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[L] [Forfirith][Marlboro Man]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Forfirith, 30 Ago 2004.

  1. Forfirith

    Forfirith Usuário

    [Forfirith][Marlboro Man]

    ARGH, embora o título me doa no coração, achei que a combinação ficou legal...
    ----------------------------------------
    Marlboro Man

    Decidiu largar o cigarro. Resolveu voltar à cidade de onde veio, e rever seu passado. Reavaliar sua vida, do ponto de vista do lugar onde veio. Quem sabe lá ele poderia pensar direito nas coisas.
    O sinal fechou. O trânsito caótico da capital já começara, e o calor começava a sair do asfalto escaldante. Quando a primeira gota de suor lhe fez cócegas no rosto, decidiu que o próximo carro teria ar condicionado.
    O que ele precisava era ir para a velha cidade no interior. Tudo, ao rever o passado, ficaria bem mais simples. E tranqüilo, ao contrário da sua vida atualmente, com todo seu trabalho. Então, quando o sinal abriu, ele virou à esquerda e pegou a estrada. Sabia que, se demorasse para ir, desistiria. Sempre desistiu facilmente das coisas, e não era agora que iria mudar. Seguiu dirigindo por toda a madrugada, relembrando-se do velho caminho, que já não reconhecia as marcas de seus pneus. Era estranho, mas não se lembrava daquela poeira. Porque evitara tanto seu passado, ele já não se lembrava mais. Nem queria se lembrar. Seguiu o caminho.
    Chegou na entrada da cidade pelo amanhecer. De longe avistou a construção que demarcava a entrada do município. Um sentimento bom lhe percorreu o corpo. Muito se passara naquela velha entrada da cidade, muitas lembranças de infância, de adolescência, de tudo.
    Quando se aproximou mais da construção, viu que estava toda aos pedaços. Muitas paredes caídas, as portas de madeira apodrecidas. Lamentou o portal estar tão acabado. Seguiu em frente e chegou na cidade.
    Não se achou em lugar nenhum, se perdeu por todas as ruas. Muito, pra não dizer tudo, havia mudado. Seus impulsos o fizeram buscar o maço de cigarro no porta-luvas, mas lembrou-se de sua decisão.
    Perdido, cego e precisando de nicotina, tentou achar a sua casa em meio a tantas construções novas e altas – alguns prédios, de dois andares, cresciam como praga por toda a cidade. Depois de rodar por inutilmente por diversos lugares que ele conhecia, mas não reconhecia, decidiu entrar na primeira pousada que encontrou. Já estava nervoso com sua impotência, não achava nada, muito menos sua casa.
    Entrou, e no meio tempo entre chegar e ser atendido, adormeceu na recepção. A gerente lhe acordou com alguns cutucões. Embaraçado, ele admirou o rosto da mulher.
    _Ana?
    _Hein? Como sabe meu nome?
    _Eu sou Francisco, não se lembra de mim? Fomos colegas até o colegial...
    _Francisco? Eu me lembro de um Francisco, mas não se parece co você.
    _Eu envelheci; engordei, a barba cresceu. Meus dentes amarelaram, mas o sorriso é o mesmo. Sou eu, Francisco – e sorriu um riso elegantemente jocoso.
    _Você então! O que o traz devolta? Não aparece há...
    _Uns quinze anos, eu acho. É, eu mudei. Sabe como é, ganhar a vida. E por falar em vida, parece que o portal morreu, hein?
    _Pois é, ele ficou meio abandonado de uns tempos pra cá. Os últimos prefeitos não foram bem o que se consideraria “cuidadosos”...Eu vou me candidatar a prefeita nesse ano que vem. Sabe, cansei de ser pobre. Ta na hora de subir na vida, não acha?
    _Pois é. Bem, tem algum quarto disponível?
    _Todos. Escolhe qualquer um. Quer ar condicionado?
    _Sim, por favor.
    Ele subiu. As escadas estavam velhas e descascadas pelo bolor. Um arrepio de aflição lhe passou pela espinha ao entrar no quarto. Tudo era velho e parecia não ter sido tocado de antes de sua partida. Bem ao contrário de todo o resto da cidade.
