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Coragem Yan, coragem.

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Breno C., 22 Ago 2008.

  1. Breno C.

    Breno C. Usuário

    Dizer que aquele estava sendo um dia ruim era muito eufemismo e Yan não podia ser dar ao luxo de cometer esse tipo de erro, não agora que o mundo parecia estar caindo sobre sua cabeça, bem no dia de seu aniversário de dezoito anos. Parado de frente a aquela barraquinha de cachorro quente, ele ainda conseguia ver o prédio de onde acabara de sair com a triste noticia de que seu currículo não agradou o suficiente a banca julgadora, o que dizia que ele ainda estava sem uma faculdade para cursar e sem um emprego para poder pagar a faculdade que pretendia começar no semestre que vinha pela frente. Aquele era realmente o pior dia de sua vida, e pior ficaria quando ele voltasse para casa e falasse para sua amada mãe que o emprego que ele julgava já ter ganhado, fora ocupado por alguém que tinha uma indicação melhor do que a dele. Comprar um cachorro quente e voltar para casa era somente que ele queria, não podia agüentar mais decepções, seu coração cheio de artérias e veias entupidas por anos de cachorros-quentes como aquele, não resistiria a mais uma bomba. Não seria bom nem passar na casa da Heloisa, porque o medo dela terminar o namoro era grande demais, visto que era só isso que faltava para o dia chegar ao ponto culminante da desgraça.

    Atravessou a calçada e foi em direção ao ponto final do ônibus que deveria o levar para casa. Legal, tinham lugares vazios ainda, não teria que ir em pé, e esse é o tipo de noticia que pode deixar um cara feliz se seu dia estiver sendo muito ruim. Sentou-se do lado de uma velhinha que fazia crochê. Yan não era muito fã de pessoas mais velhas, pessoas que ele carinhosamente apelidou de “os livros”, porque não gostava de velhos assim como não gostava de livros. Nasceu órfão, sua mãe havia morrido no parto e seu pai nunca foi buscá-lo na maternidade e acabou sendo adotado por um casal de professores quase idosos que o obrigavam a ler pelo menos cinco livros por semana. Ler aquelas histórias todas nunca o ajudou muito com nada que ele queria, mas fizera seu vocabulário crescer muito, o que não o ajudou a encontrar amigos e namoradas, só mesmo a Heloisa, que foi sua única amiga e até agora, sua única namorada.

    O ônibus começou uma viagem normal, seguindo pelo trajeto de sempre e até que não ia lento, mas mesmo assim Yan se desanimava de pensar que do centro de sua cidade até o bairro onde morava no subúrbio, o trajeto levaria mais de uma hora e meia. O que ele podia fazer além de dormir bastante e rezar para acordar antes do ponto em que desceria? “Então vamos ao cochilo”, ele pensou.

    Yan sonhava com Heloisa. Ele realmente a amava e não sentia isso por mais ninguém, porque ninguém mais o havia tratado tão bem quanto aquela garota de cabelos castanhos e enrolados com olhos verdes. Claro que havia a Dona Mariza e Seu Adalberto, seus pais adotivos desde que ele tinha dois anos de idade, mas ele os amava de uma forma diferente da que amava Heloisa. Estava sonhando com o dia em que eles se conheceram no colegial, ela havia o protegido daqueles caras maus que sempre batiam nele. Sabia que ser protegido por uma garota era humilhante, mas ele não podia deixar de se sentir bem sabendo que mais alguém no mundo se importava com ele e foi muito legal ver aquela garota magrela quebrando o nariz de um cara que ele nunca havia tido coragem nem para empurrar. Era um sonho bom, porque sonhar com Heloisa era sempre bom.

    Seu sonho foi entrecortado pelo som de um grito de mulher. “Mais que merda! Não se pode nem mais sonhar em paz”, foi o que ele pensou em quanto abria os olhos para ver o que acontecia. Porém Yan teve que conter um grito quando viu que um homem vestido com uma bermuda e uma camisa vermelha e preta estava assaltando o ônibus com uma pistola na mão e uma sacola na outra.
    - Ai! Quero vê todo mundo quietinho, entendeu? To aqui só para levar a grana de vocês, mas se alguém der mole eu levo a vida também, tão sacando?

