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[L] HOMEM-ARANHA: TOTEM Parte 1

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Alexandre Fidélis, 26 Jul 2003.

  1. HOMEM-ARANHA: TOTEM Parte 1

    HOMEM-ARANHA


    TOTEM

    Parte 1: Tabuleiro


    Um conto escrito por Alexandre Fidélis.

    Eles estão caçando. Criaturas com asas, tentáculos, golens de metal controlados por distantes almas insanas, caminhando pelo jardim onírico, e é impossível que estas selvas sejam seu quintal, pois não há sequóias no Queens. Não há florestas tão grandes de sequóias em parte alguma, e tudo termina com enormes trevas envolvendo seu corpo, como uma roupa viva que não pertence ao mundo do qual todos viemos, na escuridão dentro e fora de um jovem tão peculiar, que estende a mão à um simples floco de neve e falha, deixando escapar entre os dedos a última fagulha de luz, fria talvez, mas gelo que através dos olhos acende o espírito daqueles que esperam um sinal.
    Então Peter Parker acorda.
    Apenas um abrir de olhos. Nada de “sentido de aranha”, apelido carinhoso ao espeto de aço incandescente que enfiam em sua cabeça toda vez que o perigo se aproxima, sorrateiro ou não. Essa dolorosa consciência, que se espalha pelo corpo e quando menos se espera, miraculosamente, em meio à três piruetas num beco qualquer, a perna esticada alcança vinte centímetros com sua extremidade acima da cabeça, e uma bala fatal passa a ser a ruína de um desafortunado tijolo. Nada disso.
    Lentamente Peter estende o braço para pegar seus óculos na escrivaninha e... sentido de aranha! Um salto mortal para o lado da cama e por dois centímetros, o microscópio que seus tios deram-lhe aos seis anos não se espatifara. Ele perdera sua posição de brinquedo predileto para o Playstation e depois caiu para a terceira posição devido ao computador. O jovem Parker, sonolento, uma figura bizarra, ainda esticada e torta no chão de seu quarto, lembra dessas coisas e também do fato de não usar óculos a pelo menos um ano, desde daquele acidente com a aranha, durante a fatídica excursão que lhe conferiu certos dons peculiares. Um sorriso idiota é ensaiado por seus lábios cobertos pelo abundante muco com o qual encharca todas as noites o travesseiro, fato que até hoje sua Tia May faz questão de contar para as visitas. Uma das poucas coisas que ele não aprova na tia, principalmente depois que ela contou para Mary Jane. MJ... que gargalhada gostosa ela deu aquele dia e, em meio à aquela situação constrangedora, entre o impulso infantil de contar que Harry Osborn molhava as calças vez ou outra quando dormia, para desviar a atenção do sarro e continuar a salivar mais que no travesseiro com o riso daquela linda ruivinha, adivinhe? O mundo pára quando MJ fala, quando Gwen Stacy atravessa o incauto nerd com seus olhos verdes , e quando Betty Leeds diz algo óbviamente de duplo sentido na redação do Clarim, e ele ruboriza. Já sentado em sua cama , ele volta o pensamento ao presente e olha o microscópio, percebendo como ele voltou a ocupar um significante papel em sua vida novamente.
    Poderia ter sido ontem , no laboratório da universidade. Peter ficara encarando durante um tempo indefinido o Doutor Connors, entre um soslaio e a bola de papel de Flash Thompson ( arremessada com uma precisão indescritível , e certeira, devido ao sentido de aranha estar falhando – o gás que Mystério usou, talvez ). Será que poderia contar seu segredo a ele?
    Com certeza, Peter já o teria feito, se Connors não costumasse se transformar num réptil assassino-megalomaníaco de mais de dois metros de altura. As atribuições da escola, as acusações do Clarim Diário, as escoriações e a ingratidão dos cidadãos para com seus atos heróicos estavam minando sua determinação e é claro, apesar de em um ano a cena de seu uniforme enfiado em uma lata de lixo num beco qualquer com ele se afastando entre pensamentos do tipo “Agora chega! Homem-Aranha nunca mais!” ter se repetido milhares de vezes , jamais até então ele tinha questionado o juramento que havia feito ao seu falecido tio Ben. Mas , afinal, ele tentou, não tentou? E o que recebia em troca? O patinho feio estava virando cisne, as garotas estavam se dando conta do “misterioso Parker”, e ele ainda precisava de grana para começar a ter algum sonho de consumo além da moto que não durou muito...