    Tentou ligar o ar condicionado, mas depois de alguns espirros de ar e poeira, pifou. Os chutes que Francisco deu para fazer funcionar foram inúteis. O motivo era previsível, provavelmente sua bisavó fora a última a usar o aparelho, e depois dela, ninguém mais o limpou. A rinite já começava a se manifestar. Deitou-se na cama poeirenta e adormeceu.
    Quando acordou, se arrumou e desceu. Ele devia ir logo ver sua antiga casa. Estava ansioso para rever sua infância, seus pais, seus sonhos. Muitos deles perderam-se pelo caminho até a capital.
    _Oi, Ana, você se lembra como se faz pra chegar na minha casa?
    Ocupada em meio a tarefas que, Francisco ousava adivinhar, não pareciam ser nem de longe relacionadas à pousada, explicou distraída e rapidamente como se fazia para ir até o local.
    Ele conseguiu chegar aonde queria. Virou pela esquina, atravessou a rua, mas não viu a casa. Reconhecia a rua, mas não achava a casa. Não entendeu direito, até perceber que a casa é quem não estava mais ali. No lugar, estava um daqueles prédios de dois andares. Amaldiçoou os prédios. Aquela praga chegara até sua própria velha casa. Que na verdade nem era mais dele.
    Desiludido, foi ao centro da cidade, errante, pelas ruas asfaltadas e quentes da nova velha cidade.
    Ao entrar num bar, reconheceu Ana.
    _Você é dona do bar também?
    _Era do meu marido. Quando ele morreu, ficou pra mim.
    _Ah...Me vê um chopp, por favor.
    _Você é educado demais. Não tem chopp.
    _Me vê uma cerveja então.
    _Só tem a da região. Serve?
    _Pode ser.
    Tomou a cerveja devagar. Teve a impressão de que Ana o observava de canto de olho. Desviava o olhar para a mesa. Ao menos ela não estava embolorada como a pousada. Ajeitava a toalha com a mão, até que a mulher se juntou a ele.
    _Posso?
    _Claro. À vontade.
    Ficaram em silêncio.
    _Então...o que te trouxe devolta?
    _O cigarro.
    _Como?
    _Eu decidi mudar muitas coisas na minha vida. A primeira delas foi parar de fumar. Entre as outras, era arrumar minha vida capenga. Muitas coisas confusas, bem do jeito que a gente imagina na infância.
    _Casamento?
    _Não, trabalho. Não casei. Bem como eu sempre temi que acontecesse. Bem, eu fiz o possível...
    _Ah...
    _Sabe, achei que voltando, me entenderia melhor. Reencontraria os sonhos que abandonei.
    Ele notou certo interesse por parte da mulher. Ela debruçou-se mais sobre a mesa, e os seios lhe ficaram mais salientes. Ele espiou a barriga gorda, coçou a barba, roçando a papada. Não via o que havia de interessante nele que ela pudesse se sentir atraída à primeira vista. Talvez fosse seu passado quem a atraísse. Achou melhor deixar claro o quanto mudou.
    _Bem, é bom que tenha mudado. Amadurecido. Espero que esteja mais realista do que costumava ser!
    _É, isso eu não sei. Acho que, no fundo, ainda sou meio criança. Sabe, infantil, imaturo. Bem, eu sou suspeito pra dizer.
    _É? Bem, isso a gente nunca sabe dizer sobre nós mesmos. Eu posso dizer tranqüilamente. Me formei em psicologia.
    Subitamente, grandes discursos enfáticos sobre sua opinião quanto a psicólogos lhe vieram à mente. Mas quem sabe ela não poderia lhe mudar a opinião. Valia a pena investir.
    _Adoro psicologia.
    _Eu já sei. Pude sentir quando entrou que nossas auras são muito parecidas. Eu sou muito sensível pra isso, sabe? Posso prever que sua alma é limpa.
    Ele pensou nos maços de cigarro que fumava por dia. Lembrou-se que era ateu.
    _Bem, eu não sou capaz de tudo isso.
    A conversa continuou até a noite. Ele a levou até a pousada, mesmo ela tendo dito que não morava lá, na verde estava num daqueles prédios de dois andares. Mas ela deixou. Ambos sabiam o que acontecia.
    Não demorou para se beijarem. Despiram-se e amaram-se. Ou tentaram. Ele não pode lhe retribuir o suficiente. Sentia-se acabado, desolado, envergonhado.
    _Ah, isso é normal! Estudamos isso em psicologia. Há alguma coisa lhe incomodando?
    Ele pensou em seu ódio pela profissão da mulher, observou as rugas no rosto dela, as estrias cortando-lhe as pernas, a pele caindo.
    _Não, tudo bem.
