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Domingo é dia de frango

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Excluído046, 1 Mar 2011.

  1. Excluído046

    Excluído046 Banned

    [align=justify]Ele acordou cedo. Não fumou seu café matinal, assim como não tinha bebido seu cigarro noturno. Olhou para ela, que ainda estava ressonando, e sentiu nojo. Era amor. Sentiu repulsa. O mais puro amor. Ela sorriu, com os olhos entreabertos. Ele sentiu carinho por aquele sorriso. Era o ódio. Sorriu para ela. A essência do ódio.

    Sentou na beirada da cama e, meio desajeitado, começou a afagar os longos cabelos loiros dela. Ele não gosta de loiras. É a verdade. Loiros e encaracolados, parecendo molas. A mais pura verdade. Ela começou a murmurar “Samba e Amor”. Ele se levantou da cama, foi até o Toca-discos – que comprou em um Topa-tudo - e colocou um vinil de Velvet Underground. Femme Fatale! Isso que ela era. Ela o destruiria. Era mentira. O faria de bobo. A inessência da mentira. A voz dela foi abafada.

    Ela levantou-se. Não disse nada. Era um milagre. Nem mesmo “Bom dia!”. Era qualquer coisa, não milagre. Milagres são bons. Aquele ela não dizer não era bom mesmo. Acendeu um cigarro. Começaria a devanear. Não tragou uma única vez. Estava acordada. Era hora de começar a sonhar. Ele, Épico. Ela, Dramático. O bebê, Lírico. Você não é criança ainda. Tem muito caminho para andar até começar a criançar, mulher. Foi a frase final dele naquele fim de noite, início de dia. Longo dia, sem fantasia.

    Um filho. Era a responsabilidade. Ela queria um filho. A irresponsável responsabilidade. Ela não voltou a pedir, depois daquela noite. Ele não conseguiu esquecer, depois daquele olhar. Olhar de súplica. Olhar primeiro, depois beijar. Olhar faceiro. Ela chorou. Era a fraqueza. Nada falou. O orgulho na fraqueza. Vestiu o vestido, citou Drummond. O vestido vermelho. Pegou o jornal, leu a coluna de Carlos Herculano Lopes. Partiu.

    Ele pegou a ponta de cigarro das mãos dela. Tentou prolongar o momento do toque nas mãos dela, mas, ela, arredia, puxou a mão. Não estava para afagos. Palavras. Estava para canções. Gestos. Ele arriscou tocar o rosto dela, ela se levantou. Pegou uma maçã e a levou até a boca, mas não a abocanhou. Jogou no lixo. Tirou a sacola da lixeira. Amarrou a sacola. Queria se desamarrar dele. Um emaranhado. Cadarço cruzado no tênis. Teia de Aracne. Colcha-manto de Penélope. Era a narradora e a narrativa. Cobria-se com o manto, quando sentia medo. Escondia-se, na sua própria criação. Era o tecido. Ele, o tecelão. Ele era o pente preso no cabelo embaraçado. Em último caso, corta-se o cabelo e se salva o pente. É sempre assim. Um desabafo abafado.

    Destrancou a porta do apartamento. Abriu um caminho. Foi levar o lixo na rua. Queria ficar ali mesmo, na rua, por um minuto, para sempre, um segundo. Cansou. Sentiu um desejo juvenil de andar sobre o meio fio, com os braços abertos, imitando um avião. Desistiu. Tossiu. Sumiu. Sentiu medo. Sentiu frio. Abaixou a cabeça, com vergonha de olhar para o porteiro do prédio. Passou correndo pela portaria, e voltou para seu apartamento. Não queria abrir a porta, não queria ficar lá fora. Queria qualquer lugar, queria qualquer coisa que não sabia bem o que era. Entrou. Ele saiu. Ele voltou. Ela ficou.

    Ele colocou o frango na pia. Ela foi lá. Descascou e socou o alho. Temperou o frango e ajeitou-o em uma vasilha de plástico. Guardou-o na geladeira. O frango do almoço de domingo estava garantido. Porque domingo é dia de frango. De frango, de macarrão, de coca-cola e de gelatina, como sobremesa. Gelatina de limão. Ela não gosta de gelatina, mas ele, ele adora. Porque domingo é dia de futebol. Dia de frango no prato, no estádio e na TV. Dia de querer. Sabe-se lá o quê. Hoje não amanheceu domingo. Adormeceu sábado nascendo.

    - É hoje. – Ela falou, enfim, quase que não falando. Quase que destecendo o tecido. Baixinho. Ele só ouviu porque estava com um olho-câmera sobre ela, e conseguiu ver os movimentos da sua boca rosada. Ele se aproximou dela, meio assustado, meio feliz, meio tudo e meio nada. Confuso. Não sabia ser inteiro, não sentia inteiro ser. Ergueu, timidamente, a mão, ameaçou tocá-la, mas recuou. Com afeto. Ela se aproximou. Ele a tocou.
    - É dia de que? – Falou, firmemente. Mente. Mentia.
    - Domingo é dia de frango e hoje é dia de amar.
    Era a dúvida. [/align]
     
  2. Haleth

    Haleth Call me Bolga #CdLXI

    Como gosto do que vc escreve, moça.
     
  3. Vinnie

    Vinnie Usuário

    "Samba e Amor" hummmm.. adorei a referência a essa música (mas só na voz do Caetano!) & também a sobre Penélope - linda a história, né?

    Curti muito as frases curtas e o lirismo que você jogou nesse conto. Assim como a discussão sobre ter um filho... me lembrou a Idade da Razão...



    Também adoro o que você escreve.

    Fui.
     
  4. _Paulinha

    _Paulinha Usuário

    Tb adoro. Adorei a confusão de sentimentos e as dúvidas sobre o que se sente, sobre a incerteza de querer ficar junto eternamente ou desaparecer para sempre.
    Se vc publicar eu compro! Só se for autografado, claro.:lendo2:
     
  5. Artanis Léralondë

    Artanis Léralondë Ano de vestibular dA

    Li pela curiosidade do título, muito legal.
    realmente, domingo é dia de frango e pipoca :pipoca:
    hummm...uma delícia esse conto :clap:
     
  6. Excluído046

    Excluído046 Banned

    Obrigada, moça. Também gosto do que você escreve.

    Também gosto de Samba e Amor só na voz do Caetano.
    Penélope é maravilhosa. E eu aprendi a gostar ainda mais dela quando eu a vi sob a ótica de Margaret Atwood em "A Odisséia de Penélope".

    Adoro A Idade da Razão. Então, o fato de este conto, de alguma forma, te lembrar de A Idade da Razão é uma grande honra para mim.

    Ah! Paulinha, que lindo! :timido:
    Seus posts são tipo gentileza em cubinhos, sabe? Eles sempre deixam os meus dias mais felizes.

    Obrigada. E, que legal você usar a expressão 'uma delícia'. De certa forma, a proposta do conto é ser algo para se saborear, mesmo.
     

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