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Eu não queria ligar, mas liguei

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por imported_Ariane, 31 Jul 2009.

  1. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário

    Eu pensei que eu não ia "receber" inspiração tão cedo. Mas essa doida aí saiu de mim hoje. heheheheheheh


    [align=justify]Não, eu não sou fria, a minha mãe acha que eu sou fria, mas não é verdade. É que eu não levo jeito para essas coisas, sabe. Eu não sei como é dizer “meus pêsames”. Que diabos de coisa mais idiota é essa?: “meus pêsames”. Olha, eu sei, por experiência própria, que ninguém gosta de ouvir isso, mas se a gente não fala, o povo reclama. Como é que eu vou saber o que eles querem ouvir? Eu não leio mentes, nem queria, imagina!

    É só pegar o telefone e ligar, eu sei que é assim, mas eu não consigo. Eu acendi um cigarro, mais um do maço da minha amiga. Ela mora comigo, mas viajou. Foi visitar a família. Coisa que eu nunca faço, porque eu nunca tiro férias. Ela esqueceu a porcaria aqui; eu peguei um e acendi no fogão.

    Fiquei sacudindo as pernas, sentada no sofá. Era uma tragada, mal dada, porque eu não sei fazer isso, e uma unha que ia embora. Eu olhava para o aparelho e depois olhava para o outro lado.

    Até que eu liguei, eu não queria ligar, mas liguei.

    Eu soo bem nervosa, não é? Eu estou nervosa. Sabe quando eu comecei a fumar? Ontem! Quando a minha mãe me falou que...

    Ai, caramba! Eu nem falei do que se trata, não é? Nem quero falar... Você me perdoa se eu não falar o que aconteceu? Não. É, eu sei que não, eu também não o faria. O problema é que eu tenho medo de tudo. As pessoas confundem o meu medo com indiferença, eu não sou indiferente! Eu me importo com o sentimento alheio, mas eu não sei como lidar com isso. O pior é que isso acontece TODA VEZ!

    Eu me lembro bem da primeira vez que eu fui a um enterro. Não foi legal, está bem? Eu não gosto de ver pessoas chorando, eu sei lá, daquele jeito... naquele lugar macabro. Aí, uns homens de roupas esquisitas, eu não quero falar mal de coveiros, mas eles me causam arrepios.

    Detesto esse tipo de cerimônia, situação do comportamento do homem que embrulha o meu estômago. Todo mundo lá, com a bunda no banco da igreja – pode falar bunda aqui? Que se dane! - o finado virou santo de um dia para o outro, ninguém mais tem pecados... todo mundo amigo! Eu fiquei lá observando todos e forçando uma lágrima, mas não saiu nada.

    Ahhh Eu quero gritar!

    Eu vou contar do começo, não do começo começo porque aí ia ser uma história muito longa e eu não gosto de falar. Tudo bem, eu gosto de falar, mas não sobre isso.

    Eu cheguei em casa do trabalho. Eu trabalho igual a uma mula! Daquelas que carregam tudo nas costas. Eu carrego o mundo nas costas, a começar pelo meu chefe, aquele filho de uma mãe preguiçoso, que me deixa fazer o trabalho todo e ganha o mérito e a meleca do dinheiro! Imbecil! Mas esquecendo isso... A minha mãe me ligou.

    “Tudo bem, filha?

    “Tudo.” Eu sempre digo que estou bem.

    “Olha, liga para a sua avó, o seu avô está no hospital. Não está nada bem.”

    É sempre assim. Muitas pessoas da minha família morreram nos dois últimos anos, uma espécie de praga. A minha mãe fica sabendo da doença, fala pra mim e eu não quero ligar, mas acabo fazendo, e depois sinto um alívio danado quando eles morrem e eu liguei antes. Tudo o que eu não preciso agora é remorso! É isso mesmo! É egoísta, né? Mas você, com certeza, já pensou nisso também, fala a verdade.

