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[L] [Goba][...ergo sum.]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Goba, 30 Nov 2004.

  1. Goba

    Goba luszt

    [Goba][...ergo sum.]

    Prólogo

    Há tempos que não toco numa pena, como começarei? É conveniente dizer olá a mim mesmo? Quissá alguém leia isto, mas acho suspeito cumprimentar. Agora sou levado por puro desejo, vou em frente.

    ------------------------------------------

    Alto muro cobre o sol, esconde a lua, precede a queda. Precede? Não, recuso-me a prever qualquer coisa daqui em diante (ainda que a queda seja inerente pra todo muro), visto que o futuro só é após se tornar presente, e logo vai ser passado. Vida injusta!

    Sobe no muro citado um mato antigo, mato já pisado por senhores e escravos. Sobe alto, mas num se prega, só sobe - num quer apoio, quer fazer inveja ao muro por ser vivo. E o muro ainda é por si só, sólido, morto desde que nasceu. Injustiçado muro, que sabe de tanto, mas nunca boca vai abrir, ou com a mão guiar. Nasceu pra ser mudo, cego - nasceu morto, só pra proteger.

    E sabe o mato? Astuto! Vivo que é, cresce por si só, num precisa de muro ou de mão alguma. Mato cresce, vira, entorta, faz filho, morre. Mato ataca quem não gosta, mato grita quando machucam ele e mato fala pra quem quer ouvir. Sabe? Mato é carinhoso e traiçoeiro, basta acordar que mato já tem plano pro dia. Sabe? Claro que sabe... mato que é!

    Olha, entre o mato e o muro, muita coisa vive. Entre o mato e muro num digo nada com segurança, num ouso falar com certeza desses que ali existem. Aliás, será que existem? Queria eu ser mato ou muro, assim me garantia de ser. O que me consola é a pena, e só ela agora. Pena um dia já se chamou Maria, e foi bem mais feminina. Mas Maria passou pra além do muro já, onde também não ouso nem olhar.

    Sabe o que eu acho? Acho que tenho é muito temor! A vida me dá calafrios - todo dia sinto-me tremer sobre os joelhos por alguma coisa. Suspeito do meu pé direito, aí logo do esquerdo, e minhas mãos parecem que estão tramando contra meu passo desajeitado e suspeito. Não tenho bons olhos nem para as mãos nem para os pés. Espero estar agora controlando um pouco essas mãos. Mas já foram muito usadas! Vou agora colocá-las donde acho-me seguro de seus ataques: em meus sonhos.
     
  2. Goba

    Goba luszt

    Primeira nota

    Desde quando o mundo parou de se importar? Parece-me que nada, nem a chuva mais trás trovóes quando chora uma criança, ou o sol brilha contente com o virtuoso sorriso duma paixão juvenil. Arre! Gostaria eu que minha vida continuasse como os autores românticos (tolos, eu diria) a descreve! Como queria eu que as rosas desabrochassem a cada passo de um homem que ama!


    Mas realizo, agora: o mundo nos abandonou ou deixamos de estar a par com o mundo? Será que não somos nós os pecadores, será que a carne não nos trouxe os problemas que os modernos médicos descrevem existir? Ai de nós! Devotarei-me agora a minha reza - quero que o mundo me perdoe.
     
  3. Hum, um pouco confuso, eu acho, mas gostei... Parece meio poético, mesmo que seja narrativo... Interessante. :obiggraz:
     
  4. Goba

    Goba luszt

    Capítulo Primeiro

    Dia de sol, deita-se debaixo duma figueira uma menina de tez clara, cabelos castanhos claros, olhos dum verde grama - grama a qual a menina usa como cama. Menina que, em vista, não difere em nada de outras filhas desses barões do café. Parece que deita na grama com o propósito só de se deitar, e parece que por dentro ri de ter dinheiro e de ser servida. Façamos desse clichê aparente o objeto de nossas orações.

    Passando os olhos mais perto, vê-se uma menina já madura. Deve ter catorze anos, me surpreende não estar de aliança nos dedos - eu, que casei a pouco, tenho uma mulher de dezesseis anos. Minha mulher é triste, não sorri mais. Tão bela que é... como a menina de quem falava. Bela, mas igual a muitas belas que se vê nas ruas. Parece rir-se por dentro, mas cora sua face uma lágrima que rola envergonhada.

