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Fruta com gosto de fruta

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Rodovalho, 23 Jul 2010.

  1. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    anteontem, sem nada o que fazer aqui na fazenda de meus avós em ourilândia do norte, resolvi escrever. faz tempo que não escrevo... comecei a escrever lá pelas 9 da noite e terminei 1 hora da madrugada. acho que ficou um tanto grande demais pra um leitor casual de fórum. não tinha dicionário em português, então sem correção ortográfica automática. qualquer correção é bem vinda
     
  2. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    Não ando bem… estou pisando em algo. Os cadarços desamarraram, então, é hora de agachar, tomar os cadarços nas mão e fazer um laço, bem apertado, de um jeito mecânico, assim como não se desenha letras, mas se escreve. Belo tênis bege que um dia já foi branco, e nunca foi lavado. Estranhamente, aqueles tênis 40 nos pés 41 não apertavam. Hora de se levantar, de se seguir em frente, sem perguntas, sem olhar pra trás. Um pé atrás do outro. Esquerda, direita, esquerda, direita.

    Um dia de sol que parecia nublado. Não era por causa das nuvens, tanto faz se elas estão lá ou não. A culpa era dos prédios altos daquele começo de manhã ou fim de tarde. Tanto faz. Eram as sombras das grandes contruções de concreto. Lojas e vitrines cheias de produtos tão genéricos que não tinham marca. Afinal, ninguém comprava nada naquelas lojas. Os balconistas e atendentes ficavam parados a espera dos clientes, como manequins. Realmente, não havia diferença entre os manequins nas vitrines, expondo as roupas à venda e os próprios vendedores. Porque os vendedores também eram manequins feitos de plástico, esbeltos como modelos, sem face, como todas as pessoas que encontramos nas ruas e não damos atenção, garis ou simplesmente traunsentes. Andava pela calçada, e não me importava com o que estava dentro dos quarteirões daquele bairro comercial, naquela metrópole da diversão e do pecado. O que importava era o que se passava nas ruas. É por isso que ando pelas calçadas, sem olhar pra trás. Não custa nada olhar pros lados.

    Havia uma ferrari e um porche acelerando, paradas, esperando o sinal ficar verde. Mais atrás estavam rugindo ansiosos um Lamborguini El Diablo e um Dodge Viper. Um Shelby Cobra, um batmóvel, um fusca herby e um musical caminhão do sorvete (dentro dele havia os corpos de criancinhas assassinadas pelo bicho papão & boi da cara preta). Atravessei a rua e o sinal finalmente subitamente delinquentemente ficou verde sem me esperar. A corrida começou e os carros fritaram os pneus e avançaram. Quis correr, mas a vontade não era tão grande assim pra me apressar. Não sentia vontade de viver, nem medo de tudo aquilo acabar naquele momento. Tanto faz. As pernas deram um passo atrás do outro, sempre em frente, sem destino, enquanto os carros enlouquecidos e sem motoristas se desviavam de mim, sem conseguir me atropelar, nem ao menos passarem por cima dos meus pés e esmagarem meus dedos. Talvez até passaram por cima dos meus tênis beges com marca de pneu em cima, mas os dedos deveriam estar inteiros, porque não doíam. Eles passaram naquela fração de segundo e já estavam lá no fim da rua, em T. Não podiam continuar através do comércio. Era virar ou virar. Alguns carros sabiam dirigir. Outros pareciam que nunca tinham tirado carteira de piloto. O lamborguini passou por cima de uma lixeira, bateu num pequeno poste de iluminação, o destroçando, capotou e bateu no vidro das vitrines das lojas naquele fim de linha. Nada mais se quebrou. O carro, de cabeça pra baixo, por vontade própria se desvirou, inteiro, sem um arranhão que seja na lataria, já posicionado na direção certa, e continuou, desaparecendo na esquina. Um espetáculo inacreditável, por isso deixei de lado esse absurdo e continuei andando pela calçada.