    Meu Deus!!! Você é jovem , a cidade tem Vingadores, Quarteto e o Namor quando não está naqueles dias! Duende Verde versus Thor? Hahaha!
    Então, nada mais natural que estudar seu próprio DNA em busca de uma cura para a contaminação radioativa e assim livrar-se do fardo de ser a ameaçada aracnídea preferida do Jameson.
    Peter não dormiu mais aquela noite. Pensou em fazer uma ronda noturna e encontrar os teimosos de sempre, descontar todas as angústias de seu pequeno mundo, tão espiralado quanto as voltas do cobre de sua teia. Com os olhos fixos no teto, desfia-se em sua mente aquelas pequenas coisas que ninguém poderia supor passar pela mente de um super-herói:
    as rabugentices tagarelantes da tia May, o bafo de café do professor Connors, a medalha babaca que não sai do pescoço do Flash Thompson, o arrepio nas costas por ter um esfumaçante Jameson silenciosamente olhando para você.
    Como garoto e como herói, não há aquele grupo no qual ele se sinta um igual. Essa sensação de pária ininterrupta só o leva a crer que uma vida não apaga a outra, e quanto mais máscaras usamos, cada vez mais isolados nos tornamos. Um leve sorriso. A causa, um axioma batido pulando na cabeça: “ Todo adolescente vive em seu próprio mundinho”.
    Hah! Victor von Doom, imperador da Latvéria, vive querendo fazer do resto do mundo o seu mundinho. Vai ver, o problema não é ter o “mundinho”, pois todo mundo tem o seu; o negócio é fazer a química entre o seu mundo e o mundo real resultar em algo proveitoso.
    Sim, falar é fácil. E além do mais, qual o mundo real? Uma vez , Peter tivera de fazer um trabalho sobre Platão e um negócio de cavernas e leu por alto, não entendeu direito, provavelmente por estar com a cabeça nas nuvens graças ao Abutre.
    E esses sonhos, esses sonhos recorrentes. Se não fosse tão arrepiante ele ia visitar o tal doutor Stephen Strange.
    “Bem, esqueça essa idéia”, disse Peter a si mesmo. “E esqueça essa também”, disse num sussurro constrangido, após pensar nas várias mulheres de seu panteão hormonal de uma forma picante durante dois segundos e meio, daquela maneira que só garotos conseguem na aurora da libido primeva. Seria uma saída usual para as frustrações amalgamadas, principalmente para quem tem um organismo super-humano em plena puberdade. Seria, se o Shocker não tivesse acertado aquela rajada em sua virilha dois dias atrás, deixando a área e suas adjacências toda dolorida ao extremo...; caso narrassem suas aventuras em algum lugar como nos quadrinhos, pensou ele, esse seria um fato que nenhum cretino retrataria.
    Quase conformado em contar aranhinhas pulando o bigode do Jameson, ele olha despreocupadamente para a janela. Tomar um susto sem este estar precedido pelo “sentido de aranha”, será algo, desta época em diante, raro e totalmente nauseante para Peter. Mas fora isso que ocorrera naquele instante.
    Peter vira alguém parado na frente de casa. Da sua cama até a calçada foram dois pulos, três piruetas e quase cinco segundos. Então, devidamente trajado com a repulsiva cueca samba-canção do Pikachú, que Tia May tinha certeza que ia ficar uma “gracinha”, olhava a seu redor, assustado. O sentido não tilintava! Teria ele perdido os poderes? Teria tudo não passado de um sonho? Foi quando notou uma presença atrás dele, parada, em pé, a menos de meio metro. Afastou-se com um salto. Era um homem de idade, de boné , apoiando-se levemente sobre um cajado de madeira. O sujeito parecia um mendigo. Era só o que faltava, balbuciou, pensando que o sujeito sairia gritando ser alguém chamado Homem-Birita ou coisa que o valha e que sabia da sua identidade secreta. Não seria nada anormal depois de enfrentar o Canguru e o Gibão, e, principalmente, depois de Johnny Storm haver jurado que prendera um cara chamado Pete-Pote-de-Pasta.
