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[L] [Lembas][Som e Silêncio]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Lembas, 9 Out 2003.

  1. Lembas

    Lembas Usuário

    [Lembas][Som e Silêncio]

    um conto escrito no fim de semana. Breve... derivado de uma das minhas Night Visions... mas particularmente não ficou tão bom quando o do Saci



    SOM E SILÊNCIO


    A luz da lua bruxuelava pelas janelas e frestas onde outrora arqueiros teriam espreitado seus inimigos, que assaltariam o castelo de Caernafon como uma turba enfurecida, aportando suas naus na praia e avançando freneticamente contra as muralhas. Mas o eco de seus gritos não era ouvido através do tempo, pois nunca houvera batalha em tal lugar, e o passado repousava em paz e promessas esquecidas. Eram duas da manhã.
    Durante o dia, centenas de turistas haviam perambulado pelos estreitos corredores, subido as estreitas escadarias em espiral, imaginado cenas de glória e luxo nos salões redondos e nus. A maior parte deles dividia sua atenção entre as piadas prontas dos guias turísticos e a loja de souvenires, situada na caserna no portão do Rei. De uma maneira irônica, era melhor assim. Sem espíritos fortes para perturbar a atmosfera do lugar. Quem poderia ter intimidade com um castelo inacabado, nos rochedos ao sul de Gales, banhados pelo gélido Atlântico? Eu, talvez mais ninguém.
    Eu estivera nesse mesmo lugar havia dois anos, com minha família, em uma breve visita à Inglaterra. Estava então com dezessete anos, imersa em conflitos, cheia de escolhas difíceis pela frente e sentimentos tumultuosos a domar. O castelo fora idéia minha, que também havia desejado visitar Stonehenge, que infelizmente era longe demais para o pouco tempo do qual dispúnhamos. No entanto, não lamentara muito, pois ao pousar os olhos na muralha externa do castelo, senti meu coração disparar e o ar faltar. Por um instante não houve nada, a não ser o chamado vindo do castelo, belo, forte e melancólico como uma tempestade ao entardecer. Chovia, de fato, uma chuva fina e desagradável, uma garoa como as de São Paulo, com um pouco mais de névoa no ar, típico do sul das Ilhas Britânicas. No entanto, o que me chamava era mais que o tempo: era o Tempo. Sair dali sem atender o chamado fora duro, e minha vida tornou-se um turbilhão de sentimentos extremos e injustificados.
    Mas dois anos se passaram. Estudava antropologia, saí de casa, consegui uma bolsa semestral para voltar para a Inglaterra, engajada em pesquisas de folclore, na tentativa de traçar paralelos entre a cultura gaélica, gaulesa e portuguesa, a qual herdamos. No entanto, tão logo pus os pés novamente em Manchester, senti minha alma voltar-se para o sul, para o trajeto que percorrêramos. Para Caernafon.
    Mochila nas costas, peguei o ônibus e percorri as cerca de quatro horas em feroz expectativa. Era novamente maio, dia 31, quando outrora toda a ilha cobrira-se de flores e danças para a celebração de Beltane. O fogo sagrado queimava em meu peito, mas eu não sabia ao certo o que deveria fazer. Portanto, ao entrar no castelo novamente, senti a necessidade urgente de me esconder e assim o fiz, no vão da lareira de um dos salões principais, o salão onde o primeiro príncipe de Gales nascera, se a memória não me falhava.
    E era lá que eu estava às duas da manhã. O frio se insinuava pelo meu corpo, mas não era a razão pela qual eu tremia. Tinha nas mãos uma adaga de prata e no canto umas velas, com as quais eu cogitara desenhar um pentagrama. Não o fiz, que fim teria? A coisa era entre o castelo e eu, ou ao menos entre Aquele que me enviara o chamado, que eu sentia cada vez mais forte, e eu tremia de pura expectativa.
    E ele apareceu, de fato. Cabelos raspados, tez morena clara, olhos negros que nos contundiam a cada instante, como se fossem o mar noturno aprisionado em um par de íris. Seus lábios sorriam de maneira irresistível, com uma expressão linda. Sua entrada obscureceu por um momento a luz da janela da escadaria oeste, mas quando ele se aproximou, a escuridão tornou-se mais clara, sem abandonar sua essência. Belo, em uma palavra.
    - Estou aqui - murmurei, apertando o punho da adaga como um último apego ao mundo real - quem és tu?
    Como um sorriso pode tornar-se mais sorriso?
    - Eu sou tu, teus medos e tuas fantasias. Sou aquele a quem evocas antes de dormir e com quem conversas durante o dia. Sou o guardião de teu mundo, teu mestre e tua cria. Mas hoje sou Taranis, deus do trovão, como deves bem saber.
    Definitivamente não humano. Ele era mais como uma projeção, como se a atmosfera me enfeitiçasse e agora brincasse com a minha mente. Ele nem ao menos era como o saci que me guiara na tempestade que se formara depois de minha viagem. Ele não era só onisciente, era íntimo, despertava paixão e volúpia.
    - Taranis... - disse, tentando olhar fixo em seus olhos, me inebriando com eles.
    - Eu não te deixaria só. Mesmo depois de tua opção, mesmo depois de teres ido embora dois anos antes. Assim como eu não desisti de ti quando nasceste, apesar do que outros possam ter dito.
    - Iansã! - gritei surpresa, e a adaga cortou a superfície de minha pele, cobrindo a palma da minha mão com um fio rubro.
    Ele tomou minhas mãos delicadamente e sorveu o sangue, como um beijo. - Outro nome, outros mitos, como foi dito antes. Aquele nome te restituiu a fé, este tem outra função.
    Minha voz falhava. Como ele era lindo! Me sentia lutando e me entregando a cada instante... girávamos pelo salão, seguindo os compassos de um ritmo desconhecido, batucado em síncope frenética.
    - Canta - disse ele - pois para maior compreensão, mesmo as palavras haverão de ser rompidas, assim como a lógica, o raciocínio e o instinto. Torna-te universo.
    Não ouvi a minha voz. Todo o meu corpo, colado ao dele, vibrava. O nascimento mais que da tragédia, do mito através da música. Taranis cantando com voz de tempestade, de trovão, de vento e de calmaria, evocando o tempo e o Tempo, e eu o espaço e o Espaço em perfeita comunhão. O som era o universo, vibrando em super cordas, explodindo em percussão. O infinito tornava-se Um, tornava-se Tudo, tornava-se Zero. Sem som, sem silêncio. Canção.
     
  2. puts....sem palavras.......muito bem escrito, as descriçoes perfeitas, o desenrolar dos sentimentos extraordinários..........muito bom!
     
  3. Menina Júlia

    Menina Júlia Usuário

    Eu tentava achar palavras para definir seu texto mas , naum achei a ideal . Gostei muito , os sentimentos mostrados tão bem me impressionaram muito ...
    Parabéns!
     
  4. Thrain...

    Thrain... Usuário

    Muito bom!! Tem um ritmo mto bom; vc só devia usar espaço entre os parágrafos, fica visualmente melhor e infinitamente mais fácil pra ler no PC.
     
  5. Lembas

    Lembas Usuário

    tá certo... eu esqueço que escrevo pra leitores virtuais... :roll:
     
  6. Minas Ecthelion

    Minas Ecthelion Usuário

    Muito bom! Gostei mesmo!

    Engraçado que até a metade eu não tinha percebido que o narrador era mulher, até que começou a falar de paixão, que ele era belo. Daí que eu vi que era mulher.
     

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