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[L] [Masei®] [Amor à Primeira Vista]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Masei®, 15 Dez 2004.

  1. Masei®

    Masei® Usuário

    [Masei®] [Amor à Primeira Vista]

    Amor à Primeira Vista

    A paisagem passa rápida pela janela revelando casas e casebres harmoniosamente juntas. Catedrais e prostíbulos uns juntos aos outros, velhos cortiços e novos cinemas, antigos teatros e gigantes lojas. Preto e branco, índio e amarelo, às vezes tudo misturado numa raça sem nome e nem cor, mas nem por isso sem brilho e encanto. Vê-se um profeta a cada esquina, vê-se um mágico em cada corredor, vê-se um artista em cada rua. Canso de ver a paisagem se desenrolar feito um filme europeu cheio de mensagens subliminares e torno o olhar para dentro do móvel, vejo um cenário não muito diferente do que está fora.

    Pessoas se amontoando e segurando em corrimões acima das cabeças. Vejo em cada uma delas algo diferente. Recrio para cada uma histórias fascinantes de suas vidas, baseado em gestos, olhares, matizes e principalmente nas ações dentro daquele mundo à parte. Jamais me importei em saber do que realmente se trata a vida de cada uma. É apenas delicioso imaginar o que aquela mulher de cabelos crespos e mal ajeitados trajando um vestido roto e rosa com uma pequena bolsa branca sorrindo para o vazio está pensando, ou para onde está indo. Parece se trajar de maneira elegante, então me pego a pensar de como seria ela em sua própria casa junto ao marido, se tivesse um. Os cabelos, de alguma forma arrumados, eram horríveis, e o rosto carregava uma maquilagem pesada. O sorriso rasgava-lhe a boca de forma engraçada de modo que suas rugas, pois já não era nova, se ajeitassem dum jeito cômico, e seus olhos, quase fechados, embora divisassem no firmamento do Vazio algo de desejo, carregavam uma sobrancelha pesada e mal feita. Pensei logo num encontro, mas imagino que, para uma mulher daquela idade e naquelas condições de vida, não ter um marido não seria ideal, e ter um e trair o mesmo seria pior ainda. Seu porte físico revelava o peso acima do normal, logo pensei em filhos. Sim, deveria tê-los. Tão logo a pergunta ed onde ela estaria indo se formulou em minha mente, a Vida me respondeu fazendo passar uma enorme igreja na minha frente. O cabelo longo e parcamente penteado revelava sua religião devota e devassa.

    Viajei meu olhar por debaixo dos assentos e vi então um pé branco como a neve destoando dos pés descalços de unhas gigantes e amarelas dum velho negro ancião e o pé de unhas coloridas duma faxineira qualquer. Trajando tamancos, o pé parecia incomodado pelo odor forte daquele pé ancião e trabalhador do pobre zumbi. Vi nos olhos do homem a dureza da vida, olhos amarelos e puramente negros, as veias vermelhas lhe salpicavam o globo que deveria ser branco. Uma barba grisalha estava muito mal feita e a boca toda rachada como se tivesse comido pedra, ou então não comido nada, tampouco bebido algo. Escondia o cabelo crespo com um boné dum vereador qualquer, reconheci logo o estereótipo dum pedreiro. Cheirava azedo e tinha a aparência por demasiado cansado, não falava nada com ninguém como se tivesse idéia do odor fétido que deveria estar incutido na sua bocarra podre.

    Mas voltei aos belos pés que, passado o momento em que analisei o pobre homem, eles agora se jogavam para fora do tamanco negro e pousavam delicadamente acima destes. Uma curiosidade incrível correu por dentro de mim imaginando que tipo de mulher teria aqueles belos pés. Veio-me logo um pensamento pessimista de que, apesar do pé ser maravilhoso, a mulher poderia ser a coisa mais horrenda que eu viria. Mas donde estava seria impossível ver qualquer coisa além daquelas falanges perfeitas. Imaginei seu belo rosto de cabelos ondulados e louros, os olhos azuis feito o próprio mar. Ou talvez não, tivesse os olhos de ametista e os cabelos lisos e negros, mas tinha que ser linda e bela. A simples imagem daqueles pés carregando uma bruxa me afugentava o desejo despertado pelo par de pés.