    Peter esboçou um sorriso ao lembrar daquilo, mas não esqueceu que a situação poderia ser bem séria. Afinal, sua tia estava ali perto e ele não poderia deixar que ninguém a ferisse.
    “Q-quem é você”. A pergunta saiu espontaneamente.
    “Foi uma bela acrobacia, guri” disse de maneira calma e ligeiramente rude o velho. “Mas vê se não esquece as ceroulas da próxima vez”.
    Não havia como deixar de se achar ridículo e amador tanto quanto ameaçado, e o frio só aumentava essa sensação. Então o velho misterioso começou a falar novamente.
    “ Realmente, eu não sei o que acontece com a geração de vocês. Parece que todos que têm potencial precisam ter a cabeça cheia de merda pra contrabalançar... ás vezes nem toda iluminação que se pode obter nessa vida é capaz de fazer entender a cabeça de um avoado. E pensar que você vai passar sua vida quase toda de cabeça pra baixo! Hunf!!” Fungou o velho, enquanto tirava algo do nariz.
    “ Escuta aqui, ô do asilo, não sei qual é a sua, mas eu vou te avisar que eu não tenho cerimônia em dar cascudos na terceira idade mal-intencionada. Não vou deixar você encostar um dedo sequer na minha tia!”. Aquilo saíra da boca de Peter como um furacão de raiva palpável e crescente. “ O que cê pensa que tá fazendo?” disse Peter cerrando os punhos e preparando-se para pular sobre a figura misteriosa. Subitamente, meio que rindo, o velho cantarolou baixinho “...Sticking around, sticking around...” e quando Peter simplesmente piscou, ao abrir os olhos a ponta do cajado estava a meio centímetro de sua testa. Ele ficou completamente sem reação, e o estranho lentamente abaixou seu cajado enquanto dizia no mesmo tom áspero de sempre:
    “Relaxa, seu moleque folgado! Eu só tava perto vendo se outro guri debilóide andava fazendo suas diabruras corretamente! Heh!! Mas aproveitando que eu tô aqui, deixa eu te dar uma dica: essa idiotice toda de se sentir sozinho é pura sacanagem com as pessoas que gostam de ti, garoto.”
    Peter gelou. “O cara deve ser uma espécie de telepata”, pensou.
    “Cê tá na escola ?” perguntou o velho, fazendo cara de inconformado.
    “Claro”, respondeu Peter.
    “ Pois não parece!!” Gritou o velho.
    Peter ficou desesperado. Não entendia a situação na qual se encontrava. O estranho não acionava seu sentido de aranha mas estava parado espionando sua casa em plena madrugada. Não dava para confiar. Ele já vira coisas estranhas e malignas demais, e percebeu que a fé nas pessoas já não era a mesma. Ainda assim, a única coisa que pôde dizer foi “Não grita!! Minha tia pode acordar...”, para no instante seguinte ficar vermelho de vergonha. Essa não seria uma frase adequada caso estivesse na frente de um inimigo.
    O velho conteve aparentemente um riso, ou algo que uma marcada e enfezada face como aquela pudesse produzir que chegasse perto de um.
    “Se tu quiser telepatia, vai pra Westchester!! Lá também tem ruivas...Pô, guri, se sabe oque é relaxar?”
    Houve um pouco de silêncio. Punhos continuaram cerrados.
    “Olha, pior que essa raiva, é a omissão, guri. Não, não me olha assim. Não sou teu tio. Mas eu entendo um pouco dos caminhos escuros dessa vida e da responsabilidade que a gente tem de trazer esperança ao mundo. Aquilo que cê tem de aguentar é um fardo só teu, mas quando a cabeça pesa, teus ombros não bastam. E nesse sentido tu é mais abastado do que imagina” disse o velho, e então pareceu olhar para algum lugar atrás de Peter, mas ele não virou para ver o que era. Podia ser um truque.
