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[L] [Largo Cavafundo][O Ser Nu]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Largo Cavafundo, 19 Abr 2003.

  1. Largo Cavafundo

    Largo Cavafundo Usuário

    [Largo Cavafundo][O Ser Nu]

    Bem, aqui está mais um conto que eu escrevi. Ao contrário de Protuberando, este tem uma crítica e mensagem específicos (pelo menos isso :lol: )
    Só uma curiosidade: a primeira frase do conto simplesmente 'veio' na minha cabeça uma noite, quando eu abri o armário pra pegar minhas roupas, antes de dormir. E foi daí que veio todo o resto.

    Boa leitura!

    "
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    Abriu seu guarda-roupas e deparou-se com um ser. Desejava apenas apanhar uma cueca, uma camisa e calças, que usaria no trabalho naquele dia, mas deparou-se com dois olhos luzidios e esbugalhados barrando a passagem de suas mãos.
    - Posso pegar minhas roupas?
    - Não.
    Foi nu para o trabalho. A normalidade com a qual vivia sua já memorizada rotina repeliu os olhares que a mente humana – considerando uma situação hipotética – pensaria serem de estranhamento. Ver a conjeturadamente censurável nudez do homem na vida real não parecia tão pejorativo. Além do mais, ele tinha uma desculpa. Nenhum de seus colegas se acreditava disposto a discordar do ser que se alojara no armário do qual o pobre nudista costumava retirar suas vestes.
    Quando voltou para casa, no fim-da-tarde, tentou dialogar com o ser.
    - Posso pegar minhas coisas agora?
    - Não. - respondeu o ser, agora vestido com um suéter vermelho-alaranjado e calças de moletom azuis.
    - Só algumas, para eu vestir amanhã?
    - Não.
    - Digo-lhe o seguinte: pego dois conjuntos e nunca te incomodo de novo. Guardo-os no criado-mudo. Só vai me custar umas viagens a mais à casa de mamãe.
    - Não. - ouviu, mais uma vez, a voz rouca dizer.
    - Por que não?
    - Preciso delas para aquecer meus filhotes.
    Dormiu nu, acordou nu e foi para o trabalho nu. Parecia justo. Os filhotes do ser certamente tinham mais necessidade do vestuário. Quem era ele para negar-lhes o calor e aconchego de seu guarda-roupas?
    No caminho para casa, passou numa loja de departamento e comprou uma camiseta, calças, roupas-de-baixo e um par de meias. Em casa, inadvertidamente, colocou as vestes no guarda-roupas. Só chegou a perceber o deslize quando, ao deitar-se para dormir, ouviu o deleite dos serezinhos com as ainda etiquetadas peças e o cheiro de roupa nova. Grunhiu, baixinho, ao notar a falha, e adormeceu.
    Acordou de madrugada, incomodado pelo frio que o vento noturno provocava em seu corpo despido. E foi enquanto ele fechava a janela do quarto que lhe veio a idéia: não haveria o ser de dormir como todos os outros seres? O ser não mais seria.
    Foi até a pequena cozinha de seu pequeno apartamento, abriu uma gaveta e pegou um facão. Segurava o cabo, que seria branco não fossem os anos de uso, com o punho nada firme e a sonolência dos que ainda não deixaram de dormir. Andou, decididamente (embora não parecesse), até seu quarto. Pôs-se diante do guarda-roupas, firmou seus pés no chão de madeira e seus de dos em volta do plástico claro. Com a outra mão, abriu a porta do armário de súbito. Levantou a faca (não sabia por quê, mas dava um efeito legal).
    Foi impedido de prosseguir com o extermínio pela visão do interior do móvel, agora livre da obstrução causada pelo ser nas outras vezes em que abrira o guarda-roupas nos últimos dias. Sobre seus agasalhos, feitos carinhosamente pela sua mãe, que usava nos invernos mais rigorosos, estavam mínimos serezinhos, encolhidos como se abraçassem seus próprios corpos, enrugadinhos e calmos. Os olhos se remexiam sob as pálpebras, e a respiração constante, que fazia suas barriguinhas encherem e esvaziarem ritmicamente, soava apaziguável em meio ao silêncio que invadia o quarto logo antes da aurora.

    Chegou em casa sorrindo, sacolas e caixas debaixo dos braços, após uma deliciosa ceia de Natal na casa de sua mãe. Abriu as caixas que ganhara, todas de roupas, e colocou o conteúdo no guarda-roupas, cobrindo bem o adormecido ser e os serezinhos. E foi dormir, ainda nu.

    "
     
  2. Sra. Pseudo

    Sra. Pseudo I'm a blueberry pie.

    aaaaah, q fofu ... Meio bizarro esse lance de seresinhos no armário. Mas o texto é mt bom. Tocante. :)
     
  3. Liurom

    Liurom Usuário

    Parabéns :clap: :clap:
    Gostei.

