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Finnegans Wake (James Joyce)

Tópico em 'Literatura Estrangeira' iniciado por Anica, 6 Set 2009.

  1. Anica

    Anica Usuário

    Acabei de ler este artigo de Edilson Pereira e achei tão bacana que quis compartilhar com vocês, mas ainda não tínhamos tópico sobre Finnegans Wake, hehe. Então aqui está =D

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    :

    Finnegans Wake, ou, na tradução brasileira (como proposta pelos irmãos Campos e referendada por Donaldo Schüler), Finnicius Revém, é o último romance de James Joyce, publicado em 1939, e um dos grandes marcos da literatura experimental por ser escrito em uma linguagem composta pela fusão de outras palavras, em inglês e outras línguas, buscando uma multiplicidade de significados. Sua tradução para qualquer língua é complicadíssima, e qualquer tentativa é um ato de ousadia desde a primeira palavra do romance.

    (aliás, na página da Wiki tem uma comparação de traduções bem bacana)

    E aqui o artigo:

    [size=x-large]Para encarar o Finnegans Wake[/size]
    [size=x-small]Edilson Pereira[/size]

    Um dia de 1978, entrei na pequena livraria Avanço, na Rua Aurora, a poucos metros da Avenida São João, em São Paulo e comprei um volumoso livro chamado Ulisses, do Sr. James Joyce. Tinha ouvido falar cousa e lousa de ambos e estava disposto a encarar. Saber o que era, que tinha demais. Uma semana depois de avançar até a metade, parei. Estava mais perdido que lombriga em asfalto quente. Então descobri: alguns livros são como valentões de rua, você só encara com ajuda. Senão, leva cacete. Ulisses era um.

    Estes livros são cheios de melindres, inóspitos, como ralis no interior do Brasil: é preciso muita vontade para ir em frente. Depois fiquei amigão de Ulisses e até comprei de presente alguns para uns considerados, que acharam estranho eu gostar daquilo. A esta altura eu já sabia que havia um valentão ainda mais feroz naquela rua, um tal Finnegans Wake, do mesmo James Joyce, naqueles anos sem tradução integral no Brasil e praticamente ilegível por qualquer sujeito que falava inglês, porque soava grego louco falando russo.

    Deste livro, havia apenas um pequeno volume traduzido pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos chamado Panaroma do Finnegans Wake, que comprei ainda no final dos anos 70 em São Paulo e que me deu ideia da aventura que seria o volume inteiro. Não era fácil. Anos depois um gaúcho chamado Donaldo Schüller topou o desafio de traduzir a obra completa. E fez Finnicius Revém. Mas o livro, para compensar o investimento em tempo e não sei mais o quê, foi publicado em volumes, o que tornou o preço elevado demais. E proibitivo para assalariado.

    Bem, Finnegans Wake continua por aí, desafiando incautos pelas ruas da literatura mundial. Mas como todo valentão fica velho, hoje em dia ele não assusta mais, embora continue a impor respeito em qualquer um. Tanto não assusta que uma mulher resolveu encarar o valentão. E antes que diga que sou mais um porco chauvinista neste chiqueiro humano, recorro ao próprio James Joyce que disse: "Eu odeio mulheres que não sabem nada". Mas ele nunca disse: "Eu odeio homens que não sabem nada". Engraçado ele falar isto, porque Joyce não deixou as mulheres sossegadas. A começar pela patroa, Nora Barnacle, de quem surrupiou a fala fluída para compor o monólogo de Molly Bloom, no final de Ulisses. Sem contar um volume de cartas que enviou para a dona que é de deixar corado qualquer corintiano de Diadema.

    Vamos em frente. Pois bem. Uma senhora chamada Dirce Waltrick do Amarante encarou as traduções existentes no Brasil, foi na Irlanda, pesquisou e produziu um livro chamado Para ler Finnegans Wake de James Joyce (Editora Iluminuras, 168 páginas, R$ 35,00). Dona Dirce simplesmente propõe uma tradução feminina para o valentão da rua. Ousadia ou não, é o preço que Joyce aceitou pagar quando entrou no ofício. Afinal, não foi ele quem por ocasião da construção de Ulisses disse estar fazendo uma obra para deixar ocupados professores e especialistas por 200 anos? Eles estão ficando malucos e a culpa não é deles.

