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[L] [Masei®][Abre-te os olhos, Sésamo!]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Masei®, 1 Fev 2005.

  1. Masei®

    Masei® Usuário

    [Masei®][Abre-te os olhos, Sésamo!]

    Título: Abre-te os olhos, Sésamo!
    Autor: Masei®
    Gênero: -


    Nosso herói é um criminoso em liberdade condicional. Cumpriu muitas décadas que lhe renderam barbas crespas e brancas, afundou seus olhos e deu-lhe uma magreza horrível, sem citar as mudanças internas. E se não tivesse um passado, julgariam-no como um velhinho abandonado num asilo pela vil família. Mas pra ele ninguém se importa pois ninguém se lembra de como era antes e receio que nem ao menos sua família querem se lembrar. Estuprava crianças mas foi preso por roubar arroz.
    Lá está ele de jaquetão de couro e óculos escuros enquanto Deus velava a cidade de São Paulo com grandes nuvens torrenciais. Usava seu raiban somente para pose ou pra esconder alguma coisa escrita nos olhos ferinos. Andava ainda se acostumando com as ruelas e cruzamentos que não existiam no presídio cinza que residia.
    - Me dá dois desses! – disse ele apontando para algumas balas de goma numa venda humilde. O tom imperativo adquirido pelos muitos anos na prisão e o ar superior que os cirminosos parecem ganhar ao invés de se aquietarem, intimidaram o dono o lugar. Aquele vendeiro não saberia jamais que ele era um sino estuprador de crianças até que no último parágrafo deste conto, o criminoso arrancasse seu coração dizendo que a filha dele também tinha sido uma de suas vítimas, ela que agora até filhos tinha e jamais havia dito nada sobre o caso, nem para o espelho.
    - Obrigado. – e se despediu.

    Mascando as gomas de Tutti-Frutti, andava pela Ipiranga enquanto o fluxo seguia na direção da Ifigênia. Andava resoluto como se estivesse se preparando e seguindo por um caminho traçado para um objetivo predestinado. Entrou num prédio velho qualquer da avenida, olhou pros lados pra ver se alguém olhava, checou um pedacinho de papel da jaqueta de couro e entrou. Ninguém olhava, todos estavam tomados pelos curiosos truques do mágico, do trágico e do frágil, três que bailavam entre os paulistanos, e que não tinham corpo algum.
    Passou pela portaria sem olhar pro porteiro dorminhoco que roncava em cima dum jornal amassado de notícias velhas. Seguiu pela escadaria vazia e mofada pelo tempo; o cheiro de poeira subiu-lhe a narina. Era um prédio residencial apesar da sujeira, mas ninguém morava ali com exceção das putas de vidas noturnas que levavam seus companheiros para aquela espelunca.
    Segundo, terceiro, quarto andar: parou. Quarto 43, e ele arrebentou a porta com um pontapé tirado do infinito, dada sua estatura e sua postura de velhaco. Logo na sala estava uma mulher de 35 anos toda pelada em cima de um velhaco quase da mesma idade dele.
    - Logo pela manhã, Tobias safado? – comentou o jaquetudo logo que entrou.
    - Deus do Céu homem. O que faz aqui? – a mulher já havia saltado da transa e estava se vestindo morrendo de vergonha, no mínimo cômico o desespero daquela mulher lasciva em plena idade da razão.
    - Vim acabar com sua raça seu corno.
    - Mas você tá louco? Somos amigos!
    - Amigos uma ova, você me entregou. Achou que eu não ia voltar e que ia apodrecer lá pra sempre não é? É meu caro, se fodeu!
    - Fica calmo. Não fui eu. Eu juro.
    - Não acredito. – cantarolou o criminoso já tirando uma adaga da calça.
    - Vou chamar a polícia! Fique parado. – bradava Tobias embora estivesse tomado pelo terror ao ver seu atacante de faca em punho e preste a enterrar em qualquer parte de seu corpo, decretando sua morte inevitável. A mulher emitia ganidos e gemidos baixos mas de tal forma incessantes que em poucos momentos aquilo deixaria o assassino maluco. – Cala a boca vadia! – bradou ele e ela gemeu com maior intensidade, ele foi ficando cada vez mais bravo. Desferiu sem ver um golpe certeiro no punho de Tobias que agora chorava e gemia de dor.
    - Opa, culpa dela. Juro que era pra morrer sem dor.
    - Seu monstro! – gritou Tobias. – Valéria, ligue pra polícia, faça alguma coisa sua idiota.
    - Além de não me ajudar quer me prender de novo? Ora Tobias. Adeus! – e o segundo golpe foi na têmpora e ele morreu finalmente. Valéria ficou tomada de terror e desmaiou assim que entrou na sala onde o criminoso retirava a lamina cheia de sangue da cabeça de Tobias que espirrou para os lados.

