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[L][Gaara] [Hybrid]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Malaman, 3 Jun 2007.

  1. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    Uma história que eu tinha escrito á muito tempo que está completa mas é muito comprida...
    Espero que gostem, nao vou postar tudo de seguida para uma questao de maior visiblidade...
    Posto um capitulo, daqui a umas horas outro, a noite outro e amanha posto o resto ta bom?
    aqui vaI:

    Primeira parte

    Renascer

    O tempo após a morte parece passar mais devagar. A alma de Selenee vaga pelos campos de um novo lugar, procurando pelos pais, pelas moças que tentaram protegê-las, pelos irmãos. Mas se alegra ao final de cada dia de jornada que não os encontra. Se estivessem vivos, quem sabe teriam se encontrado e estariam felizes, a salvo em algum lugar longe dali. Ela sabia que a essa altura já deviam estar bem crescidos.
    Certa vez, descansando debaixo de uma das árvores, faltou-lhe o ar para respirar. Mais uma vez fora atirada para as sombras. E lá ficou por mais um tempo, tendo parte de suas memórias apagadas. A alma ficou sob duas luzes; uma azul e outra vermelha, recebendo todo o poder que tinham. A fase de materialização deu-se início, criando um corpo capaz de aprender rápido as habilidades de luta e sobreviver a condições hostis.
    As mesmas sombras que ocultam as criaturas da noite trouxeram Selenee de volta à vida,300 anos depois. Ela havia avançado apenas três anos em sua morte. Agora, aos dezoito, estava com um corpo bem formado e um pouco mais alta. O rosto afinara e seu olhar, apesar de confuso, tinha traços assassinos. Vagos flashes de memória passavam pela sua cabeça. Do que tinha certeza era seu nome. Sua roupa era apenas a que tinha no corpo: uma capa grossa, com capuz e apenas um botão na cintura, abria-se deixando á mostra as pernas cobertas por uma calça de barras que cobriam os pés, calçados com uma sapatilha confortável e de couro reluzente, quase metálico. A blusa cobria até as costas de suas mãos e tinha um reforço extra nos ombros, no peito e na gola, alta e presa por um zíper. Todo o seu traje era preto com pequenos floreios de um roxo tão escuro que eram imperceptíveis.
    Saiu do beco em que se encontrava e vagou pelas ruas da cidade, até chegar a um comerciante. Ele lhe ofereceu um manual e mostrou as armas que tinha para ela. Algumas moedas tilintavam em seu bolso, mas o cortês vendedor lhe disse que precisaria trabalhar no cemitério da cidade, em uma vila ali perto, para conseguir um pouco mais. Os pequenos punhais pareciam suplicar para que se apressasse e pudesse tê-los logo. Agradeceu ao comerciante e, ao invés de ir até a vila, foi em uma loja ao lado, de onde saíam grunhidos grotescos e latidos. Vinham das gárgulas e cães enormes de dentro das jaulas, rosnando e batendo as patas contra as vigas de ferro impacientemente. O vendedor, também muito educado, mostrou-lhe as diferentes raças de guardas, úteis em combates. Mas o problema que enfrentara com as armas era o mesmo com os animais; faltava-lhe dinheiro.
    Para chegar à vila mencionada, era preciso muito cuidado para não se perder. As ruas longe da avenida principal confundiam-se devido à arquitetura tão uniformizada.
    Chegou então ao cemitério, conversou com um funcionário por ali e este a empregou como coveiro. Trabalharia a noite toda e receberia um ordenado de 40 moedas de ouro. Selenee concordou e começou a trabalhar. Ao fim do expediente, o dia começava a despontar. Dava sinais de ser nublado. Negociou mais um período com os funcionários e receberia somente á noite.
    Uma nova vida começara para Selenee.


     
  2. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    Re: [L][Gaara] Hybrid - Primeira parte: Renascer

    O esconderijo e o primeiro ataque

    Ao cair daquela noite, recebeu o ordenado, cobriu o rosto com o capuz da capa e foi ao comerciante. Pediu que alguém levasse o material para construção de um esconderijo para ela até a área escolhida.
    Ao chegarem a um campo generosamente clareado pela luz da lua, entregou o dinheiro ao vendedor e este deixou todo o material ali. Selenee teria que suar muito até que tivesse uma casa pronta.
    Seguiu todas as regras do manual, construindo uma casinha de um cômodo só, mas de paredes firmes. Na cerca, prendeu com força as tábuas de madeira umas ás outras e colocou longas lanças de ferro a cada dois metros de cerca.
    A escuridão que antecede o amanhecer já desaparecia, com a débil luz de mais um dia nublado. E ainda faltavam os móveis e as plantas que esconderiam a casa...Selenee já estava cansada de tanto trabalhar. Seu estômago doía; não comera nada desde que chegara àquele estranho lugar. Os olhos já eram contornados por profundas olheiras.
    - Olá! – gritou uma voz masculina.
    Voltou-se para ver quem era e deparou-se com um jovem moço, vestido com um sobretudo preto. Era muito bonito e parecia gentil.
    - Nossa, há quanto tempo não dorme? Não tem ninguém para ajudá-la a construir sua casa? Deixe-me ajudá-la.
    - Ah, claro... – respondeu esta. Mas desconfiou da gentileza do homem.
    - Qual seu nome?
    - Selenee.
    - Ah... – disse agora com uma certa malícia em seu tom – É um belo nome.
    “Que óbvio” pensou Selenee, com o orgulho que é sua mais forte característica.
    - O meu é Garnel. Muito prazer. – continuou.
    Garnel ajudou-a a fazer todos os móveis, plantar as árvores e até mesmo construiu uma adega. Arranjou-lhe tecidos escuros para servirem de cortina e trancas fortes para as portas e janelas. E durante todo o dia não parou de fazer perguntas sobre ela, além de falar sobre ele mesmo também. Findo o trabalho, ambos observaram a obra.
    - Muito obrigada, senhor Garnel. – agradeceu Selenee abaixando a cabeça em uma leve reverência.
    - Ora, deixe disso...Pode me chamar de Garnel mesmo. – cortejou, aproximando-se da menina e pondo as mãos sobre sua cintura – Você é muito bonita, sabe...
    Selenee pôde sentir seu bafejar em seu pescoço. Alguma coisa pontuda a estava apertando na cintura. Garras arranharam-na e ela revidou ao ferimento com um chute no abdômen do outro. Ao afastar-se, arranhou o pescoço nos dentes que estavam prontos a cravarem-se em sua carne. E assustou-se ao ver o belo moço transformado em uma criatura de aparência canina. “Mas nem por isso deixa de ser belo” pensou.
    - Ora, ora! Que garota arisca! Não vai me retribuir pela minha ajuda? – ameaçou, puxando um punhal.
    Selenee recuou. Estava desprovida de armas, ferida e assustada com aquela aparição. Algo palpitava em seu peito. Um grito preso na garganta não resistiu e foi solto; e com ele, caninos enormes e um olhar flamejante.
    - Hein? Você não é humana! – exclamou o homem – Vampiro maldito!
    Garnel avançou e ela conseguiu se esquivar. Ele tornou a atacar, mas dessa vez, ao invés de somente esquivar, Selenee também atacou com seus dentes, perfurando o pescoço peludo do lobisomem. Ele ainda tentou acertá-la nas costas com o punhal, mas ela bloqueou o ataque, tomou-lhe a arma das mãos e cravou-a na nuca, bem na base do cérebro. O corpo imediatamente tornou-se mais pesado.
    Selenee arrastou o cadáver para dentro da casa, deixando uma trilha de sangue. Os lábios ainda estavam sujos com o sangue amargo. Com cuidado, limpou as roupas e tratou dos ferimentos. Atrás da casa, preparou uma cova funda para depositar o corpo. Antes que o jogasse lá, roubou-lhe todos os pertences; algumas moedas de ouro e o punhal que usara. Cobriu-o com terra e, para ter certeza que não o removessem, plantou a muda de árvore mais forte sobre a cova.
    Tinha agora um punhal e um pouco mais de ouro. O esconderijo estava pronto e o sangue que engoliu no combate serviu para restaurar-lhe as forças. Já anoitecia e ela precisava ir trabalhar no cemitério.
    Cobrindo o rosto com o capuz, trancou todas as portas e janelas e caminhou para a cidade. Ao chegar no local de trabalho, um dos funcionários ofereceu-lhe um cargo mais alto. Ela aceitou sem problemas, afinal, receberia o dobro.
    Mais força, mais agilidade, capacidade de defesa e resistência pareciam despertar em sua alma. No entanto, mal sabia que acabava de dar início ao que seria um período de muitas preocupações...
     
  3. Saphyra Horyon

    Saphyra Horyon кαιsεяιи dεs ωαssεяs

    Re: [L][Gaara] Hybrid - Primeira parte: Renascer

    Legal o começo da história... mais continuo achando muito parecido com o flme Anjos da Noite, tem até uma Selene nesse filme, tá realmente muito parecido com o filme, vampira, sem família, fleshes de memória, muito estranho....
     
  4. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    Re: [L][Gaara] Hybrid - Primeira parte: Renascer

    Inocente

    - Senhor, o sinal de Garnel se perdeu. – disse uma mulher.
    - Que traços temos no brasão dele? – perguntou um homem sem virar-se para ela.
    - Não conseguimos identificar. É uma energia tão fraca quanto a de um inseto, mas com leve aura de vampiro. Trouxe o brasão para que possa sentí-la.
    Estavam no castelo do clã Garav, bem afastado da cidade. A moça entregou-lhe o brasão e seu senhor observou-o de todos os ângulos, cheirou e apalpou. De fato aquela era uma energia estranha...
    - Garnel tinha um punhal. Se quem o matou está na cidade, deve ter pegado sua arma. Leve com vocês a jóia e encontre quem está com itens seus. Recupere-os e mate quem os carregava, se for um humano. Se for um vampiro, guarde-lhe o rosto que o surpreenderemos ao anoitecer. – ordenou, devolvendo com cuidado o brasão. Era um pouco difícil de acreditar que um lobisomem do porte de Garnel tenha sido morto por uma energia tão branda...

    ---

    Selenee achava incrível como eram escuros os dias, mesmo quando, se não houvesse nuvens, o sol deveria estar a pino.
    Quando terminou o serviço, ao invés de programar mais um período, dirigiu-se ao comerciante, para ver se haviam mantimentos e armadilhas para caça. A esta hora, o estabelecimento estava cheio de pessoas que, como ela, cobriam o rosto com os capuzes.
    - Ah, bom dia, senhorita! – saudou o comerciante – Conseguiu construir a casa?
    - Sim, falta agora enchê-la com mantimentos. – respondeu Selenee, passando a lista de compras.
    Este era outro que queria saber sobre ela também. Enquanto escolhia os produtos a colocar na sacola, entrevistava-lhe:
    - Você já tem idade para ser uma boa predadora, mas parece ser iniciante nas técnicas de caça...É estrangeira?
    Inventando uma desculpa rápida e medindo o que tinha que dizer, respondia:
    - Vivia em regiões montanhosas com minha família. Longe de qualquer civilização, o que eu precisava saber era apenas o básico para viver nas florestas...
    - Por que veio para esta cidade, então?
    - Fomos encontrados e somente eu consegui fugir. No caminho, ouvi falar deste lugar, então vim para cá.
    - Então terá que se cuidar e ser adotada logo por um clã. É verdade que aqui os humanos não importunam os vampiros e os lobisomens, mas há uma espécie de...guerra entre essas duas raças.
    Aquilo de certa forma surpreendeu Selenee. E também explicou o porque de Garnel tê-la chamado de “vampiro maldito”. O comerciante continuou:
    - Já há alguns anos que não ouvimos falar de mais algum atentado contra qualquer uma dessas raças. Há desafios para combates o tempo inteiro, mas sempre um dos desafiados acaba fugindo...Corre um rumor de que os clãs mais fortes estão se preparando para uma guerra maior, mas agradecemos enquanto há essa paz. São setenta moedas.
    - Dê-me um drinque que esquente...Eu sinceramente estranho esse clima de vocês.
    Selenee pegou a bebida, pagou as compras e sentou-se em uma das mesas perto da lareira. Tirou da sacola um dos produtos que continha um pequeno livro de receitas e começou a estudar aquela que parecia mais fácil de fazer.
    Nisto, a porta do estabelecimento abriu violentamente e, juntamente com a lufada de vento frio, um impulso chegou aos braços de Selenee. Pegou o punhal no bolso de seu sobretudo e atirou-o ao fogo. Preparou o livro e um olhar mais desinteressado.
    Os sujeitos que entraram lançavam um olhar atento a todos no bar, mas não foram capazes de identificar os movimentos de uma bela jovem sentada perto da lareira. O pequeno brasão nas mãos de um dos vampiros cintilou as safiras por um momento, indicando que alguém ali teve as mãos sujas com o sangue de Garnel e seus itens deveriam estar com essa pessoa.
    Os três homens passavam olhando para cada um dos presentes, checando para ver se o brasão cintilava com mais força. Ao chegar perto de Selenee, o olhar dos três voltaram-se para as feições delicadas e inocentes da mulher. A luz do brasão intensificou-se, mas ainda era débil.
    - Senhorita... – disse um.
    Selenee levantou o olhar, controlando os sentidos e as menores partículas de seu corpo, evitando que os caninos despontassem e os olhos se tornassem vermelhos. A energia que sentiram ao verem o lânguido rosto da menina foi tanta que até mesmo as safiras do brasão que seguravam se apagaram. Os cabelos negros em ondas faziam uma moldura à face inocente e jovem. O líder daquele grupo era o que mais se afetou com esse poder.
    Deixou seu pequeno livro de receitas cair ao chão. O chefe avançou e apanhou-o, devolvendo com cuidado. Propositalmente tocou sua mão, forte, mas graciosa. Não enrubesceu, pois seu coração era frio, alheio aos sinais do amor.
    - Obrigada, senhor. Mas...desejam algo de mim? – perguntou em um tom de voz tão suave que parecia cantar.
    - Estávamos fazendo uma busca apenas. Perdoe-nos se a incomodamos. – desculpou-se o homem.
    Saíram do bar, os dois que ficaram mais atrás rindo de seu líder, comentando como ficara besta na presença daquela menina.
    - Ha, ha! Senhor Heru, limpe os cantos de seus lábios, pois ainda está babando!
    - Ora... vão me dizer que não a acham bela? – replicou o homem enquanto montava em seu cavalo.
    - É sim. Mas falta-lhe muito para chegar aos pés das que temos em nosso clã. E também é fraca. Foi difícil encontrar a aura de poder nela. E encontrou algum brasão de família em seus trajes? Nenhum. Nunca será sangue-puro como nós. Sinceramente, senhor, não acho que ela é digna de tanta admiração assim.
    - Quem disse que me interesso para um relacionamento sério? É mais por diversão... – riu Heru.
    Selenee realmente não era bela como as moças dos clãs. Em relação a elas, era até mesmo feia. Apesar de ser alheia ao amor, soube ferir o coração de um homem com a arma comum a toda fêmea: a sedução. E nem era essa sua intenção...
    Mas o amor é algo quem nem mesmo criaturas como vampiros e lobisomens podem escapar. E ele é como erva daninha, que cresce em qualquer lugar, de qualquer jeito e por qualquer coisa.
     
