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Documentos sobre atuação da Stratfor no Brasil expõem o amadorismo de espiões e fonte

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Morfindel Werwulf Rúnarmo, 28 Mar 2012.

  1. Morfindel Werwulf Rúnarmo

    Morfindel Werwulf Rúnarmo Geofísico entende de terremoto

    Era janeiro de 2011 e a Stratfor era apenas uma agência curiosamente bem colocada no mundo das informações de inteligência e geopolítica internacional, quando sua diretora de análise, Reva Bhalla,
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    mais que agradecido ao secretário-adjunto do Gabinete de Segurança Institucional do Planalto, José Antônio de Macedo Soares, por tê-la apresentado ao local reservado onde militares e agentes se reúnem em tempos de crise de segurança.

    Bhalla queria ainda reaver um mapa do Brasil presenteado por Soares e roubado no aeroporto.
    Um mês depois, Soares lhe escreveu: tinha em mãos a cópia do mapa, feito para a Marinha.
    Bhalla respondeu agradecida, emocionada, difícil de conter.
    Deu ainda o endereço para postagem. E pediu o dele,
    Geralmente discreta em público, a executiva americana de origem indiana ficou conhecida mundo afora depois que a comunicação da Stratfor, hackeada em dezembro do ano passado, passou a ser publicada pelo
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    . Em um dos
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    , Bhalla é instruída pelo seu chefe, o autor de best sellers sobre estratégia militar e CEO da Stratfor, George Fridman, sobre como lidar com suas “fontes”, homens ligados a empresas e governos detentores de informações de interesse.
    ensina o mestre.

    Até agora pouco se sabia sobre como a Stratfor agia no Brasil. Mas documentos aos quais a Agência Pública e a
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    tiveram acesso descortinam um modus operandi tragicômico, no centro do qual figura Reva Bhalla. Ela esteve no País por dois meses, em uma temporada de encontros nos quais abusou do seu charme e foi recebida de braços abertos até por funcionários de carreira do GSI, órgão responsável por garantir a segurança da presidência e que lhe confiou informações sensíveis às quais poucos brasileiros têm acesso. Em um dos e-mails, Bhalla relata aos colegas da Stratfor que naquela visita ao GSI chegou a se reunir com o ministro-chefe, o general José Elito Siqueira. Foi até convidada a visitar um posto militar na Amazônia. E durante a longa conversa com Macedo Soares, diz ter ouvido que a Abin capturara “terroristas” em São Paulo, incluindo pessoas ligadas aos ataques de 11 de setembro. O GSI confirmou a visita de Bhalla.

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    Reva Bhalla, diretora de análise da Strartfor, esteve por dois meses no Brasil. (Foto: Pública)​

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    Batizado de “Arquivos de Inteligencia Global”,
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    trouxe luz a um ramo pouco conhecido da inteligência privada, exatamente por situar-se na fronteira entre a análise e produção de boletins geopolíticos de baixa qualidade e a simples arapongagem. Abreviação de “Straregic Forecasting Inc”, algo como “previsão estratégica”, a Stratfor mistura jornalismo, análise política e métodos de espionagem para vender a seus clientes “previsões” sobre o que vai acontecer em diversos países do mundo. Além de oferecer um boletim com análises geopolíticas e militares, faz relatórios por encomenda e fornece “briefings” por teleconferência. Por trás de tudo o que leva a marca Stratfor está George Friedman.

    Dos arapongas à bola de cristal

    Filho de judeus fugido do holocausto húngaro que dedicou sua vida a lecionar sobre a arte da guerra nos Estados Unidos, Friedman é dono de uma biografia cara ao modelo americano de self made man. Cresceu no Bronx novaiorquino e doutorou-se em ciência política pela prestigiada universidade Cornell, antes de se tornar consultor para o Pentágono, o Army War College e a National Defense University. Por duas décadas entremeou pesquisas acadêmicas com a publicação de livros sobre os mesmas temas e com títulos bombásticos, como America’s Secret War, The Intelligence Edge, The Coming War With Japan, The Future of War e dois best sellers da lista do Times (The Next 100 Years e The Next Decade, exatamente os dois nos quais prevê o futuro da humanidade sob o ponto de vista da geopolítica e da guerra).