    Ela virou-se e dormiu. Ele também.
    No meio da noite, ela acordou com os roncos dele. Pensou em termos técnicos e classificou o tipo de homem que era Francisco. Ótimo, os horóscopos combinavam.
    Na manhã do dia seguinte, ele a cumprimentou com um aceno. Ela foi até ele e o beijou.
    _Não tenha medo de relacionamentos!
    Ele lhe sorriu- “sabe como posso fazer pra falar com os antigos colegas?”
    _Claro, na lista telefônica tem todos os telefones. Isto é, dos que ficaram na cidade.
    _Certo. E tem alguma lista por aqui?
    _Sim, na recepção. Pode pegar lá.
    Ele procurou. Teve alguma dificuldade, lembrava-se dos nomes, mas como em cidades pequenas a maioria deles são iguais, demorou até encontrar todos os colegas que sobraram e combinar alguma coisa. No fim, ficou marcado um encontro num restaurante, no centro, às nove horas.
    Às oito e meia, Ana foi acordar Francisco, e lhe disse para não se atrasar para os compromissos. Ele se arrumou, e eles foram. Chegaram no restaurante, e o garçom lhes informou qual era a mesa.
    Todos os seus antigos colegas estavam casados. Com suas antigas colegas de escola. E todos tinham lindos filhos loiros, que estavam sentados comportadamente ao lado de cada pai. Sem graça e embaraçado, ele cumprimentou a todos, de pé.
    _Adoro crianças.
    Ao verem quem o acompanhava, algumas caras se fecharam em desgosto. Ambos os recém chegados fingiram não perceber, e se sentaram. Como cada casal sentava um ao lado do outro, guardaram duas cadeiras, uma ao lado da outra, para Francisco e sua suposta esposa.
    Margarete, uma das ex-colegas, perguntou a Francisco se estavam casados.
    _Ah, não. Eu não casei e ela, bem, vocês sabem, é viúva.
    Todos olharam com surpresa para Ana.
    _É normal o medo de vocês quanto ao suicídio, mas não há nada errado em alguém se matar.
    _Claro que há! Segundo os mandamentos da Bíblia, serão condenados ao inferno aqueles que atentarem contra a própria vida!
    As frases foram suficientes para Francisco perceber que estava no lugar errado. E com as pessoas erradas.
    A janta toda passou, e o casal de “anticristos” passou calado. Na hora da conta, Francisco se ofereceu para pagar, e ninguém pestanejou. A conta foi astronômica, e muitos levaram comida para as sogras e os filhos mais novos.
    Quando voltaram para a pousada, amaram-se novamente. Dessa vez, devidamente. A noite foi envolta em prazeres há muito não vivenciados por ambos.
    Mais tarde, na mesma noite, Ana começou a discutir as considerações a serem feitas sobre o encontro e sobre a relação dos dois.
    _À merda com suas considerações idiotas. Odeio psicologia.
    Os olhos da moça lacrimejaram.
    _Foram as últimas palavras de meu ex-marido!
    Ele não sentiu necessidade de se desculpar, sentia falta de seu cigarro. Queria devolta seu apartamento e sua vida solitária. Ela se levantou e foi embora, depois de vestir-se.
    No fim da tarde, ele fechou a conta na pousada, em silêncio, enquanto ela esperava alguma explicação, algum número de telefone. Nada exceto silêncio.
    Ele entrou no carro, e acelerou para ir embora daquele lugar. Não disse tchau, nem desejou saúde. Desejou apenas que fosse à merda com sua psicologia.
    Passou novamente pelo portal da cidade, e jurou ser a última vez. Agora ele sabia porque tinha evitado voltar por tanto tempo, embora ao fazer não soubesse o porque.
    Observou a construção apodrecida, e mandou ao diabo a promessa de não fumar mais. Quem ele amava era o cigarro. Levou a mão ao porta-luvas e acendeu mais um Marlboro.
     
  2. Forfirith

    Forfirith Usuário

    Como os poucos textos longos que fiz, esse ficou massante, e na minha opinião, meio chato. Mas não custa postar...
     
  3. Kementari

    Kementari É só marca do fogão!

    Nega, não é só o final que tá bom!!!
    O texto tá ótimo, tem uma fluência super gostosa!

    (Tá certo que o final tá foda mesmo!)

    :grinlove:
     

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