  5. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    Re: [L][Gaara] Hybrid - Primeira parte: Renascer

    Um rosto familiar

    Depois do acontecimento no bar, Selenee voltou a estar desarmada. Naquele instante em que jogara o punhal ao fogo, sabia que estaria se livrando de um problema. Ou pelo menos adiando...Mesmo que o fogo não o derretesse, seria capaz de apagar as evidências do assassinato que cometera. A prova estava enterrada, com uma árvore prestes a colocar sua raízes nas entranhas podres.
    Deixou os mantimentos na adega e correu para preparar as armadilhas em uma floresta perto dali. Conseguiria apenas animais pequenos, que coubessem dentro da caixa de metal que enterrava e cobria com folhas.
    Ao voltar para casa, já anoitecia. O vento frio agitava a barra de seu sobretudo e as longas madeixas negras. A luz da lua fazia a grama parecer fios de prata dançantes. Selenee ficou admirando essa paisagem, sentindo o cheiro bom e frio da noite. Distraída assim, fora surpreendida por algo que lhe cortara o ombro.
    Das sombras da floresta surgiram cinco criaturas com os rostos cobertos por capuzes, com espadas e clavas em suas mãos.
    - Lute conosco, cão desprezível!
    Selenee não estava entendendo.
    - Mas o que...
    - Cale-se! – gritou uma voz feminina, abaixando o capuz – Lobisomens fracos como você não devem jamais erguer a voz para os nobres do clã Pure Blood!
    - Lobisomem? Eu?
    - Não se faça de desentendida! Nós a vimos conversar com aqueles oficiais do Canine.
    As coisas começavam a clarear.
    - E me seguiram até aqui? Que coisa!
    - Agora lute conosco!
    - Ei ei...Eu sou só uma e vocês são bem mais fortes do que eu.
    - Sem seus protetores aqui você não tem coragem, não é? Lobisomem covarde!
    Confundiu-se novamente. Lobisomem? Mas o lobisomem que matara a chamara de vampiro...
    - Covardes são vocês. Eu já disse que não dou conta dos cinco ao mesmo tempo. Nem mesmo de um só eu acho...
    - Não tente escapar! Lute!
    - Mas que irritantes vocês são! Tudo bem, eu luto! – respondeu Selenee, já sem paciência.
    A mulher que gritara com ela partiu para o ataque, uma espada empunhada. Sentiu seus braços e pernas ficarem prontos para contra-atacar. Mas havia algo em sua garganta...uma vontade extrema de gritar, como se seu grito fosse afugentar os inimigos. Então respirou fundo e soltou um uivo longo, melodioso, agudo. Ainda tinha muito fôlego para continuar, então o fez; mas esse uivo estava latejando nos ouvidos de seus adversários, deixando-os tontos e confusos. Quando terminou, tomou outra lufada de ar, olhou em sua volta e partiu para o ataque. Os adversários, desnorteados, mal podiam ver de que direção vinha a menina. Mesmo desarmada pôde derrotar os cinco inimigos. Já no chão, inconscientes, Selenee se preparou para dar o golpe mortal em cada um.
    A espada já erguida em suas mãos subitamente parou. Havia alguém vindo naquela direção. Podia-se ouvir o tropel de cavalos. Seus ouvidos sensíveis indicavam que não estavam tão perto, mas seu instinto ordenou que se escondesse e deixasse aquelas pessoas ali. Correu então para a floresta e subiu em uma árvore, de modo que pudesse ver e não ser vista.
    Pouco tempo depois, cavalos negros, fortes, cheios de adereços vermelhos, pararam ali. Quem estava montado no animal mais á frente desceu e abaixou o capuz. Ao ver o rosto da pessoa, Selenee quase caiu do galho onde estava. Olhar firme, cabelos negros, longos e lisos e feições delicadas, aquela mulher era muito familiar...Conversava com seu grupo:
    - Que aura estranha! É tão fraca que mal posso sentir...
    - Mas aquele uivo não parecia ser de um lobisomem fraco. Estou com os ouvidos latejantes até agora...
    - Vocês ouviram também? Que força! Chega a intimidar-me!
    - Senhorita Aina, agora me assusta! Como pode uma vampiresa de seu nível sentir-se assustado com um simples uivo?
    - Ele reflete o poder da alma de cada lobisomem, você já devia ter estudado isso, Adam. Além de ser uma arma terrível. Se ele for tão forte como o que ouvimos agora, atordoa e confunde os oponentes. Vejo que foi isso que aconteceu com esses oficiais encrenqueiros...
    - O clã Pure Blood deveria vigiar melhor seus oficiais. Só por que são sangues-puros não quer dizer que podem sair atacando lobisomens e desafiando-os para um covarde duelo de vários contra um!
    - Mas eles escolhem sempre aquele que parecer mais fraco. Não entendo como não sentiram a aura deste que enfrentaram.
    - E eu também não estou quero encontrá-lo. Se essa criatura abalou a senhorita, imagino o que fará comigo!
    Do alto da árvore, Selenee lutava para não cair. O rosto daquela mulher estava causando-lhe uma revolução em sua mente. Ela sabia que já a havia visto, mas se tentava lembrar onde, quando e como, sua cabeça doía e imagens passavam tão rápido por sua cabeça que ela ficava atordoada. Um aperto no coração trazia-lhe o sentimento de culpa e lágrimas nos olhos, algo que lutava para não deixar sair.
    Esperou que carregassem os oficiais inconscientes e estivessem bem longe para poder voltar para casa. Não se sentia bem...
     
  6. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    Re: [L][Gaara] Hybrid - Primeira parte: Renascer

    Segundo assalto
    Sentada sobre a cama, o olhar fixo em um ponto no chão, Selenee refletia sobre os acontecimentos daquele dia e seu passado obscuro. Tentava se conter e não chorar, mas seu peito doía e o ar lhe faltava.
    Despiu-se, ficando apenas com a roupa de baixo e entrou debaixo das cobertas. Sabia que naquela noite o rosto da mulher a assombraria em pesadelos que nunca tivera.
    No dia seguinte, saiu cedo para verificar as armadilhas. Tivera sorte, pois em quase todas havia pelo menos uma lebre. Cortou a carne em pedaços finos, secou-as, salgou e colocou-as em um barril na adega. Os restos foram usados como adubo na hora em que foi cuidar das árvores em volta da casa.
    Ainda estava escuro quando voltou da floresta para pegar lenha para a lareira. Tomou seu desjejum, amarrou as madeixas em duas tranças atrás da orelha com tiras do tecido que sobrou das cortinas, pegou a capa e saiu. Não para ir ao cemitério, mas para fazer um alongamento e treinar algumas habilidades de luta desarmada. Na noite passada resolveu que treinaria duro para poder se defender melhor, pois sabia que havia um poder estranho em seu interior, mas não poderia sempre depender dele. Com saltos, piruetas, chutes e socos a inimigos invisíveis, Selenee mostrou ter uma agilidade incrível.
    Era rápida e graciosa em seus golpes, acabando por oferecer um espetáculo a Heru, o oficial do dia anterior. Passava por ali a cavalo e ouviu o som de punhos cortando o ar. Desmontou do animal, pulou a cerca baixa e foi até a parte de trás da casa, onde a menina treinava. Embora houvesse desdenhado dela um dia antes, hoje ainda a achava diferente das outras garotas que conhecia.
    - Bom dia, senhorita! – disse, educadamente.
    Selenee assustou-se, mas ofereceu a mão ao aperto.
    - Bom dia, senhor. Assustou-me...não deveria ter entrado sem avisar.
    O homem, ao invés de apertar a mão como mandam as cordialidades, tocou-a de leve com seus lábios.
    - Perdoe-me a imprudência, mas ouvi seus punhos cortando o ar. Resolvi entrar para ver o que era... Já que estou aqui, não quer que eu a leve para a cidade?
    - Agradeço, se não for incômodo.
    O forte cavalo de Heru mal sentiu o peso de mais um em seu lombo. Ao seu lado, corria um cão preto, com dentes afiados e um olhar que brilhava anormalmente em tons de vermelho. Durante o caminho, conversaram bastante, cada um falando sobre sua vida. Selenee ainda mantinha a história que contara ao comerciante, mesmo sentindo que poderia confiar naquele homem belo, cujos cabelos negros esvoaçavam em uma franja que cobria seu olho direito.
    - Parece ser novinha. Quantos anos, senhorita?
    - Dezoito apenas. E o senhor?
    - Exatamente 300 anos a mais que você! – riu.
    - Não minta sua idade...
    - Mas é verdade! Esse negócio de imortalidade, no início dos tempos, era algo que somente os vampiros tinham direito. Mas nós o conseguimos também.
    - O senhor me faz parecer um bebê.
    - Posso ser séculos mais velho, mas há outros, com mais de milênios. E se me permitir, podemos deixar de lado as cordialidades? Não acho que essa diferença de anos seja motivo para tanta formalidade!
    - Bem, como quiser.
    Chegaram á cidade e Heru deixou Selenee em frente ao cemitério, partindo logo.
    No intervalo entre um período e outro, voltou ao bar para tomar algo. E lá foi o cenário de mais uma preocupação para a menina, pois ouviu em uma mesa próxima as últimas dos clãs de vampiros. Pelo o que pôde entender, havia algum lobisomem de energia insana solto por aí e atacando vampiros incautos. As primeiras vítimas foram cinco oficiais da Pure Blood, que estão inconscientes ainda. Outra novidade é que Aina, uma nobre vampiresa do clã Seregi, estava de passagem por ali, para conhecer as filiais do clã. Era a sucessora do atual líder e conhecida por sua extrema força, agilidade e habilidade em combates.
    Voltou ao trabalho pensando no que ouvira. Distraída em seus pensamentos, ficou assim o dia inteiro, questionando a própria vida. Não lembrava de nada anterior a dois dias atrás, por que é que sabia tanto sem ao menos ter lembrança de alguma citação vista em algum livro, por que era tão forte e ágil sem se lembrar de algum treinamento, por que tinha tanto poder e desconhecia-os por completo. E o que mais a confundia era não saber se era vampiro ou lobisomem. Tinha caninos avantajados e sede de sangue de vez em quando, mas uivara tão forte quanto um lobisomem ao limite de sua força.
    Com o rosto coberto pela sombra do capuz, atravessou o portão do cemitério ao cair da noite, mas não tomou a direção que levaria aos campos onde estava sua casa. Decidiu voltar ao beco onde se lembra de ter saído. Talvez encontrasse algo que a ajudasse a lembrar seu passado ou dar alguma pista.
    As ruas daquela cidade eram realmente escuras. A fraca luz dos lampiões não eram o suficiente, mas Selenee não se importava com isso. Apenas achava ruim os olhares voltados em sua direção. “Devo estar entre os humanos...” pensou. Apenas procurava alguma referência ao beco e não viu que agora vagava por uma rua deserta, casas frias e apagadas.
    Finalmente encontrou. Estreito e praticamente invisível, Selenee adentrou as sombras, tateando, farejando e aguçando todos os sentidos, á procura de algo que tivesse uma energia anormal. Atrás de algumas ripas de madeira, uma fraca luz brilhou. Ao ver o que era, deparou-se com cacos de um espelho.
    - Malditos! – gritou uma voz conhecida e Selenee viu pelos vidros no chão o reflexo de um vulto correndo seguido por brilhos metálicos.
    Correu mais adentro das sombras até o final do beco. Desceu em uma rua um pouco mais clara, mas mais apagada que as outras. Cheiro de sangue pairava no ar. O som do vidro sendo esmigalhado sob seus pés mostrava que houvera luta ali. Mais adiante pôde ver os vultos que se mexiam rapidamente e o cintilar de lâminas. Apertou os olhos e viu que pelo menos vinte criaturas tentavam atacar uma apenas, no centro de toda aquela bagunça. Desviava agilmente, mas mostrava estar ferida. Mesmo transformado, Heru foi reconhecido por Selenee.
    Desarmada, mas determinada, cobriu o rosto novamente,desta vez fechando a gola de sua blusa com força. Prostrou-se sobre o lobisomem, golpeando os que tentavam se aproximar. Roubou uma lança no contra-ataque e girou-a sobre a cabeça, rasgando a pele dos inimigos e fazendo chover sangue sobre seu rosto assassino. Heru, deitado, apenas assistia ao segundo espetáculo feito por aquela jovem. Em sua admiração, não percebeu dois punhais que zuniram e cravaram no ventre gracioso da atriz. Ela perdeu o equilíbrio e ajoelhou-se, com uma chuva de vultos negros a cair-lhe sobre o corpo, com dentes e lâminas. Tentava desviar, mas acabavam acertando-a por algum lado. Com raiva e aquela mesma energia a palpitar em sua alma, sentiu que seu tronco alongava, o rosto começava a trazer-se para frente em um focinho e as mãos viraram patas enormes, com garras mortais. Um olhar à lua que lhe banhava em prata, e o uivo temido pelos vampiros.
    A roupa rasgou-se, mostrando a silhueta bem formada de uma loba. Seu uivo melodioso ecoou nos ouvidos dos inimigos, acovardando-os.
    - É ele! Fujam! – gritou um.
    De repente a rua tornou-se vazia. Selenee, já sem forças, voltava à forma humana. Estava gravemente ferida. Desmaiou, mergulhando em um descanso merecido, mas fatal.. Heru, que também já voltava ao normal, cobriu a menina com sua capa, pegou seus pertences e colocou-a cuidadosamente no lombo do cavalo que escondera ali.
    “Agüente firme”
     
