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[L] [Eli Nerwen][O Destino de Dheor]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Eli Nerwen, 30 Mai 2004.

  1. Eli Nerwen

    Eli Nerwen Usuário

    [Eli Nerwen][O Destino de Dheor]

    bem....pra começar...esse eh o meu primeiro conto e soh foi lido por algumas pessoas (q gostaram dele por sinal...)....

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    Em um belo dia de sol, estava Dheor sentado em sua cadeira de balanço favorita na varanda de sua casa. Dheor era um homem de aproximadamente quarenta anos, cabelos e olhos castanhos. Não se pode dizer se era belo, ou se algum dia fora belo, pois reza a lenda que por anos a fio viveu sozinho em seu sítio, não tendo contato algum com o mundo exterior.
    Isso mudou apenas no dia em que lá estava ele, como todos os dias, sentado em sua cadeira de balanço na varanda de sua casa, no sítio herdado de seu pai.Não sei se era dia de sol, ou se o sol realmente nasceu naquele dia; Isso não fazia diferença alguma para Dheor, nem lhe causaria espanto.

    Um homem foi aparentemente cuspido do milharal, e foi essa impressão que o pobre Dheor teve. Obviamente, nenhum homem pode ser mastigado e cuspido por uma plantação em plena luz do dia. E logicamente não foi isso que aconteceu com aquele rapaz.
    Dheor podia até ser um homem de poucas palavras, mas não tinha o coração mau: apressou-se para ajudar o jovem, cujo rosto trazia cortes que se repetiam por todo o corpo. Mesmo com a visão nada agradável, Dheor não se impressionou e não pensou duas vezes antes de decidir que ele mesmo poderia cuidar daqueles cortes (de qualquer maneira isso seria melhor do que chamar ajuda e ter de explicar a todos de onde veio aquele misterioso jovem e porque tinha tantos cortes pelo corpo, coisa que nem ele mesmo sabia).
    O rapaz não era pesado, e foi facilmente levado para a sala e deitado sobre o velho sofá. Dheor conhecia algumas técnicas de cura, e de qualquer modo, aqueles não eram cortes profundos. Foi só ao limpar o rosto do rapaz que Dheor viu que ele era realmente jovem - ninguém seria capaz de lhe atribuir mais do que dezoito anos – e extremamente belo. Trazia consigo uma espada chanfrada e restos de algo que poderia ter sido comida algum dia, agora não passava de migalhas manchadas de sangue e terra.

    Depois de limpo, o garoto dormiu por dez horas a fio, constantemente vigiado por Dheor, e já era noite alta quando acordou de sobressalto, assustando Dheor que já começava a pegar no sono.
    - Onde estou? - foram suas primeiras palavras. A voz era belíssima, mas o tom em que era pronunciado denunciava um medo que o jovem não queria aparentar. A esse questionamento, Dheor confirmou sua fama de homem de poucas palavras, e disse somente e rispidamente:
    - Em minha sala.
    - Muito obrigado, o senhor foi de grande ajuda. – disse o garoto - Agora mostre-me a saída. – como pode-se supor, isso foi dito em tom de ironia. É claro que Dheor não conseguiu se conter.
    - Se não quer a minha ajuda, pode sair porta afora, estamos no meio da noite e há muitos orcs vagando por aí, talvez se eles tivessem um pouco de carne tenra hoje, não perturbassem as minhas ovelhas, nem roubassem meu trigo.
    O jovem então notou que não tinha sido muito gentil com o homem que cuidou dele e o recebeu em sua própria casa por livre e espontânea vontade. Tendo recebido boa educação e nascido com um bocado de bom senso, tratou de desculpar-se o mais depressa possível.
    - Perdoe-me senhor, falei sem pensar. Eu sou Arminas, filho de Artamir, do reino de Gondor. E dizendo isso, levantou os olhos; esses eram de um castanho muito bonito e espetacularmente diferente dos que os humanos costumam ter. Parecia possuir o dom de brincar com as cores conforme se movimentavam. Eles conseguiam dar uma vivacidade maravilhosa ao rosto de Arminas.

