1. Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

Dismiss Notice
Visitante, junte-se ao Grupo de Discussão da Valinor no Telegram! Basta clicar AQUI. No WhatsApp é AQUI. Estes grupos tem como objetivo principal discutir, conversar e tirar dúvidas sobre as obras de J. R. R. Tolkien (sejam os livros ou obras derivadas como os filmes)

Inevitável sucesso

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por brenobo, 1 Jun 2012.

  1. brenobo

    brenobo Usuário

    “Olá, Diogo, meu caro. Escrevo para te dizer de novo o que não deveria precisar: venha para cá, rapaz. Eu sei muito bem que não é numa corretora de valores que você quer gastar seus dias. Você vai ver quanta poesia corre por aqui. Está chovendo agora e é lindo, lindo como em nenhuma outra cidade do mundo pode ser tão linda a chuva. Lembrei de você quando passei pelo café A Brasileira, aquele com a estátua do Pessoa em que esvaziamos duas boas garrafas de vinho. Lembrei de como era óbvio que você queria estar aqui conosco, ainda que sem a expectativa de ganhar dinheiro. Não se importe com o dinheiro agora; importe-se em encher a cara e então chorar com a beleza da água correndo pelos sulcos dos trilhos da Alfama. Um abraço do teu amigo que não te quer perdido nessas ideias que não nos pertencem.”

    Diogo releu essa carta duas vezes e teve ainda de guardá-la com a certeza de que a leria outras muitas. As palavras não eram tantas, tampouco difíceis, mas vinham a ele como figuras sem sentido. Júlio o queria de volta a Lisboa, era tudo que podia compreender naquele momento.

    Fazia pouco menos de um ano que os dois amigos não se viam. Conheceram-se no início da faculdade, quando Júlio veio ao Brasil para um intercâmbio de seis meses. Ele era um português de 23 anos interessado na cultura latina, mas que nunca deixaria de sentir um orgulho exagerado por sua terra. Adorava discutir literatura com Diogo, principalmente quando se tratava de defender Eça de Queirós e atacar Machado de Assis. Era uma briga que não fazia muito sentido para nenhum dos dois, mas que os divertia e, assim, voltava com intensidade sempre que se acumulavam algumas horas de bar.

    Foram seis meses de muito álcool e prazeres novos. Sem ter se candidatado ao posto, Diogo acabou se tornando uma espécie de guia turístico para o amigo, o que fez de toda a cidade uma grande novidade para ele também, ainda que houvesse nascido e crescido ali. Foi com Júlio que ele conheceu a maioria dos bares, festas e apartamentos de universitárias que passou a frequentar.

    Diogo não tinha um rosto especialmente interessante. Nada nele chamava a atenção, a não ser talvez os óculos, grandes demais para seu rosto e que só não eram substituídos por preguiça. Não era alto nem baixo, tinha cabelo curto e preto, pele branca, mas não tanto, olhos castanhos e um sorriso raro e fugaz. Por mais que se esforçasse o observador, ele acabava sendo descrito como um sujeito normal.

    O que não era normal, no entanto, era sua avidez pela escrita. Em casa, conservava quatro estantes do armário abarrotadas de cadernos com contos, poemas e pedaços de romances que começara e abandonara a partir dos treze anos. Desde então, tomar nas mãos um lápis 2B e um bloco de papel bege e imaginar histórias sobre o que quer que fosse era o único ópio que lhe parecia possível. Raramente havia motivo para outra distração. Se estava só, escrevia; se estava triste, escrevia; se fazia frio e os morcegos produziam um barulho estridente do outro lado da janela, escrevia. Tudo se transformava, num segundo, de motivo em passado, exterior – um lugar qualquer que ficava para trás e que ele não precisava compreender até que atingisse o ponto final.

    Diogo sabia do efeito que lhe produzia escrever e de como se aproximava de uma plenitude qualquer – ou outra sensação que ainda não sabia descrever, mas que a nada se comparava – quando dava por terminado um texto de ficção. Ele queria cada vez mais esses momentos. Eram como orgasmos intelectuais, mas ainda mais que isso – era somente neles que realizava alguma coisa dele, que escapava à sua própria compreensão e que talvez por isso mesmo parecesse tão importante. Havia naquilo um investimento da alma, não solicitado, uma energia que ele queria chamar de vida, ou talvez não chamar de nada, mas apenas sentir.