    Aquelas ruas eram estranhas, porque não pareciam como as ruas de uma pacata metrópole. Não havia civis, apenas terroristas e anti-terroristas. Sem exceção, todos eram corcundas, e corriam agachados, com seus coletes a prova de balas, com seus fuzis, metralhadoras, pistolas, espingardas, facas, escudos. Franco atiradores abatiam uns e outros desavisados, que corriam agachados sedentos por sangue. No entanto, não saía sangue, por pura censura, nem mesmo ketchup. As granadas explodiam e os soldados não explodiam juntos, apenas voavam como bonecos e caíam inconscientes. Menos um pro time. Uma avenida de guerra, mas não só de guerra se faz uma cidade de diversão e pecado. Dei mais uns passos, sem olhar pra trás, pra toda aquela baboseira violenta e sem sentido, pessoas se divertindo atirando uma nas outras só porque ninguém morre de verdade. Hmmm… um banco. E um assalto. De lá saem um homem carregando uma bolsa cheia de dinheiro amarrada no ombro, uma pistola na mão direita e um capuz de meiacalça marrom translúcida enfiado na cabeça. Outro homem sai logo a seguir, atirando contra o banco, um homem com jeans rasgados, camisa branca, jaqueta preta, cheio de correntes piercings e tatuagens, um cabelo moicano verde lixo tóxico, óculos escuros e. BAAAMMM! Alguém atirou de dentro do banco com sua magnum .45. O de moicano olhou pra sua camisa suja de um vermelho e fingiu que não viu, que não aconteceu nada. Do banco saiu um texano, calça bege, camisa social azul claríssimo, uma estrela de xeriff no peito, bigode, óculos ray ban bem espelhados e um chapéu. Mais atrás saiu um policial fardado de preto, como se tivesse saído de uma academia de polícia de nova iorque, e correu atrás do moicano.
    - Ei, assim não vale! Eu atirei em você, Marquín! Volta aqui pra eu te prender, seu ladrão!
    - Não! Não acertou, seu boboca! Passou longe!
    O policial nova iorquino não era de palavras, era de pernas. Que agilidade! Pulou o hidrante, pulou a lixeira, pulou um carrinho de bebê estacionado, e saiu em perseguição de Marcos, o punk gótico mad max último dos moicanos. Marcos não teve muito tempo, tinha parado pra argumentar contra o texano, e ele não sabia correr e argumentar ao mesmo tempo. Tarde de mais. O policial nova iorquino o agarrou antes que o assaltante escapasse.
    - Assim não vale! Eu atirei em você! Tá preso!
    - Ah não! Não acertou não! Passou de raspão!
    - Marquín, o Rafa disse que atirou em você. Ele estava perto. Eu vi. Ele acertou…
    - Não acertou, bosta! Que brincadeira de mal gosto!
    - Acertei mesmo, pod-Não acerteou n-Acertei sim!
    - Decidam no par-ou-ímpar então, seus moleques. E sem lenga lenga.
    -$%^@#*! - !&#(!&(*#- $(*&@þß
    Velhotes… Polícia. Ladrão. Quem se importa. São todos bandidos. Estão todos descalços. São todos ingênuos. São todos felizes enquanto podem, enquanto correm. Já não sabia mais correr, só sabia seguir meus passos, um atrás do outro, olhando pra baixo, olhando para aqueles pés inacreditáveis com sua vida própria, me agüentando o dia inteiro. Não valia a pena olhar pra trás, apenas em frente, já era hora de deixar a avenida daquela metrópole de diversão e violência.