    No Brasil, a tradução de Ulisses feita por Antonio Houaiss já foi considerada erudita e complicada pela Sra. Bernardina Pinheiro, que propôs uma mais coloquial - propôs e fez. Hoje em dia podemos nos dar ao luxo de ter duas traduções de Ulisses: uma complicada e outra sem complicação. Coloquial como se diz. Joãozinho Trinta diria: "Um luxo!". Dona Dirce faz algo semelhante. Ela nos brinda com o capítulo VIII de Finnegans Wake, mais precisamente Anna Livia Plurabelle, o mais conhecido de todos, para dar uma entonação feminina à narrativa. O que Joyce diria? Não tenho a menor idéia.

    Para o leitor não morrer de curiosidade, vai um exemplo: "Lembra-te do teu alvô! Pensa na tua Ma! Hing the Hong é o teu hangnome de jove! Canta um bolero, burlando um mandamento! Ela jurou sobre o acrostifixo nove seguidas vezes que ela venceria todos os seus obstáculos novamente. Pela Vulnerável Virgem Mary del Dame". E vai adiante. Claro que isto é prosa límpida se batermos de frente com o que encontramos no Panaroma, dos irmãos Campos.

    Se o leitor mais curioso pegar a tradução de Schüller pode comparar e ver o resultado. Claro que o livro de Dona Dirce Waltrick não se resume a tradução de um capítulo, para propor outra forma de verter a obra para o nosso vernáculo. Ele serve de introdução, guia turístico e aí reside sua utilidade, dar significados importantes ao leigo ou interessado em entrar na selva de palavras e frases de inflexões quase guturais de Finnegans.

    Afinal, embora para o leigo à primeira vista aquilo possa não ter sentido algum, ele pode se ferrar de cara: tudo aquilo tem sentido. E ele não terá a menor ideia, se não correr atrás. Joyce queria escrever uma espécie de história do mundo. Claro que o leitor vai tirar zero em história se for ler Finnegans antes de uma prova de história. O sujeito, no caso Joyce, estava fazendo literatura e não manual de segundo grau. Então é uma história do mundo escrita de forma que ninguém percebe que é a história do mundo. A radicalidade de Finnegans, para quem for mais descolado, já pode ser pressentida em algumas partes de Ulisses, justamente aquelas em que o leitor comum não entende nada e fica perguntando o tempo todo: "O que ele quis dizer com isto?".

    Joyce diria que Ulisses é um livro do dia, por isso claro e límpido e Finnegans da noite. O sujeito pode pensar que Joyce está de gozação, afinal os irlandeses são terrivelmente bem humorados. Mas, depois de certo tempo ele vai concluir que o homem está falando sério. E, pior, se Finnegans é o livro dos ruídos noturnos, nem adianta procurar roncos por lá, que não vai encontrar: Joyce não dormia no ponto e seu livro está mais para o sonho. E para não ficar perdido ou passar recibo de ignorante, o bom mesmo é o leitor recorrer a alguém que passou boa temporada tentando entender aquilo para explicar a outro.

    Afinal, é preciso entender que Joyce passou vinte anos da vida tentando deixar o livro com a cara exata de um labirinto. E ninguém faz um labirinto para a gente entrar e sair vinte minutos depois. É para se perder lá dentro, maluco, ficar de cabeça quente e deixar Joyce todo pimpão lá em cima: "Dei nó na cabeça de mais um lá embaixo!". Aí é que reside a graça da coisa, para nós, leitores: provar para o sujeito lá em cima que a gente consegue entrar e sair daquele labirinto sem ficar doido. O diacho é que a maioria das pessoas nem tenta e a maioria das que tenta se perde; isto quando não fica doida.

    Mas com alguma ajuda, é possível ir até o fim. E sair. Inteiro. Dona Dirce fez a parte dela. É uma mãozinha, mas quem está na areia movediça sabe que uma mãozinha pode ser uma manzorra.

    Fonte:
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  2. Brianstorm

    Brianstorm Usuário

    Você já leu, Anica?

    Acho que uma das minhas maiores metas como leitor é ler esse livro.