    Ainda assim, a convocação do amigo lhe parecia estranha. Júlio estava pedindo – agora ele sabia – que deixasse para trás a ideia de carreira e voltasse à Europa, onde passara três semanas, que agora pareciam uma ilusão remota, para se tornar Artista. Com a distância de nove dias que levara para chegar a carta, era um pedido que tinha sua beleza. Ele imaginava o amigo português fantasiando sobre um futuro boêmio de glórias literárias pelas ruas de Lisboa. Era bonito, mas ingênuo demais para o espírito prático de Diogo. A ficção era onde ele descarregava toda a criatividade que pretendia movê-lo adiante, mas, na vida, prevalecia sempre a ação cuidadosa. Escrever e ser lido era coisa para personagens de outros séculos.

    Foi pensando nisso que o jovem escritor levantou-se da cadeira e declarou-se economista a si próprio. O jantar de formatura já começara e ele precisava correr.

    O restaurante era desconhecido e isso o incomodou. Diogo apreciava ambientes familiares, nos quais soubesse se mover sem surpresas, sobretudo quando era ele o centro das atenções. Chegou sozinho e assim teve de percorrer todo o perímetro da mesa redonda reservada por seus pais, enquanto retribuía sem ânimo os beijos de parentes que desprezava.

    Findas essas formalidades, seu pai cuidou para que ele se sentasse ao lado de Roberto Souto, amigo de adolescência dos avós de Diogo, que hoje presidia uma das maiores corretoras de valores do país e que costumava passar duas férias anuais em seu “bangalô” de novecentos metros quadrados, na Polinésia.

    O que espantava Diogo era que esse vínculo providencial – apesar de óbvio para qualquer um que soubesse somar números de um dígito – nunca fora mencionado, ao menos em sua presença. E, ainda assim, era evidente que fora esse o motivo principal da insistência familiar para que ele cursasse economia. Um detalhe prático que motivara todas aquelas calculadoras que ganhara de Natal, aniversário e dia das crianças. Havia uma gaveta cheia delas na despensa.

    E agora, ali estava ele – diante do banquete que coroava esse plano superior, ao lado do homem de quem nada sabia, mas que determinara seu futuro tanto quanto ninguém teria o poder de fazer. Será que esse homem tinha consciência disso? Será que ele se preocupava com tamanha responsabilidade, enquanto separava as folhas de salsa do risoto?

    Eram perguntas que Diogo não se arriscaria a fazer a nenhum dos convidados sentados à mesa. De fato, ele se surpreendeu até por fazê-las a si próprio. Os meses e anos que o levaram até ali foram sempre parte conhecida do plano. Era como se sua vida estivesse limitada ao casco de um navio cujo rumo não lhe coubesse contestar. Quanto ao que excedia os limites do cotidiano, era muito mar para pouca vontade de aprender a nadar.

    Diogo não esperou a sobremesa. Uma inquietação que lhe era estranha tomava seu corpo de assalto. Ele teria sabido dominá-la se estivesse acostumado, mas não estava. Precisou inventar uma desculpa sem cuidado e buscou a porta sem retribuir o último conselho de Roberto Souto. Aquela atitude lhe custaria um sermão paterno, mas ele teve medo de deduzir verdades se continuasse ali por mais tempo.

    As vitrines brilhantes por que passava serviram para abrandar seus movimentos. Tudo parecia intenso demais naquele momento – as luzes da rua, o barulho dos carros, os sussurros de adolescentes que começavam a noite empunhando garrafas de cerveja barata. Tudo que vinha de fora era excessivo e, por não caber no espírito de Diogo, concedia-lhe o direito de não pensar. Ele se sentia drogado pela virgem realidade que lhe esmurrava o rosto.

    A calçada, no entanto, acabou. E ele teve de recobrar alguma consciência para refletir sobre o que fazer então. Decidiu que não voltaria logo para casa. Não conseguiria dormir tão cedo e podia ser que seus pais já tivessem retornado. Por quanto tempo teria andado? Com alguma vergonha de que alguém o estivesse notando, deu meia volta e entrou na primeira lanchonete que encontrou pelo caminho. A porta despertou o som irritante de um sininho metálico e ele logo percebeu que não queria estar ali. Mas, como não havia motivo para estar em qualquer outro lugar, entrou, sentou e pediu uma água sem gás.