    Subi o morro, aquele asfalto velho por onde não passavam carros. Era um asfalto feito pra durar, não pra se usar. Era noite. Ou não, mas tudo se parecia iluminado por uma luz incandescente, uma luz amarela. Se ouvia muita música. Subi a rua deserta. As casas eram bem espaçadas, bem comuns, com seus muros, ou apenas grades a frente, e lá pra dentro dava pra se ver as luzes apagadas. Vez ou outra, uma casa habitada por alguém que não gosta de sair num sábado de festa. A luz fria de uma tv ligada denunciava, e exalava um tédio, como se os canais passassem em questão de cliques preguiçosos num controle remoto. A festa estava lá fora, era cedo demais pra se dormir, a festa está lá fora, bombando naquela cidadezinha pacata. Devia ser festa de são joão. Os passos me levavam adiante, subindo o morro levemente inclinado, levemente infinito como o adiante de alguém acostumado a olhar pra baixo, sem querer ver pra onde se está indo. Logo logo chegarei à pracinha, um lugar onde cabem todos os habitantes da cidade, onde todos estariam cansandos de verem as mesmas faces, se divertindo pra valer, do jeito que podem. Não precisava andar muito pra chegar lá, e lá chego antes que qualquer linha de raciocínio termine. Uma catedral enorme, bela, caiada de branco, e lá fora, uma construção temporária de madeira no meio da rua, um teto de palha, acho que folhas secas de palmeira, uma instalação elétrica feita às pressas, extensões de fios condutores espalhados pelo chão pra qualquer um tropeçar, com lâmpadas elétricas dependuradas pelos próprios fios, balançando ao ritmo da música a 15 metros do chão daquele arraial. Era festa! Era festa de são joão! Era festa! Era show de rock! Era um circo de soleil, era balé russo, era tudo. No meio do salão os casais dançavam valsa e forró, ágeis, trocando passos, ou pisando nos pés uns dos outros. Eram caipiras, eram altezas, eram turistas europeus tentando sambar, era dança de rua, moonwalk. Coreografias intricadas dançando ao ritmo da música. A música, pra ser sincero, a música que chegava aos meus ouvidos era apenas um barulho, a mistura de todos aqueles ritmos. Imagine só o danúbio azul mais eminen mais chitãozinho e xororó mais helloween mais geração do samba mais britney spears mais a bateria do salgueiro tocando tudo ao mesmo tempo numa disputa de som automotivo. Não, não era o inferno. Era uma festa religiosa, era festa de são joão, era uma festa de casamento, era uma boate onde os casais se encontram pela primeira vez. Os casais estavam suados de tanto dançar, de tanto tropeçar, pisar, tentar impressionar, de tanto trocar de par, mas não paravam, porque a vida da cidade era um tédio que só, era uma semana de trabalho chato que devia acabar e culminar no esperado fim de semana de todas as semanas iguais. É claro, todo aquele espetáculo no picadeiro não era tudo. Haviam os marginais. alguns marginais ficavam nas cadeiras. Alguns deles jogavam bingo, se sentiam velhos demais pra se divertir. Outros tomavam quentão, tomavam cerveja, tomavam uísque, tomovam red bull, cheiravam a fogueira, cola de sapateiro ou cocaína, e olhavam pra dança, e batiam o pé no chão com vontade de dançar mas não conseguiam se levantar, tímidos. Homens sem par… e em outra mesa estavam princesas, barbies e catchórras, fofocando, falando dos homens na mesa ao lado, olhando com o rabo do olho, olhando por trás das lentes dos óculos escuros com suas caras de marcianas, prestando atenção nas roupas das companheiras de mesa e cada uma achando a outra mais brega que a outra. E por último, havia uns poucos gatos pingados, tentando se isolar nos cantos, sentados no chão. Eram solitários, se sentavam no chão, encostados num poste, num muro ou parede. Podiam ser só um, pois assim se sentiam. Sós. E na mente nesse povo um, nesse bloco do eu sozinho, passava uma música bem baixinha, mal sintonizada no rádio. Podia ser legião urbana, podia ser radiohead, um samba antigo, um adágio. Afinal, são todos gente sentada que não sabe dançar. Passei por lá, esbarrei nos casais apaixonados, colados um no outro, dançando lentamente, ignorando o mundo, todo mundo que estava se espremendo naquele salão. Esbarravam em mim, mas minhas pernas não paravam, meu corpo não perdia o equilíbrio nem a vontade de seguir em frente, sempre em frente. Passava pelos casais suados, tensos, excitados, eretos, com seus faróis acesos, com suas línguas sedentas e nenhuma, mas nenhuma vergonha na cara, ignorando tudo, todo o mundo, todo mundo que estava naquela luxúria toda onde ninguém é de ninguém. Eles me pisavam, se esbarravam em mim, me ignoravam, ignoravam minha solidão, a minha aberração que é andar por ali num rítmo tão mecânico e previsível que deixaria desapontado até os criadores do bate estaca. Não sentia dor, não sentia a presença de gente naquela multidão, com suas vidas que não tinham nada a ver com a minha. Não existia pra eles, eles não existiam pra mim. Só me resta seguir, passo atrás de passo, e atravessar a lona e chegar do lado de fora do circo. Sempre em frente, sem tempo pra parar, pra descançar.