    Incapaz de ver o rosto ou o corpo, dei uma olhadela por cima dos ombros como por inconsciente para descansar os olhos nalgum vazio, quando me pego olho a olho com uma senhora já de idade sentada ereta alguns assentos atrás de mim. Olhava-me com seus olhos castanhos e senti-me inibido daqueles olhos idosos. Curioso de natureza, corri novamente os olhos para trás, disfarçadamente para ver o que carregava de ossos aquela velha. Olhei direto ao chão e vi seus pés calçados numa sapatilha vermelha e muito macia, o vestido era de flores e a bolsinha de couro de jacaré estava pousada no seu colo. Foi quando os olhos dela novamente dispararam contra os meus, sem disfarce algum, tirei os olhos rapidamente, afligido.

    O ônibus parou num tranco e o motorista desatou a xingar um carro escuro que cruzara na sua direção. As portas abriam e se fechavam em cada ponto e em cada ponto desciam pessoas e entravam outras novas. O velho negro ancião desceu trôpego e imaginei se já não tinha tomado das suas. Dois pontos a mais e a velhaca bruxa que me matava com os olhos descer-se-ia num ponto na Nove de Julho, apontei meus olhos como se fosse uma espada e finquei nas suas costas, se virasse teria a minha espada erguida no ar e finalmente ela deveria recuar e fugir aflita. Ela de fato se virou, mas sorriu, e aquele golpe era inesperado de forma que quem fugiu acuado da batalha fora eu e meu olho. Ri-me daquela estranha batalha, a velhaca havia me vencido, sem espada nem machado, mas aquele sorriso me veio como uma flecha inesperada.

    Meus olhos caíram por um desejo quase esquecido, nos pés brancos e perfeito que jaziam alguns assentos à minha frente. Um homem corpulento e de faces tristonhas barrava qualquer menção ao rosto da dona dos pés. Nem ao seu corpo eu podia ver. Para este homem, pelo qual fiz nascer qualquer tipo de ódio tolo, dei a mais trágica das histórias. Suado na fronte da camisa de linho bege, carregava nos braços fortes e trabalhadores uma sacola de plástico reforçada com três mais: no seu interior compras como pães e batatas e saladas e carnes. Imaginei pelo seu olhar perdido e sem alegria nenhuma que sua mulher, cansada do marido gordo e palmeirense, trocou-o por outro e deixou a filharada todo com ele. Note-se que a única tragédia do homem, é justamente ser palmeirense. Pois o filho ele ama e a mulher, certamente ele deve odiar.

    A mulher ao meu lado, pela qual não dei a mínima atenção, saiu num pulo quase instantâneo que me fez pensar que ela havia perdido o ponto, sorri comigo mesmo sozinho na poltrona de par vazio. Senta alguém ao meu lado, mas não ligo para nada, perdido no começo de uma história para outro personagem.

    Era uma bela mulher, os cabelos eram bastante ondulados e negros, o nariz era fino e o olhar era de todo interessante, carregava na face um meio sorriso enigmático e suas maçãs do rosto lhe saltava no rosto dando ao seu rosto a estranha expressão de ironia e sarcasmo. Seu rosto era de toda forma muito bonito. O corpo era de menina adolescente de no máximo 19 anos, via-se vida nos olhos pretos e cheios de esperança. Imaginei que ela mesma se imaginasse num campus qualquer duma faculdade como muitas outras. Assim que visualizei aquela imagem ela soltou um sorriso quase completo da boca e vi logo que poderia se tratar de paixão, afinal os adolescentes passam a adolescência toda se apaixonando. Enquanto os velhos passam a velhacidade toda se queixando de não terem se apaixonado mais.