    O sininho tocou novamente e, pelo espelho que mostrava todo o ambiente ao longo do balcão, Diogo viu entrar um rosto que lhe pareceu familiar. Era uma das muitas tias distantes presentes ao jantar. Esta, no entanto, ele vira hoje pela primeira vez. Disseram-lhe que ela vivia no interior da Suíça há décadas e que raramente retornava ao Brasil. Ela devia ter entre cinqüenta e sessenta anos. Tinha os olhos escurecidos, num rosto muito fino, com uma pele marcada que lembrava a superfície do crème brulée. Sua roupa era a de alguém que não sabe onde está pisando, ou que sabe e quer deixar claro que não pertence àquele lugar. Ela deslizava com um brio que se notava de longe e foi com uma delicadeza nada artificial que pousou sua mão enluvada no ombro de Diogo.

    – Boa noite, meu rapaz.

    Sua voz parecia não pertencer àquele corpo. Ela vinha de um outro lugar, distante da decadência que exalavam a lanchonete, a rua, a cidade. Carregava qualquer coisa de uma experiência que não precisava ser dita. Era evidente até para o espírito anestesiado de Diogo que quem lhe dirigia a palavra não era apenas mais uma das tias velhas de sua mãe.

    Perdido na forte impressão que lhe causou esse primeiro contato, ele esqueceu de responder ao cumprimento de Lara. Ela já dissera seu nome, mas ele não ouviu.

    – Você me escutou, rapaz? Meu nome é Lara, sou sua tia. Tia da sua mãe, na verdade. Sua tia-avó – é assim que se diz aqui?

    Ela pronunciou esse “aqui” com desprezo, alongando a segunda sílaba até extinguir todo o ar dos pulmões, sem se preocupar com o estranhamento que causava.

    – Oi, oi – foi o que Diogo conseguiu dizer.

    – Vou ser breve. Eu vim até você para cumprir um dever de que me incumbiram os ancestrais desta gasta família. Leia isto.

    Ela entregou a Diogo um papel de carta amarelado e grudento, coberto de farelos, onde se intercalavam letras escritas a tinta magenta, ainda claras, e outras prestes a sumir:

    “Enquanto forem legíveis as palavras deste texto e compreensível seu sentido, cumprir-se-á o que determina: seu detentor deverá garantir a cada primogênito da família o direito de antever, no dia de sua formatura, duas possibilidades de futuro, de acordo com escolhas fundamentais a serem feitas agora. P.L.V.”

    Diogo demorou o olhar sobre o papel, enquanto buscava um traço qualquer de sentido naquelas palavras.

    – Sei quase tão pouco sobre isso quanto você, na verdade. Desconheço o autor dessas malditas linhas, o motivo de terem sido escritas e a pena por seu descumprimento, mas sei que não sou louca e que a coisa funciona. Vou cumprindo esse dever, que sabe-se lá porque é meu, até que eu ou a carta seja finalmente consumida pelo tempo. Somente por isso deixei a Suíça e vim ao seu encontro.

    Ela falava como quem liberta de si um discurso decorado, repetido à exaustão, mas com uma formalidade própria dos momentos mais solenes. Queria, claramente, que Diogo se desse conta da importância do que testemunhava, mas – a julgar por seu olhar bovino – ele não entendia nada do papel que tinha nas mãos ou da mulher diante dos olhos.

    – Resumindo: hoje é o dia da sua formatura e, por uma tradição que escapa à sua e à minha compreensão, você poderá, até a meia-noite de hoje, enxergar suas duas vidas futuras – aquela que nascerá amanhã da sua insistência na ideia de ser um economista e aquela outra, com a qual você provavelmente já sonhou, que viria de uma escolha alternativa. Vamos?

    Diogo chegou a iniciar uma resposta antes ainda de saber qual seria e – por isso mesmo – abriu a boca, mas nada disse. Era evidente que a mulher estava fora de si. O que ele poderia dizer?

    – É, bom, estou acostumada a esse tipo de reação. Por isso, desculpe-me se tomo você pelo braço e te levo para casa agora mesmo. Tenho que pegar um avião de volta à civilização em quatro horas e meia. Você entende, certo? Deus, como está quente aqui. E olha que já são dez da noite. Ah, perdão, são nove ainda. Esse fuso me confunde tanto…

    Enquanto falava sem parar, ela ia retirando a luva da mão direita. Sem qualquer movimento mais brusco que o necessário, escorregou-a para o braço de Diogo e desgrudou o garoto da cadeira. Pareciam, ambos, movidos por um feitiço.

    —————-//—————–

    – O que é que você vê? Acorde, meu jovem. O que é que você vê aí?

    – Não vejo nada… Vejo?

    – Nada? Feche os olhos, então. Durma mais um pouco.