  7. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    Re: [L][Gaara] Hybrid - Primeira parte: Renascer

    Acolhida

    Quando acordou, já estava deitada sobre uma cama confortável, aquecida pelo fogo da lareira. Estava consciente, mas não abriu os olhos. Apenas ouviu a conversa:
    - Pare de brincar comigo, Heru. – dizia uma voz masculina.
    - Eu não estou brincando! É verdade!
    - Você nunca foi de brincadeiras...
    - Por que não acreditam?
    Uma voz feminina e irritada cortou a conversa:
    - Com tantos cômodos nesta mansão por que escolheram discutir aqui? Deixem a criança dormir!
    Ao que pareceu, a mulher empurrou os dois para fora e fechou a porta sem fazer barulho. Nisso, Selenee abriu os olhos para ver onde estava.
    Era um quarto grande, decorado com um papel de parede azul-escuro. A cama era de um dossel com mantas pesadas e escuras. Estavam amarradas na cabeceira da cama, onde havia uma cadeira e uma bacia com alguma coisa vermelha dentro. Era mais líquida que o sangue, lembrava muito um rubi derretido...
    - Ah, você acordou! – disse uma voz delicada. A mulher que colocava a bacia em uma escrivaninha ao lado era muito bonita. Aparentava ter seus vinte e cinco anos, cabelos castanhos e olhos negros, grandes e atentos. Alta e com um talhe perfeito, no qual uma fita preta estava fortemente presa, fazendo a cintura de um vestido também azul-escuro que iam até acima de seus joelhos. Uma aura materna a envolvia no modo de falar. Continuou, enquanto molhava toalhas brancas sobre a solução vermelha e passava sobre as ataduras em seu corpo:
    - Você é forte mesmo! Veio quase morta para cá. Ainda bem que nossos médicos são bons...Meu irmão contou-me sobre a batalha. Realmente, depois de lutar contra uma dúzia de vampiros enfurecidos, se voltasse ilesa eu acharia muito estranho! E que repouso teve! Dormiu por um dia inteiro. Ah, me desculpe. Meu nome é Clara. O seu é Selenee, não? Heru não parou de falar de você!
    Confusa com tanto falatório, Selenee tentou sentar-se. Não conseguiu devido à dor intensa que tomou suas costas. Os cortes que fizera pareciam abrir ao menor movimento. Deixando de lado o pano ensangüentado, Clara apoiou o pescoço da menina em suas mãos e com o braço direito levantou suas pernas, arrumando os travesseiros em suas costas. Estava bem melhor. Agradeceu em um “obrigada” rouco.
    - Se repousar, em poucas horas os ferimentos já não doerão mais. Precisa de mais dois dias para estar completamente curada.
    Nisso, a porta abriu vagarosamente. Um homem de aspecto elegante e orgulhoso apareceu. Os olhos eram tão escuros quanto os cabelos bem penteados. Vestia uma calça social e uma camisa de mangas longas. O sobretudo preto molhado mostrava que acabara de chegar e não esperou para ver a nova hóspede. Aproximou-se de Selenee e iniciou a conversa em tom amigável:
    - Boa noite, minha jovem. Meu nome é Dion, sou o líder desta sub-sede do clã Canine.
    - Muito prazer, senhor. Sou Selenee.
    - Ouvi muito de você ao chegar aqui. Parece que andou mobilizando meu edifício inteiro...Mas isso não vem ao caso. Onde está sua família?
    Selenee recontou a história usada para despistar o comerciante.
    - Bem...eu a chamaria para jantar com todos os membros do clã, mas vejo que precisa de repouso. Clara, trate bem de nossa nova hóspede. – disse antes de sair.
    - Sim, senhor.
    A chuva lá fora tamborilava no vidro da janela, parecendo cantar. Clara não parava de aplicar aquela solução em seus ferimentos. Para seu jantar, trouxeram uma sopa e aroma leve e delicioso. Heru veio logo depois de seu jantar. Pelo visto a bebida ali era abundante, pois veio falar-lhe com um bafo de álcool. Clara ralhou com ele por estar bêbado e estar incomodando a menina. Mas ele replicava de um jeito tão engraçado, trocando as palavras e cambaleando, que Selenee achava isso muito divertido. Pela primeira vez, riu como uma criança.

    ---

    Na manhã seguinte, acordou antes que todos. Seus ferimentos não doíam mais. Seu sono fora tranqüilo, sem sonhos ou pesadelos.
    Abriu as cortinas e deparou-se com um amanhecer nublado, onde a luz da aurora ainda fazia vermelhas as nuvens que pairavam. Clara dormia tranqüilamente em um colchão ao seu lado. Das chamas da lareira restavam apenas as brasas incandescentes.
    Enrolou-se na manta para proteger do frio o peito enfaixado e saiu. Percorreu os corredores luxuosos, impecavelmente limpos, portas de maçanetas polidas, tapetes azuis combinando com o papel de parede. Desceu a escadaria que dava para o saguão de entrada. Ali, decidiu tomar o corredor que passava ao lado do pátio. O jardim com plantas escuras era rodeado por rústicos bancos de pedra. Vale lembrar que o metabolismo dos vegetais ali não era feito por luz solar, e sim por uma outra espécie de energia, carregada, mas nem por isso pesada. Abriu o pequeno portão e sentou-se em um dos bancos.
    - Parece que mais alguém gosta de acordar cedo! – exclamou uma voz sonolenta. Era Heru – Tem que voltar antes que Clara acorde e veja que não está lá. Ela é muito preocupada...
    - Sua irmã tem ares de mãe! – gracejou Selenee.
    - Ela não é minha irmã. Se pudesse chamá-la de “mãe”, eu o faria.
    - Por que não pode?
    - Eu só fui adotado por ela. Clara guarda um forte sentimento pelo filho, morto há oitocentos anos. Para ela, o único filho que pode ter era esse.
    - E seus pais, estão onde?
    - Eram humanos.
    Diante da dúvida estampada no rosto da menina, explicou:
    - Eu nasci humano, mas com forte inclinação para esse lado de lobisomens. Em todas as noites que ouvia seus uivos, queria saber de onde vinham, pois pareciam me chamar. Meus pais sempre se mantiveram longe de mim. Tinha meus onze anos quando um vampiro entrou em casa e nos atacou. Eu consegui me esconder, mas presenciei a morte de meus pais...Se Dion não tivesse chegado, teria me matado também. Acho que essa inclinação que tinha podia ser sentida, então fui acolhido pelo clã. O que foi vantajoso...não é fácil ser humano em um mundo como este. Eles são os mais indefesos.
    - Não sente falta de seus pais?
    - Não sei...Eles nunca fizeram nada por mim até sermos atacados. A única, primeira e última demonstração de amor que tive foi o quanto meu pai lutou contra o vampiro e como minha mãe gritava para não me levarem.
    Ficaram em silêncio. Selenee sentia uma pressão em seu peito...Lágrimas queriam sair. A história de Heru trouxera-lhe à alma uma tristeza amarga, como se tivesse perdido algo importante. Não pôde controlar duas lágrimas fujonas. Escorriam uma de cada olho, quentes e delicadas, molhando os curativos em seu rosto.
    - Ei, o que foi? Disse algo errado?
    - Não... É que eu também me sinto confusa quando fala em família.
    - Aconteceu algo?
    O olhar que Selenee lhe dirigiu disse muito. Ao mesmo tempo que mostrava o desejo de contar a verdade, pedia que não a forçasse. Ela não sabia nada de sua família, como dizer que não tem memórias mais velhas que alguns dias atrás? Heru pareceu entender. Abraçou-a pelo ombro e ajudou-a a se levantar
     
  8. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    Re: [L][Gaara] Hybrid - Primeira parte: Renascer

    Corpo e alma

    - Onde estavam? Heru, por que ela estava com você? – disse Clara irritada ao abrir a porta do quarto. Como previsto, ela estava preocupada.
    - Ei, não me olhe assim! – exasperou-se Heru – Ela acordou antes e foi dar um passeio.
    - É verdade...
    - Selenee! Não podia ter saído desse jeito! Seus ferimentos vão se abrir!
    - Mas não doem mais. Na verdade, eu não os sinto...
    - Deixe-me ver.
    Clara quis tirar as faixas, mas Selenee não deixou. Indicou Heru com a cabeça, e ele entendeu que não queria que visse.
    - Ora, mas que pudor humano é este? – brincou a mulher – Tem vergonha de...Oh!
    A exclamação não era para menos. Os ferimentos demorariam mais três ou quatro dias para cicatrizar. Mas os da menina haviam sumido quase por completo. Sobravam apenas algumas linhas brancas sobre a pele suave. Era algo incrível...E poderia ter sido causado pelo rápido efeito do remédio ou uma capacidade de regeneração de tecidos de forma acelerada.
    - Bem...Que bom que está melhor! Venha, vou emprestar-lhe um de meus vestidos.
    Enquanto abotoava a gola e os punhos, Clara escovava as ondas negras de seu cabelo. Arrumou-as em uma trança firme e grossa em suas costas, amarrando com um laço de veludo preto. As pernas longas e bem torneadas ficavam á mostra um pouco acima do joelho.
    Desceram para o desjejum, onde todos olhavam Selenee com curiosidade. Muitos vieram cumprimentá-la; as senhoras vieram ver de perto as feições friamente delineadas, as mais jovens a olhavam com desdém, muitos rapazes a ignoraram, outros mostravam um certo interesse, as crianças vinham curiosas...Clara deixou seu lugar ao lado da menina para atender a um chamado de Dion. Ele dissera-lhe algo e ela voltou, um pouco rígida.
    - Selenee...Tem certeza que se sente melhor?
    - Claro! Por que pergunta?
    - Quero que venha comigo depois. Está em condições de lutar?
    - Lutar?
    - Dion quer...Ah tome! – desviou o assunto oferecendo-lhe uma taça de vinho.
    Depois da refeição, trocou o vestido pela antiga calça e uma blusa emprestada. Clara guiou-a pelo jardim que visitara de manhã e entrou em uma porta que dava em um corredor escuro, iluminado por tochas. O final era em uma sala grande e sombria, de paredes de pedra e iluminadas pela estranha mas forte luz vinda de pequenos pontinhos azuis flutuando sobre suas cabeças. Parecia que todos os que estavam á mesa alguns minutos antes estavam lá agora, sentados ao redor da sala. Dion estava sobre um banco mais alto, parecendo um trono. Clara tomou seu lugar e deixou uma confusa Selenee no centro da sala. A voz de Dion ecoou:
    - Selenee! Seja bem-vinda ao nosso salão de batalhas!
    Ainda não estava entendendo. O homem continuou:
    - Como a cultura romana de nossos ancestrais humanos, a luta de gladiadores era uma forma de diversão. Nós a acolhemos aqui, cuidamos de seus ferimentos e a alimentamos. Agora, o único preço que lhe cobro são algumas batalhas. Não até a morte, claro. Preciso de todos os meus aliados vivos. Mas saiba que eles não serão piedosos e tampouco eu o serei. Se vencer as batalhas, será aceita no clã e seus ferimentos serão curados. Se morrer, não procuraremos trazê-la de volta.
    O coração de Selenee pareceu congelar. Então teria que lutar. E se pudesse evitar?
    - Posso recusar-me a participar?
    - Infelizmente não.
    “Que seja” pensou. Também não bancaria a covarde.
    - Tudo bem.
    Dion sorriu e a um comando seu, os pontinhos de luz juntaram-se em três maiores. A voz ecoou:
    - Cinco batalhas com adversários de mãos limpas, três com armas a escolha, uma com Selenee de mãos atadas e na última, ela enfrentará a todos de uma vez só. Que o campo se prepare!
    As paredes pareceram se afastar e colunas se ergueram nos quatro cantos do extenso ringue. Luzes finas e tortuosas fecharam como uma cerca e o primeiro desafiante entrou, acompanhado dos urros de incentivo de seus amigos. Selenee também se preparou, procurando em sua alma a força que usava para se proteger. Mas não a encontrava...parece que despertava somente em situações de perigo. Fechou os olhos com força para ver se ajudava, e mesmo assim nada aconteceu. Queria encontrar, vencer e sair dali logo, aquele lugar a incomodava. Os passos do adversário aceleraram e Selenee não abriu os olhos. Estava ali, parada, um alvo fácil para ele, que preparava um salto e um chute esmagador, já saía do chão, sua cabeça seria acertada...
    A exclamação da multidão expressou alívio e decepção. Selenee abaixou-se antes mesmo de abrir os olhos. Quando viu, lá estava um homem enfurecido, correndo em sua direção com punhos fechados. Novamente desviou dos socos, agarrou seu braço e atirou-o contra a parede luminosa. Ainda estava consciente, mas rendeu-se.
    O primeiro combate fora vencido, mas não haveria tempo para intervalos. Um outro já estava vindo, e foi tirado de ação como o primeiro. Com os outros o mesmo aconteceu. Selenee desviava dos golpes tão graciosamente que parecia dançar, e tão rapidamente que superava os reflexos dos adversários. Os espectadores ao redor pareciam furiosos com ela agora. Apenas Clara e Heru estavam felizes.
    - Muito bem! – congratulou Dion – Agora, os desafiantes virão armados. Você não poderá matá-los, mas eles podem ferí-la à vontade.
    O campo mudou. As colunas ganharam duas lâminas em cada lado, uma nova surgiu ao centro. As paredes começaram a relampejar levemente, sinal que havia uma corrente elétrica passando por elas.
    Os adversários agora eram mais fortes e ágeis, além de estarem armados. Feriram-na várias vezes, mas nada que fosse muito grave. Selenee ainda não conseguia fazer despertar seu estranho poder, usando apenas a agilidade e força que já eram dela. Sabia que no próximo turno suas mãos seriam atadas...se não usasse de outros métodos, como lutaria com as pernas apenas?
    - Acho que a subestimamos, menina...Uma nova regra para o próximo assalto: se vencer este adversário com as mãos atadas, no próximo também terá que ficar com as mãos atadas. Use do método que for para não morrer! – riu Dion novamente, com ar de triunfo.
    Enfrentaria uma menina que aparentava ter sua idade. Estava armada com uma lança de ambas as extremidades laminadas, as pontas de seus sapatos com pequenas pontinhas afiadas e pôde perceber que os braceletes em seus pulsos continham algo por baixo. O peito estava protegido por uma armadura coberta de espinhos. As mãos de Selenee foram atraídas para suas costas por alguma espécie de magnetismo, os pulsos atados por uma faixa feita do mesmo material das paredes. O campo mudou novamente; a coluna no meio sumiu e o ringue se dividiu em quatro, com um espaço generoso entre um e outro. O chão tornou-se quente e labaredas surgiram das fendas. A adversária, muito bem protegida pela armadura, atravessou o fogo, cravando a ponta da lança em seu ombro direito e prendendo Selenee contra a parede eletrificada. As descargas passavam pelo seu corpo dolorosamente, mas pareciam não serem atraídas pelo metal em sua lança, deixando a menina em sua frente ilesa. Chutou seu abdômen várias vezes, fazendo Selenee cuspir sangue. Rasgou o bracelete do pulso direito e passou a lâmina em seu rosto, ferindo-o lentamente.
    Estava quase inconsciente. Procurava um meio de se libertar dali, mas parecia-lhe impossível. Pensava em desistir, entregar-se à morte. “Não, não vou!” disse uma voz em sua mente. E junto com ela, a voz de Heru e Clara, chamando seu nome. Sua adversária ria, sussurrando-lhe:
    - Vai morrer, novata.
    “É o que pensa”
    Juntou forças e levantou sua perna, arremessando a garota para o outro lado das chamas. Soltou a lança de seu ombro e atravessou o fogo em um salto. Sua oponente ainda correu e pegou a lança do outro lado, mas Selenee chutou sua mão e jogou a arma na fenda. Levou-a ao chão e pressionou um ponto em sua coluna com a ponta da dura sapatilha, deixando-a imobilizada pela dor. Gritou que desistia.
    - Ora, ora...Você deu um bom estrago à um oponente de nível de general. – Dion lançou seu comentário pós-batalha – Mas acho que desta vez não escapa. Desarmada e de mãos atadas, contra dezenas de lobisomens ferozes á sua volta, que método usará para se defender?
    O ringue sumiu por completo. Todos, exceto Heru e Clara, levantaram-se e empunharam suas espadas, retesaram seus arcos, prepararam as clavas e os machados. Um urro uníssono marcou o início do último round.
    Em câmera lenta, Selenee via seus oponentes vindo em sua direção. Os ferimentos doíam terrivelmente e sua vista embaçava. Somente chutes não bloqueariam aquela torrente de lâminas em sua direção. Fechou os olhos e concentrou-se para mais uma vez, tentar despertar a força de seu interior. Em uma batalha, luta-se de corpo e alma. Seu corpo estava ferido demais, não poderia reagir. Era acordar agora ou abandonar o corpo em que residia...Mesmo com a oferta de liberdade, soube que precisava ficar. E reagiu.
    Podia ouvir várias flechas e adagas cortarem o ar. A lâmina das espadas e machados perturbavam a atmosfera e Selenee pôde senti-los. Concentrou-se para repelir tudo aquilo. De súbito, pôde sentir a força e velocidade com que tudo aquilo se direcionava para ela. Para absorver os ataques, precisaria usar uma força igual. E o fez; flechas, adagas, clavas, espadas e machados simplesmente pararam ao atingirem uma certa distância. Materializar uma parede feita de força equivalente á exterior usando as informações sensitivas e uma energia carregada de matéria, densa e concentrada, não é algo que se explique facilmente.
    Estava protegida ali. Mas manter aquele escudo era cansativo demais. Do lado de fora, forçavam suas armas e era preciso colocar um pouco mais de potência ali. Sua cabeça doía terrivelmente e o campo protetor começou a retrair. Clara gritou de onde estava e saiu correndo para amparar Selenee, que já caía de joelhos:
    - Dion, pare! Ela venceu!
    As pessoas em volta afastaram as armas da parede e esta sumiu por completo. Se a cuidadosa mulher não tivesse segurado a menina, ela teria caído com o rosto no chão. Dion, em seu assento, estava petrificado. Uma explosão de energia vinda de uma garota com menos de um século de existência! Por um instante pareceu reconhecer aquele poder, mas a força que imprimia sobre seu coração era tão grande que o fez esquecer. Levantou-se enfim, viu que Selenee ainda estava acordada e disse-lhe:
    - Bem, eu acho que a subestimei. Venceu a batalha com honra...Como prêmio, nós a aceitaremos no clã. Aceita-o?
    Ouviu o que dizia, quis responder “sim”, mas as palavras não saíram. Em vez disso, o sorriso carregado de escárnio e o olhar frio ao líder faziam parecer haver outra pessoa ali. “Ele tem medo de você...” dizia uma voz bem ao fundo “Não quer tê-la como inimiga pois sabe que é mais forte que ele! Deveria matá-lo agora, antes que ele a mate!” Mas lutou contra esses pensamentos e respondeu afirmativamente.
    - Peço desculpas por tudo isso que lhe fiz passar. Seja bem-vinda ao clã Canine.
     
