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[L][Caranthir][Líu]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Edu, 22 Jan 2007.

  1. Edu

    Edu Draper Inc.

    Esse ficou grande. Pensei em dividir o texto em duas partes, para atrair mais leitores, mas ele perderia parte do sentido se eu o fizesse, então vou deixá-lo inteiro, para que só quem tiver paciência leia. É um texto insosso.

    Líu


    -- "Havia uma menina, o nome dela era Líu. Ela gostava de Pink Floyd, muito bem. Tinha uns sete, oito anos, eu acho. Quem tinha? A Líu, obviamente. Continuando... a música preferida dela era Fat Old Sun, afinal de contas tinha uma história e tanto com essa canção. Quando Líu deu seu primeiro beijo estava tocando Fat Old Sun no alto-falante da praça; quando Líu deu a luz à seu primeiro filho estava tocando Fat Old Sun no walkman do médico; quando Líu se casou estava tocando Fat Old Sun fora da Igreja; e, finalmente, quando Líu morreu, tocaram Fat Old Sun em sua homenagem".

    Ora, que mentira! Como? É uma grande mentira, essa história que você contou. Mentira...? Mas por quê? Porquê você mesmo disse que Líu tinha apenas sete anos! Sete ou oito, foi o que eu disse. Não importa! O que quero dizer é como uma menina de sete ou oito anos vai beijar, ter um filho, se casar e morrer? Bem, ela pode dar um beijo e morrer, e se casar também, se quiser. Mas e quanto a ter um filho?! É, isso ela não pode fazer. Viu! Sua história é uma grande mentira! Mas porquê, camarada? Porquê essa Líu não existe! Oras, claro que existe... eu conheço ela. Não, você não conhece! Certo, eu não conheço a Líu, mas um amigo meu a conhece. Não, ele não conhece! Ok, ninguém sabe quem é Líu.

    Ah! Então você admite que sua história é falsa? Não. Mas você disse que não conhece essa tal de Líu... Sim, eu disse. Então...?! Então que isso não significa que minha história seja falsa. Por quê? Porque os anos têm mais tempo do que você pode contar. Como assim? Não entendi... Certo, vou explicar: os anos têm mais tempo do que você pode contar! Você não explicou nada, só repetiu o que havia dito! Então, isso é uma explicação. Como assim? Eu disse que os anos têm mais tempo do que você pode contar, logo para mim que sei como isso pode acontecer está explicado. Mas eu não sei como isso pode acontecer, e exijo que você me explique! Ah, você não sabe? Não, não sei. Então como você pode dizer que Líu não existe se não pode contar o tempo em quatro anos de vida? Eu posso dizer que ela não existe pois você não a conhece e inventou essa história! E digo mais: quatro anos de vida têm exatamente 1460 dias, 35040 horas e 2102400 segundos. Logo esse é o tempo de vida de Líu! Não, não é. Como não é? É tudo matématico! Não estou nem aí para a matemática, meu camarada. Se você não pode enxergar além de marcas de tempo e espaço, então não serve para compreender a mentira que criei.

    Haha! Então você admite que era uma mentira! Não, não admito. Mas você disse... Sim, eu disse. Então é uma mentira! Não, não é. E por quê não? Porque eu acredito nela. Mas eu não! Você não tem maturidade para crer ou não crer em nada. Haha! Não tenho, é? Eu sou um doutor, tenho um consultório, atendo gente! E ainda assim você acha que não tenho maturidade?! Exato, você não tem. Me diga porque chegou a essa conclusão, então! Simples: você não sabe contar. Lógico que sei! Óbvio que sei! Veja só: 1, 2, 3, 4... Certo, agora conte em números geométricos. Números o quê? Geométricos. O que é isso? Viu, você não sabe contar. Não, me explique o que são números geométricos que eu conto pra você, eu posso fazê-lo! Não, você não pode. E porquê não seu filho de uma... Porquê você não tem maturidade.

    Ai, me diga de uma vez: o que te leva a crer que não tenho maturidade?! Como já disse, é simples: você não sabe contar. Meu Deus! Eu já contei pra você: 1, 2... não, quero números geométricos. Mas eu não sei o que é isso!!! Então, conseqüentemente, não sabe contar. Eu vou-me embora... Para Pasárgada? Deixe de ser idiota, não sou Bilac! Exatamente, não tem competência para sê-lo. Meu senhor, passar bem, vou-me. Au revoir! Então vá, n'oubliez pas la logique. Ah, você falas francês! Até que enfim algo em comum entre nós dois. Não foi francês, foi geométriquico. Ah, vá a merda, meu senhor! Eu vou seguir meu caminho, e que o senhor siga o seu; adeus!

    "Além de Fat Old Sun, Líu gostava..." Ah, é só eu dar as costas que o senhor continua a história, não é? É, sim. E porquê? Você usa muito porquês. É um direito meu. Não, não é. Ah, não? O que são direitos para você então, sabichão? Direito é o que permite que eu viva em meu mundo, com Líu, números e línguas geométricas, e você no seu, com porquês, lógica e seu consultório. Ah, agora filosofou; está querendo dizer que eu não te dou o direito de ser como é! Não, não estou. Então o que quis dizer? Quis dizer e deixar implícito que você não tem de me dar nada, pois direito não se conquista, o direito é eterno e nato; entretanto, não é direito meu interferir no seu direito, e vice-e-versa, coisa que o senhor está fazendo. Isso foi o que quis dizer. Entendo... Então agora acredita em Líu? Não. E no que acredita? No seu direito de crer nela.

    Disse que era médico. Preciso me consultar, quanto é? Nada, faço para o senhor de graça. Obrigado!