    - Acorde. – disse ele calmamente e Valéria aos poucos foi recobrando consciência. Dez minutos depois de Tobias tombar morto. Ela abriu os olhos e viu aquela face cadavérica fitá-la tendo como pano de fundo o corpo gordo e velho e sem vida de Tobias, lembrou-se finalmente e apenas pediu:
    - Não me mate! Por favor, eu tenho filhos, família, marido.
    - Suponho que seu marido vai me agradecer por isso então. – disse ele insinuando o caso com Tobias que, além de velho, era rico.
    - Não, por favor. Tenho duas filhas pequenas, elas não merecem, elas precisam da mãe.
    - O céu é melhor que este inferno. E eu sou Deus e te abençôo. E também não posso deixar viver. Como vai viver tendo visto o que viu? Eu prefereria morrer. – e matou-a com um golpe na jugular.
    Limpou a lâmina com água e tirou todos os resquícios de sangue na jaqueta de couro que era fácil de limpar. Apanhou a chave e trancou a porta, passou pelo porteiro ainda dormindo e seguiu de volta para a Ipiranga. Depois de duas semanas o cheiro atrairia o porteiro até aquele lugar e então descobriria o assassinato. Mas até lá nosso assassino estará seguro a milhares de quilômetros dali.

    Voltou à quitanda onde havia comprado a goma de mascar. Ele tinha estuprado a filha daquele velho homem infeliz e no entanto falou com cordialidade.
    - Pô cara, me vê uma Coca? – estendeu as notas e iniciou uma conversa rápida..
    - Puxa, minha família me deixou. – sabia mais do que ninguém que aparentava um velhinho sem família e tal era sua interpretação que o coração infeliz daquele homem se derreteu pelo velho pobre coitado, mesmo com aquele tom confiante da prisão que destoava totalmente de sua aparência. O vendeiro titubeou por um momento mas deixou-se levar pelas aparências. Deu-lhe um pequeno bolo caseiro de fubá.
    - Foi minha filha quem fez. – falou o vendeiro.

    Ele saiu da loja e olhou para o bolo. Pobre diabo aquele homem, havia um endereço num adesivo que selava o plástico do bolo. Terminando seu refrigerante, o velho pigarreou e cuspiu no chão antes de se dirigir para o endereço. Pobre diabo aquele vendeiro, encomendou a morte da própria filha.
    Duas batidas e a porta de um apartamento modesto do endereço escrito se abriu revelando uma bela criança, lacinhos no cabelo loiro e sapatilhas novinhas. Os olhinhos castanhos se levantaram para o velho andrajoso que apesar de velho e andrajoso não fedia mendigo.
    - Ora ora, mas que docinho de criança. – disse ele alegremente se abaixando com dificuldade e passando seus dedos calejados na face sedosa da criança. Uma voz soou de longe dentro do apartamento perguntando.
    - Quem é Jo?
    - Um vovô! – respondeu a voz da criança que saiu correndo em direçao da mãe que logo apareceu na porta abrindo um largo sorriso no rosto. O criminoso imaginou que não o reconhecera; sorte a sua, azar o dela.
    - Estou passando fome, preciso de alguma coisa. – disse o velho quase pondo-se a chorar, um ator de primeira.
    - Ora, entre. Eu faço bolos e sobrou alguns, você pode escolher os que mais te agradar. – ela olhou melhor para ele. – Eu já te vi em algum lugar?
    - Mas que bela donzela. – acrescentou ele rapidamente. - Deus vai te dar em dobro tudo que estará dando a esse velho.
    - Só quero ajudar.
    - Ora vejam só que alma magnífica – disse ele e seu tom mudou. – Ajudando quem um dia a estuprou. – mas a expressão dele continha uma pena verdadeira e quase um arrependimento.

