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[L] [Largo Cavafundo][Bonsai]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Largo Cavafundo, 27 Set 2003.

  1. Largo Cavafundo

    Largo Cavafundo Usuário

    [Largo Cavafundo][Bonsai]

    Ufa, mais um conto! Esse eu escrevi para a escola como alguns outros que eu já "publiquei" aqui. Acho que não tem mto mais o que dizer sobre esse, só pedir que comentem tanto se gostarem quanto se acharem que é um cocô e que eu devo ser morto por ficar desperdiçando o tempo de vocês com uma porcaria como essas.

    Boa leitura!


    "
    Bonsai

    Agora só faltava cortar o último fio, com muito cuidado, para não arrancar-lhe a cabeça como fizera com o anterior. É necessário um controle extremo da mão. E tem gente que diz que Ciência não é arte. Se aquele bebezinho de três centímetros e meio de altura não fosse uma obra de arte, o que seria? E o cientista que o criara era um artista.
    Pegou a bolinha de carne e gordurinhas com muito cuidado e colocou-o ao lado de Ela. Mulher e homem, Eva e Adão, ela e ele – Ela e Ele. Pelos primeiros dias, precisaria cuidar muito bem deles, ainda eram crianças. Mas cresceriam, e se tornariam verdadeiramente humanos, como aquele que os criara ou qualquer outro. Seriam autosuficientes, ou quase. O cientista poderia vê-los repetir a História, criar uma grande civilização, criar, descobrir, transformar. Mas para isso ele precisaria alimentá-los, aquecê-los, protegê-los. Era um pai, suas crianças eram como ele, mesma espécie. Mesmo sangue.
    O cientista, o homem, o pai, foi para a cama, quase amanhecia. Beijou a face da mulher, ela acordaria logo. Deitou-se ao lado dela. Talvez sonhou, talvez só lembrou, mas viu claramente o feto, amarrado pelos fios que ele desenvolvera só para isso, impedido de crescer como seria de sua naturesa, mas se desenvolvendo como deveria dentro do útero de uma mãe de aluguel (mas com o DNA do criador). Sua mulher já se fora, trabalhava fora, de manhã até de tarde, quando ele se levantou, incerto de se estivera ou não dormindo enquanto permanecera deitado. Não tomou café, não tomou banho, não foi ao banheiro. Foi à garagem.
    O tanque, aquele no qual deixara os dois pequeninos dormindo na noite anterior. Mas não era mais aquele mesmo espaço de 25 metros quadrados de terra do qual ele se lembrava. Espalhados pelo “território” estavam três conjuntos de construções rústicas, todas feitas com o barro claro que servia de chão no tanque, e nelas havia pessoas, mais do que as duas que ele deixara lá no dia anterior, muito mais, eles deviam se reproduzir muito rapidamente! E perto dessas incríveis pessoazinhas havia plantações, plantações!, das mesmas ervas que o cientista deixara no dia anterior para Ele e Ela comerem. Numa das comunidades, todos dançavam e cantavam numa língua estranha, uma língua humana. Na outra, os homenzinhos dormiam. Na última, eles trabalhavam nas plantações. O cientista sentou-se ao lado do grande tanque de vidro e olhou-os. Podia vê-los crescer, vê-los ser. Viu mulheres banhando-se numa caixa d’água que ele colocara lá para matar a sede daqueles dois primeiros... procurou os dois. E enquanto deixava seus olhos procurarem independentemente de seu cérebro, calculou. Se em cerca de quatro horas e quarenta minutos, o tempo que ele estivera dormindo, eles haviam se reproduzido numa escala tal e produzido cultura suficiente para criar aquelas magníficas...
    Assim como havia três comunidades, havia três amontoados de túmulos, dezenas. Ah, que vidas curtas eles tinham! Ele e Ela haviam desaparecido há muito tempo, certamente. Agora, só havia Eles. A mulher entrou.
    - Nossa, apareceu tanta gente.
    Não ouvindo a resposta do marido, foi para a cozinha preparar o jantar, já era noite. Mas o cientista também não comeu, ou dormiu. Ele tinha responsabilidades. A mulher dormiu sozinha, acordou sozinha. Nem foi ver o marido na garagem.

    * * *

    Chegou em casa cansada do trabalho. Fez o jantar, preparou um prato para o marido e levou-o até a garagem. O prato se espatifou no chão, cobrindo os sapados da mulher de feijão. Ela nem se mexeu.
    O tanque era agora como uma maquete. Não, muito mais, pois não eram as mãos descomunais do desajeitado ser humano de em média um metro e sessenta de altura que haviam construído aquilo. Havia a delicadeza e precisão de alguém daquela escala, alguém que podia se preocupar com os mínimos detalhes, mesmo que esses não tivessem mais de um milímetro. No lado direito do quadrado, uma grande torre de tijolos marrons. No lado esquerdo, um castelo, igualzinho àquele que vira seus filhos inexistentes construírem na praia, em seus tempos de garota. No meio das duas construções, várias pequenas casinhas. Nas outras extremidades, grandes plantações. Claro, eram pequenas, mas grandes ao mesmo tempo. Grandiosos, o castelo e a torre e as plantações, grandiosos como eram simples e diminutas as casas do povo. O povo que servia o senhor do castelo. O senhor do castelo que obedecia o sacerdote da torre. O sacerdote da torre que venerava o marido. O menor e mais impressionante império do Mundo. Novamente, o marido não comeu.

    * * *

    O tanque estava dividido em dois. Não havia mais palácios ou torres, só prédios de apartamentos de um lado, casas simples do outro. Tudo mudava em tão pouco tempo!
    Do lado dos prédios, dos ângulos retos e da geometria, alguns poucos saíam, levando grandes instrumentos para o espaço entre os Lados. Do lado das casinhas, das plantações, todos os homenzinhos íam de encontro aos poucos homenzinhos do outro lado, levando armas pequenas. O ser humano nunca concorda.
    Desesperado, o marido entrara no tanque para parar a guerra. Ele era o Deus deles, eles tinham de ouvi-lo. Mas no progresso não há espaço para Deus. Ele teve de sair antes que se ferisse. Os homenzinhos se destruíram, e destruíram as casas, os prédios, as plantações e os ângulos retos, e as mulheres.
    A mulher entrou na garagem quando o marido pegava nas mãos um homenzinho, ou melhor, uma mulherzinha. Chorava e sussurava aos ouvidos da criaturinha:
    - Eu não esperava outra coisa de você.
    Deixou-a cair no chão.
    - Morreu? – perguntou a mulher.
    O homem não conseguia olhar para sua esposa. Também não podia olhar para a mulher caída no chão, ou para o tanque destruído.
    - Isso sempre acontece comigo.
    Dizendo isso, o cientista caiu no chão e desapareceu.
    "
     

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