    Dheor conhecia pouquíssimo da bela língua élfica, mas apelidou em seu íntimo o jovem Arminas de Coirëa, que quer dizer vivo, pois era isso que ele transmitia ser acima de tudo: Vivo.
    Naquela noite, Coirëa tomou um banho e vestiu uma roupa limpa. Dheor não perguntou mais nada sobre ele ou como viera parar ali; de algum modo, os dois sabiam que não havia nada a ser dito por enquanto, e conseguiam enxergar nos olhos um do outro que segredos estavam sendo escondidos, mas nenhum deles atreveu-se a perguntar nada. Limitaram-se a uma boa noite; Dheor foi para seu quarto a Arminas passou a noite na sala, onde havia descansado durante a tarde.

    Essas horas de sono me darão tempo para descrever que lugar estranho e misterioso era esse onde uma criatura como Dheor vivia. Como já mencionei antes, Dheor morava num sitio, sítio esse que ficava na beira sul da floresta das Trevas. Tudo o que produzia era basicamente para o seu sustento. Tinha um pouco de milho, um pouco de trigo, alguns carneiros. Também tinha um cão, muito parecido com um lobo, que passava dias a vagar pela floresta, mas sempre voltava.Esse cachorro era muito especial, chegou no exato dia da morte de seu pai, doente e com muita sede. Soica, pois foi esse o nome dado ao cão, adotou logo a personalidade de seu dono, como é comum aos cães fazerem; nunca fora muito carinhoso e seria capaz de viver toda uma vida sozinho no meio da floresta; mesmo assim era leal e protetor, como é comum à sua raça.
    O sítio onde eles viviam outrora fora bonito e agradável, mas nos dias em que se segue a historia, já estava com o mato a cobrir as cercas e a sede dava a impressão de ser abandonada. Esta não era muito grande, possuía uma sala com lareira, uma cozinha, dois quartos (um deles já usado para despensa) e um banheiro. Os móveis eram velhos e gastos, com uma grossa camada de poeira que indicava que muitos deles não eram limpos há anos. Com a casa nesse estado, é difícil imaginar porque Dheor continuava vivendo ali, sozinho. Ele mesmo se pegava fazendo essa pergunta às vezes. Parecia que algo o obrigava a viver ali, como se toda a sua essência estivesse impregnada naquelas velhas paredes e móveis de madeira podre.Não, não era possível sair dali, não sem alguma ajuda; não sem um incentivo, pois era apenas disso que ele precisava, vontade não lhe faltava.
    Ninguém chegava perto da casa de Dheor. Muitas pessoas pensavam que ninguém mais morava ali. Suas terras não eram invadidas porque todos da região bem sabiam que com tantos orcs rondando aquela área naqueles tempos, não era nem um pouco vantajoso possuir aquele sítio. O que ninguém sabia era que orcs nunca entravam naquelas terras – e Dheor disse o contrario para Arminas apenas para amedronta-lo -, não era possível encontrar uma razão para esse estranho fato, apenas era assim e Dheor atribuía essa segurança apenas ao cão Soica; nunca lhe ocorrera a idéia de que não há cão no mundo que seja capaz de impedir a entrada de um grande grupo de orcs quando é da vontade deles fazer alguma maldade.

    Em suma, era uma vida tranqüila (pra não dizer entediante), e essa rotina de sabe-se lá quantos anos agora fora quebrada por um jovenzinho cheio de vida e segredos escondidos nos olhos.
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    Continua....
     
  2. Eli Nerwen

    Eli Nerwen Usuário

    msm ninguem tendo postado nada...

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    Arminas acordou com a velha sensação que lhe perseguia há vários meses: a sensação de que tinha algo a cumprir; mas dessa vez ele sabia que isso estava prestes a acabar, e ele faria de tudo para que acontecesse o mais rápido possível.