  9. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    [L] [Riku] Hybrid - Segunda parte: Desenvolver

    Decidi postar noutro topico senao fica meio confuso devido ao comprimento da história, pois este e apenas o desenvolvimento.
    Espero que gostem...
    Critiquem a vontade...

    Selenee desenvolve o lado lupino. Mas o lado vampiro ainda existe e não dorme...

    Segunda parte

    Desenvolver

    Duas feras


    Algumas semanas depois, Selenee já recebia treinamento para desenvolver sua agilidade, força, habilidade e manejo de armas brancas. Já sabia como brandir a Hansui, mas sua preferida era a espada samurai, pela discrição e beleza contida na simplicidade. Clara a acompanhava sempre que podia, quando também não estava em treinos ou dando aulas.
    Apesar de sua força e energia intensa, Dion colocou-a na classificação aprendiz, dando-lhe o ensinamento básico do uso de magias e técnicas de luta, além de liberdade para sair e caçar acompanhada.
    Certo dia, observando Heru e mais uma dezena de amigos domarem cavalos negros e ariscos, Selenee lia um livro sobre a cultura humana medieval enquanto Clara discorria os olhos nas palavras de um complicado livro de magia curativa. Nos livros que pegava na biblioteca do castelo, sempre haviam assuntos sobre humanos que viveram há milhões de anos em um planeta chamado Terra. Não os entendia, então apenas observava as figuras. Mas naquele dia, questionou à Clara. Ela riu de sua não compreensão, pois precisava prestar atenção. Todos os livros dividiam-se em séries e de acordo com o assunto. E ela estava lendo o último volume.
    - Ainda não me respondeu.
    - Ah...O que queria saber mesmo?
    - Como sabem tanto sobre os humanos se viveram em um lugar no tempo e no espaço muito diferentes daqui?
    - Tem lido apenas trechos dos livros que pega. Se tivesse estudado tudo, saberia que foram os ingratos elfos que ajudaram a construir este mundo
    - Por que os chama assim?
    Havia um ar grave e magoado no tom em que respondeu:
    - Por que nos abandonaram...Assim como Deus. E ainda nos trancam e nos condenam a vivermos reprimidos por criaturas mais fracas.
    - Quer dar uma volta, Selenee? Consegui domar esta fera aqui. – propôs Heru, se aproximando.
    A menina aceitou e partiram juntos. Foram até a cidade, lugar onde não iam há algum tempo. Pararam em frente á loja de guardas e entraram.
    - Pode escolher um para você. Será um presente de boas-vindas ao nosso clã. – disse Heru, que sorriu diante da felicidade infantil da garota.
    Os animais enjaulados rosnavam para Selenee. Haviam gárgulas e cães de olhos vermelhos. Mesmo os filhotes de gárgulas eram ferozes. Seu olhar caiu em uma pequena gaiola coberta por um pano escuro. De dentro dela saíam latidos finos e abafados. Levantou o tecido e encantou-se com a bolinha de pêlo negro que se encolhia, com uma fita enrolada no focinho.
    - Ele chegou semana passada aqui. – interveio o dono da loja detrás do balcão – Estive tentando treiná-lo, mas é quase impossível! Ou ele não me obedece ou quase arranca minha mão! – mostrou as faixas nas mãos.
    Selenee já abrira a gaiola e pegava o filhote no colo. O dono da loja e Heru ficaram apreensivos quando ela tirou a faixa que mantinha sua boca fechada. Mas o cãozinho, ao invés de mordê-la, lambeu-a no rosto, aparentando gostar de quem tirou aquela mordaça. Ao ver o homem atrás do balcão, quis pular para cima dele.
    - Nossa, garoto! Você é pequeno e feroz, hein? – brincou Selenee, segurando-o e erguendo no ar – Está a venda?
    - Ficaria somente quando estivesse adestrado. Mas vejo que gosta de você, então pode levá-lo. Não vou cobrar. Ele me dá mais prejuízo se tentar treinar do que ser levado de graça.
    - Obrigada!
    Saíram da loja, Heru apreensivo e Selenee com uma ferinha em seus braços. Enquanto estava em seus braços, parecia ser tão inocente e indefesa!
    - Bem, acabei não comprando presente nenhum para você...
    - Que tal um brinde no bar? Faz tanto tempo que não vou lá!
    Encontraram um grupo de amigos de um clã aliado e passaram a tarde inteira conversando. Já estava escuro quando decidiram sair da cidade. Selenee ainda quis ir à casinha que construíra no campo para ver como estava e pegar todos os itens que havia deixado.
    Atravessaram os campos prateados pela luz da lua e o cheiro da relva a noite, única parte do dia em que as nuvens se afastavam. Avistaram a construção logo, mas estranharam haver luz ali dentro. Tomada por um súbito pressentimento, pediu a Heru que parasse e ficasse ali, cuidando do cãozinho. Estavam a uma boa distância, onde ele não poderia ver muito bem o que estava acontecendo.
    Ao se aproximar, ouviu um choro de bebê. Bateu na porta e ficou à escuta:
    - Querida, fique aqui. Quem é?
    - A dona desta casa.
    Tudo silenciou. O choro da criança parecia estar sendo abafado. A maçaneta girou e um homem forte apareceu. Levantou a mão direita bruscamente e deixou a apenas um centímetro de distância um crucifixo da testa da garota. Selenee assustou-se com o gesto e afastou o objeto.
    - Criatura maldita! Deixe-nos em paz!
    - Estão na minha casa! Eu quero meus pertences!
    - Não os terá! – urrou o homem, fechando a porta atrás de si.
    Selenee afastou-se, correu em direção à porta e colidiu lateralmente, quebrando as vigas de madeira. A mulher, encolhida perto da lareira, gritava com a criança em seus braços. Seu marido tentava acertar a intrusa com um machado pequeno, mas não o conseguia. Pegou o crucifixo sobre a cama e aproximou-o do peito da jovem. Como que atraído por um ímã, o objeto grudou onde estava direcionado. O homem riu e abaixou a arma. Vampiro ou lobisomem, nenhuma das raças suporta o poder divino, e se desintegra ao menor contato com um amuleto banhado em água benta.
    Mas algo estava errado...a menina não dava sinais de estar morrendo. Apenas tentava tirar o incômodo dali. Não conseguindo, esmagou a cruz com uma das mãos. Os pedacinhos de madeira rasgaram sua pele, mas desgrudaram. Aquilo assustou a família e o homem não hesitou em desferir um outro golpe contra Selenee, que desviou tarde demais e acabou sendo ferida no braço esquerdo. Foi a gota d’água para que o lado bestial da menina falasse mais alto.
    Respirou fundo, saltou, desviou de um outro golpe e cravou os caninos da garganta do pobre homem. Ficou com uma sede imensa e quis tomar até a última gota de sangue que tinha. E o fez, como a um horrível espetáculo para a mulher e a criança encolhidas.
    Deixou o cadáver seco cair, limpou os lábios na manga do vestido e virou-se para as outras duas presas.
    - Por favor...Por favor, não nos mate!
    Ignorando o apelo, lentamente se aproximou. A mãe apertou a criança com mais força em seus braços e começou a orar. Selenee parou e observou a mulher, chorando, apertando o filho contra o peito. Tinha fome, mas agora não conseguiria matá-los. Essa visão trouxe-lhe um aperto no coração. Sentiu os caninos retraírem e as pernas enfraquecerem.
    - Selenee, o que... – disse Heru, adentrando a casa. Parou ao sentir cheiro de sangue e carne fresca. Viu a mãe e seu filho encolhidos e não pensou duas vezes em atacar a ambos.
    Paralisada, assistiu à morte das duas criaturas ao mesmo tempo com fome e com pena. O que mais doía era ouvir os gritos da criança.
    - Não se encontra carne fresca assim facilmente. – riu Heru, voltando à forma humana e cobrindo-se com a capa – Por que não atacou o homem também? Ele está...está seco?
    Formulando logo a mentira para mascarar o que acontecera, a menina esclareceu imediatamente:
    - Um vampiro estava saindo quando entrei. Acho que interrompi seu banquete, então me atacou.
    - Inferno! Perdoe-me, eu roubei sua caça! – desculpou-se Heru, embaraçado.
    - Não se preocupe...Comida agora é o que menos importa. Meus ferimentos doem. Vou pegar meus pertences e já vamos.