    A mulher ao meu lado chamou minha atenção perguntando se estávamos perto da Ipiranga. Dei uma olhadela ao redor e pude ver a Banca Lucienne, breve estaríamos passando em frente ao Sujinho e de fato estávamos perto da Ipiranga. Virei-me e disse que sim, ela assentiu com um sorriso muito bonito e notei finalmente que estava ao meu lado uma jovem muito bela, para a qual não tinha prestado nenhuma atenção quando se sentou ao meu lado. Tentei voltar à apoteótica ascensão acadêmica da jovem apaixonada, mas beleza por beleza, lembrei-me das falanges brancas e perfeitas e corri os olhos para onde elas estavam.

    Tristeza minha ao ver que lá estava apenas a fronte dum sapato de couro verde dum empresário qualquer. Talvez jamais veria a dona daqueles pés perfeitos, deitei o olhar ao chão para pegar minha mochila e ler um exemplar dum folhetim qualquer. Mas percebi que os pés perfeitos estavam ao meu lado, quase me convidando a tocá-los e lambê-los, estranho desejo desperto naquele momento fatídico. Só então percebi que a garota sentava ao meu lado. Um frio correu todo meu corpo até os pés. Inclinado, virei para ver o rosto quase como os pés dela a viam. Ela percebeu rapidamente como uma gazela jovem percebe mais rápido do que uma já velha a vinda dum leão. Desviei rapidamente o olhar para algo atrás dela, ela logo olhou também e foi o tempo suficiente para voltar ao assento como alguém normal. Uma tensão percorria aqueles dois assentos de forma que já não consegui formular história nenhuma para personagem nenhum naquele ônibus, embora mais e mais fossem embora e mais e mais entrassem. Mas ela continuava lá, firme e forte, cheguei a imaginar se o ponto dela já não teria passado e ela estaria ali para travar uma inútil batalha sobre quem perderia: quem falaria, ela ou eu? A vitória nesta batalha era interessante, o vitorioso tanto poderia ser aquele que falasse como aquele que não falasse. Ela novamente falou, e então eu perdi e saí vitorioso. Perguntou se aquela era a Ipiranga, olhei pela janela e vi a placa da rua cruzando com a Rio Branco, olhei fundo nos olhos dela e assenti.

    Ela levantou deu o sinal, olhou de volta agradecendo e saiu do ônibus. Voltei a me perder no cenário corrente do lugar. O trânsito estava parado pelo farol vermelho, e lá fora corria a vida solta enquanto eu estava enjaulado num ônibus, vi crianças de rua parando pessoas mendigando ao lado de homens e mulheres vestidos socialmente aproveitando a hora proveitosa da sexta feira. Foi quando vi, atravessando a rua quase abaixo de mim, a bela moça dos maravilhosos pés. Nasceu ali uma paixão incrível. A paixão é algo realmente arrematadora, desejei estar com ela e quase por um ato corajoso duma mente idiota, pulei do ônibus, mas que iria eu falar com ela? Era, de fato, muito bonita, os cabelos presos num rabo único que lhe caíam até um pouco mais do ombro, a expressão era tão jovem que cheguei a imaginar que ela teria a mesma idade que eu, embora no ônibus parecesse mais velha.

    Dediquei meus olhos a acompanhá-la se perder na solidez de uma multidão formada de pessoas sem faces e sem cheiro. Uma pérola no meio da lama, ela se destacava como se uma luz estivesse colocada em cima de sua cabeça. A calça preta colada ao corpo delineava seu belo corpo que terminava em tais pés incríveis. Finalmente se perdeu numa ruela escura e o ônibus tornou a andar pelas ruas apinhadas de gente de São Paulo. Que maravilha é o mundo dentro de uma viagem de ônibus. Sei bem que aquela paixão, que morrerá tão repentina e friamente como surgiu, repetir-se-á em qualquer ou em todos os dias naquele ônibus. Talvez nem pelo fato dela estar, provavelmente, nele, mas sim pela fascinação por outras pessoas. Posso me apaixonar novamente por ela por seus cabelos sedosos e não mais por seus pés, assim como posso cair em amores falsos por outra garota por motivos ainda mais estranhos. A simpatia da Vida nos sorrir com flores de paixão calcadas em mármore de fascinação. Disso se tem tudo, apaixonar-se por nada e por tudo, é viver. Mas não acredito no amor à primeira vista.
     
