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Efêmero João

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Mavericco, 14 Nov 2010.

  1. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Efêmero João

    [align=justify] João não tinha face, João não tinha sobrolho, cabelos João em todas as partes da cabeça, dedos e pés limpos, centímetros de prazer, pele de gente justa, corpo de artista. João não tinha calça de artista. Não tinha também camisa, carteira, carro, casa, capital. João não era artista, João não tinha dotes artísticos. João nunca procurou ter. João pai e João mãe também não tinham nem procuraram: carpinteiro e dona de casa que confundiam as letras com os números e as palavras com as equações. João não era carpinteiro nem dono de casa, João nunca foi de seguir alguém, João não usava sua limitada capacidade sináptica. O mal de João fora a cobra. Nascido de uma casa João com duas janelas João e um fogão à lenha de João de dezessete meses; as quinze horas do trabalho de parto de mais um como tantos Joões espalhados pelo mundo se deu a partir do suor da parteira João bem como das unhas carcomidas do pai João, até então, diferente das quinze vezes seguintes, pai João de primeira viagem. João não tinha paciência de brincar com os carrinhos e bugigangas do orgulhosíssimo avô João, orgulhoso dos olhos remetentes ao tataravô João, olhos pendentes à esquerda e seu ímã invisível com a direita levemente paralítica de uma trava mecânica de nascença; João gostava mesmo era de montar no cavalo João de sua fazenda emprestada por infinitas prestações pelo mesmo já citado avô João que, irritado com o distanciamento para com sua pessoa da parte de João, tratou de com mãos de Deus encurtar o infinito em quinze meses de ferrenhos debates noturnos.

    João não tinha dotes para a peregrinação imitada dos cartomantes, João não gostava do burro João e suas empacadas a cada quilômetro e meio sob o sol João ardente e impiedoso com o feto da irmã João no bucho João da mãe João. João vomitou trinta e sete restos de refeições João antes de chegar à Metrópole João com milhares de milhões de Joões andando de um lado para o outro tal qual baratas tontas dos inseticidas João das enormes placas João a cada esquina João. João também não gostou da casa João nova. João não gostou da instalação elétrica, João não gostou do banheiro e sua privada de eructações guturais. João passou a gostar do Educandário João com seus coleguinhas Joões pobres como ele, vindos de idênticas casas Joões afastadas do perímetro do viveiro da cidade. João só não gostava do grupo de colegas Joões que traziam rapadura João de suas casas, deliciosas, saborosas, açucaradas, inacessíveis. João gostou de aprender os números e de usá-los no cotidiano de casa mostrando á mãe João a validade datada de duas semanas do arroz João e sua embalagem empoeirada.

    O pai João e seus choros noturnos com os papéis que significavam cobrança na mão. A mãe João e suas habilidades de feiticeira para com a comida escassa. A avó João e suas visitas de mês em mês com farinha João que dava sustento. João não gostou do seu primeiro trabalho, João odiou ter que usar os braços curtos enquanto os colegas da rapadura treinavam fazer suas tão queridas equações João. O salário João que o chefe lhe pagava após ter retirado sua metade por motivos injustos, com risos e tapas em sua cabeça João, era necessário, era pouco pra rapadura.

    Quis chorar João, então, quando de soslaio teve que dar adeus ao dois em seu expoente soberano frente seus comparsas de graus menores mesclados com símbolos e sinais rumo a uma solução bipartida magnífica. Não podia. João tinha que trabalhar agora na fábrica João a cargo de menino de entrega: João agora saía da atmosfera e nuvens e montanhas cor de atro com compatriotas João a chamuscar os braços de tinta e despejar torrentes aguadas dos olhos. João gostou de ver o movimento da cidade pela manhã, João gostou de ver jornaleiros Joões olharem as notícias, procurarem a esperança e acharem o fastidioso, João gostava de ver o cidadão bêbado esperar ser erguido pelo filho de seu filho e conseguir apenas os vãos esforços de braços Joões, João gostava de ver o voo estrelado da rapace rapina, João gostava de ver as prostitutas saírem de seus recantos libidinosos com o sustento em mãos, João gostava de ver os mendigos a rolarem de um lado ao outro dos bancos de praça, João gostava de carregar maços de dinheiro pelos bolsos da calça furada pela esquerda e rasgada pela direita, João gostou de um dia ter comido um pouco de rapadura em um bar João.