     
  10. Malaman

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    Re: [L] [Riku] Hybrid - Segunda parte: Desenvolver

    Convite

    Mais alguns meses se passaram desde o incidente na casinha. Selenee agora já era convidada para alguns duelos amistosos entre os clãs ali perto. Isso ajudava os mais jovens a praticar. Em uma época de guerra entre duas raças com chances iguais de vencer, ter o máximo possível de aliados bem preparados é fundamental.
    Passava a maior parte do tempo na biblioteca, estudando tanto sobre a história humana quanto a história daquele mundo, a origem da guerra entre raças e uso de magias. Nas aulas de feitiços que tinha com Clara, aprendia a realizar pequenos encantos de luminosidades e explosões através da manipulação dos elétrons da atmosfera. Em uma dessas aulas, Selenee começou a brincar com explosões azuis e vermelhas. Tentava juntá-las para ter uma explosão arroxeada, mas o que conseguiu foram faíscas em seu cabelo. Depois de apagadas, deixaram mechas azuis e vermelhas nas madeixas negras. Embora Clara soubesse como desfazer aquilo, a menina ainda quis mantê-las assim. Estavam bonitas...
    O cãozinho de Selenee crescera rapidamente. Era do tamanho de um lobo e atacava com ferocidade quando ordenado. Mas nem por isso Devil, “demônio” em uma das muitas línguas dos antigos humanos, deixava de ser aquele filhote amordaçado encontrado a um canto da loja. O pêlo longo e negro como a noite mantinha a maciez aveludada. Os olhos também escuros quase não apareciam, deixando confuso quem o via; seria um cão ou só sua sombra?
    Desde sua chegada, mais oito novos lobisomens entraram no clã. Dentre eles, duas mulheres. Selenee sentia uma grande vontade de vê-los lutando no salão de batalhas. Mas não teve seu desejo realizado. Eles eram recebidos por Dion sem que ficasse sabendo de algum teste.
    - Clara, quando há eventos por aqui, mesmo os aprendizes são chamados, não é?
    - Sim.
    - Os novos membros do clã foram testados e eu não fiquei sabendo?
    - Eles não foram testados, Selenee. Na verdade, você foi a única que se tem notícia.
    - Por que somente eu?
    - Também não sei...

    ---

    Selenee batia à porta do quarto de Clara de manhã. Não obtendo resposta, entrou. A mulher estava de costas, sentada na cama.
    - Clara, venha para o desjejum.
    Parecendo acordar de um transe, assustou-se e tentou esconder um papel que lia e as lágrimas que corriam.
    - Eu não vou...Não tenho fome.
    - Tem que comer! Hoje me prometeu uma aula extra de feitiços!
    - Desculpe-me, mas não posso. Não hoje.
    Não querendo argumentar mais, deixou-a sozinha. No salão, sentou ao lado de Heru e contou-lhe o que havia acontecido.
    - Ah, acho que entendo. Hoje completarão trezentos e treze anos da morte de seu filho.
    - Que amor! Sentir-se abatida assim todos os anos não deve ser fácil!
    - Aí é que vejo um problema. Já há muito que não liga para isso. Por que justo agora?
    - E você vem perguntar para alguém que sabe menos ainda! Bem, o que sei é que ficarei sem minha aula de feitiços hoje. – mudou de assunto, tomando um pequeno gole de vinho.
    Passou o restante da manhã na biblioteca. À hora do almoço, voltou para chamar Clara. Desta vez teria que vir, pois Dion queria dar um comunicado a todos. E era este, que passou antes de iniciarem a refeição:
    - O líder do clã Canine, Ernil, virá visitar-nos na próxima semana. Ele virá para conhecer esta sub-sede e ver como estamos prosseguindo em nosso treinamento. Virá com sua família e quero dar um baile para recepcioná-los. Portanto, senhoritas, estejam abertas aos convites que os cavalheiros lhes farão.
    Um murmurinho percorreu o salão. As moças já começaram a cochichar entre si, enquanto os homens procuravam um par. Os namorados já sabiam com quem ir, lançando um olhar sugestivo ao ser amado.
    - Clara! Você ouviu isso? Um baile! – cutucou Selenee no braço duro da amiga – Com quem vai?
    - Hã? Ah, sim. Eu vou com meu marido.
    - Quem é?
    - Rochben. – respondeu com um sorriso – Se tudo der certo, voltará amanhã, quando tiver terminado sua jornada. Acho que vai gostar de conhecê-lo.
    Depois do almoço, Selenee correu até o jardim para treinar Devil. Na verdade, mais brincava do que treinava realmente. Sem preocupações por ali, podia agir como a criança que não se lembrava de ter sido. Um grupo de moças andava por ali, sentadas nos bancos de pedra, lançavam olhares aos homens que passavam. Algumas tiveram sorte, foram convidadas para a dança. Selenee já havia esquecido do baile. Estava mais interessada em fazer Devil pular.
    Heru atravessou o portão baixo e adentrou o jardim, passando entre as garotas ali sentadas. Uma delas agarrou seu braço, invertendo os papéis; ela o convidava. O olhar insinuante e o calor do corpo quente que se aproximava hipnotizava o jovem e ele quase respondeu afirmativamente à proposta. Mas a risada de alguém atrás das plantas o acordou.
    - Isso, Devil! Mais alto agora! Ai, não me morda assim!
    O cão corria atrás de sua dona como se fosse caçá-la, mas vinha brincando. Assim como ela lhe tomara a coleira.
    Acordado de seu transe, desculpou-se e recusou o convite. Chamou por Selenee e esta parou, dando brecha para o animal saltar sobre ela e tentar pegar a coleira preta. A cena era até cômica. Heru deixava de lado uma bela mulher para vir convidar a menina que brincava no chão com o cãozinho. Chegou a pensar se valia mesmo a pena. Selenee não era tão bela quanto aquelas que o desejavam...
    - Ai, ai...Devil, eu te pego! Perdão, Heru. O que dizia?
    O moço hesitou. Olhou para o grupo que fuzilava Selenee em seus pensamentos. Olhou para a menina diante de si, que arrumava a trança desfeita e limpava o vestido. Desde que ela o salvara, um profundo sentimento de gratidão vinha-lhe à alma quando a via. Seria o suficiente para então decidir:
    - Gostaria de convidá-la para vir ao baile comigo...Aceita?
    - Claro! Adoraria! – respondeu com um sorriso.
    - Esteja bela para mim no dia. – gracejou o outro, se afastando, com olhares das mulheres em suas costas.
    Alheia aos cochichos que faziam, lembrou-se de que não tinha uma roupa adequada. Seu vestuário eram apenas nos uniformes e os robes para dormir. Precisaria de permissão ao lorde Dion para que pudesse sair e comprar um.
     
  11. Malaman

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    Re: [L] [Riku] Hybrid - Segunda parte: Desenvolver

    Ser frágil capaz de ir tão alto...

    Depois do convite, levou Devil de volta ao quarto e ficou treinando no salão de batalhas juntamente com Nima e Juny, as novas lobisomens, ajudando-as com os alongamentos e arremesso de adagas.
    Ficaram ali até a hora do jantar, quando foi à gigantesca sala de refeições, onde as risadas já podiam ser ouvidas. Todos estavam em volta de algo ou alguém, soltando exclamações e congratulações. Abriu caminho por entre as costas de quem estava ali e viu o que chamava tanta atenção; um grupo de três amigos, com alguns curativos e cercados de belas moças. Apenas um, que parecia ser o mais velho, estava com uma mulher só. Era Clara e provavelmente, Rochben. Assim que a viu, apressou-se em apresentá-los:
    - Selenee, venha aqui! Este é Rochben, meu marido.
    - Muito prazer, senhor. – saudou-o
    O homem riu paternalmente e passou a mão sobre a pequena cabeça da garota.
    - O prazer é meu, pequena! – observou-a por uns instantes – Nossa...Você é...muito parecida. Ah, não pode ser.
    A voz de Dion ecoou:
    - Vamos brindar aos nossos valentes generais que regressam de uma árdua jornada!
    Um jantar festivo começara. Todos queriam saber como foi, quantos duelos, quantos humanos, quantas moedas, quantas conquistas. Clara ainda tinha os olhos avermelhados. Estava feliz por ter seu marido de volta. Mas algo a perturbava...
    Terminou de comer e se dirigiu para a cabeceira da longa mesa, para conversar com o líder.
    Havia algo nos modos de seu lorde que Selenee não gostava. Era algo ameaçador, que a impelia e deixava em estado de alerta toda vez que tinha que falar com ele. Mas era um bom homem, tratava a jovem como a uma filha. Porém, uma pessoa deve se sentir segura na presença de quem a ama. Não era o que acontecia.
    Permissão dada, subiu ao quarto de Clara, pois queria saber se poderia emprestar-lhe algumas moedas para comprar o vestido. Ao entrar, viu-a abraçada com Rochben, em frente á lareira. Já ia se retirar, temendo ter interrompido algo, quando o homem a deteve.
    - Você tem um pudor humano que me impressiona. Venha, Clara quer falar com você.
    Fechou a porta atrás de si quando saiu do cômodo. As duas estavam a sós, Selenee sem entender muito e sua amiga ali, contendo as lágrimas.
    - Rochben concorda comigo. Você me lembra minha neta. Ele acha que se eu contar...Quem sabe eu consiga saber por que sofro depois de tantos anos sem se importar com isso.
    - Heru me contou que você tinha um filho que gostava muito.
    Desta vez não deu para segurar. O pranto saiu de uma vez, em soluços convulsivos e lágrimas em cascatas cristalinas sobre a pele branca. Temendo ter dito algo errado, a confusa jovem tentou reparar o erro, abraçando-a com força.
    - Perdoe-me se disse algo errado...
    - Não! Você não disse nada! Fui eu! Eu que disse coisas horríveis e deixei-a morrer! Matei meu filho...
    Cada vez mais os soluços pareciam sufocá-la. Para acalmar, deitou-a na cama e colocou a mão sobre sua testa. Vendo que já parava, deu-lhe um copo com água, que Clara tomou com dificuldade. Estendeu a mão e vasculhou uma caixinha preta na mesa de cabeceira, procurando por algo entre os papéis que caíam no chão. Selenee pegou-os, arrumando em seu colo. Dentre as cartas e bilhetes, encontrou um envelope com a inscrição “Para Selenee” no verso em letras escritas cuidadosamente com a ponta fina de uma pena. Abriu-o e desdobrou o papel amarelado. Apenas o desenho da silhueta de uma borboleta no centro da folha vazia.
    - Ah, pode me devolver? – balbuciou Clara.
    Obedecendo, dobrou o papel e recolocou-o no envelope, entregando-o à amiga.
    - Sente-se melhor? Se quiser, estarei em meu quarto.
    - Não, por favor fique. Eu ainda preciso lhe dizer...
    Selenee sentou-se e prestou atenção em suas palavras:
    - Se não a tivesse visto morrer...acharia que é ela.
    “Meu filho Ethan era um grande guerreiro. Seria o sucessor de Dion se não tivesse se apaixonado por uma vampiresa. Por esse amor proibido, foram expulsos do clã e perseguidos até a morte. Eu não queria saber...Dizia que não era mais meu filho e tentava esquecê-lo. Houve uma vez que veio me visitar depois daquele casamento. Disse que tinha uma filha agora, uma criança saudável e alegre. Seu nome era Selenee, nome parecido com o da mãe Serena, assim como ela mesma. Precisavam sair da cidade onde estavam pois os vizinhos já suspeitavam de sua família. Dizia que aquela criança era uma grande conquista para eles. Voltara apenas para pedir que eu selasse um medalhão. Aquilo os manteria longe do perigo por um certo tempo...
    Tentei queimar as cartas que me mandava. Até que me pressionaram para dizer se sabia de algo. Ameaçaram a mim e meu marido se não disséssemos. Acabei contando tudo. Quando os encontraram, a vampiresa foi quem veio em lágrimas, com o corpo destroçado da filha me pedir ajuda. Eu era a única em quem ela poderia confiar. Queria que eu trancasse sua alma para que pudesse descansar em paz. Dizia que seria pior se eu não o fizesse. Meu orgulho falou mais alto que suas súplicas e eu recusei seu pedido. Odiava vampiros. Se meu filho sofresse, seria por causa dela, de seu egoísmo que não pensou no que poderia causar continuando esse amor e gerando essa criança, que também me repugnava por se parecer tanto com uma criatura tão vil como a mãe.
    Enxotei-a como a um cão velho e sarnento...Espantei-lhe a última esperança.
    Em uma última carta, Ethan mostrava seu desapontamento. Estava triste pela morte da filha e desaparecimento das outras duas crianças. Parecia se culpar de algo, mas sobre isso não falou muito. Apenas pediu que vivesse os milênios que fossem sem jamais pensar no que aconteceu. Mas se lembrasse sempre do rosto de sua mulher, pois se reconhecê-lo, seria o seu último desejo antes que a alma pudesse partir. Achei que dizia isso para me assombrar, me culpar do que havia feito. De tanta raiva, rasguei a última carta e queimei-a”
    A confissão cessara. Clara estava dormindo, segurando a mão de Selenee com tanta força que seus dedos estavam dormentes. Parecia que já estava adormecida há muito tempo...como poderia ter dito tanto? Sonambulismo talvez? Mas a jovem não prestou muita atenção. Apenas ajeitou a amiga na cama e cobriu-a. Arrumou as cartas na caixinha e não fechou sem antes lançar um olhar ao envelope com seu nome.
    Ao sair do quarto, encostou a porta levemente e ali ficou, pensando no que acabara de ouvir. As sombras que cobriam seus olhos voltaram. Desde que fora acolhida ali já não pensava mais no passado, que para ela, não tinha importância alguma por ter sido apagado. Porém, se algo some ou é escondido é por que realmente não deve ser aprendido nada sobre ele, sequer saber sua existência. E por que esconder memórias? Elas envelhecem, mas nunca somem. Selenee sentiu uma forte dor, uma agonia sem fim. Tudo que parecia ser dado como pronto, voltava à tona com intensidade. Desde os primeiros dias naquela cidade até o rosto da desconhecida e os pedaços de lembranças que voavam como flechas.
    Uma mão forte tocou seu ombro. Era Rochben.
    - Sente-se bem? Não está com uma aparência boa.
    - Ah, é um mal passageiro.
    - E Clara, como está?
    - Dormindo.
    Houve um silêncio. Até que o homem convidou-a para andar por aí. Parecia também querer dizer algo. Tantas verdades em uma noite...Selenee sentia que aos poucos, a paz em que estava vivendo estava decaindo.
    - É...Você realmente é muito parecida. Poderia confundí-la com Serena.
    - Por que deixou que Clara os abandonasse quando precisavam de ajuda?
    - Por que fui eu quem disse a ela que deveria fazer o que achasse melhor. Respeitei e até mesmo aprovei o que fizera. Porém não sabia que isso resultaria na morte de meu filho.
    - Não parece ter remorso.
    - Selenee, uma coisa que você tem que saber é que todo ser vivo é prisioneiro das próprias decisões. Ethan decidiu viver assim, então pagou o preço para fazê-lo. Clara também decidiu não ajudar, então o preço por sua decisão foi sofrer quando viu e adotou uma menina idêntica à falecida neta.
    - Então...eu a faço sofrer?
    Rochben riu e passou a mão em sua cabeça como faz um pai quando a criança diz suas conclusões errôneas.
    - Não, Selenee. Você não tem culpa de nada. Talvez seja uma coincidência apenas. A verdade é que Clara a ama e jamais a culparia por algo que aconteceu quando não era nem mesmo nascida. Disse-me muito de você nas cartas que escrevia para mim, da jovem alegre e forte que é. Depois desta noite, quem sabe a ame mais ainda, pois disse que seria como se desculpar à neta que negou.
    Sentiu-se tão bem ao ouvir tais palavras! Era como se uma luz deixasse tudo mais claro, esquentasse seu coração. Sentia-se protegida e confiante. Era a sensação do amor materno; sabia que era amada por alguém que desejava sua felicidade. Rochben sorriu e despediu-se á porta de seu quarto, enquanto Selenee virava no corredor que a levaria ao seu cômodo.
    Ao vestir o curto robe de cetim azul, lembrou-se que não pedira o dinheiro emprestado à Clara. Nas emoções daquele dia, esquecera. Abriu a bolsa que carregava nas caçadas e contou as moedas que tinha. “Quinhentas darão para um vestido mais barato. Pelo menos é algo decente para uma festa...” pensou.
    Não se deitou. Apenas ficou a observar o céu estrelado, sentada no parapeito da sacada de seu quarto. Era alto onde estava, mas não temia cair. Balançava as pernas graciosas sobre o abismo como se fosse apenas as margens rasas de um lago. O vento frio soprava com força, balançando as madeixas negras manchadas de azul e vermelho. Estava alheia à paisagem. Pensava consigo mesmo sobre o que ouvira naquela noite. Poderia ser ela a neta de Clara? Mas ela falecera...Teria sua amnésia alguma relação com estes acontecimentos?
    De repente, todos os seus pensamentos se focaram na enorme borboleta preta que começou a voar em volta de sua cabeça, vindo pousar sobre seu joelho. Ali ficou, quietinha, a encarar Selenee. Esticou a ponta do dedo indicador e ela voou para cima dele, ainda a encarar a menina. Subitamente, passou por sua mente a imagem da borboleta no centro do papel que vira ainda há pouco. Era igual a esta que tinha empoleirada em seu dedo. O bichinho voou e sumiu nas sombras da noite. Agora outra coisa ocupava sua mente; não sabia bem ao certo, mas tinha um sentimento obscuro em relação aquele papel. Talvez as respostas estivessem ali. Talvez...
     