    A rua ficava cada vez mais íngreme. A rua era de terra, não era lama. Era de cascalho. Meus tênis não podiam ficar mais sujos que já estavam, nem se importavam. Pisava na barra da calça, não me importava. Pisava numa grama verde e perfeita, tão perfeita que não parecia real. Era um gramado que se parecia com plástico, porque não morre, porque já está morto. Era idílico. Não se via a lua, e a luz não era prateada. Era uma luz que passava por entre as ramagens de árvores muito altas. Era um dia de verão, e uma subida muito íngreme, quase uma escalada, mas sem necessidade de escadas, nem de se usar as mãos. Apenas os passos, uns seguidos dos outros, subindo o morro agora descoberto. Tanto faz. O céu pode ser o céu falso de um estúdio em holywood, quem olha sempre pra baixo não sabe o que cria sua própria sombra. Quem olha sempre pra baixo, pros próprios pés, nunca vê a cara de quem passa, de quem lhe chama, não quer conhecer um rosto pra depois o reconhecer, esquecer e desconhecum corcel negro passa voando baixo, carregando zorro em suas costas, e antes que se possa imaguma fada brilhante e minúscula passa com sua trajetória aleatória, piscando como um vagalume bêbado numa noituma bruxa passa razante montada de lado na sua vassourpapa-léguas disputando uma corrida com sonicbati de frente numa árvore. Não doeu. Não dói. Apenas um susto. Olho pro lado e vejo uma cachoeira. Olho pra baixo e não vejo o fundo. Lá embaixo, aquela água toda esfumaça e vira nuvem. Um chão de nuvens. Um índio corre loucamente em minha direção, com sua lança, sua tanga e seus brincos de madeira. O corpo tatuado, marcado, arranhado pela fuga na floresta. Ele pára na beira da cachoeira, engole um soluço, fecha os olhos, hesita, então pula, de finca. Não passa muito tempo e vem um moço loiro num quimono vermelho, faixa preta. Chega na beirada da cachoeira e não pensa duas vezes: pula, socando o ar em cima de sua cabeça gritando RORIUUUUUUUUUUKEN. A seguir vem um cara muito parecido, mas de quimono branco, uma faixa vermelha na testa. Com toda sua coragem e nenhum escrúpulo, pula a cachoeira em busca do abismo, girando como um furacão, gritando com todas as forças de seus pulmões: TATATATATATATATUGUEN! Não muito atrás aparece uma ginasta magricela de maiô, começa correndo, mas logo pula em direção ao chão, fica de cabeça pra baixo, cai, pega impulsão com as mãos, gira, cai de costas, então dá um salto mortal duplo-triplo-múltiplo e vai caindo com toda graça naquele abismo. Não, nada disso pode tirar minha atenção. Nada disso é real. Sei que estou sonhando. Tenho certeza que estou sonhando. Piso na água cristalina, de tão límpida que parece não existir, tão vítrea que parece estar congelada de tão fria. A água encharca meus tênis beges que já foram brancos, os cadarços e as meais incham, de tanto beber água. Não importa. Essa água não molha. Nada mais impermeável que o impossível. É um passo atrás do outro. Sempre em frente. Sempre em frente. Mais um passo. Até que se chegue a algum lugar. Ouso levantar minha cabeça e ver adiante. Já não tem mais rio, córrego, riacho. Só tem o campo, a grama seca e verde irreal, uma colina a minha frente. Mas não ouso olhar pra trás. Com o queixo erguido, não ouso mais olhar pra baixo também. Abandonei meus pés a sua própria sorte. Mesmo assim, sem pedir nada a minhas pernas, elas me levam a frente. Me levam morro acima. E acima chego sem pedir. Mas antes tem uma cerca de arame. Arame farpado. Não, arame liso. Daria pra se ver ovelhas pulando a cerca. Poderia-se contá-las, e ainda assim não acabar com a insônia de quem está dormindo, ou sonhando acordado, ou acordado num sonho. É o topo do morro. Passo pelo meio dos fios de arame. Farpado? Não, não tem nenhum Joãozinho por aqui, nem uma professora ensinando o abc, mais exatamente o c, o ca ce ci co. O que interessa é o outro lado da cerca. Para onde minhas pernas me levam, onde meus pés querem pisar.