    Dheor acordou com a cabeça mais leve que de costume. O seu martírio estava perto do fim, ele só não sabia como. A sensação de vazio que lhe acompanhava há vários anos lhe dera uma trégua; o sorriso voltou a seus lábios e ao reparar isso refletido no espelho, chegou a se espantar; maior foi a sua surpresa quando percebeu que o sol estava no céu. “Será que ele sempre esteve lá?” pensou esfregando os olhos como não fazia desde a ultima vez em que reparou no céu, e isso já fora há tanto tempo que ele nem mesmo se lembrava.
    Depois de se vestir foi para a cozinha e só então sentiu um cheiro que contrastava com aquele cheiro de mofo, velhice e podridão que já era característico da casa: sim, aquele cheiro era definitivamente de bacon e ovos mexidos. Há muito tempo não sentia um aroma que lhe fazia lembrar de sua mãe; podia, sim, lembrar-se do cheiro dela, que de algum modo era parecidíssimo com o da cozinha naquele momento. Se fechasse os olhos poderia ser capaz de imaginar sua mãe ali, na frente do fogão, preparando os ovos de que tanto gostava enquanto cantarolava sua melodia favorita. Será que poderia mesmo? Apertou os olhos na esperança de vê-la. Em vão. Não podia nem mesmo lembrar da imagem da própria mãe. Isso o deixou confuso e entristecido; Coirëa chamou-o de volta à vida.
    - Acho que tem um cão ali do lado de fora, senhor Dheor. Eu tentei dar algo pra ele comer, mas isso não é fácil quando ele rosna daquele jeito.
    - Soica não é muito amigável mesmo.- confirmou Dheor - Eu nunca o apresentei a ninguém.
    Dheor viu que era verdade o que tinha acabado de dizer. O cão tinha vindo no dia em que seu pai faleceu, mas demorou algum tempo até que ele se acostumasse à presença de Dheor. Logo, bem poderia ser verdade: Soica nunca conhecera ninguém além de Dheor, era normal que não se acostumasse facilmente com outras pessoas. Isso teria que acabar.

    Grande foi a surpresa de Arminas quando viu que Dheor estava abrindo a porta para Soica entrar. Maior ainda foi a sua surpresa quando ele reparou que o cão, antes tão feroz, agora aceitou de bom grado um pedaço de bacon oferecido por ele.
    Só então Dheor sentou-se na mesa com um sorriso de satisfação nos lábios. Começou a comer tão logo havia sentado.
    - Você cozinha muito bem, rapaz. – disse ele depois de algum tempo.
    - Muito obrigado – respondeu Arminas meio sem jeito. Como não tinha mais nada para dizer, limitou-se a comer em silencio. Foi Dheor quem novamente quebrou o silencio.
    - Você é de Gondor, certo?
    - Sim.
    - O que faz tão distante do seu reino? – indagou Dheor.
    - Meu capitão ficou incumbido de trazer uma mensagem à Rohan. O homem a quem se dirigia essa mensagem se encontrava do descampado; nós fomos atacados por um grupo de orcs que me aprisionou. Eu estava sendo trazido para a floresta das Trevas, mas consegui me libertar a tempo... – o jeito que Arminas ficou depois de ter respondido a essa pergunta fez Dheor supor que ele havia sofrido muito e era melhor não tocar mais nesse assunto.
    - Você pretende voltar para lá?
    - Certamente, senhor.

    Dheor ficou meditando sobre aquilo. Aquelas terras eram perigosíssimas. Não era bom um homem viajar sozinho, além do mais, Dheor nunca tivera uma aventura; não pretendia ir até Gondor, na verdade não pretendia chegar perto de nenhuma pessoa. Iria até onde soubesse que não poderia ser incomodado por ninguém. Não lhe parecia boa a idéia de ter pessoas a sua volta perguntando de onde era, a que família pertencia.... Mesmo assim, isso lhe parecia algo muito importante, como naquelas historias em que um homem sai em busca de seu destino; sim, era exatamente assim que ele se sentia: como um homem que busca seu destino. Essa idéia soava muito bem a seus ouvidos.

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  3. Eli Nerwen

    Eli Nerwen Usuário

    - Posso lhe acompanhar até o descampado de Rohan, lá você encontrará quem lhe ajude. Eu não sou de muita serventia mesmo, garoto. Nunca saí dessa região, pelo menos não até onde eu me lembre.
    Saíram naquela tarde mesmo. Dheor foi até o cercado onde estavam as ovelhas, mas não as encontrou. Talvez elas tivessem fugido por algum buraco na cerca; talvez elas nunca estivessem estado lá. Agora isso não mais importava.
    Dheor pôs a mochila nas costas e olhou para trás: para a casa onde tinha passado toda a sua vida. Perecia estranha a idéia de desmembrar-se daquele lugar que tanto parecia conter dele. Ao passar pela porta, porém, não sentiu tristeza, só um sentimento de saudade que ele não sabia explicar. Soica soltou um latido e Dheor adotou aquilo como um sinal. Foi até a porta e lembrou-se que tinha que tranca-la; foi aí que se deu conta de que não havia uma fechadura . não havia nem mesmo uma maçaneta. A porta mal conseguia fechar;como nunca tinha reparado nisso antes? Diante disso, Dheor apenas encostou a porta, virou-se e, sem olhar para trás, seguiu seu caminho.