  2. :clap:
    Nossa, gostei muito! Lindo, mesmo, e muito bem escrito... Eu pego ônibus todos os dias e nunca tinha pensado em escrever uma história aobre isso! Parabéns! :D
     
  3. Masei®

    Masei® Usuário

    O loko... Alguém teve paciência de ler hehe... Mto obrigado pelo post minina hehe... Fico agradecido.... Pena que ninguém mais lê....
     
  4. Skylink

    Skylink Squirrle!

    Ah, eu tb li! :lol:

    Ficou ótimo, apesar de descrições e descrições e... Bem, a história é calcada justamente nisso. Só achei meio estranho que ele não tenha sido muito introspectivo até achar os pés da mocinha, e que seu senso descritivo funcione de forma perfeita e ininterruptamente em todos os aspectos.
     
  5. Achei o texto incrível também. O modo como descreve as personagens e cria histórias ficou muito bom. Já imaginei algo parecido numa viagem de onibus, mas nunca dei tanta vida as pessoas. Parabéns.
     
  6. Masei®

    Masei® Usuário

    Ahá... Três pessoas... Isso é incrível... Valew por todos que leram hehe...

    E realmente, uma viagem de ônibus pode se tornar, de fato, um mundo à parte. É incrível você olhar nos olhos das pessoas e ver que tipo de trabalho fazem, se estão tristes ou alegres... E quando elas conversam entre si nem nunca se conhecerem, é mágico...

    TO satisfeito que a galera tenha gostado...
     
  7. Evestar

    Evestar Usuário

    oiii Masei® adorei seu texto muito bom mesmo, e acho que de todos que vc escreveu e eu li esse foi o melhor :D
    Parabens :grinlove:

    Bjs
     
  8. Masei®

    Masei® Usuário

    Valew Eve... É que esse é o mais recente... Em breve estarei postando mais dessa minha nova fase hehe... Bjao...
     
  9. Masei®

    Masei® Usuário

    Galera só pra avisar que este conto "Amor à Primeira Vista" será publicado no site UltraTextos. E espero contar com todos vocês para que visitem ele e comentem no Site...

    Dia 10, uma quinta feira ele estará sendo publicado, segue o Link do Ultra Textos...

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    Valew
     
  10. Shadowrunner

    Shadowrunner Usuário

    Cara, tinha passado os olhos por cima e não dado muita atenção.
    Ainda bem que li. Muito bom, cara. Me identifiquei um monte com o texto(só não me apaixonei por ninguém lá). Esse negócio de imaginar sobre a profissão e vida das pessoas q estão no ônibus faço direto, principalmente se encontro essa pessoa todo o dia mas nem a conheço.

    Parabéns cara, muito bom mesmo.
     
  11. AneleH

    AneleH Usuário

    Nossa.. adorei o texto!!
    Eu mesma sou uma viciada em observar as pessoas no onibus, e jah quis escrever uma hisotria assim... mas acho q nao conseguiria traduzir d forma tao poetica tudo isso... vc tah de muitos parabens!!
     
  12. Masei®

    Masei® Usuário

    Muito obrigado...

    Na verdade não é só no ônibus que fazemos esse tipo de coisa... Em muitos outros lugares também... Pego às vezes me colocando no lugar de outras pessoas... Apenas observando e esquecendo que estou num carro por exemplo... Meio estranho...
     
  13. Masei®

    Masei® Usuário

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    Ae galera, meu texto foi finalmente publicado lá no Ultra Textos, gostaria que você sdessem uma olhada e comentassem lá e tal.

    Valew pela ajuda.
     

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