    Enxerguei o horizonte. A areia fofa, como uma duna propícia a se desfazer, a se mover pelo deserto mutante. Tantos grãos de areia quanto estrelas no céu. O céu era azul, de um dia ensolarado, sem sol. Não tinha areia. Era só água. Água. Mais água. Andei andei andei sobre as águas e temi. Por onde tinha andado todo esse tempo? Tinham se passado eras e eras e eras, sempre em frente. Sempre em frente! Não há mais nada além. Não sei de nada. Não sei de nada! Me perdoem, por favor, não pude resistir.Viro meu rosto, viro todo meu corpo pra trás. De olhos bem fechados, é claro. O passado pode ser mais ofuscante, mais vergonhoso, mais traumatizante, mais saudoso que qualquer vontade de prosseguir. Ninguém me proibiu, mas eu sabia que se eu esperasse algo ao olhar pra trás, eu me decepcionaria. Não quis abrir os olhos e não adiantava, já não podia esperar. Todo o tempo restante poderia passar, os olhos fechados só podem um dia abrir. Sem esperanças, não pude esperar. Lentamente, meus olhos embotados de cimento e lágrima se abriram, para uma visão borrada pelo sonho, ou pesadelo. Não havia nada.

    Não havia nada. Apenas um muro azul. Por todos os lados, era apenas o céu e o mar se tocando horizontalmente sem distinção de cor. Rodeado por nada, o homem é uma ilha.

    A mulher andava sob as águas. A mulher era um ponto sem nitidez aumentando, iludindo a perspectiva, aumentando de tamanho sem realmente se aproximar, sem revelar detalhes que a diferenciasse de outras mulheres. Era mulher porque se diferenciava de mim. Mas com certeza era humana, porque eu já tinha perdido a minha humanidade. Ela toda me antagonizava, essa era a única explicação. Ela andava sobre a água enquanto meu corpo afundava mícron por mícron, infinitésimos de distância para baixo. Ela vai chegar antes que eu consiga fugir. Minhas pernas estariam paralisadas se eu sentisse minhas pernas. Minhas canelas tremeriam se ainda tivessem forças. Meus dedos dos pés se contorceriam se estivessem livres. Mais cedo ou mais tarde ela chegaria até a mim e não conseguria nem ao menos me ajoelhar. Ela chegava, e uma enorme tsunami crescia atrás dela, com toda a fúria com todas as soluções dos problemas com todo o sentido que faltava aos mistérios escritos e lidos em vão.
    - Você não pode fugir mais. Acorde! Lembre-se de seu nome, Roberto! Senhor Roberto Albuquerque de Almeida!
    - Eu não sou nenhum Roberto…
    - Não finja que não é, sonhador. Tem um mundo lá fora esperando sua volta. Augusta, sua mãe. Francisco, seu pai. Alice, sua irmã. Seus melhores amigos, Selmo, Ricardo. Lembre-se de quem você é e de quem precisa de você.
    - Eu não sou…
    - Você é. Você pode ser. Basta acreditar. Basta querer!

    - Venha comigo! Segure minha mão! Seja livre! Pra ir e vir!
    - EU NÃO POSSO IR E VIR! EU NÃO POSSO MAIS ANDAR!
    - …
    - …
    Eu, Roberto. Roberto afundava no mar de nada. Lentamente. L e n t a m e n t e. Já estava com metade do corpo debaixo d’água. A mulher olhava pra baixo. Deu um passo adiante, com sua cara de raiva, sua cara fechada, sua cara de frustração, de quem quer conter a decepção mas não consegue evitar expressá-la. A onda gigantesca se aproximou nos limites de suas forças. Aquilo era a gota d’água. No instante antes que ela desabasse e tudo ruísse, um último suspiro antes de se afogar. E a onda cai com todo o peso que uma consciência sóbria não pode carregar. A baque me empurrou pro fundo e me afundava como pedra, sem ar nos pulmões. Parecia um poço sem fundo, profundo e escuro e agora mais e mais e mais raso. A correnteza empurrava Roberto pelo fundo do oceano, pela pouca profundidade das águas rasas da costa, esfregando-o nos corais duros, destruindo castelos de areia deixados para trás para serem engolidos pela maré, rolando no fundo do mar, me deslocando sem querer, sem que minhas pernas quisessem me levar. Era inútil resistir. Deixe a onda te levar.