    Foi essa figura, então professor da Universidade Estadual da Louisiana, quem fundou em Austin, Texas, em 1996, uma empresa nova no ramo. Ele juntou com 15 jovens alunos e os levou para o Texas, onde os transformou em analistas de inteligência. Nascia a Stratfor – que, em 1999, já chamava a atenção ao “prever” os desenvolvimentos do conflito nos Balcãs. Um Centro de Crise para Kosovo foi colocado online e passou a ser seguido e mesmo citado por jornalões como o New York Times.

    A fórmula de Friedman era simples e eficiente: juntar, sob sua influência, antigos espiões soviéticos com know-how sobre países da antiga influência comunista, militares aposentados americanos, adidos e jornalistas mundo afora interessados em “colaborar” para ganhar dinheiro com sua grande paixão, a geopolítica. Tanto que a correspondência da empresa, obtidas pelo WikiLeaks, inclui dezenas de documentos internos do FBI e das forças de segurança americanas, tendo revelado por exemplo que o Departamento de Segurança Pública do Texas tem um agente encoberto no Occupy Austin. Embora esteja longe de ser uma das maiores no mercado de “análise de risco”, a Stratfor conta entre seus clientes com empresas como a Lockheed Martin, Morthrop Grumman, Raytheon, Coca-Cola e Dow Chemical. A pedido das duas últimas, monitorava as atividades de ativistas de direitos humanos e ambientais que pudessem lhes causar problemas. Além disso, faturou um contrato do comando da Marinha americana para fazer uma previsão estratégica para os próximos anos.

    Apesar do delicado perfil ético e da proximidade de suas fontes com o poder, a verdade é que grande parte dos documentos revelados até agora mostram como a Stratfor agia com um amadorismo risível, marcada por informação de má qualidade. Nada de Sherlock Holmes ou James Bond; algo mais próximo do inspetor Clouseau, magistralmente interpretado por Peter Sellers. Nada de investigação de ponta, o que fica claro por
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    publicado pelo Wikilieaks, uma espécie de “glossário” com máximas de uso interno da empresa.
    É com essa visão “geoestratégica”, crivada por um discurso militarista de direita, que a empresa consegue enorme simpatia dentre os “aficionados por inteligência”, como descreve o mesmo glossário: um cliente com apetite de CIA e orçamento de Botswana
    No Brasil, a clientela da Strafor inclui o Brazilian Army Comission, comissão do exército sediada em Washington, com uma assinatura anual do boletim no valor de US$ 1.825; o Ministério da Defesa, com três assinaturas num valor total de US$ 9.702; e a ABIN, com uma assinatura anual de US$ 3.450. Por incrível que pareça, assinar os boletins da empresa é praxe, por exemplo, entre os cursos de relações internacionais do Brasil, segundo Reginaldo Mattar Nasser, professor de relações internacionais da PUC-SP.
    Nasser diz que os alunos gostam dos boletins porque eles trazem informações gerais, como PIB e o histórico dos países. O problema é que, no bolo, vêm análises conservadoras: segundo a Stratfor, a Primavera Árabe geraria ambientes de anarquia, os palestinos seriam os agressores unilaterais a Israel e os adeptos do Islã seriam todos terroristas.

    O tour de Reva Bhalla no Brasil

    Foi para formular uma visão própria do Brasil e criar “fontes que se mantém no bolso” que a analista Reva Bhalla esteve no País entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011.
    escreveu ela a Macedo Soares, do GSI. Na verdade, Reva conseguiu pouca informação que não pudesse ser encontrada com uma busca rápida do Google. A conversa com o alto escalão do GSI é a notável exceção – e bastante preocupante, se contarmos que se trata de funcionários públicos encarregados justamente de proteger informações sensíveis à segurança nacional.

