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[L] [Lira Becktis] [Pão]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Kiwi, 26 Mai 2003.

  1. Kiwi

    Kiwi mi perna está jodida.

    [Lira Becktis] [Pão]

    Raridade eu criar tópico (e postar) por aqui .. infelizmente o conto não é meu, mas da minha miguinha Lira Becktis ... boa leitura. 8-)

    Eu queria que aquilo desse certo. Queria entrar lá e saber dizer direito, com todas as palavras, acentuando as sílabas tônicas e poetizando as não-tônicas, lenta e rapidamente, saber dizer de um modo maravilhoso e de um jeito que não soasse clichê ou banal. Não sabia que era tão difícil dizer “eu amo você”. Talvez dizer isso seja muito mais difícil do que sentir isso. Dizer essa frase, com todas as letras, sabendo exatamente o que ela quer dizer para você e para quem você está falando, dizer e depois deixá-la ecoando no ar, essa é a dificuldade. Pode ser que todo o sofrimento por amor na verdade esteja nessa frase. É uma frase tão trivial, tão velha. Viver essa frase, ouvir essa frase, isso é fácil, é até bonito e interessante. Mas dizer essa frase sabendo dizê-la é um desafio que eu já não sabia mais se ia conseguir superar. E eu amava? Parada em frente à porta da casa dele, esperando o momento certo para tocar a campainha e deixar ele atender, depois olhar quieta nos olhos dele e tocar seu ombro, então abrir os lábios bem abertos pra dizer “eu”. Depois fechar os olhos e esperar um ou dois instantes, e então dizer “amo”. Ter um calafrio ou algo parecido para dizer “você”. Ele ouviria calado. Ele sempre é calado, mesmo. Não importa o que a gente fala para ele, ele sempre fica quieto. Ele não gosta muito de falar. Aquele silêncio sempre me constrangeu. E agora, na frente da porta dele, eu tinha que saber como traduzir o que eu sentia para palavras. Mas alguém já tinha feito isso por mim. Alguém já tinha, há muito, muito tempo, feito o favor de traduzir esses sentimentos todos que a gente sente por alguém para três palavras. E a simplicidade delas as deixam enigmáticas. Já estava tudo pronto, traduzido, feito, enigmático, bonito. Eu não precisava fazer quase nada, só tinha que dizê-las. Eu já sabia que não iria precisar me explicar. Ele nunca pede explicações. Era só eu dizer e ele ia entender. Por que tanta dificuldade? A campainha na minha frente, aquele botãozinho branco, que no momento que eu tocasse iria despertá-lo de sua solidão e fazê-lo sair de onde está para ir atender a porta. Será que ele se surpreenderia em me ver? Mas por que haveria de se surpreender, se eu sempre tocava a campainha da casa dele e entrava ali, como se fosse a minha casa? Por que ele haveria de se surpreender se sempre fomos tão amigos um do outro e sempre nos visitamos assim mesmo, sem avisar? Ele não iria se surpreender ao atender a porta e ver que quem estava ali era eu. Ele acharia normal. Porque realmente era. O meu medo foi crescendo, aquela angústia de não conseguir simplesmente levar meu dedo indicador até a campainha. Olhei a porta branca. Foi como olhar um espelho. A porta, neutra de tudo e de todos, parecia esconder algo. A maçaneta de ferro enferrujado escondia, por trás da fechadura, toda a verdade. E eu não era como aquela porta? Se ele me visse ali não desconfiaria de nada, o branco do meu rosto e do meu corpo seria para ele o mesmo branco que sempre foi. Mas por trás de mim estava a verdade. E eu podia dizê-la. Eu tinha o poder de, com três simples palavras, dizer toda a verdade do mundo. E não é toda a verdade do mundo essa frase? Quantas vezes ela já não foi repetida? Lembrei-me de cenas de filmes, de livros, de novelas da televisão, os casais em lugares românticos dizendo “eu amo você”, “eu amo você”. Como transformar uma porta em um lugar romântico? Ele acharia ridículo demais se eu simplesmente dissesse que o amo e mais nada. Ele não é daquele que acha legal ser normal. E eu sou? Cresci junto com o medo. Agora me via gigante na frente de uma porta ínfima. Todos os desejos, todas as vontades, tudo escondido atrás daquela porta. Eu poderia ser mais