    Mas nesses casos, quem morria era sempre o avô dos outros, nunca o meu. Tudo bem que eu não acreditei que ele estava mesmo muito doente. A minha mãe é exagerada demais e... eu não acreditei, eu não quis acreditar. Eu não levei a sério.
    Eu não acho a morte uma coisa tão absurda assim e nem o nascimento uma coisa tão linda. A vida é assim: você nasce, com cara de joelho porque neném nenhum é lindo, e aí um dia você morre, porque é como as coisas funcionam mesmo e não tem jeito.

    Não, eu não liguei para a minha avó segundos depois que a minha mãe desligou. Eu fui tomar banho, eu fui comer, eu fui checar os meus e-mails. Mas chegou o momento em que não tinha mais nada “urgente” para fazer. Foi quando eu pensei que a minha avó estaria esperando esse telefonema, esperando que eu quisesse saber como eles estão, eperando pela minha atenção. Mas eu me tornei tão egoísta nesses últimos tempos.

    Não, sinceramente, a minha avó é muito chata. Não, certo, ela não é chata! Mas ela fala muito da vida dos outros, eu não gosto disso. Detesto gente “fifi”! Por isso eu demoro tanto tempo pra ligar pra ela, e sempre invento uma desculpa esfarrapada, digo que não tenho tempo. Mas todo mundo tem, nem que seja, cinco minutos, mas ninguém toma esse tempo.

    Eu disquei o número, sem muita vontade, mais “fazendo a minha obrigação” que qualquer outra coisa.

    “Alô.” Ela soava cansada. Nossa, como ela envelheceu!

    “Oi, vó. Sou eu.”

    “Oh, minha querida.” Eu confesso que isso sempre me deixa feliz.


    “Oi, vó. Eu liguei pra saber do vô. Como ele está?”


    E ela me falou sobre sua condição e sobre o hospital e falou da sua própria osteoporose e perguntou muitas coisas sobre mim.
    Eu cheguei a falar com o meu avô quando ele acordou. Ele ficou tão alegre em falar comigo que fez com que eu me sentisse um monstro! Depois de alguns minutos eu descobri que eu gostava de conversar com eles e que sentia saudades. Eu desliguei e em alguns minutos todos os bons sentimentos foram apagados pela lembrança do trabalho, pela TV e pelo amanhã.

    Estranhamente eu não senti a sensação de “missão cumprida” como sempre sinto quando falo com um doente. Antes de eu ir dormir o telefone tocou mais uma vez.

    “Ai, filha... o seu avô...”

    Eu sabia o que a minha mãe quis dizer, atrapalhada por seus soluços. E como doeu! As minhas pernas bamberam, eu caí no chão e soltei um grito. Quandos meus berros cessaram eu peguei um cigarro e acendi, eu não fumo, mas fumei. Depois disso não sei o que aconteceu, não sei onde o telefone foi parar e nem sei como e quando eu dormi.

    No outro dia eu não fui trabalhar e o momento de ligar para casa chegou. Eu fumei.

    É, eu também percebi que fiquei mais calma. É a dor.

    Sim, eu estive no enterro. Eu participei daquele ritual humano que eu odeio. Eu sentei. Eu chorei como todos eles.

    Agora você está esperando que eu diga que eu aprendi alguma coisa... Sinto muito, eu fiz a minha parte. Eu não queria ligar, mas liguei... [/align]
     
  2. Anne

    Anne Visitante

    Interessante o seu texto Ariane. Me prendeu até o final. Eu nem estava afim de ler, me bateu uma preguiça..mas eu não consegui pararXD. Muito bom mesmo!

    Ahh, só uma coisinha. Quando tenho erros no meu texto, gosto que me avisem. É um errinho bobo, mas se quiser arrumar...

    espécie de* praga.

    Continue escrevendo. Gostei muito!:happyt:
     
  3. imported_Wilson

    imported_Wilson Please understand...

    A história da minha vida... (em partes)

    E gostei do estilo bem-humorado =)
     
  4. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário


    Obrigada pelo elogio.

    Também gosto, Anne!:)
     
  5. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário

    Está vendo, eu disse que todo mundo faz isso de vez em quando. :rofl:
    Obrigada.
     
  6. Lana Lane

    Lana Lane Usuário

    O texto saiu mesmo como uma espécie de desabafo. E me identifiquei na hora com a reação da personagem frente à situação. Gostei muito!
     