  12. Malaman

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    Re: [L] [Riku] Hybrid - Segunda parte: Desenvolver

    A igreja

    - Bom dia, senhorita! Em que posso ajudar?
    - Mostre-me os vestidos que posso comprar com isso. – disse Selenee à dona da loja colocando a pequena bolsa com as moedas sobre o balcão.
    A mulher sumiu atrás das cortinas para buscar os modelos, deixando a jovem esperando na loja lotada. Muitas moças e moços de seu clã estavam ali também. Vestiam os mais belos trajes, experimentavam, pediam a opinião dos amigos.
    - Aqui estão. São os mais simples, mas não deixam de ser belos.
    Feitos de cetins escuros, os detalhes eram poucos. Vestiu todos até encontrar o que melhor ficou; um curtinho preto, a barra um pouco mais acima dos joelhos. O decote tinha o detalhe em formato de coração em couro.
    Viu ainda os pares de sapatos que usaria. Escolheu o mais simples também. Do dinheiro que trouxera, voltou com apenas duas moedas, o que não seria suficiente para uma bebida. Precisaria sair mais a caças ou fazer bicos no cemitério.
    Saindo da loja, não teve vontade de voltar ao castelo. As nuvens estavam mais escuras aquele dia. Uma tempestade se aproximava e era possível sentí-la. Montou no cavalo e correu pelas ruas da cidade até que as casinhas sumissem e ela estivesse seguindo por uma pequena estrada aberta entre a grama dos campos. Ao longe uma construção se erguia. Parecia um castelo também e Selenee se aproximou para ver o que era. Já via as grandes portas abertas e um vitral logo acima, com o formato de cruz. A visão daquele símbolo causou uma sensação entranha em seu estômago, mas ignorou-a e continuou. A pouco mais de quinze metros da construção, o cavalo empinou e foi preciso muita força para não contê-lo. Recuava inquieto, sacudindo a cabeça e batendo com as patas no chão, querendo sair dali o mais rápido possível. Entendendo que ele não queria chegar mais perto, afastou-se e acalmou-o em um lugar mais longe. Depois, saiu correndo para o edifício. Sentia-se atraída pela aura que emanava, sabia que tinha algo interessante ali.
    Ao chegar no mesmo ponto onde o animal começou a ter seus ataques, sentiu que estava atravessando alguma coisa fina, como se mergulhasse o rosto na água. Era doloroso, mas Selenee continuou, movida pela curiosidade. Passou as portas e respirou o ar pesado que predominava ali. O incenso carregava de névoas e aromas a atmosfera de um salão enorme, com bancos longos dos dois lados do corredor em que estava a menina. Dos lados, colunas enormes separavam os bancos das paredes cheias de pinturas e inscrições. Em frente, no fim do corredor, o altar três degraus mais alto ficava logo abaixo de uma cruz enorme, na qual a figura de Jesus Cristo na agonia da crucificação tinha como pano de fundo a imagem de um homem calmo, com uma aura ao redor da cabeça em vitral colorido.
    Aquele ambiente austero, calmo e aconchegante inquietou o coração de Selenee. O ar carregado não era o suficiente para respirar, seus órgãos começaram a apertar. Bem onde uma cruz fora “colada” em seu peito, as farpas que penetraram em sua pele começaram a querer sair da corrente sangüínea, causando uma dor intensa no interior dos braços e no coração. Sentia os caninos afiarem, as pupilas dilatarem e a respiração ficar sonora como a de um cão furioso. Escorou-se em um dos bancos, retraída pela sensação de estar sendo sufocada.
    Um velho padre que saiu de uma das salas detrás do altar viu a menina ali e correu em seu socorro. Sacou o crucifixo e afastou-se ao ver seus caninos pontudos.
    - Saia daqui, criatura imunda! Deixe-nos em paz!
    Mas a menina não recuou, sequer mostrou qualquer alteração em seu rosto. E o padre logo entendeu que não devia ser nociva, pois atravessara a barreira que as igrejas criam para protegerem os humanos desse ataque. Ajudou-a a se levantar, não sem uma certa cautela; deixar o crucifixo para fora da batina. Deu-lhe um pouco de água e aos poucos ela ia se acostumando á atmosfera.
    - Muito obrigada.
    - Disponha. Mas diga-me...Como foi que entrou aqui? De onde é?
    - Clã de lobisomens Canine, sou Selenee, muito prazer, senhor. Simplesmente entrei.
    - Não sente medo da cruz?
    - Não. Por que deveria?
    Aquela resposta fez o homem estremecer. Aquela menina era lobisomem e tinha caninos do porte de um vampiro? Selenee não conseguira retraí-los ainda. Estava tentando se acostumar ao ambiente e esquecera de sua aparência.
    - Você é...você é um vampiro, ou lobisomem, não sei. Devia temer ao poder de Deus. Nenhuma das duas criaturas consegue atravessar as portas de uma Igreja sem morrer segundos depois.
    - Ah, então é o Deus de que falam tanto os livros...
    - Estudou-o?
    - Apenas li os efeitos que causa a cruz no corpo de uma criatura como eu. Mas acho que sou diferente, o senhor já deve ter percebido. – era a vez de Selenee abrir o coração com mais alguém. O silêncio e a atenção do velho padre transmitiam confiança – Já colaram uma cruz em meu peito. Devia ter morrido, mas pude esmagar o amuleto...
    - Céus! Deveria se arrepender de tal pecado! Deus irá puní-la por isso!
    Selenee riu no sarcasmo de uma outra face que se escondia.
    - Ele não virá me punir, pois não liga para as criaturas que abandonou. E mesmo que ligasse...tem o poder de me matar quando quiser.
    A frieza com que dizia isso assustou o homem. Mas de certa forma ela inspirava pena, não sem uma ponta de admiração. Estava ali, uma lobisomem com caninos de vampiro, a observar as pinturas daquela igreja. A barreira não lhe ofereceu resistência alguma e ela foi afetada por um simples mal-estar. Vampiro, lobisomem, humano...Isso era familiar...
    - Agradeço a ajuda, senhor.
    - Hã...Venha visitar-nos quando puder. De preferência, quando estiver vazio.
    - Claro...
    Respirou o ar puro a que estava acostumada ao sair do alcance daquela barreira. Vinha carregado do aroma suave da chuva. Caminhava devagar, admirando a paisagem, como se tivesse saído de uma prisão. Não reparou no vulto que a seguia.
    Estava perto de seu cavalo quando este empinou novamente, alertando-a. Virou-se para ver o que era, mas foi derrubada por algo encapuzado que avançou sobre ela. Daí travou-se uma luta ágil entre alguém armado com uma longa espada contra o pequeno punhal de Selenee, que não se dava por vencida pela diferença das armas. Desviava, defendia e contra-atacava com a mesma destreza que o desconhecido tentava acertá-la. Em um movimento rápido, enganou-o e atacou por baixo, lançando o estranho longe. Correu em sua direção para ter certeza que poderia matá-lo. Estava pronta para desferir o golpe quando viu o rosto de seu inimigo, desacordado. Era Aina, a vampiresa do clã Seregi. O rosto que lhe causou pesadelos e uma dor de cabeça intensa trouxe-lhe agora uma maior ainda; e uma parte das memórias. Caiu ao lado de Aina, retorcendo e gritando de dor.
    “Selenee!” chamava a voz de uma criança em seus confusos pensamentos. Sentia algo cortar seu rosto, o vento passava pelos ferimentos como se corresse. Um grupo de pessoas brigando, um peso em suas costas, dentes e garras em sua direção...”Bruxa!” “Não deixe...” agora era uma mulher ”...se separem!”
    “Corra!”
    A luz de um relâmpago ofuscou seus olhos e o som do trovão varreu as lembranças e as dores. Acordou deitada no campo onde fora atacada, com a chuva a molhar-lhe o rosto. Levantou-se lentamente e retornou ao castelo, confusa sobre o que havia acontecido.
     
  13. Malaman

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    [L][Riku] Hybrid - Terceira parte: Queda

    Uma conversa

    Os dias se passaram sem mais novidades e Ernil, o futuro líder do clã Canine chegaria pouco antes do almoço. O baile seria na noite seguinte, e todos ali ajudavam a arrumar os preparativos. Heru, Selenee e mais uma dezena de amigos poliam as armas do salão de batalhas. Tudo precisava estar perfeito para a visita dos líderes do clã.
    Como combinado, a nobre família foi pontual. Entre a multidão que os aguardava, Selenee abriu caminho para vê-los. Antes não o tivesse feito...
    O jovem Ernil, cabelos negros e bem penteados para trás, traços fortes e olhar gentil, causava à menina o que causava a vampiresa Aina. Mas tudo isso foi varrido pela presença de seu pai, Demeter. O porte majestoso e arrogante inspirava desprezo. O pior foi quando seu olhar caiu sobre Selenee. A frieza e maldade com que a encarou foi tanta que a garota se sentiu acuada. Era como se ele estivesse surpreso por ela estar ali. Desviou os olhos para o chão e o homem continuou andando.
    Á mesa, todos brindaram os novos hóspedes em uma refeição animada, como sempre. Todos conversavam como se aquela família fosse parte do clã há muito, e ao que parece, não se importavam de serem tratados assim. Exceto uma aprendiz cuja presença parecia perturbar Demeter, que tentou ignorá-la o máximo possível, apesar das tentativas de Heru trazê-la para mais perto.
    Após a refeição, Selenee se recolheu á biblioteca para estudar. Estava mergulhada nas guerras quando Clara a chamou. Já estava anoitecendo e ela queria mostrar-lhe algo.
    - O que acha? – perguntou mostrando a jóia prateada.
    A caixinha preta em que guardava as cartas estava aberta e deixada a um lado da cama. Clara pôs em suas mãos o colar com o pingente delicado feito em metal reluzente. Não tinha forma conhecida; uma pequena haste tinha um aro perfeito sobreposto no meio. Um fino fio metálico se enroscava como uma cobra na corrente, prendendo o pingente de forma discreta. Depois, se enrolavam na haste, no aro e ficavam com duas pontinhas indicando o centro na horizontal. A corrente passava por trás do pingente e deixava as duas extremidades caindo como uma delicada gravata.
    - É muito bonito! Vai usá-lo amanhã?
    - Eu não. Mas você vai. – surpreendeu a menina tomando-lhe a jóia das mãos e cingindo-a em seu pescoço – Achei que ficaria muito mais bonitinho.
    O ornamento reluziu com as chamas, dando a impressão que aqueles finos fios de prata estavam se movendo. Ninguém disse que não estavam também...


    ---


    Já era o fim da tarde quando Ernil voltou da visita ao clã, Heru e Rochben de uma caçada muito bem sucedida, Selenee e Clara da aula. Esta esteve ensinando a amiga o manejo de arcos e bestas, algo em que era extremamente boa. Tinha uma leve tendência ao lado élfico, apesar de desprezá-los. Era ótima em magia curativa e ataques a longa distância com uma precisão incrível.
    Separaram-se quando Clara foi ao quarto para se preparar para o baile. Selenee esquecera a capa no ginásio, retornando para buscá-la. Quando voltava, estava tão sonhadora sobre como se arrumaria para o baile que não virou á direita para ir ao seu quarto, e ficou andando pelos corredores. Ao dar por si, viu-se em frente ao quarto onde Demeter e sua esposa estariam dormindo. Ernil ficaria no quarto ao lado.
    - ...simplesmente perfeito!
    - Perder um ótimo para ganhar o supremo.
    Reconheceu a última voz. Era Dion. Conversavam em sussurros:
    - Tem certeza que não despertará?
    - Se fizer do jeito certo, com certeza não. Mas terá que adiantar o baile, bem sabe. E... – parou e farejou em volta por uns instantes – Alguém se aproxima.
    Pôde ver que se dirigia para a porta, então Selenee retrocedeu alguns metros rapidamente, preparou o rosto mais inocente possível e arrumou o andar. Bem a tempo; o homem já abria a porta.
    - Boa noite, senhor Demeter!
    - Boa noite, senhorita. O que faz neste corredor? Pensei que seu quarto fosse em um paralelo a este...
    - Esqueci minha capa e voltei pelas escadas do jardim, senhor.
    - Ah...Tudo bem, acho que estou atrasando-a para se arrumar. Vá.
    Em uma reverência, afastou-se aliviada. E preocupada. Sobre quem falavam? O assunto não parecia nada agradável.
    Ao entrar em seu quarto, resolveu não pensar nisso. Aquele seria um dia de festa, sem motivo aparente para preocupações.
     