    Roberto voltou a si. Estava na praia, estava deitado, náufrago, encalhado, exausto. A visão escura de quem fecha os olhos, a visão que se torna vermelha, por ver o sangue das pálpebras contra o sol brilhante. Esfrega as mãos contra os olhos e os abre bem devagar. O céu azul e límpo. A cabeça pende sem forças pro lado para que os olhos permitam a Roberto ver a mulher sentada ao seu lado, com seu vestido molhado, cabelos secando ao vento. Ela olhava para longe, resistia a vontade de olhar diretamente pra ele, talvez pra conter a raiva, a vontade de o espancar até que ele mereça a dor que finge que tem. A dor que deveras sente. Algum tempo se passou, mesmo naquela cena imóvel, onde nem mesmo um pensamento seguia em frente. Então um protopensamento sem palavras brotou na mente dele, enquanto ele procurava as palavras que devia dizer. A boca abria, mas ainda não tinha o que dizer. Não por muito tempo.
    - O que você faz aqui?! Quem é você para invadir a minha cabeça?! Será que um homem não pode ter privacidade até em seus sonhos?!
    - …
    - Será que você não tem mais nada pra fazer? Vai lá pro sua merda de hospital! Vai procurar quem queira a porra do seu tratamento! Estou melhor assim… ninguém quer ser um meio homem. Ninguém quer ser um meio… fudido. Ah! Desapareça! Vá se foder!
    - …
    Roberto fecha os olhos. Não queria ver. Não ousava olhar pra baixo. Não queria mais olhar. Não queria ver mais nada. Não queria mais sentir. Mas sentia. O mundo dos sonhos o abandonava. Havia um céu azul pairando lá em cima. Fechou os olhos. Voltou a ver o vermelho de suas pálpebras, denunciando o dia que já tinha chegado. Aquele calor era real. Não era mais o tempo ameno da manhã. O frio da madrugada contrabalanceado pelo próprio calor humano refletido no edredon. Abriu os olhos por uma fração de segundo e por instinto, os fechou tentando não perceber o que tinha visto. Não foi o suficiente. Percebeu que o céu azul tinha se transformado num teto com uma lâmpada apagada, uma mancha de luz quadrada projetada nas quinas do teto com as paredes. Não podia ser tarde demais. Com os olhos fechados, tentou determinado a voltar ao sonho, nunca se renderia ao mundo acordado de viver. E sofrer. Mentalizou o azul, o puro azul do nada, daquele céu límpido chamado nada. Mentalizou a água entrando em seu ouvido, o peso da cabeça afundando na areia molhada, a areia sujando seus cabelos, a água molhando a roupa, a roupa grudando pesada na pele como se fosse uma segunda pele, a espuma desaparecendo no corpo. Uma água amarga na boca, que de amarga não tinha nada, de amarga só tinha uma palavra, já que não conseguia sentir o gosto de uma palavra.
    Passaram-se os minutos, até que a mente em alerta deixou baixar a guarda, e novamente se perdeu a noção do tempo, embriagado pelo sonho.
    E novamente Roberto acordou dentro do sonho. De volta ao paraíso. Relutantemente, olhou para baixo e viu seus pés descalços. Podia ver claramente seus dedos brancos e inchados de tanta água, suas unhas sujas se destacando, os pelos das pernas grudados na pele. Como era bom ter dedos! Com um pé tampava um sol do tamanho de um pé. Com os dedos dos pés, fez um jogo de sombras, via o sol tentando nascer entre o dedão e os demais. Se apoiou sobre os cotovelos e ergueu o tronco, ficando sentado na praia, curtindo as ondas chegarem, desviando na sola dos pés, como se seus pés fossem navios cortando as àguas, singrando os mares revoltos.
    Fora de si, percebeu os outros banhistas. Alguns caminhavam ou corriam na orla, como se fosse o final da tarde de um domingo saudável. Algumas crianças e seus pais e avós estavam pulando ondas, como se aquilo fosse a coisa mais incrível do mundo. Provavelmente turistas que vieram do interior do país. Provavelmente era a primeira vez que viam o mar para muitos deles ali. Crianças pequenas, praticamente bebês que a pouco aprenderam a andar eretos e ainda mal sabem falar, corriam desengonçados pela praia, as vezes tropeçavam em seus próprios pés e caíam escandalosamente, jurando que quebrariam todos os ossos, e logo em seguida se levantam e recomeçam a correr, com um sorriso cheio de dentes de leite, um sorriso mais largo que a cara. Alguns adolescentes jogavam bola na praia. Podia ser futebol, mas eles pegavam mais na bola com a mão do que com os pés. Na rua ao longo da praia Roberto viu Roberto pedalando, vestido com uma camisa com logotipo dos patrocinadores. Viu aquelas pernas musculosas e desproporcionais de Roberto, as pernas de quem vive de pernas, as pernas de quem não sobreviveria sem pernas. O Roberto ciclista desapareceu numa curva lá longe, e o Roberto se angustiou na praia, lambido pelas ondas.
    As forças abandonaram primeiro o pescoço, depois os braços, e Roberto caiu levemente na areia, na imobilidade de sua falta de vontade. O estômago começava a reclamar, o chamar pra realidade para a qual não queria voltar. Uma realidade que já o chamava para a consciência, dizendo que era inevitável, tentando o convencer que não havia escapatória. Resoluto, acreditou, mas antes queria aproveitar o resto de sonho, até que voltasse ao resto de corpo que tinha e que não queria ter mais, e que provindenciaria um jeito de se livrar dele o mais cedo possível.
    - Você deve estar com fome. Não jantou nada ontem a noite. Vomitou todo o almoço.
    - Doutora, matar a minha fome não vai me fazer viver.
    - Mesmo?! Pensei que você gostaria de provar de um pouco dessas uvas aqui. Veja como elas estão bonitas! Um cacho cheio. Olhando contra o sol, quase dá pra ver o suco doce e ácido quase explodindo dentro da casca.
    - … não quero…
    - Roberto. Você não engana ninguém, sua cara te denuncia. Não quer mesmo?! Sinta essa uva na sua cara… macia essa uva! Deliciosa! Cheire um pouquinho! Sim, é só abrir a boca que eu deixo cair… bom menino!
    -…
    - Gostosa, não?! Não?! Gosto de cera?! Não! Claro que não! Não tem gosto de nada! Nadica de nada! O gosto, meu caro, é algo que se lembra só quando se experimenta de novo. Doce é apenas uma palavra, mas nenhuma palavra é realmente doce.
    - Não tem doce mais doce que doce de batata doce.
    - Engraçadinho… você como piadista daria um bom ciclista, do jeito que você se encontra.
    - …
    - Sinta! Sinta minha mão! Sinta seu próprio corpo tocado por minha mão!
    - Eu não quero! EU NÃO QUERO! Sai de cima de mim, sua cadela! Por favor… por favor… eu te imploro!
    - Você não pode me sentir. Você pode até se sentir, finalmente. Mas não pode sentir quem te toca. Ninguém está te tocando agora, Roberto.
    - Doutora, por favor, me deixe em paz. Aqui posso me sentir por inteiro.
    - Aham… o que você sente inteiramente aqui não chega nem perto da metade que poderia sentir de verdade.
    - Então me explica, por que não?
    - Porque aqui você só sente saudade.