    Duro que a tradução em português além de ser muito cara, parece não ser muito boa. Ao menos por esse link na Wikipedia, achei a do Augusto de Campos bem melhor, mas ele não traduziu completamente, né.
     
  3. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Já ouvi dizerem horrores desse livro, não que seja ruim, mas sim pela complexidade com que Joyce escreve. Concordo com o Brianstorm nessa: é uma das minhas maiores metas como leitor!
     
  4. Brianstorm

    Brianstorm Usuário

    " a primeira sentença começa na última página e a última sentença na primeira, tornando o livro um grande ciclo. Inclusive, Joyce disse que o leitor ideal do Finnicius sofreria de uma "insônia ideal" e, ao completar o livro, retornaria à página um e começaria novamente, e assim por diante num ciclo infinito de releituras. Inclusive, a tradução proposta para o título remete a fim + início, com o us no final podendo aludir a línguas como o latim e o francês, referidas também no original (fin-again, fim-de-novo)."

    http://pt.wikipedia.org/wiki/James_Joyce#Finnegans_Wake

    Isso que me deixou mais intrigado.
     
  5. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Bem vindo ao clube! Hehehe, deve ser uma loucura enervante, mas isso só aguça minha curiosidade. Vamos pensar com Nietzsche: "O que não me mata, me deixa mais forte."
     
  6. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Joyce, enquanto escrevia o Finnegans Wake, manteve o título de Work In Progress. O máximo que um leitor pode fazer é ser um Leitor In Progress... Uma só palavra do Finnegans Wake vale mais quem um livro comum!

    A palavra sanglorians, por exemplo. Temos aqui sang e glory: sacrifício militar, glórias do pós-guerra. Mas temos sanglot também: soluços, sangue, glória. É do que se trata uma guerra, não? Sangue derramado, glória do vencedor, soluços do perdedor. Mas a guerra do texto é rupestre, antíqua, e a palavra agrarians aparece luzidia em nossas mentes: a luta de clã de agricultores, uma guerra, uma guerra agrária, antiga, antiquada, quando dos feudos e suas delimitações e uma nobreza nascida para a guerra. Essa ideia é complementada pelos sangles (cintos, arreios) dos cavalos, soldados sanglés em sua gloriola... Uma guerra agrária, com cavalos de cintas, soldados em gloriola, soluços do perdedor, glória do vencedor, sangue no chão. Será apenas isto? Experimente ler ao contrário. Uma guerra sans (sem) glória, sangue por rien (nada), anulando toda a glória vindoura da proposição anterior.

    Só essa palavra demonstra-se um divisor de águas. Que sentido percorrer? Isso é o que uma palavra faz. Una isto com um jogo sintático complexo e um jogo de referências intrincadíssimo... Estamos num sonho, e a linguagem não pode ser uma qualquer... Os personagens se transformam, a trama se transforma, o texto se transforma. ALP é um rio, HCE sonha no meio de um sonho, Isabel se transforma em sua mãe no sonho de HCE... E por aí vai...
     
  7. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    E aí, eis que descubro uma versão restaurada do Finnegans Wake.

    Três textos a respeito disso:

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    • Ótimo Ótimo x 2
  8. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

    Mano, isso vai dar m****. Já fizeram duas "correções/restaurações" antes e a turma ficou revoltada. Chegaram até a dizer, "correções em 'Finnegans Wake'? Como alguém sabe que tem algo errado ali?" :lol:
     
    • LOL LOL x 3
  9. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Putz, isso é verdade. Porque o comentário que eu li é que deixou o livro um pouco mais legível...

    Só que... Ah. Nem mesmo os livros que deixam o Finnegans Wake mais legível o deixam mais legível. Tipo o
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    . Eu tenho medo daquilo. É sério.

    Outra crítica que li também é a questão da disposição das páginas. Pois isso é importante... Eles alteraram a diagramação, então isso pode dar merda, visto que muitos grupos de estudos do Finnegans Wake vão se guiando mais ou menos pelas páginas, pra não irem por outros esquemas que podem ser postos de lado ou questionados (tipo a divisão em livros do Campbell e do Robinson).