  14. Malaman

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    Re: Hybrid - Terceira parte: Queda

    O baile

    Heru já estava no grande salão decorado, conversando com os amigos alegremente. Selenee apareceu pouco tempo depois. A jóia que Clara lhe emprestara cingia o pescoço delicado e o cabelo fora puxado para trás em duas mechas que se amarravam na base da nuca. Obviamente não se destacava nem um pouco entre tantas belíssimas mulheres ali presentes.
    Tocou levemente o ombro de seu par, que dispensou as três moças que o acompanhavam e cumprimentou a amiga, chamando-a para se juntar à conversa. Clara e Rochben chegaram pouco tempo depois.
    Os músicos afinaram seus instrumentos e começaram a tocar as valsas mais lentas, como um convite. A mesa estava repleta de taças de vinho e champagne, pratos reluzentes iluminados pelas velas. Ao sabor dessa melodia, todos se serviram do banquete oferecido. Dion deu início ao seu costumeiro pequeno discurso antes das refeições de dias importantes:
    - Sirvam-se deste jantar e brindemos em nome de Ernil, sucessor de seu pai na liderança de todo o clã Canine pelo mundo!
    Taças de prata ergueram-se por toda a mesa.
    - E não podemos esquecer...Que hoje devemos nos divertir, comemorar o início da supremacia lupina! Ernil aqui significa que ele termina sua jornada, estando apto a logo se juntar aos pais para impor aos humanos e vampiros o verdadeiro poder dos lobisomens!
    Este último foi animador. Os homens urraram para demonstrar seu contentamento, ao passo que as mulheres uivaram fina e melodiosamente para mostrar satisfação. Aquela noite prometia muito...

    ---

    Uma procissão caminhava em direção à igreja. Tochas e crucifixos pendurados nos pescoços, todos muito juntos, olhando para trás e para os lados. Não havia nenhum sinal de vampiros ou lobisomens. Mesmo com seus amuletos, deviam tomar cuidado, pois eram criaturas rápidas no ataque.
    Em silêncio, chegaram à enorme construção iluminada, onde a cruz em vitral guiava seus fiéis como um farol. A população de toda a cidade foi dividida entre os quatro templos nos arredores, dispostos de modo a formarem a cruz que representavam.
    - Meus amigos! – começou o padre assim que viu que boa parte já estava presente – Chamei-os aqui hoje mesmo não sendo dia de missa pois quero que mostrem que sua fé não tem hora nem dia marcado. E que podem acreditar que isso poderá protegê-los mesmo em um campo de batalha...

    ---

    Satisfeitos com a deliciosa refeição, todos conversavam alegremente à mesa. Os músicos trocaram de lugar com outros a mando de Dion, que insistiu para que comessem também.
    Agora iniciava-se uma melodia mais agitada, ao qual os mais jovens não resistiram e puxaram seus pares para uma dança. Era a seqüência que vinham treinando há algum tempo, com uma coreografia visualmente bela. Heru e Selenee também treinaram com seus amigos, cada um tomando sua posição. Pareciam estar tomados pelas notas musicais que saíam dos instrumentos; giravam, saltavam e valsavam conforme a mudança de tons e intensidade.
    Selenee dançava com graça e força, como a bailarina experiente. Quase no final da música, na manobra ensaiada, Heru pegou seu par pela cintura, suspendeu-a no ar e girou, colocando-a no chão ao mesmo tempo em que as cordas do violino davam a última nota. Naquela hora, parecia não haver nada mais senão ela. Seu sorriso e a cintura quente em suas mãos era tudo o que podia ver. Por um instante ínfimo parou. “E se esta fosse a última vez...” pensava. Sentia mesmo que parecia ser a última vez que veria aquele ar infantil que tentava tanto proteger.
    Para o deleite daqueles que assistiam, por mais uma hora os jovens dançaram com coordenação extrema. Depois, cansados, recolheram-se cada um a seu canto, dando espaço para os que quisessem dançar a valsa calma que sucedeu.
    Heru puxou Selenee para perto de uma das janelas, sentando-se no parapeito. Conversavam sobre como foi a dança, a cara de admiração de quem assistiu...Heru já tinha as mãos finas seguras entre as suas, agora tentava se aproximar.
    - Ei, o que foi? Não parece prestar atenção no que digo!
    - O quê? Ah, perdão...Mas eu... – a voz estava embargada. Não saíam as palavras.
    - Você...
    A resposta foi um abraço. Não sairiam as palavras para explicar, então apenas seguraria o corpo tão desejado do ser amado. Queria tê-la; mas parecia algo tão distante, como se partisse para um lugar que não pudesse acompanhá-la!
    Selenee não entendeu, então manteve-se em silêncio e também fechou os braços ao redor do amigo, que a apertava cada vez mais.
    - Heru...O que tem? Meu pingente está machucando a nós dois.
    Como que acordado pela palavra “machucando”, soltou os braços. Viu que as pontas do aro haviam feito um pequeno furo em suas vestes pretas, tornando-se um pouco mais escuras pelo sangue que saía. O pescoço da amiga estava manchado pelo seu ferimento, além de bem marcado com o formato da jóia.
    - Desculpe-me! – exclamou o jovem, tentando desastradamente limpar as manchas.
    - Devagar, devagar...Calma!
    As mãos de Selenee seguraram as de Heru firmemente. Apertou-a com carinho e um sorriso, deixando livre depois. Colocou as suas sobre o ferimento e pressionou. Uma leve dor deu a impressão que abria ainda mais. O sangue que ficou em suas mãos desapareceu, como que sugado pela pele. E o machucado estava fechado.
    - Como fez isso?
    - Também não sei...É a primeira vez que consigo fazer em outra pessoa.
    - Já fazia antes?
    - Curava meus ferimentos sozinha. Mas eles apenas paravam de sangrar. O seu parece ter fechado por completo...
    Para conferir, desabotoou a camisa e se espantou. Não havia nada ali.
    - Obrigado...
    - Disponha! – riu Selenee. Nesse sorriso, um breve abaixar de seu olhar.
    - Selenee, seus olhos estão vermelhos!
    Sentiu os caninos começarem a despontar. Virou-se e correu para o corredor mais escuro. Heru foi atrás.
    - O que foi?
    Estava desesperada. E se descobrissem esse seu lado vampiro? O que fariam com ela?
    - Selenee espere! – alcançou Heru, agarrando seu braço e puxando-a para perto.
    Estava relutante, além de não levantar o rosto.
    - O que foi? Por favor, conte-me!
    - Heru, não!
    - Ora, vamos! – tentava levantar sua face.
    - Por favor,não!
    Com um pouco mais de força, pôde ver e recuar diante da criatura com que se deparou. Selenee em vampiro. Tinha lágrimas nos olhos avermelhados.
    - Heru, por favor...Por favor, não conte a ninguém!
    Estava surdo ao que dizia. Extremamente decepcionado e ofendido. Então amava a uma vampiresa? Aquela desgraçada estivera enganando-o por todo aquele tempo? Queria agora atacá-la, destruí-la, fazer vingança ao coração malogrado.
    - Heru, Heru...obedeça à sua traidora amiga e a mim também. Volte ao salão sem dizer uma palavra. – disse suavemente a voz de Dion, saindo das sombras do corredor – Resolvi adiantar a melhor parte da festa e reservei uma outra garota para você.
    - Mas senhor, há um vampiro em nossos domínios!
    - Selenee está fraquinha e acuada agora. – aproximou-se amigavelmente do jovem e sussurrou-lhe – Sei que seu coração está machucado...Mas acho que ela ainda é forte demais. Eu mesmo cuidarei para que tenha seu coração amanhã como almoço. Para isso, nenhuma palavra até segunda ordem.
    Na obediência cega que devia a seu mestre, virou-se e voltou ao salão. Dion avançou calmamente para Selenee.
    - Bem, salvei-a de uma encrenca forte! Quero que venha comigo.
    Não obedeceu.
    - Ora vamos, eu não vou fazer o que prometi a Heru. Já sabia que era vampiresa há muito tempo. Não gostaria de saber o motivo dessa ambigüidade?
    Essas palavras pareceram acalmá-la, pois o tom com que disse fez com que relaxasse os músculos e se aproximasse.
    Entraram no quarto de Clara e Dion retirou do armário a caixinha preta onde estavam as cartas de Ethan. Dentre elas, escolheu o envelope escrito “Para Selenee” e entregou-o à menina.
    - Ela devia ter-lhe contado. Mas já que não, melhor saber a verdade por si mesma.
    Selenee sentou-se na cama e retirou o papel com o desenho da borboleta bem no centro. A luz da lua que adentrava a janela iluminou o pingente de seu colar, que refletiu o desenho do inseto. Instintivamente tocou o pingente de seu colar, cujas pontas cortaram seu dedo. Com o susto, afastou o dedo já ferido. O sangue fez uma bolinha antes de cair sobre o papel, em cima da borboleta.
    Como um rio que corre e se divide em deltas, o líquido vermelho preencheu com luminosidade o desenho e começou a correr pelo papel, revelando o que continha aquela carta. Brilhou uma última vez e finalmente se fixou.
    As palavras, escritas em uma letra fina e inclinada, causavam temor em Selenee. Algo importante estava prestes a ser mostrado.
     
  15. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    Re: Hybrid - Terceira parte: Queda

    “Minha querida Selenee...

    O que mais desejamos é que jamais venha a ler esta carta. Mas se a tiver em mãos, a verdade deve ser dita antes que venha para onde estamos.
    Clara deve ter-lhe contado sobre Ethan e eu. O amor proibido que quebra as profecias errôneas e traz à tona as verdadeiras, junto com uma possível desgraça...
    Jovens que éramos, cansados desta guerra entre raças, com a ajuda de um cientista humano roubamos dos elfos o último projeto feito pelos antigos. Não queríamos viver fugindo e nos escondendo. Esse projeto idealizava a criação de um ser híbrido de luz e treva, com o dna de inimigos e uma alma feita inteiramente de poder, para que pudesse ser manipulado facilmente. Seria usado como arma final para evitar a destruição de seu planeta.
    Usamos o dna meu, de seu pai e do humano que nos ajudou. O poder foi preciso apenas uma pequena amostra...Você mesma soube desenvolvê-lo bem com o passar dos anos.
    Quando seus irmãos nasceram, começamos a temer que alguma daquelas profecias estavam corretas. “Uma menina para ser deusa, seu irmão para ser o supremo, a mais velha para equilibrar”. Havia como quebrar essa maldição, mas era grande o risco de falhar. O destino é algo que não se controla, mas ao mesmo tempo pode-se dobrar.
    Fomos em busca dos metais terrestres para forjar o amuleto que representaria a liberdade a qual está destinada a trazer, se conseguir sobreviver. As borboletas, tão raras aqui e tão abundantes antigamente, são criaturas frágeis e delicadas, mas capazes de provocar catástrofes.
    O dia em que poderíamos ter quebrado a profecia que temíamos foi quando tudo começou a dar errado. As asas do medalhão, cujas asas representavam seus irmãos, foram para onde cada um foi levado. O ser sem asas foi destinado à morte, sem ter como fugir, se defender ou se esconder.
    Somente um corpo destroçado eu pude levar para pedir ajuda. Mas o tempo que tínhamos para salvá-la expirou, e quando seu último segundo foi contado, desejávamos todos os dias que a morte a segurasse onde estava.
    Enterramos seu corpo e íamos visitar seu túmulo todos os dias. Até construírem uma igreja sobre ele e nos impedirem de nos aproximar.
    Escrevemos uma última carta à Clara e entregamos o que sobrou de meu medalhão.
    Fomos covardes e não quisemos ver o que poderia acontecer depois. Perto de onde estava enterrada, nos matamos, na esperança de podermos guiá-la de um lugar mais alto. Ou mesmo impedir que voltasse.
    Peço desculpas por ter que dizer tanto. Podem parecer palavras cruéis, mas a verdade é.
    Fomos egoístas ao criá-la. Durante tanto tempo ocultamos...
    A única verdade naquela vida que lhe demos foi esta: nós a amamos, Selenee. Queríamos apenas protegê-la, mas o que fizemos foi envolvê-la cada vez mais em um problema que não é seu.
    Não somos somente prisioneiros de nossas escolhas. Somos também os carrascos de quem amamos.
    Perdoe-nos por tudo o que passou e por tudo que virá a passar. Que seja capaz de fazer as escolhas com sabedoria.

    De sua mãe

    Serena”

    Esta foi a mais passiva crise de lembranças que teve. Completamente presa pelas palavras escritas por sua mãe, lembrou-se de cada detalhe de sua vida há 300 anos. A noite interminável, seus irmãos, a briga na rua, a longa viagem. Lágrimas rolavam de seus olhos como cascata de pérolas. De repente, lembrou-se que havia mais alguém ali; Dion ainda estava perto e significava ameaça. Virou-se para tentar fugir, mas já era tarde. O pingente, manipulado pelo homem, já apertava seu pescoço como uma cobra. As pontas dos fios que o adornavam e prendiam à corrente estavam enterradas em seu pescoço, liberando fortes cargas de energia dentro de seu corpo. Caiu inconsciente sobre a cama.
    - Sua última escolha será ajudar-nos, Selenee. Depois, será recompensada. Vai para junto de seus pais...