    Um pequeno parágrafo sobre moral diria que essa é uma fábula sobre o direito do homem de ter seu direito de fazer o que quer sem ter o direito de interferir no direito (ou arbítrio) de outros homens. Eu diria que não é uma fábula, mas sim uma história sobre a vida e morte de Líu. As discussões sobre a verdade e a mentira, a crença e a não-crença, foram só para prolongar o relato. O que acontece é que uma história sobre uma criança imaginária deixa de ser uma história sobre uma criança imaginária quando passamos a querer impôr o que achamos na imaginação de quem conta a história, a interferir no direito do outro de contá-la como ele a vê. Entretanto, há momentos em que o que está em jogo não é o direito dos outros, mas sim sua consciência. O contador de histórias, por exemplo, fez com que o doutor enxergasse seu erro interferindo no direito desse de errar. O que acontece é que muitas vezes esquecemos porquê diabos temos a capacidade de mudar certos aspectos na vida de uma pessoa, e acabamos usando essa capacidade unicamente para que a pessoa concorde com nossas idéias a todo e qualquer custo. Isso é um erro, se quer saber. O meu direito termina onde o seu começa, mas o meu direito, nem o seu, não devem terminar, devem ser infinitos. Isso quer dizer uma coisa absurdamente simples e nada complexa: preservar a integridade dos homens é garantir que eles tenham o poder de pensar por si próprios. Não é dar a cada um deles um canto no mundo onde possam ficar sozinhos e refletir sobre as coias, mas sim garantir que uma pessoa ajudará a outra sempre na busca pela liberdade de pensamento, a liberdade de expressão, a liberdade de conduta. Isso seria um caos, uma vez que direitos não teriam fim? Sim, seria, mas um caos que não é controlado por um ou outro homem, mas sim por todos. A evolução do homem não depende de fatores isolados, mas da relação de todos eles em uma comunidade um pouco grande e emaranhada, porém que aos poucos vai se organizando conforme nós formos progredindo nas relações com outros seres, a ponto de chegar um momento em que digamos "ei, quer saber, vamos abolir os direitos individuais!" sem que isso seja sinônimo de um golpe de estado, ou uma ditadura. Numa sociedade unida com o propósito de crescimento mútuo essa frase significaria que o homem não precisa mais de termos para se organziar, não precisa mais de uma definição de "direito" para que ele seja defendido. Nessa realidade utópica e ficcional, os homens, macacos ou não, teriam atingido tal ponto em sua escala evolutiva que o único termo que teriam de respeitar seria... nada. Não o termo "nada", mas sim nada, como em "nada de nada". Não haveria "respeito", pois respeito é um termo, um nome dado a um sentimento ou pensamento. O que haveria é o senso de que, uma vez que meu próximo é um ser-humano, não pode ser tratado com palavras, ou mesmo tido como o conjunto de algumas palavras que não abrangem a totalidade do que representam; ele deverá ser tratado com consciências -- as palavras dariam lugar a consciências, o que quer dizer que chegaríamos a tal ponto em nossa história evolutiva humana em que seríamos capazes de conviver com outros homens sem criar guerras, sem gerar desrespeito, preconceitos e outros tipos de exclusão ou mal à nossa espécie: deixaríamos de rotular sentimentos e pensamentos para podermos usá-los, e viveríamos em conjunto com nossos irmãos.

    Ou, em outras palavras mais polidas: o homem deixaria de ser babaca.
     
  2. Nessa Lúinwë

    Nessa Lúinwë Usuário

    Caramba...profundo...Adorei.

    Será que eu posso usar essa frase???
    Achei o máximo.
     
  3. Edu

    Edu Draper Inc.

    Obrigado. E pode sim, claro :)
     
  4. Melkor- o inimigo da luz

    Melkor- o inimigo da luz Senhor de todas as coisas

    :clap:

    Gostei muito, Caranthir. Estou adorando ler os seus textos aqui no clube.

    É até engraçado isso, "Líu" me lembrou alguns textos do Saramago. Acho que o jeito de intercalar narradores me lembra "Ensaio sobre a Cegueira". Muito bom. É difícil deixar a narrativa clara quando se usa um recurso desses, e você fez isso muito bem.

    Agora... Eu não gostei do último parágrafo, aquele gigante. Acho que a história teria ficado melhor sem a explicação final. Sou um pouco reticente quanto a esse tipo de argumentação. Mas daí é com você ;)

    Parabéns!
     
  5. Edu

    Edu Draper Inc.

    Obrigado mesmo, Melkor :D

    Bem, quanto ao último parágrafo, eu achei que ele seria necessário nesse texto, caso contrário tudo o que escrevi seria só uma história sem nexo e nada mais, mas com ele dá pro leitor ver o que o texto quer dizer, e analisar os dois personagens, o Médico e o Contador de Histórias, vendo quem está com a razão em determinada parte do texto e tals. Eu só não gostei da última sentença desse parágrafo, "deixaríamos de rotular sentimentos e pensamentos para podermos usá-los, e viveríamos em conjunto com nossos irmãos", porquê (não sei usar porquês :obiggraz: ) parece (ou melhor, é) um belo clichê; mas como essa frase está no final do texto deixei-a lá, já que não quebra o "clima" dele.
     
  6. Melkor- o inimigo da luz

    Melkor- o inimigo da luz Senhor de todas as coisas

    O que eu acho é uma coisa que já me ensinaram, Caranthir. Não precisamos explicar tudo nos nossos textos, porque os leitores conseguem entender (às vezes, surpreendentemente bem!) o que queremos dizer, se escrevemos direitinho. Acho que você já tinha passado bem a idéia sem o último parágrafo, só isso.

    Te cuide!
     

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