    João casou com uma moça formosa e de cabelo ruim, mas consertável até os trinta e sete anos. Sabia fazer rapadura. Não dispunha de ingredientes nem de caldeirão, colher de pau nem de asa de morcego-João. Mas era a esposa João, sorridente, bailarina de nenhuma apresentação e de nenhum recinto, de nenhum palco, detentora do lume da tocha interior. João entrou na igreja pra assinar no papel seu nome e ajudar a noiva João a assinar o dela, o da mãe dela, o do pai dela, o da mãe dele, o do pai dele. João saiu da igreja pra levar a agora esposa João na lua de mel regada ao luxo de edredom João de propaganda de cosmético João e um resto de champanhe deixado pelo casal anterior. Foi morar num apartamento João pequeno, quis ter uma TV João, quis ter um rádio João se não desse pra ter a TV João. Quis completar quatro cadeiras Joões, três pratos Joões e dois garfos Joões. Não conseguiu. Teve que voltar pra igreja João assistir o funeral do pai João. Chorou João por não ter como arcar com um pedaço de terra onde enterrar o pai. Tiveram que criar uma montanha João na planície mais esverdeada que acharam, a exatos cento e cinquenta quilômetros da estátua João principal da cidade. Tiveram que retirar o corpo do rio João, pois que dias mais tarde um grupo de vândalos que com certeza não eram Joões, trataram de tirar o corpo de pai e procurar por órgãos João valiosos. O pai João não valia nada, pobre coitado pai João. Apenas a mão João ardente de tapas e palmadas nos filhos Joões e na mulher João. Sorte de não terem achado o cinto João de labaredas João infinitas.

    Conseguiu colocar no mundo dois filhos João. Queria sete, o bolso pediu nenhum, fez dois. Levou-os pra conhecer a mãe João, colocou-os no colo da mãe João; morreu-se então a mãe João com o segundo bebê João no colo não mais João. Doaram o corpo da mãe João pra faculdade João generosa que, com o dinheiro João repartido entre os dezesseis, deu a João o prazer de comer a rapadura da esposa João. Desejou nunca ter comido. Saiu das luzes taciturnas da noite João da cidade João e foi para o cargo de gerência João e seus papéis cheios de letras Joões. A esposa João trancafiou-se em casa, jogada ao seu cabelo João ruim agora sem concerto e aos filhos João, bons degustadores de operações matemáticas que hoje João não se lembrava nada que sobrepujasse a adição de sinais iguais. Tirou a certidão de nascimento João. Tirou a inútil carteira de habilitação João. Tentou decorar o número do CPF João. Tirou o título de eleitor João. Votou pela primeira vez em um candidato João que conhecera em um comício João. Ganhou duas cestas básicas João. Ganhou vinte cestas básicas João de candidatos João variados e de anos diferentes: o candidato João de cabelo ruivo e barba espessa, óculos João redondos em ano de festividade esportiva; o jovem e belo candidato João de sorriso azul e olhos brancos do ano de morte do escritor João famoso e desconhecido; a candidata João do rádio que conquistara João com seu sorriso João de altíssimas frequências. Ganhou, João, o cargo de secretário oficial do candidato João da primeira cesta básica João. Deu um adeus-João pra gerência João, deu um oi-João para os bebês João enfileirados, as donas de casa Joões, as crianças Joões, os futuros jogadores de futebol Joões, os metalúrgicos acoroçoados Joões. Subiu no palanque João junto com o candidato João, olhou a esposa grisalha João, o filho João estudante, o espírito do outro filho João a acenar de um lugar no céu onde os atropelados se reúnem e tomam chá. João sentiu-se realizado. João estava pronto para morrer de pneumonia João em um hospital João jogado ás traças de uma mensalidade que cabia nos bolsos pequenos João. Recebera a visita da família João mais o candidato João servindo de apêndice, um fotógrafo João a bater fotos de todos unidos e felizes, João intubado e raquítico. João pôde ver seus olhos de tataravô João pendidos para o lado a partir da foto que a enfermeira João trouxera do jornal João local, logo acima da foto da menina João que fora achada morta e violada. Sentiu saudade de ver os filhos João. Quis escrever um poema João sobre a morte João e tudo o que os poetas Joões sempre falam. Quis escrever um livro João sobre sua vida João e suas realizações frívolas. Quis lembrar-se se conseguia escrever algo que transcendia o nome João. Quis ter apoiado algum João que realmente acreditasse fosse algo fazer. Quis fazer algo. Quis ser algo. Quis Oscar Wilde. Quis morrer vendo os santos que tantos Joões falaram que era possível ver quando na beira do barco. Quis ter uma moeda João para colocar no olho João. Não tinha. Malogrou-se por não saber nadar.
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  2. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    De João Batista a Dom João VI. De São José ao Zé. Ou Joar Jilde?

    Não foi o Faraó Joamsés II que ergueu as pirâmides do Jeíto. Nem os habitantes do planeta J040.

    Depois que li A Hora da Estrela, não acho mais que ninguém renderia uma história. Só precisamos alguém pra contá-la. Você contou mais uma, Marvericco.
     
  3. Haleth

    Haleth There's no such a thing as a mere mortal

    Gostei muito da forma que você deu ao texto.

    "Quis chorar João, então, quando de soslaio teve que dar adeus ao dois em seu expoente soberano frente seus comparsas de graus menores mesclados com símbolos e sinais rumo a uma solução bipartida magnífica." Yey, man.
     

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