    Diogo estava estendido com a barriga para cima sobre seu lençol, que forrava o chão do quarto. A casa nunca estivera tão silenciosa. Pela primeira vez, ele ouvia a própria respiração. Parecia uma manada de elefantes que se aproximava em câmera lenta, mas feroz como deve ser uma manada de elefantes. Ele nunca vira uma. Suas pálpebras se moviam por vontade própria. Subiam e desciam lentamente, deixando entrar aos poucos a imagem de um ambiente familiar, mas novo, colorido como os céus de seus sonhos infantis. O cheiro era o de um incêndio frio, se isso fosse possível. Não era. Aquela noite não era possível.

    – Você me drogou – balbuciou Diogo.

    Ele se esforçou para levantar a cabeça, que não saiu do lugar. Viu mais uma vez a imagem da velha, que sorria um sorriso louco, a poucos centímetros dele, e cantarolava. Ele quis tentar alguma coisa e logo em seguida não quis mais. Quis dormir apenas. Relaxou o corpo e desapareceu na noite que já era manhã.

    O despertador cumpriu sua tarefa às dez e meia, mas Diogo acordou de um sono que durara uma semana inteira. Ele encostou as costas à parede e dobrou as pernas sobre a cama. Não tinha ideia de como havia chegado ali. Escutava com atenção os sons do café-da-manhã que vinham da sala e se perguntava se estava com fome, se sentia sono ou dor. Investigava as sensações mais superficiais possíveis, aquelas que diziam respeito à pele e nada mais. Ele tinha fome de superficialidade, como se houvesse guiado uma travessia exaustiva entre sentimentos profundos e agora exigisse descanso. Foram quarenta minutos na mesma posição até que se sentisse pronto para descer da cama e buscar o inevitável cotidiano.

    Vestiu uma calça jeans surrada e sentou na cadeira com o par de tênis na mão direita. Sentiu o calor da meia envolvendo um pé, depois outro e então a camiseta que pegara do chão atravessando a cabeça, pescoço e torso. Era hora de levantar e alcançar a refeição dominical, mas alguma coisa não estava certa. Ele sentia o incômodo de uma mancha numa das linhas de pensamento que lhe cruzaram a cabeça instantes antes. Esforçava-se para encontrá-la; aquela palavra sempre tão simples e presente, arraigada ao óbvio de seguir vivendo; aquele adjetivo que mais parecera um suspiro em meio a vontades alheias, do qual ele nunca deduzira um sentido por falta de motivo. Inevitável… Não. Não podia ser inevitável.

    Num átimo de luz intensa, desceram-lhe aos olhos todas as imagens que sonhara durante a noite. Ele enxergara, sem dúvida, seu próprio futuro partido em dois – o pedaço economista de um lado e o pedaço escritor de outro. Ele não sabia como era possível tal previsão, mas uma consciência alargada lhe pressionava o crânio de maneira tão incisiva nesse momento, que pouco importava. Ele vira dois futuros possíveis e agora devia escolher entre um deles.

    A carta do amigo português ainda estava na gaveta da escrivaninha e foi a ela que ele correu. Se algum objeto, afinal, representava sua vontade de escrever, era aquela folha de papel amassado. Ele passava os olhos pelo parágrafo único, em que brilhavam palavras como “poesia”, “café”, “vinho” e “Alfama”. Eram as promessas de dias e noites idílicos, que ele agora soube impossíveis. Se viajasse, se fosse de encontro ao desejo de se tornar escritor, haveria virtude, mas faltariam louros. Em pouco menos de um ano, Diogo daria início a uma obra literária de valor inestimável e que nunca seria reconhecida, nem durante sua vida, nem depois dela. Ele soube que, ao pé do leito de morte, teria uma pilha de textos sublimes, que nunca receberiam os aplausos merecidos. Soube que seria tão importante quanto os nomes mais incensados da literatura, mas somente para um círculo limitado de interessados e, ainda assim, por pouco tempo. Soube, afinal, que – visto o fim da jornada por quem a inicia – importa verdadeiramente não a grandeza, mas o sucesso. E foi pedir ao pai que ligasse a Roberto Souto.

    -------------------------------------------
    Breno Barreto
    Este conteúdo é limitado a Usuários. Por favor, cadastre-se para poder ver o conteúdo e participar (não demora e não possui custos)
     
  2. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    Um último parágrafo pequeno demais para a mensagem que se espera dele. Uma introdução bem construída para um fim mais abreviado que um sonho.
     
  3. brenobo

    brenobo Usuário

    Lendo a sua resposta, reparei que são comuns textos meus que chegam ao fim de maneira brusca, como se o leitor fosse guiado por uma estrada que acaba em precipício. Acho que gosto dessa sensação.
     

Compartilhar