    À nossa menina deram o nome de Carla, sobrenome não nos faz importância agora. Porém, observemos-la agora, parece-me que palavras estão sendo balbuciadas. Talvez pensamentos acordados, ou uma reza, enfim, atenção.

    ***********
     
  5. Beriadar

    Beriadar And I will see it all before

    Está super poético, muito bom ... são dos melhores textos q eu tenho visto nestes tópicos. Mas vc ñ faz muito uso de próclise, e por isso seu texto fica um pouco piegas.

    Procure usar um pouco mais de "se deita" ao invés de "deita-se" ... mas as idéias, o tema, enfim .. tudo muito bom!!
     
  6. Goba

    Goba luszt

    - Me dói o coração! Como pode meu pai dizer-me pecados assim? Agora venho eu proferir maldizeres às árvores e ao vento. Não são merecedores de meus maus pensamentos - que só assim são pois meu pai vê coração quando lhe convém. Maldito! Sempre fora tão diferente...

    Irrompe num choro seco nossa dama. Ouve-se apenas alguns reclames, xingamentos - são arrependimentos abafados. Pobre Carla! Além do que sofre dum mal raro nesses tempos - seu nome não é bíblico. As frustradas Marias Madalenas de cada esquina olham torto para cada Carla, Iolanda ou Jussara que encontram - especialmente as Jussaras, que são índias em sua maioria.

    Vou abusar de minha onisciência parcial de narrador - parcial, pois prefiro que Carla mantenha alguns segredos de mim. Afinal, de que valem palavras se tudo o que tivermos delas tornem-se previsões? Chega de mim!

    "Meu choro não se dá com razão, e sei disso! Minha revolta é muito mais contra mim, que fui estúpida. Quem manda não prever? Meu pai me disse tanto sobre o saber e sobre a ignorância que era de se esperar que eu pudesse enxergar mais longe!

    "Mas é meu pai! Ele, que me passou tanto, e agora me diz devo me prender a esses costumes medievais? Só me passou o que lhe era conveniente, aquele eupátrida dos ratos! Não, meu choro não é de birra, é de tristeza sim. Minha revolta é contra o que sempre fui rebelde!"

    - Você! - Grita nossa dama para um passante desavisado na rua. Um nobre, o passante. Vê-se em seu braço relógio d'ouro, sua cartola berra luxo, e sua capa traduz-se em ostentação. Há de se imaginar alguns pontos sobre ele, que, como é novo, vai para alguma festa, destas que ninguém gosta de comentar em palavras faladas, e poucos ousam escrever sobre - estas festas onde os nobres vão a uma casa com amigos seus, onde prostituas fantasiadas de damas olham ávidas por um relógio ou por jóias, e estão dispostas a cada chupada, atracada ou ópio que bastem para saírem de lá alguns tostões mais ricas.

    Vê-se mais do jovem: deve ter já uma pretendente. Alguma garota já lhe tem o nome prometido, e pelo olhar que lança à Carla, não é ela. O jovem vai viver de agricultor, ou bancário. Vai falir o que o pai construiu - mas quem sou pra prever? Ainda vou repetir o feito, mesmo repudiando-o. É natural do homem, creio, que tenta prever tudo, ler mentes e conhecer pessoas - ainda que nem o nome desta saibam. Somos burros audaciosos!

    "Você, seu pai, meu pai, meu irmão, meu avô. Todos canalhas hipócritas!", pensa nossa dama. "Sempre meu pai me pregou a diferença, me disse para sempre ser observadora, ter olhos de águia e ouvidos de morcego! Sempre me disse que a humildade era nosso maior vigor, mas que não tinha valor se não fosse compreendida, para isso deveria eu ser inteligente. E sou! Ele sabe que sou! E eu também... mas me afogo na ignorância do conjunto a cada vez que imagino que quanto mais posso ser.

    "Arre! Penso demais até quando estou triste. Deveria eu estar berrando maldizeres para meu pai, mas me falta coragem. Queria eu ser um homem agora! Ao menos estaria tranqüila de poder escolher aonde vão meus pés e quem minha boca haveria de beijar! Mas não, fico aqui, com meu colo para um filho, minhas mamas para dois, e minha vontade tornou-se irrelevante: meu destino é compromisso social."

