1. Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

Dismiss Notice
Visitante, junte-se ao Grupo de Discussão da Valinor no Telegram! Basta clicar AQUI. No WhatsApp é AQUI. Estes grupos tem como objetivo principal discutir, conversar e tirar dúvidas sobre as obras de J. R. R. Tolkien (sejam os livros ou obras derivadas como os filmes)

Dinossauros em tempos difíceis

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Diego-, 20 Set 2009.

  1. Diego-

    Diego- Usuário

    A sobrevivência da espécie (dos escritores) e da cultura é uma boa causa
    Minha vocação nasceu com a idéia de que o trabalho literário é uma
    responsabilidade que não se limita ao lado artístico: ela está ligada à preocupação moral
    e à ação cívica. Até o presente, esses fatores animaram tudo o que escrevi e, por isso,
    vão fazendo de mim, nesta época da realidade virtual, um dinossauro que usa calças e
    gravata, rodeado de computadores.
    [...] Em nossa época se escrevem e publicam muitos livros, mas ninguém à minha
    volta - ou quase ninguém, para não discriminar os pobres dinossauros - acredita mais
    que a literatura sirva de grande coisa, a não ser para evitar que as pessoas se
    aborreçam muito no ônibus ou no metrô, e para que, adaptada para o cinema e a
    televisão, a ficção literária - se for sobre marcianos, horror, vampirismo ou crimes
    sadomasoquistas, melhor - se torne televisiva ou cinematográfica.
    Para sobreviver a literatura tornou-se light - é um erro traduzir essa noção por
    “leve”, porque, na verdade, ela significa "irresponsável" e, muitas vezes, idiota.
    [...] Se o objetivo é apenas o de entreter e fazer com que os seres humanos passem
    momentos agradáveis, perdidos na irrealidade, emancipados da sordidez cotidiana, do
    inferno doméstico ou da angústia econômica, em descontraída indolência intelectual,
    as ficções da literatura não podem competir com as oferecidas pelas telas, seja de
    cinema ou de TV. As ilusões forjadas com a palavra exigem a participação ativa do
    leitor, um esforço de imaginação, e, às vezes - quando se trata de literatura moderna -,
    complicadas operações de memória, associação e criação, algo de que as imagens do
    cinema e da televisão dispensam os espectadores. E, por isso, os espectadores se
    tornam cada vez mais preguiçosos, mais alérgicos a um entretenimento que requeira
    esforço intelectual.
    Digo isso sem a menor intenção beligerante contra os meios audiovisuais, e a
    partir de minha condição confessa de apreciador de cinema - vejo dois ou três filmes
    por semana - que também desfruta com prazer um bom programa de TV (essa
    raridade). Mas, justamente por isso, com o conhecimento de causa necessário para
    afirmar que nenhum dos filmes que vi, e me divertiram tanto, me ajudou a compreender
    o labirinto da psicologia humana como os romances de Dostoïevski - ou os mecanismos
    da vida social como os livros de Tolstoi e de Balzac, ou os abismos e os pontos altos
    que podem coexistir no ser humano, como me ensinaram as sagas literárias de um
    Thomas Mann, um Faulkner, um Kafka, um Joyce ou um Proust.
    As ficções apresentadas nas telas são intensas por seu imediatismo e efêmeras
    por seus resultados.
    Prendem-nos e nos desencarceram quase de imediato - das ficções
    literárias nos tornamos prisioneiros pela vida toda. Dizer que os livros daqueles
    escritores entretêm seria injuriá-los, porque, embora seja impossível não ler tais livros
    em estado de transe, o importante de sua boa literatura é sempre posterior à leitura -
    um efeito deflagrado na memória e no tempo. Ao menos é o que acontece comigo,
    porque, sem elas, para o bem ou para o mal, eu não seria como sou, não acreditaria no
    que acredito nem teria as dúvidas e as certezas que me fazem viver.
    (Mario Vargas Llosa, in: O Estado de S. Paulo, 1996)



    Esse texto caiu num simulado que eu fiz ontem, achei excelente.
    Comprei semana passada um livro do Mario (Travessuras da Menina Má) e só em dar uma olhada já gostei muito. O que eu queria discutir é já um pouco clichê por aqui, esse amor demasiado das pessoas pela televisão em detrimento dos livros.
    Lembro de já ter lido um texto do Verissimo que dizia algo no sentido de que se colocassem a escolha uma tv e um livro para uma criança, ele não teria dúvidas de que a criança correria para o livro, colocaria no chão, subiria em cima para alcançar o controle remoto e enfim ficaria com a tv.
     
  2. kika_FIL

    kika_FIL Usuário

    Lelo... o autor é Peruano, não brasileiro...e ele estava falando de todo mundo e não só do cidadão médio brasileiroo;;; :P
     
  3. Diego-

    Diego- Usuário

    ohsaohsohaoshaohshao

    É, ia dizer que o Mário é peruano, ainda assim, apelar para o que é universal é mais fácil nesse caso, joyce, kafka e faulkner transcedem esse bairrismo e podem ser aplicados sem interpretação de falta de patriotismo por parte do autor, na minha opinião.
     
  4. kika_FIL

    kika_FIL Usuário

    sei lá Lelo, quando leio coisas do povo daqui eles só citam os brasileiros.. (Machado, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa..) vide as discussões da Bienal no Rio...

    http://g1.globo.com/Sites/Especiais/0,,16727,00.html
     
  5. Diego-

    Diego- Usuário

    Aí acho que entra outro porém, a idéia seria "largue a tv e vá ler um livro", ok. A pessoa larga a tv, e o que ela conhece como opções é Machado de Assis, Lima Barreto, José de Alencar (esse é triste). Acredito que isso seja uma mudança que precisa ser primeiramente pensada do início ao fim, para daí então tentar ser colocada em prática, não que aqueles autores sejam ruim - com exceção do José de Alencar, esse é ruim, sim XD - mas com toda certeza são um péssimo começo, não é assim que se pega gosto pela coisa.
     
  6. Pescaldo

    Pescaldo Penso, logo hesito.

    Não acho Alencar ruim.

    O texto só cita autores tops de linha, ele não faz referência às porcarias gerais que existem aos montes. É difícil chegar de um dia exaustivo de jornada de trabalho de 8 horas seguidas e pegar um Doutor Fausto pra ler, por exemplo. São livros que exigem do leitor e, depois que se já está cansado, é difícil querer colocar a cabeça pra funcionar.

    Fiquemos na televisão: no domingo à noite, é mais fácil assistir Fantástico ou Café Filosófico? Aposto na primeira opção, principalmente se o domingo for aquele padrão de relaxamento ("não quero pensar, quero relaxar!").

    É mais fácil ler Crime e Castigo ou Crepúsculo? Aposto na segunda opção. Desvalorizam demais a TV e supervalorização demais os livros. Um livro com uma escrita ruim, uma elaboração porca e uma história imbecil será tão nocivo quanto assistir um Fantástico. Por outro lado, um programa que estimule o pensamento crítico é tão proveitoso quanto ler Crime e Castigo.

    Ler, de verdade, poucos fazem. Assistir TV, de verdade, também. Ver um filme, de verdade, idem. Acredito que verborragia existe em qualquer lugar.

    A única ressalva que eu faço é que o livro é menos passivo que a tela. É necessário um exercício de criatividade, mesmo que mínimo, então ele sai ganhando, mas de bem pouco, da TV.
     

Compartilhar