    Além do GSI, Reva
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    do Instituto Fernando Henrique Cardoso. O cientista político Sérgio Fausto diz que de fato se encontrou com Bhalla em seu escritório em São Paulo.
    Bhalla ainda solicitou contatos por e-mail, que Fausto passou sem problemas. No fim do e-mail, porém, ele ironizava:
    Assim como ironiza agora o trabalho da empresa.
    A principal fonte da Stratfor no Brasil é, na verdade, o jornalista Nelson During, editor-chefe do
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    , site que
    , nas palavras de Bhalla. Pouco conhecido fora dos círculos dos aficionados por temas militares e inteligência, o Defesa Net surgiu em 1999, quando During começou a enviar boletins semanais por e-mail para órgãos governamentais, empresas privadas e pessoas interessadas nas áreas. Incomunicável em uma base militar nos Estados Unidos, segundo informou sua assistente, ele não respondeu à reportagem. Em emails subsequentes ao seu encontro com Bhalla
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    – no qual discutou do submarino nuclear à tríplice fronteira –uring é citado como “fonte de inteligência”, e ganha o código BR 707, sendo interlocutor constante sobre assuntos de relevância estratégica, como a presença britânica nas Malvinas.

    Durante os dois meses, Bhalla foi também ao Rio de Janeiro, onde visitou o morro Dona Marta para conhecer as UPPS.
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    . E esteve na Escola Superior de Guerra, onde foi recebida por um major-general não identificado. Ali, ouviu frases com potencial para se tornarem pérolas da literatura Wikileakiana. Em email no dia 6 de janeiro,
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    sobre
    dizendo que, segundo sua fonte, a maior prioridade para os militares brasileiros agora é a modernização.
    filosofou a tal fonte.

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    Renato Whitaker, em foto no Facebook. (Foto: Divulgação)​

    Segundo os documentos, a relação entre a Stratfor e a ESG não acabaram aí. Em novembro do ano passado, o atual analista da empresa para o Brasil, Renato Whitaker, marcou um encontro com o diretor do Centro de Estudos Estratégicos da escola e comandante da Artilharia Divisionária da 6ª Divisão de Exército, o general-de-brigada João Cesar Zambão da Silva, onde conseguiu “folhear o esboço do Livro Branco da Defesa”, no dia 25 – antes, portanto, que o “documento chave da Política Nacional” fosse publicado.

    Zambão afirmou a Carta Capital:
    Zambão confirma ainda o encontro marcado para o dia 25 de novembro de 2011 na própria ESG.
    Ainda assim, afirma não ter qualquer relação com a empresa.
    Os ensinamentos da Stratfor: como cativar fontes

    Renato Whitaker, um rapaz de apenas 23 anos, é formado pelo Ibmec em relações internacionais. Ex-estagiário da Santos Lab, fabricante de aeronaves não tripuladas para militares e civis, aparece no Facebook com um cachimbo a la Sherlock Homes e um bigode falso. Mas não é exatamente o currículo ou a imagem o que o ajudou a adentrar o mundo da inteligência corporativa. Ser filho do embaixador aposentado Christiano Whitaker, sim.

    Em 12 de setembro de 2011, recém-contratado, Whitaker
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    oferecendo uma lista de potenciais fontes de informação – entre elas uma amiga que estudava medicina e poderia opinar sobre malária e seu professor brasileiro de krav magá, luta israelense –, mas cuja maioria dos contatos era “graças a meu pai”,
    Um certo major do Exército, ligado à ESG, seria amigo de seu pai, assim como o chefe do GSI, “uma espécie de mini-Stratfor do governo”. Um colega de treino trabalharia para a Petrobrás.
    A carta era uma resposta às orientações passadas a ele pela analista para América do Sul, Allison Marie Fedirka. A jovem também passou dois meses no Brasil levantando “fontes”. Americana, Fedirka nasceu em Lombard, Illinois, e se formou em espanhol pela Washington University in St. Louis, no Missouri – daí ser a “correspondente” da empresa para a região. Fiel às regras da Stratfor, ela comenta que em 2009 chegou a entrar em contato com um diplomata brasileiro sem se identificar como funcionária da empresa de inteligência.
    Em visita ao Paraguai naquele ano, Fedirka conseguiu cativar o adido policial da embaixada brasileira, que a recebeu no seu escritório em pleno sábado, em caráter excepcional.
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    da Polícia Federal Antonio Celso dos Santos em 21 de junho de 2010. Em outubro, ele lamenta que ela não voltará a visitá-lo e pede que ela mande notícias:
    Ao que Fedirka
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    a outro analista da Stratfor, Paulo Gregoire:
    Os documentos mostram que todas as conversas de Fedirka com o delegado foram repassadas para Gregoire, seu superior, de acordo com a norma interna da Stratfor, elucidadas por George Friedman naquele
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    sobre como lidar com as fontes.
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    George Friedman, CEO da Stratfor: 'Você tem que assumir controle sobre a fonte. (Foto: Pública)​