    Estou me sentindo mal agora, de tanto escutar pensamento alheio. Mas há de se convir, que mente interessante nossa dama. Agora vejo uma diferença em sua beleza: além de ser Carla, se opõe a ser escrava dos banqueiros. Pobre do jovem passante se nossa dama tivesse um florete na mão e sangue frio nas veias! Não... ela trabalha com a razão, imagino que ela não veja o matar como solução. Mas calo meus pensamentos agora, previ novamente!

    Ela parece se levatar. E com ela nós também, correto? Vamos segui-la! Não! Para nós isso não é rude, estamos aqui como o vento, por todo lado, podendo ouvir tudo! E, fosse para ser, teríamos sido rudes o bastante por termos penetrado nos pensamentos da bela dama. Agora pressa! Não queremos que a porta se feche antes de nós.

    ***********************
     
  7. Goba

    Goba luszt

    Pessoal, obrigado pelos comentários. :)

    Eu estou tentando desenvolver uma narrativa aqui, pois há algum tempo que não o faço, a dissertações tomam meu tempo. Mas aqui está, espero que gostem. E obrigado de coração a quem leu, espero que continuem lendo, tendo em vista que pretendo acabar essa história e, após ela, terminar uma que comecei há tempos, a
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    Enfim, obrigado. :D
     
  8. Goba

    Goba luszt

    Segunda Nota

    Vê-se aqui a dificuldade de filosofar por outro. Morrem-me os sentidos ao falar da bela dama. Estremeço todo ao pesquisar seus pensamentos, e por certas vezes temo sua memória. Ai de mim!
     
  9. Masei®

    Masei® Usuário

    Meu tá muito foda... O melhor que eu já li aqui... E olha que eu sou chato pra burro hehe... Parabéns cara... Continue a história... To adorando o modo como o narrador entra na história e fica sendo até um personagem à parte... Mto bom... Tá de parabéns...
     
  10. Goba

    Goba luszt

    Carla tropeça em cada soluço que dá a caminho de seu quarto; não cumprimenta nem o pai em seu trote desesperado. Quer agora conversar com seus bichos europeus, sua escrivaninha das américas e sua penteadeira tupinambá empoeirada.

    "Quem me derá vivesse com os franceses! Parecem ser um povo tão mais sábio, tão mais inteligente! E lá casaria com duque ou carpinteiro, quem escolhesse! Afinal, não toca a mim mesmo apenas que gosto minha boca vai provar?

    "Quero eu que sejam os gostos dele. Ai me coro de pensar! Vou me pentear, coisa que não faço, e vou descer após limpas as lágrimas. Vou usar da mentira que compreendi existir e vou ser rebelde por amor, como nos livros bobos. Vou eu, por uma vez que seja, ser boba!"

    Passos largos, não, caro leitor? De uma lágrima a uma pitada de raiva e o surgimento da rebeldia. Me parece essa a trajetória de qualquer rebelião, o que as diferem em sucesso ou fracasso é vontade e planejamento. Espero sucesso pra nossa atriz, dado que no teatro que ela encena é preciso ter ação para nos entreter! Se houver fracasso, espero que se torne uma tragicomédia, e não uma tragédia grega, cheia de moral e religião.

    Estamos bem para um primeiro capítulo, não? Temos um nome, um passado, um motivo e uma promessa. Muita carga para um simples descansar na grama e uma caminhada até o quarto. Mas não revelei tudo, a caminhada é carregada de surpresas e reviravoltas.

    Mas não agora. Minha mão impaciente não se acalma em escrever, ela quer mais agora é tocar a minha triste esposa. Vou chorar junto a ela, mas em segredo. Chega de mim!
     
  11. Masei®

    Masei® Usuário

    Tá legal cara... Mas me responde uma coisa, o que significa Ergo Sum em latim?
     
  12. Evestar

    Evestar Usuário

    muito bom, olha que faz tempo que nao lei algo assim ta super show, parabens :grinlove:
     
  13. Goba

    Goba luszt

    Ergo sum significa "logo existo". Esse trecho foi imortalizado pela famosa máxima do Déscartes, cogito ergo sum, ou seja, "penso, logo existo." :)

    Obrigado pelos elogios, vou continuar o texto sim. :)
     
  14. Goba

    Goba luszt

    Nota Final do Capítulo Primeiro

    Carla, ó Carla. Magnânima mente alheia... penso na razão da sua existência em questão. Por que és tal fêmea tão revoltada em tempos de linhas retas? Tuas escolhas tão rarefeitas, mas teu desejo por respirar tão enorme!