    E lá foram eles, Arminas, Dheor e Soica , pequenos pontos no chão aos olhos de uma águia. Um rapaz voltando para sua terra natal, um homem em busca de seu destino e um cão que, de alguma forma, sentia-se na obrigação de acompanha-los.
    O caminho para sair do sitio quase não existia mais e era desolador: à direita, a plantação de milho, seca e abandonada, fato que só agora fora percebido por Dheor. Há quanto tempo ele não colhia? À esquerda não era possível dizer que havia realmente uma coisa especifica; era um misto de nada com coisa alguma, erva daninha crescendo por todos os cantos e algumas poucas árvores secas. Entre essas, Dheor conseguiu reconhecer uma: a árvore favorita de sua mãe, o que fora um dia uma linda macieira, agora não passava de um tronco retorcido e podre.

    Quando fora a ultima vez que viera com a mãe ali, debaixo daquela árvore? Depois que o pai morrera, pensou ele, ela veio poucas vezes ali; uma só vez, pelo que ele se lembrava. Mas não podia lembrar com certeza...
    - Ahn? – Dheor assustou-se com o cão lambendo-lhe a mão – Ah... Soica, o que você quer, hum? Acho que Soica tem razão, está passando da hora do jantar.
    Arminas concordou com a cabeça. O lugar em que pararam não oferecia proteção nenhuma, logo, eles só puderam ficar ali para jantar. As provisões não eram muito animadoras, mas nem Soica reclamou naquela noite. Saíram rapidamente e sem deixar rastros; não é bom faze-lo quando sabe-se que há orcs a rondar a região.

    Logo à frente, havia um aglomerado de árvores, um tanto secas, mas não deixavam de ser árvores e aquilo parecia bom numa terra como aquela. Foi ali que pararam para dormir.
    Arminas recostou numa pedra e se perdeu em seus pensamentos. Soica começou a roer um velho osso, e parecia realmente entretido com a tarefa. Apenas Dheor não conseguia pegar no sono. O cheiro da terra o incomodava. Ele nunca havia tido esse tipo de problema, mas era assim que se sentia agora, não podia nem pensar em encostar-se ao chão para dormir. O jeito foi sair para dar uma volta, Arminas nem notou a sua sorrateira saída.
    Foi só aí que começou a reparar no lugar que os circundava. Era tão horrendo, mas ao mesmo tempo tão... familiar. Seria essa a palavra que ele tanto procurava em sua mente aquela noite? O fato é que vagou sem rumo até perceber que poderia se perder. Somente Soica, que o vigiava com os olhos já há algum tempo, percebeu que era uma total imprudência de seu dono sair dessa maneira em uma terra desconhecida. Com um latido chamou de volta o homem. Esse voltou quase que maquinalmente e dormiu, esquecendo-se do cheiro da terra.

    Vagaram assim por vários dias, até que, já preocupados com a falta de água, avistaram um rio. O cão disparou como uma flecha e bebeu, contente, a água, enquanto pulava de alegria e dava voltas em torno de si. Arminas ria vendo a cena, mas Dheor mal notou o que Soica estava fazendo. Já há vários dias estava mais fechado do que nunca. Passava horas e mais horas sem conversar, estava ficando pálido e cadavérico. Arminas começava a ficar preocupado, mas atribuía a aparência do amigo ao fato de ele não estar acostumado a sair e à falta de água e alimento.
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  4. Eli Nerwen

