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[L] [Largo Cavafundo][Indigestão]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Largo Cavafundo, 25 Jul 2003.

  1. Largo Cavafundo

    Largo Cavafundo Usuário

    [Largo Cavafundo][Indigestão]

    Comecei a escrever este conto assim que terminei de escrever Edificio Novo Mundo. Infelizmente, soh pude termina-lo hoje. Acho que gostei bastante de como ele saiu, apesar de ainda achar que o titulo nao esteja totalmente adequado. Bem, leiam e postem suas opinioes, por favor.
    Boa leitura...

    "
    Indigestão

    Uma xícara de leite morno, com chocolate de preferência, sempre a fez dormir como um bebê, desde que ela era um. Esta noite, como em todas as noites, ela toma o achocolatado sentada sozinha em frente à mesa redonda da cozinha. O marido já se acostumou com o ritual e nunca o interrompe: apenas espera a mulher, deitado na cama, lendo o jornal ou um livro qualquer (que provavelmente jamais terminará). Muitas vezes ele adormece antes de poder dar um beijo de boa-noite na esposa – ela bebe o leite sem pressa, goles pequenos e separados por longos intervalos de tempo. Mas nem isso impede o fim do líquido marrom-claro. Ela adora aqueles últimos mililitros que, não importa o quanto você mexa, sempre ficam mais escuros e doces se usamos uma colher para dissolver o pó de chocolate. Ela nunca usa o liqüidificador para mexer o leite. Todos os dias, desde que era pequena, ela termina a xícara com o gosto do chocolate mais forte do que no começo dela.
    Tem pena de escovar os dentes. Não gosta de trocar o agradável gosto doce da bebida pela implacável proteção anti-cáries que o tubinho amarelo diz oferecer. Mas ela ainda se coloca em frente ao espelho sobre a pia, aperta o tubinho até que haja uma quantidade razoável de pasta azul e branca (e – quem diria? – verde, às vezes!) nas cerdas da escova e , empunhando o pequeno instrumento (“flexível para melhor combater as placas bacterianas”) como se fosse uma espada, ela realiza todos os movimentos que sua mãe a ensinara pacientemente, de cima para baixo, de um lado para o outro, não esqueçamos os importantes movimentos rotatórios. Um gole d’água e ela se acomoda debaixo dos cobertores, “Te amo, boa noite”, hoje o marido está acordado, ela sabe que é por pouco tempo.
    Debaixo da aconchegante coberta ela se mexe de um lado para o outro, procurando uma posição confortável para dormir. Bebe mais um gole d’água e volta a colocar o copo de plástico sobre o criado-mudo. Coça os olhos, coça os braços, coça a nuca. Não sente coçeira de verdade, mas esperar o sono sem fazer nada a incomoda. Vira-se de novo, com cuidado para não acordar o marido, de modo que possa olhar para a janela (semi-aberta por causa do calor) de onde vem o único restinho de luz que ilumina um pedaço do carpete. Deixa sua mão direita cair no chão, do lado da cama. Move o rosto alguns centímetros para que este não fique muito apertado contra o travesseiro; ele volta a escorregar para a posição onde estava, de modo com que ela não possa abrir o olho esquerdo, mas desta vez ela não o move. Ainda não pode sentir o sono se aproximando. Ela demora para adormecer desde que era criança.
    Fecha os olhos para ver se assim dorme mais rapidamente. Ah, sim, já sente sua respiração tornar-se mais e mais lenta. Agora, com o quarto totalmente calmo, ela pode sentir a batida do seu coração. Um bocejo interrompe o constante t-tum, t-tum. Volta a sentí-lo, está alí no peito, esfregado contra o colchão. Realmente, ele está ligeiramente à esquerda do peito, como lhe disseram há muito tempo atrás. E aí está o sono, já pode ver que em alguns minutos estará dormindo. Mais um gole d’água, só porque o copo está ali em frente. Agora os olhos não conseguem se manter abertos. Um sorriso de satisfação aparece em sua face, satisfação pela sua vida, pelo seu marido, pelo seu trabalho e pelo sono. O sono. Está sonhando ou sua mão direita, aquela que está no chão (no fim de um braço esticado ao lado da cama), está úmida e fria?
    Os olhos abrem. Está totalmente acordada novamente. Levanta a mão até a altura dos olhos, mas cuidando para mantê-la longe da cama e longe de si. Os cinco dedos estão pingando, totalmente imersos em algum líquido. Não é água, certamente é mais denso. Há várias bolhas em toda a substância, seja lá qual for. Olha para o chão debaixo de sua mão. Há uma enorme poça, com certeza do mesmo líquido que cobre a mão direita da mulher. As bolhas parecem deslizar em direção à parede enquanto o líquido o faz. Cada vez mais e mais líquido, se espalhando para todos os lados. Quanto à fonte de tudo isso, não há dúvidas: o líquido se origina debaixo da cama. Ela limpa a mão na lateral do colchão coberto pelo lençol, mas ainda não tem coragem de aproximá-la de seu corpo. Também não consegue devolvê-la ao chão. Segura a mão no ar; o braço (esticado para criar distância) começa a doer.