    Temo agora o caminho da gramada varanda para o conspirador quarto. Quanto temor por esse saber! Creio que seja do tanto que me afastei do mundo... me intrui, isolei-me; a mim e à minha esposa. Queria eu ter revolta em mim o bastante para conspirar, como faz Carla!

    O próximo capítulo não ouso desbravar sóbrio - o absinto me fará companhia, espero ser o mais sincero possível com sua ajuda. Absinto que me tem acompanhado em alguns árduos momentos - não posso mais ver minha esposa sem estar sob seu efeito. Não aturo mais vê-la chorar! Ai de mim!

    Agora vou-me, preciso me esquecer da existência de Carla por um instante, para n'outro vivê-la como jamais vivi-me. Oxalá possa eu andar por essas matas!
     
  15. AneleH

    AneleH Usuário

    Nossa!! q historia otima! vc soube trabalhar com o narrador de forma expetacular, eu jah nao sei o q tenho mais vontade: conhecer a sina da jovem ou saber da vida do narrador.
    Além disso, a escrita combina com a historia, de um modo q nao sei descrever... Continue assim, pq eu estou curiosa pra ver cm a historia segue =)
     
  16. Goba

    Goba luszt

    Capítulo Segundo

    Há que o absinto surta algum efeito aqui... aqui nós juntos trabalhemos pela sobriedade das verdades de Carla! Que me doem minhas mágoas.

    Tenho bebido muito, me deixado estar sob o caminho curvo e atrapalhado das ervas amazônicas. Deixam-me menor, elas, e o tempo maior - para quem de mim cuida, ou para mim quando fico em cama de seda esperando pela dor de cabeça passar com o vômito... e vomito sempre lágrimas e verdades cruéis; um dia mato-me e à minha curvada esposa.

    O andar de Carla até seu quarto fora gracioso e pouco perturbado aos olhos desatentos dos árcades, religioso para os padres barrocos! Mas para nós, revolucionários d'alma e corpo, vemos que tal caminhada muda sua pessoa, suas oportunidades e suas crenças. Esses curtos passos de Carla deram-lhe uma razão a mais para seu futuro que desconhecemos, e uma razão a qual negligenciei em minha pueril observação de seu trajeto, em palavras anteriores.

    Muito em semelhança temos eu e Carla - nos dói o coração, afoba-nos os outros. Mas ainda tenho tentando achar donde vem a coragem da jovem, donde ela filosofara tal ímpeto. Perdi o meu há tanto, que me apenas me resguardo e tento olhar com indiferença ao que me fez fraco e indiferente à felicidade. Não a busco e nem vivo ao lado dessa fêmea... parece a mim que ela me amaldiçoa a cada engolida amarga de palavras. Estou tão só!

    Me inquieta essas revelações sobre meu ser - mas afinal, escrevo para mim mesmo, que eu tente me encontrar, então! Mas por ora, vou à intenção de caminhar de Carla, que se encontra com a primeira característica que disse eu e ela termos em comum - dói, em Carla, o coração.

    ******************


    Se alguém ainda atentar pra esse texto, me desculpem a demora de quase dois meses para trazer uma continuação. Não foi por falta de tempo, mas por falta de vontade que não continuei esse texto - ou qualquer outro. Mas enfim, de volta à ativa, espero que gostem. :)
     
  17. Goba

    Goba luszt

    Primeira Nota

    Falha-me a crença de que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Eu já tentei encontrar alma de maior grandeza que a minha, e tudo que enxergo são essas eupátridas ratazanas que insistem em fazer a própria vida e a de outrem uma miséria. Penso se não sou eu o chefe delas...

    Tenho bebido cada vez mais, Carla já não me traz brilho algum à vida. Talvez eu passe a falar dos pássaros, que nada tramam, para passar o tempo. Talvez eu passe a falar da morte que eu espero que esteja me cercando. O fulgor da juventude já não é mais meu, mas a rotina da velhice que me cerca não me basta... estou sendo redundante comigo mesmo.

    Basta! Leiam a bula da vida de outrem, seus crápulas! Nesta escrevo para aqueles que sofrem desse câncer que se chama consciência da vida. Se é por sadismo que vocês aqui estão, espero que fujam... se ficarem, então riam, desgraçados. O que posso contra vocês? Minha única força são lamúrias inconsideráveis... morram todos! Mas deixe-me ir à frente nessa fila.

    Que o ópio me cure...
     

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