    Eli Nerwen Usuário

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    Naquela noite, acamparam à beira do rio. A noite estava bonita e Arminas até se arriscou a cantar, acompanhado por Soica, que uivava conforme a melodia. Dheor olhava para aquilo com uma certa inveja: lá estavam os dois cantando, felizes. E ele, o que tinha a comemorar?
    A tristeza? Cantar à tristeza que sentia? Se aquele fosse o destino dele, então que acabasse tudo logo. Não podia sentir saudades da própria casa; porque sentiria saudades de um lugar feio e tão abandonado? Então era essa a sorte que o Senhor Destino lhe reservava? O que faltava para piorar?
    Como resposta às suas perguntas, uma cantoria foi ouvida ao longe. Mas não era Arminas quem estava cantando. Aquelas eram as vozes de muitas pessoas. Era isso que faltava para piorar: pessoas, muitas pessoas. Dheor ficou mais triste e deprimido, se recolheu a um canto escuro e esperou que aquela gente estranha a seus olhos se acomodasse num canto ali perto.
    Arminas recebeu logo aquelas famílias, conversaram e riram muito, ele ficou sabendo de noticias sobre as terras ao leste; estava de novo em casa. Sentia-se tão feliz por ter encontrado humanos alegres e cheios de vida que se esqueceu de Dheor. Esse estava em um canto longe de onde as pessoas faziam uma grande fogueira e se preparavam para assar carnes. Mais tarde talvez fosse lá para comer algo.
    Soica fazia companhia ao triste homem, e também se sentia triste. Deitado, olhava de canto para o dono e chorava. Dheor não percebeu as lagrimas do cão, não percebeu nem mesmo as suas próprias. Só a criança que se aproximou dele sorrateiramente percebeu que o homem estava chorando.
    Era uma garotinha de uns quatro anos de idade, de grandes olhos verdes.
    - Está chorando, senhor?
    - Não, minha pequena – e, dizendo isso, apressou-se em enxugar as lágrimas que molhavam, o seu rosto.
    - O senhor está triste? – voltou a perguntar a garotinha.
    - Talvez...
    - Por que?
    - Os adultos têm muitos motivos para ficar tristes, pequenina. Você deveria voltar e brincar com as outras crianças, é lá o seu lugar. – ao dizer isso, apontou para o grupo de pessoas. A criança sorriu e voltou para a luz da fogueira.
    Era lá o lugar da menina, pensou Dheor, não ao lado de um velho triste e solitário como eu. Mas onde é o meu lugar? Olhou para a lua esperando a resposta, mas ela não veio.
    Olhou para o rio e para todas as terras em torno dele. Aquilo lhe era familiar. Claro! Seu pai foi enterrado por essas terras, era essa a vontade dele. Como não havia se lembrado antes? Onde estaria o seu túmulo? Sentia uma vontade imensa de vê-lo. Levantou-se e começou a caminhar; Soica o seguiu.
    Enquanto isso, à luz da fogueira, Arminas entoava uma canção com sua bela voz. Os homens o olhavam admirados. Com toda aquela alegria, ele quase foi capaz de esquecer do pobre Dheor. Onde estaria ele?
    O rapaz saiu e começou a procura-lo, mas não foi difícil encontrá-lo. Lá estava ele, já longe, caminhando. Arminas não pensou duas vezes e seguiu Dheor, mantendo uma certa distância.
    Tudo ali lhe lembrava o seu pai, o dia de sua morte, o esquife sendo carregado por alguns homens. Sua mãe chorava e ele acompanhava de longe, triste. Como havia morrido seu pai? Dheor conseguia se lembrar de que era pequeno, oito anos, talvez. No meio de uma noite escura, um grupo de orcs invadiu sua casa. A mãe gritava, desesperada. Seu pai era um homem forte e corajoso, tentou proteger a família com sua espada, mas Dheor não poderia deixar o pai naquela batalha sozinho. Desprendeu-se da mãe, que tentava leva-lo para fora da casa e tentou lutar ao lado do pai. Naquela hora, uma pancada na cabeça o fez perder os sentidos. A ultima coisa de que conseguia se lembrar era das vozes de muitos homens chegando para ajudar.

    Caía uma leve chuva, Dheor já estava ensopado, mas não parava de andar, absorto em suas lembranças. Soica não saia de seu encalço, mas não tentava pará-lo.
    A chuva aumentou e Arminas, que já o seguia de longe há duas horas, concluiu que era hora de fazê-lo parar. Aquilo já era maluquice. Tentou gritar o nome de Dheor, mas esse não respondia, nem dava sinais de estar ouvindo uma palavra sequer dos apelos do rapaz, apenas seguia em frente como que hipnotizado.
    Arminas avistou um círculo de árvores à frente, era para ali que Dheor estava se dirigindo, ao que parecia.

    ______________________________
    continua....
     
  5. Evestar

    Evestar Usuário

    muito bom mesmo, Adorei :mrgreen:
     
  6. §Etuerpe§

    §Etuerpe§ Usuário

    muito legal ,mas pq Dheor é assim sem palavras pensei que todos da tm eram felizes,e Soica é um cão ou é um lobo ?
     
