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Duas teses sobre a doença mental

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Luciano R. M., 30 Ago 2009.

  1. Luciano R. M.

    Luciano R. M. vira-latas

    Ele é jovem. Talvez tenha a minha idade, ou um pouco menos. Difícil dizer, há sangue demais cobrindo suas roupas, cobrindo seu rosto. Podia dizer que é um rapaz azarado. Mas segundo os socorristas, quem viu como foi disse que não foi acaso, foi determinação: no exato momento em que o ônibus passava, ele se jogou.
    Eu limpo suas feridas, suturo o que é preciso. Exames e mais exames são necessários. Raios-X, tomografias. Muitos ossos quebrados: uma perna engessada. A outra perna- a esquerda- não pode ser salva. Talvez a minha idade, ou um pouco menos.
    Não foi só ele que ficou aleijado. O motorista vai se sentir culpado, mesmo que não tenha tido culpa nenhuma. O desgraçado não só tentou se matar e falhou, estragou a vida de uma outra pessoa também. Eu não devia atendê-lo. Mas o faço, é meu dever
    ***
    Eu acordo, e obviamente não estou no outro mundo. Isso não é o paraíso ou o inferno, é apenas um hospital. E tenho mais certeza disso quando tento me mover e meu corpo todo dói. Olho para mim e estou coberto de curativos. Uma das minhas pernas está engessada e pendurada, presa a uma espécie de roldana. A outra simplesmente não está mais.
    O que fizeram com ela? Jogaram-na fora? Enterraram-na? Será que agora existe um túmulo cuja lápide diz 'Aqui jaz a perna de K.'?
    E com que direito arrancaram minha perna? Pode não ser a mais essencial, mas ainda é uma parte de mim. Sim, eu quero morrer. Mas quero morrer inteiro, e não aos pedaços.
    Aliás, com que direito me salvaram? Deviam ter-me deixado entregue à minha natureza, e minha própria força ou fraqueza me salvaria ou condenaria.
    Quando vê que eu acordei a enfermeira me explica que estou no hospital, que passei por algumas cirurgias. E se me lembro do acidente.
    'Não foi acidente.' Eu digo.
    ***
    Fui chamada para uma conversar com um rapaz que tentou suicídio. Jogou-se na frente de um ônibus. Teve sorte: perdeu uma perna, mas fora isso não sofreu nenhuma seqüela mais grave. E sobreviveu.
    Quando eu chego na enfermaria ele está com um olhar perdido, e sem expressão nenhuma em seu rosto. É jovem e bonito. A idade de um de meus filhos, eu chuto.
    'Olá. Eu sou a doutora Onetti, sua psiquiatra.'
    Sem resposta.
    'Gostaria de falar com você sobre o que aconteceu.'
    ***
    Agora mandaram uma velha, uma psiquiatra conversar comigo. Eu sei como funciona: ela vai me enrolar até eu admitir que estou doente, então vai me deixar suficientemente drogado para que eu não queira mais acabar com a minha vida.
    Mas eu não vou cair nesse truque, porque não estou doente. Nunca estive. A minha deliberação suicida não foi motivada pela depressão ou por delírios. É filosófico. Eu sou quase um Kírilov: o mundo é algo opressivo e, ao suicidar-me, pretendia declarar-me livre dessa opressão.
    ***
    Ele resiste a falar comigo no princípio. Mas aos poucos venci essa resistência. Ele, no entanto, não parece depressivo. Triste, mas não depressivo. Também não tem sinais de psicose ou de transtornos de personalidade. Não sei o que fazer.
    K. é um rapaz culto e bastante racional. Lamenta ter perdido a perna, lamenta ter causado danos ao motorista do ônibus. Lamenta ter sobrevivido.
    Não sei o nome do que ele tem. Mas não acredito que alguém possa ser normal se não quer viver.
    ***
    A Dra. Onetti é uma pessoa agradável quando não tenta me diagnosticar. Ela conhece seu homônimo uruguaio, Žižek e até mesmo já leu Proust. Não a deixo conduzir as conversas, eu a levo até os assuntos que me interessam.
    Uma vez ela disse que tinha um filho da minha idade. Que, por isso, sabia que a vida pode ser 'pesada' para um jovem. Eu lhe disse que peso, leveza, nada importava- deixasse isso para os Tchecos. Eu não quero me matar por essas coisas, eu quero morrer em nome da liberdade, eu quero morrer para confirmar que vivi- quero ser Zagreus e Mersault.
    ***
    Ele não me deixa tentar diagnosticá-lo. Ele tem um muro ao redor de si, impossível de atravessar. Eu lhe levo livros e cds, mas ainda assim ele não deixa que eu me aproxime.
    Mas eu tenho um trunfo: ele quer a alta, e só eu posso dá-la.
    ***
    Cedi, e disse para a Dra. Onetti o que ela queria ouvir. Aceitei até mesmo suas drogas. Agora ela se convenceu de que estou bem, de que não vou mais morrer. Deu-me alta.
    Recusei que viessem me buscar, sou capaz de me virar com as muletas. Não tinha muitos pertences para carregar, de qualquer forma.
    Antes de sair, peço à enfermeira um papel e uma caneta para deixar um bilhete de despedida para a doutora. Escrevo-o, e me encaminho para a janela.
    ***
    Cara doutora Onetti,
    Agradeço muito tudo o que fez por mim. Tentou curar-me com todas suas forças, fez que eu fosse não mais apenas um paciente, mas tornou minha questão pessoal para a senhora.
    Prometo-lhe que serei eternamente e infinitamente grato. Mas não prometo manter contato, vou morrer ao sair do hospital: você não foi capaz de curar-me pois eu nunca estive doente. Desculpe por mentir, por fingir que seu tratamento funcionava- quando na verdade ele só servia para tratar a sua própria impotência.
    Com carinho,
    K.
    ***
    Eu saía do hospital, quando algo cai à minha frente: o suicida que eu atendi certa vez, e que perdeu a perna. Devem ter sido uns oito ou nove andares. Com certeza não sobreviveu, agora. Que tipo de idiota se mata? Bem, não é problema meu, meu turno acabou.
    Se eu correr para casa, quem sabe ainda consigo ver o final do jogo.
     