    Sim, um assalto fecharia aquele dia com chave de ouro. Por que tinha de ser justo no dia em que ele aproveitou e foi ao banco tirar o dinheiro da aposentadoria de Dona Mariza? “Deus não sorri para mim”, foi a única coisa que passou pela cabeça de Yan quando ele viu que o assaltante vermelho e preto chegava cada vez mais perto dele com a arma na mão e recolhendo os pertence de todos. Ele não podia entregar o dinheiro todo, aquele era o dinheiro para passar os próximos meses enquanto ele não arranjava um emprego. O que fazer? O cara tinha uma arma e mesmo que ele estivesse de mãos vazias, Yan nunca tinha enfrentado ninguém. Quando conheceu Heloisa, depois que ela quebrou o nariz do garoto que o perseguia, foi agradecer pelo gesto e ela simplesmente lhe disse:

    - É melhor você virar um garoto de verdade. Eu não vou ta aqui sempre para te proteger. – depois abriu um sorriso e perguntou – Quer tomar um sorvete? Mas você paga!

    Desde aquela época Heloisa estava certa, ele tinha que tomar vergonha na cara e começar a se defender sozinho. A pessoa que pegou o emprego que já era dele, havia o passado para trás, assim como o cara do cachorro quente que havia lhe roubado cinqüenta centavos só porque viu a cara de otário de Yan. Agora era a vez de o assaltante lhe passar a perna e tirar o único dinheiro que ele tinha.

    O assaltante estava mais perto e a arma brilhava na direção de Yan, como uma risada capaz de cortar o coração. Ele precisava fazer algo, mas o que fazer contra uma pessoa que tem uma arma? Se fosse forte poderia tentar tirar a arma da mão daquele bandido vermelho e preto, só que ele não era forte e muito menos tinha coragem para fazer uma ação tão ousada assim.

    Quando o assaltante ficou de frente para Yan apenas disse: “Passa a grana banana!” Então ele foi capaz de reconhecer aquele ladrão vermelho e preto. Ele estava no banco quando Yan foi tirar o dinheiro e provavelmente o estava seguindo até o momento certo de fazer o assalto, o desgraçado ainda ia levar metade de um ônibus cheio de pessoas de idade e de crianças que não tinham nada a ver com aqueles cinco mil reais que estava no bolso de trás da calça jeans de Yan.

    Aceitar toda a situação seria abaixar a cabeça e Yan se perguntava até quando ia abaixar a cabeça para as pessoas que o faziam de “banana”. Não, essa seria a ultima vez que uma pessoa iria falar com ele assim, seria a ultima vez que ele seria feito de banana.

    Os sons de tira foram o suficiente para Yan saber que aquela seria realmente a ultima vez.
     
  2. Angélica

    Angélica Visitante

    Breno, a sua história me passou os sentimentos de um Yan muito "down" , que acaba de levar mais uma rasteira da vida, duas, se contarmos o assalto e que ao voltar para casa fica remoendo os fatos passados e quando está diante do ladrão resolve enfrentá-lo, o que faz, para não ser mais chamado de "banana", interpretei essa atitude dele como uma oportunidade pra realizar o desejo de acabar com a própria vida, ele sabia que não sairia ganhando ao enfrentar o bandido e, creio que não queria era ter que enfrentar mais nada, de fato, acaba morrendo.

    Embora vivendo situações tristes elas estavam cercadas de outras boas, talvez tivesse um sentimento de culpa pelo fato de sua mãe ter morrido ao lhe dar a vida e tb por ter sido abandonado pelo pai.

    Mas ele tem pais adotivos que lhe deram o amor que os pais dão pra um filho - do jeito deles, é verdade, mas deram - também teve uma amiga que se tornou sua namorada e se cercado por dois grandes amores em vez de dar duro e ousar mais diante das adversidades da vida - que é o que nos faz crescer mais que tudo - ele não conseguiu reagir e ficou num mundo de lamentação e auto-piedade, sei lá, acho que ele não tinha conserto mesmo.

    Resumindo, para mim essa história é a de um rapaz que não consegue enfrentar os seus problemas e resolve dar cabo da própria vida, um personagem que dá margem pra muita especulação, acho que isso é um dos fatores primordiais pra uma história ser bem sucedida. Um ótimo personagem, parabéns.

    Quanto a qualidade de sua escrita nada posso dizer, sou totalmente leiga nesse quesito, até falei "sua história" pq não sei se seria um conto, ou...

    Mas quero lhe fazer algumas observações como leitora:

    1) Lá no começo vc diz "...o pior dia de sua vida, e pior ficaria quando ele voltasse para casa e falasse para sua amada mãe que o emprego..." entendi que a amada mãe é a Dona Mariza, todavia, quando fala de Dona Mariza não consegui sentir na personagem a amada mãe do Yan, ficou a impressão de serem pessoas distintas.