    “Tsc. Não se preocupa de eu ter visto tua performance de balé. Sou cego. Ainda bem, só de imaginar a estampa da tua cueca me dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Fica esperto, guri. Quem tava espiando a tua casa foi por ali...” e dizendo isso, o velho apontara para a direção que parecia estar olhando antes. Peter acompanhou o movimento do cajado, pensou ouvir algum barulho vindo da casa dos Watson e quando voltou-se para o velho, ele não estava mais lá.
    Após uma pequena busca infrutífera pelos arredores da casa, Peter voltou para seu quarto. Na janela, pareceu ouvir a voz do velho saindo de lugar nenhum dizendo “ As ceroulas, moleque, as ceroulas”. Depois de um tempo, começou a imaginar que talvez tenha sido Mary Jane, talvez tão apaixonada por ele que agora faria plantão todas as noites na porta só para ficar mais tempo perto. Seria bacana. Um sono súbito e arrebatador tomou conta dele e o travesseiro implorou por mais uma cota de baba. Desejo atendido.
    Quarenta e sete minutos depois, batidas na porta anunciam o pronunciamento daquela que se tornara há tempos a antítese de Morfeu aos Parker.
    “ Peter querido, tome um banho que são horas de ir para a escola!” bradou May.
    “ Puxa , Tia May, o alarme não tocou ainda!!!” balbuciou Peter. May respondeu com um de seus jargões: “ Um Parker é mais preciso que qualquer relógio, Peter. Venha que está tudo na mesa...”
    A cama ainda se mostrava uma ardilosa sedutora, comprovada por resmungos quase imperceptíveis. Súbito, o rádio-relógio reverberou notícias em uma altura ensurdecedora:
    “ ... ENQUANTO STACY AFIRMA NÃO HAVER SUSPEITOS, OS CIDADÃOS ESTÃO CADA VEZ MAIS PREOCUPADOS COM OS ASSASSINATOS. A RECLAMAÇÂO GERAL É DE QUE A MÍDIA IMPRESSA PREFERE DAR ATENÇÂO À NOTÍCIAS SOBRE SUPERSERES. O CLARIM DIÁRIO AFIRMA QUE O MAIOR SUSPEITO DEVE SER O HOMEM-ARA”. Clic.
    Não. É muito sono e cansaço para começar o dia assim. Cereais aguardam sua última festa no leite.
    Após um rápido banho e uma absorção (Peter não chamaria aquilo de comer) dos sucrilhos, um beijo na Tia May e a constatação de que chegaria atrasado. Prédios fazem falta naquela vizinhança. Talvez criar um planador de teias que fosse das mão aos pés de cada lado, permitindo que ele planasse como... um ...um...esquilo voador! Não mesmo. Ele teria que mudar de nome e o pior seria bater os braços como asas. Peter meio que ensaiou com os braços no ponto de ônibus sua teoria. Um motorista de táxi passou naquele instante e gritou: “ Se quiser dançar, vai pra Broadway, Grace Kelly!!Há!Há!Ha”. Peter ficou sem reação e olhando ao redor viu que havia uma senhora no ponto com ele, com um risinho disfarçado por lábios enrugados e um leve batom. Isto fez com que se lembrasse de sua tia, impedindo um certo dedo de se levantar em direção ao táxi que já dobrava uma esquina. “Não ligue para esse tolo, meu filho” disse a senhora “ Ser bailarino é um sonho muito bonito, viu? Oh, você não é o sobrinho de May Parker?”
    Quinze minutos depois, o ônibus de Peter chegara, e ele sentou em um dos lugares do meio, acenando para a velhinha que apesar de suas explicações monossilábicas gritava “ Força no balé, Pete!!”. Peter pegou o livro de química e não olhou para os lados até chegar à escola.
    Lá, ao entrar na classe, como de costume as pessoas olharam todas em sua direção quando abriu a porta, fazendo um retumbante silêncio enquanto ele encontrava uma carteira vazia.