atrevida. Poderia, no momento em que ele abrisse a porta, dizer “eu amo você”, e depois o beijar. Pegá-lo de surpresa. Ele não reagiria de forma ruim. Mas eu já não sabia mais nada. A vontade de voltar pra casa e desistir de tudo aquilo foi aumentando. Ele não saberia de nada se eu voltasse para casa agora. Ele nem desconfiaria. Mas eu não podia voltar agora. Já estava na porta. Agora eu só precisava abri-la. Só precisava dizer as palavras presas na minha garganta, no meu pensamento, na minha cabeça. Não é clichê demais essa idéia de coração? Essa idéia de amor? Não consigo imaginá-lo dizendo que me ama. Não consigo encontrar nele um pouco de amor. Como amar alguém que não tem amor pra dar? Não sabia mais se isso era possível. A campainha me chamava. Era como um livro da Alice no País das Maravilhas, a campainha me dizia “toque-me”, e eu tocava e então diminuía até quase sumir. E então quando ele aparecesse, eu estaria do tamanho de uma formiga. E ele poderia muito bem pisar em cima de mim, me esmagar, me estrangular. Minhas metáforas iam rodando na minha cabeça, e eu entendendo, mudando, esperando. Eu queria que desse tudo certo. Eu queria conseguir. Quando eu tinha pensado e treinado em casa parecia que ia ser tão fácil... Era só tocar a campainha e dizer “eu te amo”. A facilidade de tudo isso até já me surpreendera. Talvez fosse por ser assim tão fácil que eu não conseguia. Se tivesse alguma dificuldade embutida, algum desafio maior, um medo ou uma mensagem com palavras complicadas e difíceis, acho que então eu conseguiria tocar a campainha. Mas a facilidade daquilo, a facilidade e a simplicidade daquela campainha e daquelas três palavras me amedrontava. Ninguém ia se surpreender muito se eu dissesse “eu fui até a casa dele, toquei a campainha e disse que eu o amo”. Isso é a coisa mais banal. Minha cabeça começou a pesar e eu tive certeza que não conseguiria. Fiquei olhando a porta. Então, de repente, ouvi passos lá dentro. Barulhos. Os passos foram se aproximando e logo eu senti que chegaram na porta. Ele estava de um lado da porta, eu estava do outro. Barulho de chave. Ele ia abrir a porta. E eu nem precisei tocar a campainha. Será que ele tinha sentido a minha presença? Ou a minha respiração estava alta e tensa demais, e ele a ouviu de onde estava? A chave girando na fechadura. E eu na frente da porta, tremendo. A maçaneta abaixando. A porta sendo aberta devagar. E então ele. Lá estava ele, mais alto que eu, mais forte. Levou um susto por me ver ali, na frente dele, na frente da porta. É claro que ele não esperava isso. Ele não sabia que eu estava ali na frente da porta por mais de uma hora tentando tocar aquela maldita campainha. Ele não tinha como saber. Então se assustou. E depois que se recuperou do susto, falou em voz baixa:
    - Oi. Você chegou agora?
    - É – menti. – acabei de chegar. Ia tocar a campainha e você abriu a porta antes.
    Ele sorriu e me cumprimentou. Havia algo de estranho no seu olhar. Alguma desconfiança, um medo escondido, uma falsa alegria. E se ele também estivesse tentando ir até a minha porta para tocar a campainha e dizer que me ama? Ele poderia estar saindo para isso. Para ir até a minha casa. Ou então era eu que estava muito tensa e perturbada e vendo coisas onde não tinha nada.
    - Eu estava indo comprar pão na padaria. Quer vir comigo?
    Hesitei. Depois de um ou dois segundos, respondi tentando não gaguejar, e assim gaguejando mais ainda:
    - É claro.
    E aí fomos comprar pão.
     
  2. Ogden

    Ogden Usuário

    puts...

    mto boa a historia, fiquei realmente surpreso com o final...

    mas tipo, tá meio "massante", o texto tá mto grande e contínuo... sem paragrafos, linhas saltadas ou coisa do tipo..
    entendo que pode ser intencional, mas nesse caso julgo q seria melhor ir postando aos poucos ou coisa assim..


    mas eu gostei bastante
     
  3. Kiwi

    Kiwi mi perna está jodida.

    Como esse é o estilo dela e quem tá postando sou eu, resolvi postar como ela fez sem mudar nada.
     

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