    E tem também o fato de que eles não especificaram bem o que mudou. Aí você ficar comparando uma edição com a outra... Poxa, isso é tortura. O Finnegans Wake já é difícil, gente. Parem de querer fazê-lo mais difícil!
     
    • LOL LOL x 1
  10. DiegoMP

    DiegoMP Usuário

    Ó, saiu hoje na ilustrissima.
    Deixo dito desde já: vocês que encararão a obra já tem a minha admiração.

    E como o Galindo curte um desafio, né? Ulysses, Infinite Jest, Finnegans, e ainda traduz uma Alice Munro nas horas vagas.

     
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  11. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    É difícil falar numa espécie de enredo pro Finnegans Wake, mas, se formos pensar bem, é difícil não falar em um ou mesmo que o livro não o tenha. Se é sonho, naturalmente nada é claro, definível; mas se é sonho, sempre existem substratos.

    Então, basicamente, o Finnegans Wake funciona assim: um homem vai dormir. Esse camarada tem uma esposa e três filhos, dois meninos (gêmeos) e uma menina. O livro Finnegans Wake segue a narrativa da canção popular irlandesa, que fala dum Finnegans que trabalhava, caiu da construção (tipo o do Chico Buarque) e, no enterro, quando abriram uma garrafa de bebida, ele acordou. A ideia aqui é isso mesmo. O FW é cíclico; onde ele termina ele começa. Pois, no final das contas, é muito mais que sonho: é inconsciente individual tocando o inconsciente coletivo.

    Aí esse camarada foi dormir. O livro começa com o tal do riverrun, que tem uma série de conotações, indo desde river+run até palavras como rune, que remetem ás runas de civilizações ancestrais, para não dizer em trechos de Tennyson, Coleridge, da Bíblia... Enfim. Basicamente, o sonho está começando. E o FW representa, alegoricamente ou oniricamente, a humanidade toda. Então pensem que o mundo está se formando, saindo do caos ou voltando pro caos ou caotizando começo e fim: a primeira frase fala muito disso, do riverrun que passa por Adão e Eva e nos leva até a bend of bay, essa terra firme-não-firme do sonho, por um commodius vicus of recirculation. Esse vicus certamente tem um parentesco com o filósofo Vico, que concebia a humanidade em ciclos, separados entre si por espécies de catástrofes ou grandes acontecimentos. É meio que um consenso que essas catástrofes ou grandes acontecimentos são representados pelas thunderwords, que são palavras-trovão com 100 letras que são espécies de microcosmos do FW todo.

    Aí, voltando, o camarada foi dormir. A gente quando dorme fica no dorme-não-dorme, não entra direto no sono pesado. Então, basicamente, o começo do FW ainda não é um começo propriamente dito, mas uma coisa estranha. O começo da humanidade e das coisas foi estranho, lento, disforme. Tudo muito interligado, homem e natureza, e, como Joyce mostrará ao longo do livro todo, isso nunca deixou de ser assim. Mas o fato é que vai-se-nos sendo apresentado, nesse primeiro capítulo, as personagens, até a hora em que esse camarada que está dormindo, como o Finnegans da canção, cai.

    É quando surge a primeira thunderword. Ele cai. Do andaime ou do sono? Ou duma espécie de big-bang universal? Ou daquele primata à la Kubrick que levanta um osso e o descobre como arma?

    Tudo isso ao mesmo tempo. Mas o fato é que o FW começa mais ou menos aí. O restante seria a apresentação das outras personagens, transfiguradas no sonho. O camarada que dorme se transforma no HCE. Não, o nome dele não é HCE. Mas é que sempre que você ver três letras que começam com HCE, o tal do HCE tá em cena. A mais famosa aparição dele é quando surge o termo Here Comes Everybody. E isso já diz muito por si só. A esposa do HCE é a ALP. Idem. Mas geralmente a chamam de Anna Livia Plurabelle. E os filhos trocam muito de nome. A filha é Isabel. Os irmãos, Shem e Shaun. Mas todos eles podem trocar muito de nome. Por exemplo, Shem e Shaun, na primeira página do FW, são chamados de Jhem e Jhaun.

