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[Jango][A cor errada][L]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Jango, 25 Set 2007.

  1. Jango

    Jango Branca! Branca! Branca!

    Autor:L.S. Alves (Jango)
    Gênero:Ficção
    Título: A cor errada


    O seu nome não vem ao caso agora. O que é importante saber é que ela está morrendo. Nesse exato instante sua vida escorre em decorrência de um golpe firme e certeiro. Após a dor lancinante causada pelo aço frio cortando o seu corpo sua mente é invadida por lembranças de sua existência. O passado não a deixaria em paz nem na hora da morte.
    Pai e mãe não faziam parte de sua história. Desde os primórdios de sua vida a solidão fora a única companheira que estivera ao seu lado em todos os momentos. A infância não tinha sido fácil. Constantemente tinha que buscar a sobrevivência da maneira que fosse possível. Fome, sede e medo a cada dia. Às vezes tinha o que comer, mas faltava água. Outras vezes quase morria afogada para logo em seguida passar por mais um período de fome. Rezando para que o sol não se deitasse. Para que ele ficasse ali. Parado iluminando a tudo e a todos. Dando-lhe força e esperança. Transmitindo a segurança que ela tanto necessitava. Tinha medo da noite. Medo do escuro e do desconhecido. Implorava para sobreviver a cada ciclo de escuridão e incerteza. Tudo que aprendeu; aprendeu sozinha. Talvez por causa disso agarrava-se com todas as forças àquilo que lhe fosse necessário para manter-se viva, forte e saudável.
    Apesar de todas as dificuldades sobrevivera razoavelmente bem a infância. Crescendo e desenvolvendo-se melhor do que as expectativas mais otimistas. Descobriu que não estava sozinha no mundo e seu coração encheu-se de uma alegria que jamais sonhou que fosse capaz de sentir. Teria enfim a companhia de seus semelhantes e deixaria de ser uma criatura que vagava pela existência para enfim fazer parte de um grupo, de uma comunidade, quem sabe até mesmo de uma família. Existia um vazio dentro de si que ela precisava preencher. Apresentou-se. Contou sua história e abriu o peito para estranhos. Entregou-se inteira. Sem reservas. Porque até aquele dia nunca tivera que enfrentar nada mais do que a natureza. Sua força e seus caprichos. A princípio nada foi revelado. Um véu suave cobria toda a situação. Mesmo assim ela percebeu que ainda não era chegado o fim da sua solidão. As outras simplesmente a ignoravam. Faziam de conta que ela não estava ali. Não a mencionavam e nunca chamavam o seu nome. Era como se ela não existisse. Um fantasma entre os vivos. Vendo, cheirando e ouvindo tudo o que se passava ao seu redor. Porém sem poder tomar parte em nada. Uma eterna espectadora da vida. Assistindo a felicidade e a tristeza dos outros. Sem poder interferir e sem que ninguém interagisse com ela.




    Continua...
     
    Última edição: 25 Set 2007
  2. Jango

    Jango Branca! Branca! Branca!

    A indiferença doeu. Doeu muito mesmo. Entretanto ela era uma sobrevivente e não uma vítima. Decidiu que fosse o que fosse que houvesse de errado não seria por causa disso que ela deixaria de ocupar o seu lugar no mundo. Foi à luta e novamente tentou estabelecer laços. Ofereceu a todos ao seu redor sua força e toda a sabedoria que acumulara nos seus dias de luta pela sobrevivência. Falou sozinha e o vento levou embora suas palavras. Não desistiu. Continuou tentando alcançar o coração das pessoas. Com o tempo a indiferença deu lugar a um sentimento mais amargo. Mais vigoroso. Era a raiva. Tinham raiva dela. Apesar de jamais ter feito nada que pudesse prejudicar alguém. Toda vez que tentava uma aproximação era recebida com ofensas, ameaças e impropérios. Muitas lágrimas foram derramadas naqueles dias. Tantas lágrimas que foram suficientes para afogar a bondade e a alegria de viver. Se o bem era pago com o mal. Se a sua oferta de amizade era recompensada com agressões então ela guardaria para si os sentimentos que existiam dentro dela. Se pudesse teria criado uma casca dura e sólida ao redor entre si, mas isso não estava ao seu alcance. Não fazia parte da sua natureza. Simplesmente resignou-se e passou a viver à margem da sociedade. Isolou-se num mundo só seu. Onde ela podia viver em paz e harmonia. Sem ter ninguém que entrasse em conflito com ela sem ao menos ter um motivo palpável.
    O tempo passou e ela chegou a um ponto eqüidistante entre a infância e a velhice. E neste momento sua beleza atingira o ápice. Deixou pra trás o frescor da juventude. Trocara-o pela segurança e pela altivez que a maturidade concede a poucos. Indiferente as suas próprias mudanças e concentrada em viver equilibradamente não percebeu as mudanças que ocorriam ao seu redor. Não observou as mudanças sociais que ocorriam. E como essas mudanças poderiam afetá-la. Da mesma forma não viu os sentimentos que sua nova situação despertava em seus vizinhos. O que antes era uma questão de indiferença e grosserias agora tomava a forma de um ódio invejoso e violento. Capaz de romper as últimas barreiras impostas pela educação e civilidade. A partir desse momento tentavam agredi-la a todo instante e de qualquer forma que fosse possível. Agressão emocional, verbal e até mesmo física caso a oportunidade fosse propícia.
    Não importava para que lado se inclinasse o resultado era sempre o mesmo. Ódio e violência. Porém apesar de ser bela não era de todo indefesa. A natureza concedeu-lhe os meios necessários para que se defendesse de seus inimigos. Furou e arranhou todos os que se atreveram a chegar perto demais. Apesar de ter machucado uns e outros isso não foi o suficiente para que eles se afastassem definitivamente. Ao que parece sua reação só serviu para que eles reforçassem seu ódio contra ela.


    Continua...
     
  3. Jango

    Jango Branca! Branca! Branca!

    E assim foi sua vida. Uma seqüência de batalhas. Algumas vitórias. Algumas derrotas e até mesmo um ou outro empate pelo meio do caminho. De nada valeu sua perseverança, sua bondade. No final foi embora da mesma forma como chegara ao mundo. Sozinha e sem saber o por quê das coisas. Sabia que era diferente. E que jamais seria aceita pelos outros. O que a fazia tão estranha e abjeta a ponto de ser odiada por todos? Ela jamais obteve essa reposta.
    Aos poucos as lembranças esmaeceram e a inconsciência tomou conta dela. Uma manta preta cobriu-lhe a visão e pronto. Estava morta. Não teve tempo para perceber quando o seu corpo foi aspergido com água e depois enrolado em papel. Também não ouviu as palavras do seu algoz.
    - Aqui senhorita. Aceite uma pequena raridade. Nascida dentro de um roseiral vermelho a mais bela das minhas flores é esta linda rosa amarela.


    Fim.
     

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