    Por incrível que pareça, a primeira pergunta que ela se faz é “qual a origem disso?”. É claro que pode não parecer incrível para todos, aliás para a grande maioria não deve parecer. Mas isso muda se pensarmos que o mais natural seria que ela, por instinto, tentasse descobrir como livrar-se dessa tal origem, qualquer que fosse ela. Com o passar do tempo, os humanos vão perdendo a capacidade de colocar a sua segurança na frente da razão. Se temem o desconhecido, tentam conhecê-lo, aproximando-se dele ao invés de afastá-lo. Assim como a cabeça da mulher se aproxima do chão, os olhos embaixo do nariz embaixo da boca. Com seus dedos agarrados firmemente ao colchão, ela olha atentamente para o breu que habita o espaço vazio debaixo da cama – vazio seria, na verdade, se não houvesse todo aquele líquido gelado e a misteriosa origem dele.
    - Boa noite.
    A voz gutural faz com que a mulher volte ao seu lugar, deitada na cama, tão rápida e subitamente que o marido teria acordado se não tivesse o sono pesado e o corpo cansado. Sua respiração é o som mais alto de todo o quarto, mais até que os roncos que o marido faz soar de tempos em tempos, bem pausadamente. Aos poucos, o quarto vai novamente imergindo no silêncio de uma noite como todas as outras. E de fato ela pensa se essa não é uma noite como todas as outras, se a voz bestial que pronunciou um tão civilizado “boa noite” não é fruto de sua exausta imaginação. Certamente o líquido continua lá, no chão, muito mais próximo do que a mulher gostaria que ele estivesse. Mas a idéia de que algo consciente está logo abaixo dela não é o pensamento que mais lhe agrada.
    Algo pigarreia debaixo da cama.
    - Boa noite, senhora.
    A senhora a quem a (sem dúvida presente) voz se refere fecha os olhos com força, agarrando as cobertas e puxando-as por sobre seu corpo. Se não é imaginação, então o que é? Pela voz, não parece ser algo conhecido, algo humano. Imagina dois olhos cheios de veias vermelhas e pulsantes, só eles podem ser vistos em meio à escuridão que há embaixo daquela cama. Mas chega, não podem ser vistos, é claro que não podem. É ridícula a idéia. Deveria se envergonhar somente por pensar tais besteiras. Faz uns dez anos desde que precisou pela última vez assegurar sua filha mais nova de que não haviam monstros debaixo da cama. Lembra o quanto ela ria do que a fértil cabecinha da criança criava naquele tempo, é claro que apenas o fazia depois que a menina fosse tranqüilizada pela seriedade com a qual a mãe cuidava do assunto, puxando as cobertas para certificar-se da ausência de qualquer ser que não deveria estar ali. Ah, crianças.
    - Senhora?
    A voz novamente. Já sabe que é impossível fingir que ela não existe, ignorá-la.
    - Está falando comigo? – a sua própria voz, quase infantil comparada com aquela outra, finalmente conseguiu se fazer ouvir.
    - Certamente.
    - Quem é você?
    - Creio que já saiba a resposta, não gastemos tempo com algo que não ajudará em nada.
    - Então você é...
    - Sou.
    Silêncio, por alguns segundos.
    - Impossível!
    - Oras, eu não estou aqui?
    - Como eu vou saber?
    - Venha ver.
    - Não.
    Mais silêncio.
    - O que você quer?
    - O que um monstro que vive debaixo da cama pode querer? Comida.
    - Quer me comer?
    - Você faz isso parecer pior do que realmente é. Eu preciso me alimentar, não preciso? Sabe como é, proteínas, carboidratos, lipídios...
    - Certamente, mas... comer gente?
    - O que quer que eu coma?
    - Bem, no freezer tem um bife que eu posso fritar...
    - Carne bovina? Não pode seriamente acreditar que um monstro possa comer carne bovina?
    - Há uma boa variedade de legumes e frutas, se você quiser.
    - Perdoe-me, mas só como carne, carne fresca.
    - E por que é que você tem de vir comer a minha carne?
    - Porque sempre foi assim. Além do mais, tem de ser a de alguém. Se não for você a sofrer, será outra pessoa, ou outro animal. Você se considera mais merecedora da vida do que os outros?
    - Não, nunca. É só que...
    - Tudo bem, eu entendo. Mas você também tem que entender, é a cadeia alimentar.
    - Pensei que o homem estivesse no topo dela.
    - Você pensa demais.
    O marido se revira na cama. Ninguém ousa falar durante os movimentos rotatórios do homem.
    - Eu achava que os monstros ficassem debaixo das camas das crianças, somente. Não seria mais fácil devorar uma criança?
    - É o que todos acham. Aliás, eu sou um dos poucos monstros que se alimentam de adultos. Sim, eu sei que os pequeninos são muito mais fracos, e não conseguiriam lutar. Mas, mesmo que os adultos sejam mais desenvolvidos e possam usar a força física para nos deter, é muito melhor comê-los.
    - Por oferecerem mais carne?
    - Não! Certamente não! Na maior parte das vezes, nem como um adulto inteiro. O fato é que as crianças estão preparadas. Seu medo as faz mais forte. Elas não se importam se tudo indica que monstros não existem. Com o passar do tempo, os humanos vão perdendo a capacidade de colocar a sua segurança na frente da razão. Os adultos não vêem o quão maravilhoso é poder ter medo. E enquanto você está aí, se esforçando para me entender e me conhecer, eu já tive várias oportunidades de te devorar.
    - Por que não o fez?
    - Porque eu me divirto.