  7. Eli Nerwen

    Eli Nerwen Usuário

    logo vc vai ver pq Dheor tem ese jeitão esquisito..... :wink:
    Soica eh um cão tipo selvagem, muito parecido com um lobo, negro muito grande...

    o conto naum eh mto grande, ja vou publicar o resto....
    __________________________

    Quando Dheor acordou, o caixão estava sendo levado para o lugar onde o pai gostaria de ser enterrado, longe de sua casa. Foram e voltaram na mais completa tristeza, sem dizer praticamente nada. As senhoras consolavam a mulher do infortunado homem, lhe ofereciam estadia em suas casas, mas ela nada dizia.
    Sua mãe ainda permaneceu na casa por alguns dias, silenciosa e triste como ele nunca achava que ela poderia se sentir. Num fim de tarde, ela se dirigiu à sua macieira favorita, onde a família costumava ir nas tardes de domingo.
    Agora Dheor se lembrava claramente. Sua mãe estava com um grande machado e começou a desferir golpes violentos contra a árvore, pronunciando palavras de ódio, enquanto chorava desesperadamente. Os longos cabelos loiros, sempre tão bem penteados, agora estavam desgrenhados e sujos; as mãos macias que acariciavam o rosto do pequeno Dheor antes de dormir, estavam sujas de sangue; a boca que cantava todas as noites junto à lareira, mordia os lábios, já em carne viva, mas que continuavam a pronunciar palavra incompreensíveis.
    Dheor gritava com sua aguda voz de menino para a mãe parar com aquilo, mas ela não o escutava e continuava seu ritual desesperador. Quando Dheor viu que não havia mais nada a fazer, encolheu-se no chão em posição fetal e chorou, desejando que aquilo parasse logo.
    Quando a mulher já estava cansada e sem forças, um fazendeiro que passava com sua esposa pela estrada na hora, apiedou-se dela e levou-a embora em sua carroça.
    O pequeno Dheor levantou-se, mas já era tarde demais, tentou correr, mas as forças lhe faltaram e ele caiu no chão, esfolando os joelhos. Gritou pela mãe. Em vão. A mulher do fazendeiro tentava acalma-la e os gritos do garoto se perderam na vermelhidão do pôr-do-sol. Ele era apenas uma criança, e, sem saber o que fazer, agarrou-se à arvore e chorou como nunca havia chorado e, em meio ao sangue da macieira morta, dormiu e sonhou com a mãe, com os dias felizes que passaram juntos ali. Mas foi apenas um sonho, e ele nunca mais voltou a vê-la.

    Dheor parou no meio do círculo de árvores. Os pés se enterravam no chão lamacento e os olhos contraiam-se por causa da chuva.
    Arminas encostou-se em uma arvore e observou.
    Um raio cortou o céu e, bem a sua frente, Dheor pode ver o que tanto procurava. O túmulo do pai, coberto pela grama alta que crescia em torno da lapide. Mas não havia um só. Sim, no dia do enterro, não havia somente um caixão, mas dois.
    Dheor correu para as lápides; em uma delas podia ler “Dharem” em letras já gastas pelo tempo. Era essa a lapide de seu pai. Na outra lapide, porém, ao afastar a grama, leu “Dheor, filho de Dharem, o pequeno guerreiro que deixará saudades”. Levantou-se assustado e olhou para os lados; em um canto pode ver Arminas, olhando com seus vivos olhos. Dheor sorriu e pronunciou o nome pelo qual nunca ousara chamar o jovem: Coirëa, o Vivo, mas a palavra foi levada pelo ruído da chuva e nunca chegou aos ouvidos do garoto.
    Perto de si estava Soica, leal, olhando nos olhos do dono. Ali acabava sua viagem, Dheor se dirigiu ao túmulo, sorrindo. Ali acabavam suas dúvidas e sofrimento.

    Arminas não entendia o que via. Em meio a tanta chuva, só conseguia enxergar um homem parado. Um raio clareou tudo, fazendo o jovem fechar os olhos. Ao abri-los, conseguia ver as duas lápides, mas não havia sinal de Dheor. Aproximou-se até conseguir ler o que havia nas lápides. Olhou para o cão, sorriu e virou-se para voltar ao acampamento.
    Soica deitou, encostou a cabeça na lápide, fechou os olhos e dormiu.

    _____________________________________

    bem...é só isso
    valeu quem teve a paciencia pra ler... :mrgreen:

    digam o q vcs acharam!!!!
     

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