma coisa apareceu e, definitivamente, não era a enfermeira.



    Capítulo 2 de 2 – De Deus e o Céu.



    - Olá – disse a figura parada na porta. Era um homem velho, barbado e vestindo um grande roupão branco. Ou era uma figura pequena, cinza e de olhos azuis gigantes. Seu Zé não via muito bem à distância.

    - Oi – ele respondeu. A figura se aproximou e Seu Zé viu que era realmente o velho barbado que estava a sua frente, e não o pequeno alienígena. Ele nunca vira aquele homem antes, mas sentia um leve deja-vu toda vez que olhava para ele, como se fosse um antigo amigo de infância.

    O velho continuava olhando para ele, sorrindo carinhosamente (e assim continuou o tempo todo). Seu Zé não sabia o que dizer, mas falou mesmo assim:

    - Você viu a minha bengala?

    - Que bengala?

    - A minha bengala, oras. Ele é de madeira, com o punho de ferro reluzente. Eu ando sempre com ela.

    - Ah, essa bengala! Eu a vi sim, quando você estava caminhando com ela ontem, eu acho. ... Ela sumiu?

    - Sim. Quando eu me levantei hoje, ela não estava lá, onde devia.

    - Sim, sim. E para que você quer a sua bengala?

    - Oras, para quê! Ela é minha! E eu preciso dela para andar!

    - Quem disse que você precisa dela? Você já andou sem ela?

    - Já! E essa cicatriz aqui prova que o passeio não foi como planejado!

    - Mas você tentou andar sem ela hoje?

    - Não.

    - Então venha.

    - O quê?

    - Venha até aqui! Eu quero te levar para algum lugar.

    - Eu não consigo andar sem ela.

    - Consegue sim.
    - Não, não consigo.

    - VEM AQUI DE UMA VEZ.

    - Calma, calma, to indo... Ei, tá dando certo.

    - Eu sei que está. Agora me segue.

    Seu Zé seguiu o velho por um caminho que nunca tinha visto antes. Na verdade, depois de cruzar a porta do quarto, nada estava no lugar de sempre. Era como se agora ele andasse dentro de uma pintura, feita as pressas e com traços borrados, mas ainda assim, extremamente linda e relaxante.

    - Pronto, chegamos.

    - O quê é isso? Donde essa ponte apareceu?

    - Essa ponte é o seu pequeno paraíso. Estamos no meio dela e vamos conversar um pouco aqui.

    - Ta. Conversar sobre o que?

    - Qualquer coisa. Você escolhe.

    - Eu morri, não é?

    - Sim.

    - Nossa, não precisava responder tão rápido. Podia esperar para dar a notícia com calma. Vai que eu tenho um ataque do coração ou coisa do tipo.

    - Você não pode ter um ataque do coração morto. Seu coração já parou e não dá de parar duas vezes.

    - É, você tem um belo ponto.

    - Eu sempre tenho. Agora, eu vou te levar para o outro lado.

    - Bela conversa, essa.

    - Eu planejava conversar um pouco antes de você descobrir que morreu, mas você se apressou. Não adianta discutir o sentido da vida com alguém que sabe que morreu, isso só as faz se sentirem pior por tudo ter acabado. De qualquer forma, me acompanhe.

    - O que tem do outro lado?

    - Você vai ver.
    - E se eu não quiser ver? E se eu me sentar aqui, no meio da ponte?

    - Você vai ser puxado para lá, como um pequeno parafuso parado em frente a um imã gigante. Você não pode evitar, é a natureza.

    - Bem, eu não vou arriscar.

    - ...

    - ...

    - OK, faltam apenas alguns passos agora. Nesse momento, você pode fazer algumas perguntas.

    - Quantas?

    - Três.

    - O aconteceria se eu lhe pedisse mais 3 perguntas?

    - Você perderia uma pergunta com besteiras. Sobraram 2.

    - Isso foi injusto!

    - Você está não pode me contrariar. Eu inventei a justiça.

    - Nossa, e que belo trabalho você fez...

    - Hey, eu apenas inventei o conceito, vocês que complicaram tudo!

    - Ta bom, me poupe a ladainha do livre arbítrio que eu já sei de cor.

    - ...

    - ...

    - Se eu não fosse misericordioso você teria perdido as suas perguntas, hunf.

    - Ah, obrigado, Senhor do Universo.

    - Pára de puxar saco. E seria bom acabar com a ironia, antes que passe a eternidade mancando no paraíso.

    - Pelo visto a misericórdia não é tanta assim.

    - HEY

    - Ta, desculpa. Mas você deve entender que, depois de passar longos anos naquele lugar infeliz, sem receber a visita de ninguém me dá um pouco de razão em ter raiva do Senhor.

    - Sim, eu entendo. E pergunta de uma vez que você não foi o único que morreu.

    - Quem ia ganhar o torneio de dominó?

    - O Seu João.

    - O quê?

    - Você joga dominó muito mal. Essa habilidade inata que você acreditava ter foi ilusão de grandeza devido à grande quantidade de tempo ocioso. Lamento ter que dizer isso.

    - Tudo bem. Tem vaga no inferno?

    - Tem, mas não para você. Pronto, acabaram as perguntas ...

    - Essa não contou, era uma piada!

    - Não adianta, tchauzinho.

    Seu Zé começou a ser sugado.

    - Espera! Espera! Quem roubou a minha bengala?

    - Opa, fui eu. Eu não roubei, peguei emprestado. Tinha uma lagartixa na parede e eu tinha que matar ela. Odeio lagartixa, não sei o que eu tinha na cabeça quando criei esses bichos. Toma ela de volta, ó.

    - ‘Brigado.

    - Tchauzinho, Seu Zé. Vá em paz.
     
  2. Shadowrunner

    Shadowrunner Usuário

    Cara, muito bom teu conto. Esse é um exemplo que pessoas comuns podem ser personagens melhores que heróis invencíveis.

    Muito boa sua idéia de usar um idoso como protagonista. Poucos fazem isso. E sua idéia sobre a velhice, penso que é bem por aí mesmo.

    Meus parabéns, continui assim.

    Ah, e apesar de você ter dito que não se preocupou com a forma com que escreveu, foi muito bem escrito. As vezes as histórias ficam melhores por que o autor se preocupou com a história somente, não com regras de português. Isso vem depois,

    Mais uma vez parabéns.
     
  3. Masei®

    Masei® Usuário

    Muito bom!!!! :clap:

    Adorei... Hahaha... Eu tinha feito uma continuação do meu conto Meu Amigo Anjo que parecia muito com esse aqui... Rs... Gostei pacas... Tá de parabéns...
     

Compartilhar