    Seu texto me lembrou um pouco Kafka. Você já leu Metamorfose?
    O que liga as duas histórias eu não sei explicar muito bem. Acho que é uma espécie "estética do absurdo", ou o que alguns chamam "estranhamento". Chama atenção pelo fato impossível, que é estranho ao mundo em que vivemos. Mais ou menos isso.
    No seu texto, por exemplo, o mais estranho não são as criaturas no armário. O bizarro mesmo, é que o personagem vai nu ao trabalho (sem nem cogitar em pegar alguma roupa emprestada) e no trabalho a impressão que dá é que ninguém chama a atenção dele. É isso que é o tal estranhamento que aparece no seu texto.
    De novo: parabéns.
     
  4. Largo Cavafundo

    Largo Cavafundo Usuário

    Err... Metamorfose eu não li, não, mas sempre quis ler. E já li outras coisas de Kafka, uns contos menores, e sempre o considerei um de meus ídolos. Pra mim, é no absurdo que se revela o cotidiano, ou pelo menos o absurdo é uma boa maneira de revelá-lo. :D

    O que vc falou agora me lembrou de algo: cuidado com o título... prestem atenção nele, pq pode parecer ser mais superficial do que ele realmente é... aliás, esse é um dos poucos títulos de histórias minhas que eu realmente gosto.
     
  5. Green Arrow

    Green Arrow Usuário

    Comentário da SdL

    Entendimento do texto

    Para tentar ser breve, parece tratar-se de uma alusão completa a Kafka, pois o absurdo reina. O nu do homem parece ser a exposição de nossas fraquezas, enquanto os seres são a personificação de nossas necessidades, das quais não podemos abdicar.

    Pontos positivos

    A parte das roupas novas é uma passagem cômica que vale a pena e que quebra o ritmo irreal da narrativa, até agora reinada pelo conflito Ser-Homem.

    Pontos Negativos
    A obra é curta demais. Bem que poderia ser uma coisa mais longa, e detalhada, como o seu texto Em Albanês, Shqipëria (acho que é assim que se escreve).
     
  6. Vinci

    Vinci Usuário

    Comentário da SDL

    Entendimento do texto

    Interessante texto. Nunca li Kafka, do qual tenho muitos livros. Não li e vou tentar ler graças a esse conto e aos comentários. O Ser Nu, mostra como o homem se torna fraco, sem suas roupas. Na sociedade, um homem nu não é nada, senão um atentado ao pudor.

    Pontos positivos

    Mostra de forma interessante a realidade da sociedade atual. Onde o natural é absurdo.

    Pontos negativos

    Não que seja negativo, mas acho que é o que faltou no texto : você poderia narrar a reação da sociedade em relação ao ser nu.
     
  7. Melkor- o inimigo da luz

    Melkor- o inimigo da luz Senhor de todas as coisas

    Comentário da SdL


    Entendimento do texto

    Texto claro e muito simples com uma mensagem muito bacana. Acho que o homem ir pro trabalho nu e não se importar é só uma figura, simboliza o fato de nos esquecermos de nossas necessidades éticas em alguns momentos. Não é algo necessário usar roupas em um país tropical, pelo menos não num dia quente, mas usamos por simples ética. Claro, ia ser um caos se todo mundo andasse pelado pelo mundo porque as pessoas tem pensamentos obcenos e porque é algo incomum, não faz parte da nossa rotina e do nosso cotidiano.
    Achei super bonitinho a parte dos bichos no armário, hehehehehe.


    Pontos positivos

    Criativo apesar de realmente como já disseram lembrar muito os textos de Kafka (que alias é um autor que não aprecio). Porém o seu texto não é pitoresco ao extremo como os dele e no fundo passa aquela mensagem carinhosa que te dá vontade de espalhar o amor pelo mundo e passear pelos campos de trigo com uma cesta jogando flores ao ar. ^^

    Pontos Negativos

    Hmm... Como você já percebeu, sempre vão associar seu texto ao Kafka de um modo ao outro, e isso nunca é 100% bom. Ser comparado sempre é um erro, as pessoas são diferentes, não importa quão semelhantes são.
    Talvez esteja muito curto, mas se foi assim que você quis escrever não adianta mudar, o que importa é o que você sentiu pra escrever. Se tá desse tamanho é porque a história é desse tamanho, talvez mudar só prejudique.

    Conclusão: Adorei!
     
  8. Largo Cavafundo

    Largo Cavafundo Usuário

    Eu tentei não comentar, mas é impossível, então:

    :eek:


    Quanto às comparações com os textos de Kafka, eu sei que nem sempre é bom. Mesmo assim, eu as considero algo importante, até por este escritor ser um no qual eu sempre tentei me espelhar, não no estilo exato, mas na seriedade e responsabilidade misturadas ao prazer da leitura...
     
  9. Sauron_Body

    Sauron_Body Usuário

    Nossa Largo!!!!

    Vc sempre me faz passar boas gargalhadas!
    Ótimo texto!
    Poste mais contos!

    :lol: :lol: :lol:

    PS.: post 2000!
     
  10. liteeliniel

    liteeliniel Usuário

    Largo, adoro seus contos!!! Mas eles são um tanto estranhos!!! Sempre tem alguma coisa sei lá, mto eaquisita e termina sempre em uma rotina...

    Agora, sobre o texto em si, adoreiiiiiii!! HAuhUaHuAhUaHuA!!
    pARABENS!! :clap: :clap: :clap:
     

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