    Iconicamente, simbolicamente, o HCE é o baricentro de tudo, o centro do universo, uma espécie de Deus ou História-de-Deus. A ALP é o princípio fecundador. É o substrato por debaixo do FW todo. Ela não manda exatamente em tudo, mas, como o livro vai deixando claro, é ela que movimenta o FW todo -- bem mais que o HCE, como se a ALP fosse o motor, o moinho, o rio. O rio. Guardem isso. Shem e Shaun são os irmãos, os opostos, os pólos, os contrários. Tudo que vc puder pensar de simbólico para dualidade eles são. A Isabel seria o princípio harmônico nisso tudo. O que aplaca. O que não leva essa harmonia desarmônica à destruição reconstitutiva.

    Aí certo. Estamos dentro do sonho. No capítulo II, o Joyce fala da reputação do HCE. O FW continua e, em determinada passagem, o HCE tá tipo numa praça. Aí acontece um rolo e ele é preso. Que rolo é esse, eis a questão. Uma das teorias mais aceitas pelos estudiosos é de que o HCE olhou pruma mulher com desejo e ela contou pra autoridade. Eu também gosto muito dessa ideia, pois liga o HCE à história do Parnell, revolucionário irlandês que foi preso por um caso individual e falso de traição.

    O HCE é condenado num tribunal feito de 4 juízes. Rolam uns poeminhas difamando ele e tal e coisa. É condenado a ser jogado no mar. Tentam fazer um manifesto pra salvá-lo. Em vão. Ele é jogado. E ALP se desespera, vai chorar suas pitangas no mar onde seu marido foi jogado. É o capítulo 8 do FW, o melhor de todos. Pois a ALP meio que se transforma no rio, ela se deságua no rio e a mágica acontece.

    Pois aí acontece um sonho dentro de um sonho. Digamos que a era do ser humano ligado aos deuses, á ancestralidade, essa era meio que acaba. No sonho dentro do sonho, HCE e ALP estão ausentes-presentes. São mitos, são a constelação que paira por cima de seus três filhos, que passam a representar o caminhar da humanidade.

    E aí, basicamente, é o Shem brigando com o Shaun e a Isabel no meio disso tudo. Os irmãos tentam até mesmo conquistar a irmã, libido mesmo, e algumas leituras dizem que até o HCE entra na jogada. E isso tudo até o momento em que o romance vai voltando a ficar crepuscular, em que a noite dentro da noite vai se apossando do livro até que, como na lógica hegeliana, negativo e negativo se anulem e se tornem positivo.

    Esse sonho dentro de outro sonho é movido pela ALP. Ela é o rio em que o HCE foi jogado, ela é o rio de suas lágrimas que rega aquele rio, ela é o princípio fecundador de tudo. Mas o que acontece é que essa noite não é eterna. Ela é um sonho. E o camarada que estava dormindo vai acordando, e tudo isso vai se desvanecendo na medida em que o Shem e o Shaun vão se entendendo, por exemplo, e em que os signos vão se apaziguando.

    O FW termina com uma sentença incompleta: "A way a lone a last a loved a long the". O Ulysses terminava com um Yes. O the consegue ser ainda mais tênue que o Yes. É a ruptura. É você ser acordado pelo despertador para ir pro trabalho. Mas não se desvincular totalmente da lenda. É quando o Leopold Bloom acorda, é quando Stephen acorda e eles vão para suas odisseias diárias. Mas não se desvinculam da lenda. Pois debaixo da sola dos sapatos desses caras tem a ancestralidade, a humanidade que se foi e que ainda persiste sob a forma de mito.

    Esse trecho que o Galindo traduziu ainda está no primeiro capítulo. O camarada ainda não dormiu de todo. O sonho vai se aprofundando, tem muitas camadas. Ele já perdeu a consciência, mas ainda está entrando na coisa; ainda é introdução. Shem e Shaun começam a ser apresentados, e o jogo de libido também. Quando a segunda thunderword ecoa, é como se a garrafa fosse aberto. A garrafa, lá da canção. É quando a coisa começa mais uma vez, como, de resto o FW está sempre fazendo: recomeçando.

    E beberam todos de graça: eu, você, quem dorme, quem acorda, quem morre, quem ressuscita. Quem lê e quem desiste. Quem não leu e quem lerá.
     
    • Ótimo Ótimo x 3

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