    O professor Warren disse finalmente: “ Isso são horas, Parker?”.
    Bem baixinho, ele disse a si mesmo: “É, pontual como um relógio...”
    Na hora do intervalo, Mary Jane veio conversar com ele.
    “Oi, tigrão.”
    “Hã... oi MJ.”
    “O que houve , Petey? Eu fiz alguma coisa pra você?”
    Peter lembrou da madrugada que teve, e ficou intrigado com a pergunta. Teria sido realmente MJ quem estava parada no portão de sua casa?
    “Eu...hã...não sei... sei lá...cê quer me dizer alguma coisa?” disse Peter, ainda sem saber o que perguntar . Neste instante chegaram Harry Osborn e Flash Thompson. Este último disparou:
    “E aí Parker, seu mané!! Quer deixar a Mary Jane mais prejudicada do que ela já está com a tua nerdice também?” Prejudicada? Peter ficou mais intrigado ainda. A reação de Mary Jane foi incisiva.
    “ Do que você está falando, babaca Thompson?”
    Obviamente, as coisas estavam tensas por ali. Não era raro ouvir Mary Jane falar alto mas, normalmente era com um tom muito diverso daquele, nitidamente agressivo. Peter optou por ficar calado.
    “Tô falando que é sacanagem o que cê fez ontem à noite com meu camarada Harry!” Disse Flash, mais alto ainda. Peter entendera as coisas, ou pelo menos, achou que entendera. De alguma forma, por algum motivo, MJ fora até a casa de Peter aquela hora, e Harry viu isso acontecer. Eles estão saindo juntos, mas Harry tem de alguma forma desagradado Mary ultimamente. Dava pra ver nos olhos dela. Por que aqueles olhos diziam tanta coisa, e ainda assim pareciam guardar algo tão inescrutável como o futuro? Ele não sabia dizer, mas resolveu se meter na conversa que já tomava proporções não muito saudáveis...
    “Olha Flash, seja lá o que for, é melhor deixar os dois resolverem, não acha?” Thompson olhou furioso para Peter, enquanto Harry aparentava... bem, ele fazia uma cara de alguém envergonhado e ao mesmo tempo zangado. Pra falar a verdade, aquilo sim era uma “cara de nada”.
    “Peter, tem razão, Flash.” Disse MJ. “Se o senhor mimado aí não for homem pra conversar com a namorada sem o leão-de-chácara, é melhor ele procurar um buraco e se enterrar!”
    “É-é m-mesmo, MJ!” disse Harry “ C-cê sabe como o Flash é metido a Quixote, né?”
    “Putz, Harry, largamão!!” Berrou, Flash. Sua voz tomou brevemente um tom agudo demais, que rapidamente foi abandonado. “ Primeiro o Jackson fica cheio de historinha com a tua mina e agora o Parker também, e você põe o rabo entre as pernas? Pô , maninho, seja homem!!”
    “Jackson?” disse Peter, deixando escapar um tom de surpresa.
    “ É Peter, o Jackson! Eu formo com quem quiser, tá legal? Ou vocês esqueceram que estão lidando com Mary Jane Watson? Só pra encerrar, Peter: fecha a boca. Flash: se mata. E Harry, você sabe muito bem porque eu fui pra casa do Jackson ontem à noite, ao invés de sair com a sua ‘galerinha da boa’!” Harry ficou vermelho e arregalou os olhos como se temesse que algo fosse dito. “E acho bom nenhum de vocês me procurar por um bom tempo.”
    Dizendo isso, Mary Jane foi embora, deixando três jovens calados, cada um com seus motivos. O primeiro a quebrar o silêncio fora Flash, enquanto segurava Harry pelo braço, arrastando-o. “Fica esperto, Parker!”
    Peter ficou em silêncio, tentando compor as idéias e conjecturas que vinham à sua mente.