  2. Clara

    Clara O^O Usuário Premium

    :susto:
    Muito bom!
     
  3. imported_Wilson

    imported_Wilson Please understand...

    Palmas realmente! :sim:
    Ficou muito bom.
     
  4. Lana Lane

    Lana Lane Usuário

    Caracas! Eu, assim como o K., achei que ela realmente se importava. :susto:
    Também, se parar pra pensar, imagina se ela fosse realmente se importar a ponto de se abalar com todos os pacientes que não tivessem jeito? É bem complicado.
    De onde vc tirou a idéia pro conto?
    Leu algo a respeito? Tem algum livro a indicar?
     
  5. imported_Ariane

    imported_Ariane Usuário

    O Luciano postou em "Prosa". Pausa para momento de alegria: :eba:

    Muito bom. Adorei. Adoro o seu estilo e achei o final ótimo. :rofl: :rofl: :rofl:
     
  6. Palazo

    Palazo Mafioso Literário

    O poeta também escreve prosa? Bacana o texto e o estilo adotado... gostei dos dois pontos de vistas dialogando entre si...
    O mais interessante é o desprezo mutuo, tanto de K. pelo tratamento, quanto da Psiquiatra...
     
  7. kika_FIL

    kika_FIL Usuário

    Muito bom o texto, gostei da sequencia, da alternação de vozes. Muito bem escrito
     
  8. Luciano R. M.

    Luciano R. M. vira-latas

    Primeiro, gracías pelos elogios!

    Então Lana... Eu escrevi esse texto, na verdade, para um concurso literário do Congresso Brasileiro de Educação Médica, que vai acontecer aqui em Curitiba, em outubro- e tinha de ter o tema da 'visão sobre o doente'. Não sei se coloquei num ponto de vista agradável a eles, no entanto. haha Mas o final abrupto foi por causa do limite de três páginas...
    E a parte do suicídio, é porque é uma das minhas linhas de pesquisa e o desprezo que o Palazo notou é bem visível na realidade.
    E admito ter sugado um tanto o Coetzee. :P
     
  9. Pickles

    Pickles Usuário

    pqp, genial

    final digno!


    Parabens, cara!
     
  10. Pickles

    Pickles Usuário

    ok, mas o final ai foi fala do médico inicial, nao?

    e nao da psiquiatra em si
     
  11. imported_rique

    imported_rique Usuário

    Texto magnifico! Continue assim.

    Tchau:tchauzim:
     
  12. Artanis Léralondë

    Artanis Léralondë Ano de vestibular dA

    eu não entendo de doentes mentais, mas alguns são muito inteligentes que conseguem manipular bem as pessoas, como na sua prosa
    a frieza no final é legal, não sei se quis passar isso, mas eu interpretei de como há médicos bem frios e que não se importam realmente com seus doentes e, sim completar o turno, no caso,e depois assistir ao jogo ...
    Parabéns pela prosa =)
     

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