    ---

    - Vampiros! Estão prontos?
    Um urro de afirmação correu por todo o salão do castelo. Aina preparava seu exército.
    - Que esta seja a melhor de todas as batalhas! Os lobisomens têm o poder de Hybrid, mas vejam só... – ergueu a mão esquerda, iluminada repentinamente – Uma única gotinha de sangue tem o mesmo efeito que ela própria.
    Outro urro, dessa vez de satisfação.
    - Na surpresa que os lobisomens terão, virão com menos confiança que antes. E é isso que nos dará vantagem! Preparem-se, pois hoje decidiremos de uma vez por todas a liderança dos vampiros!
     
  16. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    Re: Hybrid - Terceira parte: Queda

    Morte

    Heru, em seu quarto, remexia-se inquieto com os sonhos. A imagem de Selenee não lhe saía da cabeça. Em todas elas, ou aparecia como um demônio ou aparecia sofrendo. Clara não sonhava diferente.
    Chamas azuis acenderam nas lareiras de todos os quartos, indicando uma emergência ao qual todos deveriam descer ao salão principal.
    Reunidos ali, receberam a informação de que teriam que se preparar para uma guerra. Os vampiros rumavam para o castelo e eles deveriam ir em sua direção, impedindo que o castelo fosse atacado, se conseguissem pará-los.
    Voltaram aos seus quartos para vestirem as armaduras e arrumarem os pertences. Rochben bateu á porta de Heru.
    - Viu Selenee?
    Obedecendo ao líder para não dizer nenhuma palavra sobre o ocorrido, mentiu:
    - Não senhor.
    - Mas ela estava com você na festa.
    - Sentiu-se mal e se trancou no quarto...
    - Lá não está.
    - Então não sei.
    Rochben fechou a porta, mas os soluços histéricos de Clara podiam ser ouvidos:
    - ...não está mais lá! Sumiu! Nada me tira da cabeça que ela está em perigo!

    ---

    O padre olhava preocupado pelas janelas da igreja. A lua já estava alta. Os fiéis já estavam cansados, alguns dormiam recostados nos bancos. Se aquele livro dizia a verdade, vampiros e lobisomens se reuniriam onde está o ser Hybrid, e dariam início a uma terrível batalha. Rezava para que não conseguissem atravessar a barreira que os protegia naquele templo. Que estivessem vivos com a nova aurora.

    ---

    Sob a luz da enorme lua prateada, vampiros e lobisomens rumavam um de encontro ao outro.
    Heru e Clara andavam lado a lado em seus cavalos, Devil seguindo-os de cabeça baixa. Heru apático e Clara preocupada. O coração de ambos estava apertado. Devil gania como se chorasse, mas não parava o passo.
    Acabaram por se encontrar bem em frente à igreja, Aina e Ernil, face a face. Ambos detiveram a multidão enfurecida que guiavam.
    - Ernil...mais uma vez nos encontramos!
    - Lembre-se de meu rosto em sua morte, Aina.
    - Está tão confiante assim, lobinho? Só porque tem o poder de Hybrid no sangue? Pois coloque o rabo entre as pernas! Você não é o único.
    Estava dada a largada. Assustado com tal revelação, Ernil atiçou seus guerreiros para cima dos vampiros. A batalha que o padre temia havia começado.
    De dentro do templo, os humanos observavam com horror o caos ali fora. E ao que parecia, outros exércitos iam se aproximando, aumentando aquela massa de bestas enfurecidas. Todos estariam se reunindo ali, para o confronto final.
    Uma nuvem cobriu a lua, como se não quisesse que assistisse um espetáculo tão sangrento. Devil acordou de seu transe, levantou a cabeça e atacou o vampiro que ameaçava matar Clara. Puxou-a pela perna, como querendo que viesse com ele. A mulher entendeu a mensagem e correu para chamar Heru, brandindo agilmente a espada contra os que avançavam.
    Derrubaram os vampiros de seus cavalos e os roubaram, seguindo Devil em direção ao castelo. Os portões se abriram e saltaram apressados dos animais. O cão corria agora pelos jardins, os dois amigos em seu encalço. Pulou sobre a mureta que delimitava o corredor e avançou contra a porta trancada do salão de batalhas. Bateu a cabeça com força, caiu, levantou-se rapidamente e sacudiu-se. Começou a arranhar a madeira, arrancando lascas enormes. Heru bateu com a espada na tranca, arrebentando-a e fazendo a porta abrir-se violentamente com o chute que deu.
    Desceram as escadarias pulando de cinco em cinco degraus. Ao chegarem no salão, uma cena horrivelmente bela. No pilar central, o corpo de Selenee era rodeado por um círculo de fogo, que parecia evitar que as labaredas queimassem o cadáver. As paredes chiavam como nunca com a energia com que estavam carregadas. Devil latia desesperadamente. Clara apagou o fogo e anulou a energia que envolvia o lugar. Heru correu e desamarrou Selenee, cujo corpo caiu, sem vida.
    - Selenee! Selenee! Acorde! – gritava desesperado, tomando-a nos braços.
    O corpo estava quente pelas labaredas que a circundavam, mas agora esfriava.
    - Não...Não!
    - Por favor, Selenee! Acorde! Clara, faça alguma coisa!
    A mulher apenas chorava, contendo os soluços.
    - Heru...Não há nada que eu possa fazer...
    - Você pode sim! Traga-a de volta! Traga-a de volta, por favor! – Heru já em lágrimas, afogava-as sobre o seio sem vida da menina.
    - Já expirou o tempo que poderíamos tê-la trazido de volta...Selenee... – Clara também abraçou o cadáver, não contendo mais a mágoa.
    Devil gania, vendo o corpo da dona ali, imóvel, frio. Morta.
    Selenee estava morta.
     
  17. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    Re: [L][Riku] Hybrid - Terceira parte: Queda

    Falta apenas duas partes para o fim da historia..
    O que estao a achar do rumo?
    ^^
     
  18. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    [L][Riku] Hybrid - Quarta parte: Anjos Não Morrem

    Cativos

    De volta aos belos campos da morte, Selenee descansava sob a árvore em que estava antes de ser levada de volta à dimensão em que estivera. Desta vez, aninhada nos braços de seus pais.
    - O que vai acontecer se eu não voltar?
    - Não sei.
    - E se eu voltar?
    - Também não sei.
    - Mas não há profecias, nada que indique?
    - Você é aquilo que acredita, Selenee. Se acreditar em uma profecia, ela acontecerá. Não passam de cálculos e suposições que muitas vezes coincidem com o que ocorreu. Mas se coincidirem, é por que você acreditou nela, e sem querer caminhou para que tudo levasse àquilo que pregava. Os únicos que devem profetizar nossos caminhos somos nós mesmos.
    Silêncio. O vento agita as folhas das árvores e empurra nuvens gordas e preguiçosas pelo céu azul.
    ---

    No salão de batalhas, Heru, tomado por um súbito pressentimento, pegou o corpo de Selenee e correu escadaria acima, rumo ao lugar onde deixaram os cavalos. Clara e Devil seguiram-no sem entender o que queria. Saiu do castelo e rumou em direção ao campo de batalha. Segurava com força o corpo da amiga, para que não caísse.
    O sangue regava a relva coberta de cadáveres. Tomou coragem e abriu caminho entre o combate. Passou perto de Ernil e Aina, que duelavam ferozmente. Ambos subitamente pararam e abaixaram as armas. Apenas ficaram a observar o cavaleiro que passara ali, com o corpo de alguém.
    Heru corria confiante em direção à igreja. Já se aproximava da barreira que protegia os humanos das criaturas que tanto temiam.
    - Heru! Pare! – gritou Clara logo atrás.
    Não obedeceu e continuou atiçando o cavalo para correr mais. Sentia a pele queimar com a energia que tentava repelí-lo. O ar começou a faltar. Mas não parou. Vendo que não desistiria e contaminada com essa confiança também, Clara emparelhou do lado direito de seu amigo, enquanto Devil vinha do lado esquerdo.

    ---

    “Um pássaro preso...

    ---

    Tomaram fôlego e se prepararam para o impacto que poderia matá-los. Os animais já tentavam parar, mas também pareciam acreditar que conseguiriam. Contagem regressiva e todas as memórias passaram por suas mentes como um filme. Cada vez mais perto, mais perto, seu coração não aguentará, quase encostando...”Vou morrer” pensou.

    ---

    ...depende de mim para voar livre...

    ---

    Fechou os olhos e apertou os arreios com força. Sentiu algo fino como a seda tocar seu rosto, causando-lhe dor por todo o corpo. Parecia empurrar e ao mesmo tempo agarrá-lo e triturar seus ossos.

    ---

    ...abrir as asas e ir de encontro ao desconhecido...

    ---

    Aina e Ernil estavam imóveis, de pé, lado a lado. Alguns tentavam atacá-los, mas eram repelidos pelo campo de força similar àquele que Heru, Clara e Devil corriam em direção. Mesmo sem conhecê-los, torciam em silêncio para que conseguissem aquilo que desejavam.

    ---

    ...ou morrer cativo”

    ---

    Um trovão repentino ecoou por todo o campo e fez tremer a terra. O som de estilhaços voando feriu os ouvidos de quem estava ali perto, fazendo tudo silenciar. Lobisomens e vampiros cessaram seus ataques e abaixaram as armas.
    Mais três estrondos desse, desta vez mais longe.
     
  19. Malaman

    Malaman Passion, what else?

    Re: [L][Riku] Hybrid - Quarta parte: Anjos Não Morrem

    O primeiro e último dia

    O céu escureceu com o redemoinho de nuvens negras que o cobriu. O vento tornou-se violento e relâmpagos iluminaram as trevas em que foram mergulhados.
    - Selenee! Tem certeza de que é isso que quer?
    - Tenho!
    - Adeus, filha. – disse seu pai, soltando os braços.

    ---

    Devil sacudia com força as vestes de Heru. Atravessaram a barreira.
    - Hã? O que...
    As portas da igreja estavam ali, abertas, com milhares de humanos a olharem-no aterrorizados. A terra ainda tremia e pedaços do teto da construção começavam a cair. Viu o corpo de Selenee ao seu lado. Tomou-a nos braços e surpreendeu-se ao sentí-lo quente. Estava voltando!
    Devil acordou Clara, atordoada com o impacto. Lá fora, todos os observavam, imóveis. Ernil e Aina caminhavam em sua direção, atravessando a barreira com facilidade. Assim que passaram, houve um brilho repentino e ficaram isolados dos guerreiros ali fora, que assistiam a tudo sem entender.
    Adentraram a igreja em um cortejo de silencioso triunfo, sob os olhares de todos.
    O padre, no altar, apenas esperava que chegassem até ele. Tinha certeza; aquela criatura nos braços do lobisomem era o símbolo da libertação. Hybrid, o anjo que abre as portas para um novo mundo.
    Devil à frente, Heru atrás, entre Aina, Ernil e Clara.
    As paredes da igreja sumiram. Heru soltou o corpo de Selenee, que flutua sobre o altar e se posiciona verticalmente, paralelo à imagem da cruz. Alinhada com o símbolo que rejeita as raças de que é formada, começa a brilhar intensamente, ofuscando quem está ali.
    Dois feixes de luz vermelha e azul descem dos céus e focalizam na menina como holofotes. De toda essa energia forma-se um rio prateado, que corre como um cometa em direção onde estava a porta do templo. Divide-se em certo ponto em uma linha horizontal, seguindo uma para a direita, a outra para a esquerda, mas continua um outro feixe na vertical. Ao mesmo tempo tocam as cruzes de cada igreja, fazendo uma outra, enorme, que cobre a cidade e o campo de batalha.
    Uma luminosidade maior cega a todos. As luzes se dirigem ao céu escuro e, como fizera Heru com a barreira, quebram o pálio que os cobre.
    Quando já é possível ver algo, todas as atenções se voltam a uma criatura alada, que paira sobre eles.
    Aina e Ernil também têm seus corpos em brilho. Do coração de cada um sai uma pequena borboleta, da cor de cada raça de que são deuses. Voam em direção à criatura ali em cima e pousam inocentemente sobre a haste prateada de seu medalhão. Fecham as asas e em um reflexo se tornam um só.
    - Selenee... – sussurra Heru.
    Assim que o medalhão se funde, Selenee se torna o anjo Hybrid. As asas brancas ficam como o medalhão; vermelha e azul, mas não separadas. Em movimento constante, como água, e juntas.
    O vestido preto foi substituído por uma armadura branca, que realça a perfeição do corpo feminino. Em suas mãos, duas espadas longas.
    Dois pares de asas finas batem com delicadeza, causando ventos violentos. Com destreza, gira as armas e cruza suas lâminas sobre a cabeça. No tinir do metal, a aurora desponta no horizonte, quebrando em estilhaços a barreira que impedia aquelas almas de saírem.
    Todos cobrem os olhos diante daquela aparição. Uma sensação de leveza toma conta dos seres daquele planeta. Depois de tanto tempo trancados, Hybrid abre as portas para que possam voar mais alto, mais longe. Pode perder estes pássaros em um lugar tão extenso e desconhecido que é o universo, mas como diz,
    “São livres para trilhar o caminho que quiserem. Deus nenhum controla a vontade de suas criações. Apenas guia e deixa que escolha a estrada que lhe pareça melhor”
    Aos poucos, tudo o que foi criado por um ser maior se transforma em luz e voa em direção ao anjo. Ele os levará para um outro mundo, outra dimensão. É um novo nível para humanos, vampiros e lobisomens.
     
  20. Malaman

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    Re: [L][Riku] Hybrid - Quarta parte: Anjos Não Morrem

    Novos deuses

    Em algum lugar no tempo e espaço, Selenee, Heru, Aina, Ernil, Clara e Devil, os seis guardiões do novo mundo, observam os humanos em seu novo estágio. Divindade, guerreiro, vampiro, lobisomem, elfo e animal conversam:
    - Será que conseguirão?
    - Tenho certeza que sim.
    - Quem será o novo anjo Hybrid?
    - Isso dependerá das decisões que tomarem. Veja que agora lidam bem com as diferenças entre vampiros e lobisomens.
    - É um bom começo já. Mas todas as religiões e raças começam assim. Dão-se bem e depois...
    - Teremos que guiá-los, fazendo-lhes lembrar do que aconteceu antes.
    - Será que conseguiremos? Tantos tiveram seus esforços em vão...
    - Não acho que seja em vão. Conseguiram muito. Mesmo que seja de pouquinho em pouquinho, vê-se que todos evoluem.
    - Então...
    - Apenas esperar que façam seu melhor.
     

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