    Em 2011, encarregada de introduzir Whitaker no mundo da alta inteligência,
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    :
    Ao pedir uma lista de pessoas que ele conhece, ela escreve:
    Stratfor e a mídia brasileira

    No final do email a Whitaker, Fedirka manda uma lista de temas de interesse da Stratfor que enviara ao jornal Folha de São Paulo, incluindo a relação com a China, projetos financiados pelo BNDES, projetos de infraestrutura e exercícios militares na fronteira. Afinal, sua principal missão em 2011 fora entrar em contato com grandes veículos de imprensa no Brasil para oferecer-lhes assinaturas dos boletins da Stratfor em um acordo de cooperação que os tornaria parte do grupo de “Confed Partners” – ou “Confed Fuck House”, o bordel dos confederados, como Friedman e sua equipe chamavam entre quatro paredes os parceiros.

    A Stratfor chegou a escrever acordos de “cooperação” para serem fechados com a Agência Estado, o portal Terra, a revista Época e a Folha de S Paulo. Os memorandos previam, invariavelmente, que ambas as partes poderiam republicar informações do outro e que as duas empresas
    Em um email em que explica os termos do acordo proposto para a Folha de S Paulo, Fedirka descreve:
    Procuradas pela reportagem, o editor-executivo da Agência Estado, Roberto Lira, negou ter registro ou conhecimento de qualquer relacionamento com a Stratfor. O site Terra confirmou através da sua assessoria de imprensa que foi procurado pela Strafor, mas disse que o acordo não foi assinado e
    Hélio Gurowitz, diretor de redação da Época, afirmou que
    A Folha de S Paulo foi o único jornal que chegou a assinar o acordo, segundo as comunicações obtidas pelo Wikileaks. A reportagem apurou que jornalistas da Folha foram apresentados e conversaram com analistas da Stratfor sobre questões de background. Ana Estela de Sousa Pinto, editora da Folha, nega que houvesse
    entre seus jornalistas e a Stratfor.
    escreveu por email.

    A mídia já foi mais afeita à Stratfor. Não apenas jornais como o New York Times, mas agências como a AFP consultavam relatórios da empresa e até entrevistavam seus analistas sempre que eclodia alguma nova guerra. O próprio Times, curioso com a meteórica ascensão da empresa, encarregou um repórter de entender como funcionava a bola de cristal de Fridman. Em 2003, a reportagem narra o encontro em um hotel de Austin, justamente no dia em que a Guerra do Iraque começara. Qual um oráculo bem informado, Friedman cravara a data e o horário do início da guerra. Afinal, ele tinha suas fontes militares in loco, o que justificaria que milhares de pessoas de Wall Street ao Oriente Médio pagassem por seus boletins.

    Desde a eclosão dos documentos do Wikileaks, a divulgação dos boletins tem sido gratuita. Mas a Stratfor
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    . Como bem descreveu a reportagem do Times,
    Uma fórmula barata que rendia à Stratfor, segundo estimativas, uma receita de cerca de doze milhões de dólares ao ano. Friedman não desistiria assim fácil de tal galinha de ovos de ouro.

    Reportagem feita em parceria com a revista
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    .


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    Última edição: 4 Abr 2012
  2. Menegroth

    Menegroth Bocó-de-Mola

    Re: Documentos sobre atuação da Stratfor no Brasil expõem o amadorismo de espiões e f

    Poxa gente. É uma idianinha pedindo com carinho.
    Quem aqui iria negar?
     
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