  7. Palazo

    Palazo Mafioso Literário

    Odeio cemitérios, enterros, e essas "obrigações" funebres que temos que fazer, mesmo sem a mínima vontade. Se fazemos é por que queremos, não por que devemos cumprir nosso papel, mas se nao fazemos somos os tais egoistas que nunca ligam, nem quando morrem.... na minha familia sempre vem o comentário de que só nos reunimos nos funerais, e talvez isso seja mais vergonhoso até do que o fato de não ligar...

    Gostei do texto Ari, solto e leve... apesar do tema.
     
  8. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário

    O assunto é complicado mesmo. Mas eu também me identifico com ela. Já aconteceram situações parecidas e eu reagi mais ou menos assim... Não é fácil aceitar, por isso eu quis deixar o texto mais leve, como o Palazo disse.
    Legal que vocês gostaram! Fico feliz. :lily:
     
  9. Sery

    Sery Usuário

    Puxa, parabéns ...

    O fato da narradora-personagem falar tudo de uma forma meio contraditória (não é bem essa a palavra, mas foi a única q me veio a mente) é bem legal tipo: Até que eu liguei, eu não queria ligar, mas liguei.

    Me lembrou do fluxo de consciência ^^ Senti muito dinâmica a leitura porque ficou parecido com algumas conversas que temos conosco mesmos de vez em quando, cheio de divagações.
     
  10. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário

    Obrigada, Sery.

    É, o texto tem mesmo um quê de monólogo teatral. Dava uma peça, daquelas de humor negro e ironia. :rofl:
     
  11. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    inspiração fúnebre? interessante...

    se ela ñ fumava como apareceu um cigarro ali? isso pq se ela caiu no chão ñ conseguia ir comprar um maço na padaria, correto?

    tá certo q vc pode justificar q ela morava com alguém q fumava ou q alguém esquecera algum ali, mas isso precisa ser dito no texto. deixar em aberto soa mais como um furo dq como um espaço para o leitor completar. uma opção interessante seria dizer q o maço era do ouvinte a quem ela se dirige narrando a história. mas isso tiraria o efeito desse ouvinte ser o leitor, é claro, a ñ ser q este leitor fumasse.
     
  12. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário

    É verdade sim. Eu pensei em mudar, só fiquei com preguiça. Porque eu sei que tem alguém na casa que fuma, só não mudei ainda. Mas já pensei nisso. Não seria o ouvinte não, seria um marido, um namorado ou uma amiga... Só não decidi quem. :sim:
     
  13. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário

    Pronto! Decidi quem e como. :timido:
    Vê se melhorou, J.
     
  14. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    agora sim ñ tenho dq reclamar. :calado:
     
  15. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário

    Obrigada.
    E obrigada também pelo empurrãozinho na minha preguiça. Às vezes eu preciso mesmo. :timido:
     
  16. Clara

    Clara Que bosta... Usuário Premium

    Ler essas coisas, que se parecem tanto com a gente... :pipoca:
    Muito bom Ariane! :sim:
     
  17. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário

    Obrigada.
    Eu também fiquei assustada quando eu li. Muitas coisas de mim nessa louca... :pipoca:
     
  18. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário

    Poxa, obrigada Lelo!
    Ela foi sincera mesmo. Essas são palavras que nunca sairiam da minha boca, mas passam pela minha cabeça. :oops:

    O único cemitério onde gosto de passear é nesse:

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    Dá uma olhada. ;)
     
  19. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário

    É verdade sim. Mas eu fiquei bem surpresa do pessoal ter dito que se identificou com ela. Achei que eu ia passar por má. :vergonha:


    :tchauzim:
     
  20. imported_Faye

    imported_Faye Usuário

    Na na ni na não... Imagina!

    Sabe, achei o título muito bem escolhido, pois ele me surpreendeu. Imaginava que fosse a história de alguém que "não queria ligar, mas ligou" para um(a) namorado(a) e isso tinha me desanimado um pouco a ler.

    Também gostei do ritmo. E algumas considerações que a sua personagem fez foram muito semelhantes a alguns pensamentos que eu tive. Eu e todas essas pessoas que se manifestaram neste tópico heheheheh
     

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