    ***

    Ele acorda mais cedo do que costuma. Ainda está escuro lá fora. Mas não deve tardar a amanhecer. “A hora mais negra é a que antecede a aurora”, é o que costumam dizer. Boceja. Raramente dorme tão bem quanto dormiu esta noite. Olha para a esquerda, procurando a esposa, mas ela não está lá. A cama está molhada, mas só do lado em que a mulher sempre dorme.
    - Boa noite, senhor.
    - Boa noite.
    Ele volta a dormir.
    "
     
  2. Kementari

    Kementari É só marca do fogão!

    Gostei bastante do texto.... cuticuti! :grinlove:

    Bem, eu so achei que o inicio foi muito desenvolvido, e alem de muito extenso, ele tornou o texto um tanto quanto bifocado...
    Mas o texto nao perdeu muito com isso nao! :D
     
  3. Inho

    Inho Usuário

    É, eu comecei achando que era um texto sobre chocolate quente. Ainda mais com esse título. Com isso você acabou causando impressões muito distintas e desconexas. Mas tá muito interessante, a idéia é muito legal, e os diálogos foi a parte q eu mais gostei.
     
  4. Largo Cavafundo

    Largo Cavafundo Usuário

    Soh queria dar um toque, pra lembrar que num conto tudo esta relacionado... ou seja, tem um motivo para haver o chocolate quente, e para chamar Indigestao, ligando com tudo o que voce leu... :D
     
  5. Vinci

    Vinci Usuário

    Com um smiley: :clap:
     
  6. Strider

    Strider Usuário

    Explica pra mim então, que eu não captei. :P

    Aaahn, sim, eu adorei o contozinho, Tutuzinho. :grinlove: Achei interessante um monstro que vive debaixo da cama falar com sua "presa".

    - Por que não o fez?
    - Porque eu me divirto.

    :clap:
     

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