    Oque estava acontecendo com todo mundo? Naquele momento seus ombros arquearam e ele não pôde deixar de pensar no Tio Bem, e em como havia sempre uma resposta para tudo. Na infância, as vezes somente a presença daquela pessoa especial, no mais completo silêncio, diz que existem finais felizes, e que as coisas caminham invariavelmente para um estado onde fazem sentido. Mas naquele momento, metade de sua vida era violência explícita e a outra era uma violência tímida, roedora, que lentamente tomava a alegria das pessoas. A cada notícia de crimes, de guerras, fome e ignorância, o coração de uma geração se tornava mais sombrio. E ele estava no centro de tudo isso, atado por teias inquebrantáveis. Então ele lembrou de Jackson. Como era mesmo aquele ditado? Ah, é mesmo: “Tem sempre alguém pior.” Um pensamento determinista, mas que já fazia parte de um sinistro consenso que até hoje partilhamos.
    Jackson era um cara estranhíssimo, e até mesmo Thompson concordara uma ou duas vezes que ele era “pior que o panaca do Parker”. Um pouco mais alto, franzino, de cabelos negros pelo ombro e sempre de preto, Jackson só era visto conversando com seus “amiguinhos de carta”; uma turma igualmente esquisita que parecia viver em um mundo separado, com seus próprios códigos e gírias. Sempre ficava de canto na classe, e até os professores tinham medo de falar com ele. Contudo, apesar de estar apenas há três meses na escola, era considerado muito inteligente pelos professores, a ponto de ameaçar o reinado de Peter como o ‘crânio’ da classe. O que Mary Jane faria com uma figura dessas ao lado? Vai ver, esta queda por fracassados tinha tomado proporções patológicas extremas. Ou havia algum vírus de esquisitice engendrado pelo Dr-alguma-coisa-do-mal da semana...
    De repente, Peter percebeu alguém ao seu lado. Era Jackson.
    “São uns idiotas, não?”
    “Hã?”
    “Osborn e Thompson, claro. A MJ é gente fina.” Disse Jackson, sentando ao seu lado no pátio. Peter olhou para aquele garoto esquisito e viu um reflexo de si mesmo, um tanto retorcido, é verdade. Depois de um breve silêncio, Peter verbalizou:
    “Hã... pois é.”
    “Escuta, Parker, os caras estavam danados de ciúmes. Eles não agüentam ver uma menina bonita conosco que já vem bancando os xerifes sociais. Fico imaginando o quanto estes idiotas chutaram teu traseiro desde o primário.” Jackson olhava fixo para lugar algum. Para sair daquele clima, Peter fez uma piadinha que considerou ridícula dois segundos antes de proferi-la: “Bom, se fosse ganhar calos por cada vez, ao invés de cuecas eu usaria camisas para tartarugas” Tsc, agora já foi, pensou Peter. Jackson se inclinou um pouco, rindo mais do que a piada merecia, permitindo que um maço de cigarros aparecesse em um dos bolsos de seu sobretudo.
    “ Eu não sabia que você fumava, Jackson.” Fazendo uma careta, o estranho garoto respondeu:
    “Pois é , Parker... é uma das coisas que não sabem sobre mim. E daí? O que esse pessoal acha da vida? Um dia vão receber o troco. Vamos estar ricos ou bem empregados, e os idiotas vão limpar latrinas. E além do mais, perto do que o Osborn fuma, isso aqui é incenso.”
    “ O Harry é legal, apesar de tudo.” Disse Peter , preocupado com a afirmação de Jackson sobre o amigo. Jackson notou o ar preocupado de Peter.
    “Escuta, cê quer saber o que a Mary Jane foi fazer lá em casa comigo e com a turma?” disse, rindo, o garoto. “Ei, não vale pensar besteira!”
    “Sim.” Disse um curioso Peter Parker.
    “Então a gente faz assim: passa depois de amanhã na minha casa, à noite, que a galera vai varar a madrugada.”
    “Mas é pra fazer ...?”
    “ Ei! Não precisa ficar cabreiro! Diz, você já jogou RPG?”
    Enquanto Peter respondia à pergunta de seu novo amigo, dois velhos olhavam para eles de uma certa distância. Um vestido como um mendigo, e o outro com um Armani. Um enxergando com olhos , e o outro, cego, com a escuridão.


    Fim da Parte 1.
     

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