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[JLM] A Roda [L]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por JLM, 28 Jun 2013.

  1. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    De um lado, milhares de roupas brancas vestindo pessoas, cartazes gritando frases de efeito e indignação contra a surdez da corrupção e do descaso. Do outro, fardas cinzas e negras mal remuneradas, mal treinadas, mal-amadas, cumprindo ordens, aguardando o inevitável. No centro, lentes e flashes capturando e transmitindo em tempo real ações e reações excessivas. O momento é tênue. Um grupo, mas apenas um pequeno grupo – expressão que viria repetir-se à exaustão nos próximos dias, locais e mídias – não aceita o não da parte contrária. A violência é moeda paga à vista e com juros acumulados. Começa a guerrilha. As linhas limítrofes se confundem. Manifestantes atacam policiais. Policiais, repórteres. Repórteres, manifestantes. Manifestantes, repórteres. Repórteres, policiais. Policiais, manifestantes. Manifestantes, manifestantes.

    A cena congela na imagem do policial hostilizando o cinegrafista.

    Ninguém corre. Nada explode. Ninguém bate, apanha, luta, grita, ordena, chora, tosse. Barulho não ouvem. Movimento não veem. Em um milionésimo de segundo que parece – e é – uma eternidade, duas mulheres atravessam a multidão despercebidas, tranquilas, entediadas.

    - Tenho que admitir, minha cara, desta vez você me surpreendeu. Mídia e força policial estavam do meu lado, e seu spray de pimenta partiu esse elo.

    A outra não consegue disfarçar a satisfação ao ouvir as palavras da mais velha.


    - Aprendi bem com você, irmã. Toda peça pode estar ao seu comando ou ao meu, e mesmo aquelas que você controla podem virar-se umas contra as outras.


    - Mas não tenha dúvidas, a sua vitória é passageira, como sempre acontece.


    - Admito que sim, mas as minhas vitórias formam as bases para a reformulação do seu discurso.


    - E eu mudo mais uma vez de roupa. Cores novas, tecido novo, talvez até um modelito considerado de vanguarda, porém sempre cobrindo o mesmo corpo.


    - Amham. Mas, querida irmã, você já se perguntou qual de nós duas afinal está certa? Quem de nós sairá vencedora depois de tantas eras?


    - Nenhuma de nós, minha cara. Ambas somos necessárias. Eu mantenho a ordem, o status quo, e asseguro o comodismo e as bases para a paz. Você traz o descontentamento daqueles que não gozam desta paz e almejam o lugar dos que a têm. Nós somos os raios que sustentam a eterna Roda de Samsara.


    A caçula concorda silente. E, assim que Tradição e Revolução dobram a esquina, a cena descongela.

     

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