    Aquilo era demais pra Roberto resistir. A realidade o tocava novamente e retornava com a sua lucidez. Pleno domínio do próprio corpo, pelo menos dos neurônios que sobraram conectados. Para quem nunca soube que tinha um baço, ou um sistema linfático, ou uma safena. O coração batia como um tambor, depois de ter sido esquecido dentro do tórax. Era a volta do filho pródigo
    O quarto do hospital era minúsculo, espartano. As cortinas estavam semi-abertas, deixando aparecer as árvores da praça em frente. Tossiu até quase se engasgar. Respirou automaticamente, de um jeito falho, meio esquecido. Olhou pras paredes. Tomou fôlego. Olhou pras pernas, pro que restou delas. Já não conseguia sentí-las. Surpreendentemente, não conseguia se surpreender. Seus olhos secos não conseguiam mais chorar. Impedida de fugir, a lágrima imaginária caiu do lado de dentro, um poço sem fundo, sem sentido também. Olhou pros pés, ou para o lugar onde eles deveriam estar. Não encontrou nada, apenas um consentimento que não queria encontrar. Não tinha jeito mesmo. A distração o fez olhar pros lados. Em cima do criado mudo havia uma bandeja. Em cima da bandeja havia uma tigela. Em cima da tigela, por fim, havia duas bananas velhas destacadas do cacho. As cascas começando a enegrecer. Pegou uma banana que estava ao seu alcance, pedindo pra ser devorada. Ela ainda estava gelada. Metodicamente, descascou a banana, que não ofereceu nenhuma resistência. A fome reclamava forte e lenta, sem a mínima pressa, ciente que seria satisfeita sem demora. Mordeu, mastigou, engoliu. Sim, aquela fruta tinha gosto de fruta.
     

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