    A mulher demorou-se a virar o rosto. Finalmente havia recordado quando e onde havia visto aquela face. Mas antes não haviam aquelas barbas e aquelas marcas do tempo para ocultar-lhe a verdade.
    Ela tinha 34 anos e naquele momento tudo se reavivou na sua memória, há mais de 20 anos, quando aquela face de demônio se deitou sobre ela e a fez gritar de horror e chorar e dor. E lá estava ele, dentro de sua casa prestes a comer o bolo que havia ela mesma feito para sua filha. Sua filha! Tão perto daquele monstro que seu coração despencou e só então olhou nos olhos do homem tomado de uma fúria incrível por ele, não por tê-la estuprado mas a pela simples objeção de agir contra sua filha de oito anos, isso a encheu de um amor por ela que se converteu num ódio puro e profundo por ele. Sempre que nasce o amor por alguém no coração de uma pessoa, brota também uma semente de ódio por alguém, uma faca de dois gumes da natureza, a pior faca de todas.
    - Fique longe da minha filha. Joana vai pro seu quarto e se tranca lá. Você está de castigo. – ela falava chorando e ele a olhava com pena e com um leve sorriso na boca. Ela ficou com um medo ainda maior.
    - Sou mais forte Rachel. – advertiu ele.
    - Não ouse. Faça qualquer coisa comigo, mas não toque na minha filha, pelo amor de Deus. – chorou ela finalmente ao ouvir a porta do quarto bater estrondosamente.
    - Não farei. Se continuarmos o que nunca acabamos.
    - Por favor. Faça o que quiser comigo, mas prometa não fazer nada com ela. Por Deus.
    - Por Deus! – repetiu ele e a empurrou para o quarto aos soluços.

    A narrativa daquela transa entre o demônio e aquela pobre mulher solteira é algo que está além de qualquer narrativa. Imagine apenas a sofreguidão da filha ao ouvir a mãe chorar de dor enquanto tentava conter gritos de ódio pelo homem demônio que se debruçara sobre ela. Fora, definitvamente os quinze minutos mais horríveis de toda sua vida.
    Ele se levantou, vestiu-se, passou no quarto ao lado e se despediu de Joana antes de sentar-se à mesa da sala e começar a escrever no mesmo pedaço de papel de antes. Os sons de choro contido de Rachel estavam deixando-o com um desespero incrível, quase que não a mata por simples gemidos. Mas saiu apressado pela porta dando na Ipiranga novamente.

    Foi à mesma quitando de antes. Entrou e estendeu o papel e a faca para o balconista e falou estas palavras.
    - Infelizmente o homem que inventou o amor, também criou o ódio. – girou nos calcanhares e saiu. O balconista infeliz leu o que estava escrito:
    “Eu stuprei sua filha quando ela tinha nove anos. Lembra-se das marcas?”
    Ele ficou possesso e a primeira coisa que viu foi a faca deixada pelo criminoso, saiu do balcão doente de fúria, apanhou a faca e enterrou no coração do assassino e estuprador.
     
  2. 8O
    Forte. Mas bom, de qualquer modo.
    Gostei. :D
     
  3. Shadowrunner

    Shadowrunner Usuário

    também gostei. No começo pensei q fosse o Tobias do "Meu Amigo Anjo".
    Pena q não era...
    Muito bom, muito bom...
    A crítica social por acaso seria por soltar um marginal como esse nas ruas?
     
  4. Evestar

    Evestar Usuário

    muito bom masei :D , bem realista tembem , :clap:
    parabens :grinlove:
     
  5. Masei®

    Masei® Usuário

    O loko... Pessoal conectando meus contos rs... Muito legal isso...
     

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