    2) Qdo. vc fala que o pai de Yan o abandonou no hospital diz tb que ele foi adotado... Mais à frente diz que Yan foi adotado aos dois anos (ou não entendi direito). Fiquei na dúvida sobre o que aconteceu com ele nesses dois anos.

    3) Achei incoerente quando você fala do dinheiro que ele havia retirado, num momento "era o único dinheiro que ele tinha" e no outro" era todo o dinheiro de Dona Mariza e que sustentaria o Yan nos próximos meses".

    Breno, gostei de sua história e principalmente da característica psicológica que deu ao seu personagem Yan. Pelo que escrevi antes você pode ver a imagem dele que conseguiu criar na minha cabeça. Da mesma forma que tive uma imagem bastante definida do Yan como pessoa complicada, tive dificuldade pra entender essas informações desencontradas no meio da história (as 3 observações).

    bj da angel ;)
     
  3. Breno C.

    Breno C. Usuário

    Bem... começando pelo começo (mesmo que isso seja pleonasmo)...

    Quando escrevi esse texto, não o fiz com grande expectativas, porque achei que o gancho do personagem era muito fraco, assim como as cenas em que ele se metia. Yan é baseado em uma pessoa de verdade, que não tem esse nome, mas que age da mesma forma que ele: achando que nada na vida vai ser legal, que mesmo tendo pessoa boas ao seu lado, ele ainda é um derrotado pelo dia a dia.

    A sua resolução sobre a história está mais que correta, Yan é mesmo "um rapaz que não consegue enfrentar os seus problemas e resolve dar cabo da própria vida, um personagem que dá margem pra muita especulação". Fico Lisonjeado que a senhorita tenha gostado dele.

    Quanto as suas observações:

    1 - Acho que ai foi mais uma linguagem minha do que do personagem, o Yan não diria "amada mãe", mesmo que no mundo fosse muito grato a ela;

    2 - Ele pode ter ficado em um orfanato mesmo, mas não veja ao caso eu contar essa parte.

    3 - Essa foi realmente uma incoerência minha, valeu pelo toque.

    Mais uma vez, muito obrigado pelos comentários, duvidas e elogios.
     
  4. Angélica

    Angélica Visitante

    Breno querido, não sei se lhe diria tudo que disse aí se soubesse que seu personagem não é fictício.

    Não por nada, mas, de repente, uma colocação como a que fiz poderia complicar ainda mais a cabecinha de quem já é complicado, ou não. Mas eu não arriscaria. Algo que me incomoda muito é pensar que qualquer coisa que fizer poderá magoar ou agredir alguém, acho que me entende. Espero, portanto, que o "Yan" lendo o que eu escrevi não se sinta lesado.

    Cada um de nós somos únicos e nenhum é 100% perfeito, pelo menos eu acho, todos temos um ponto fraco e o necessário é saber driblá-lo e, tenha certeza, isso NUNCA é fácil, mas é possível, e quem ousar fazer isso verá que há resultados, doloridos na maioria das vezes no princípio, pq a primeira coisa a se fazer é abrir mão da auto-piedade e isso equivale a se expor que, por sua vez, implica em correr o risco de ter diante de si certos dissabores, mas à medida que se consegue colocar, "primeiro um pé e depois o outro", você terá dado um pequeno mas significante passo que lhe mostrará o quanto você é capaz.

    Não sei se o que acabei de escrever é baboseira pura, mas eu viajo muito pelo mundo da filosofia e psicologia (que conheço apenas por alguns títulos que li e por observar as pessoas e me treinar em "senti-las") que depois saio com coisas desse tipo (acho que isso é assim, e aquilo é assado) que, no fundo, são aprendizados que puxo para o meu dia-a-dia. Por isso, releve, essa viagem na maionese se ela incomodar...

    Voltando ao seu texto, eu fiquei deveras surpresa, repito, por descobrir que seu personagem é fictício, acheio-o repleto de conteúdo. Li seu conto sobre a solidão, mas o fiz rapidamente (depois vou reler e comentar) e por esses dois senti que você explora muito, quando escreve, o lado interior do personagem, o aspecto psicológico e acho isso tudo de bom... Como já disse sou leiga no assunto, porém, leitora, e da parte desta um personagem ao seu estilo (me baseio nos dois textos que citei) faz jus a um bom livro, principalmente do gênero suspense.

    Breno, por favor, se eu me exceder nos comentários peço que me chame a atenção. Penso que o que se expõe está aberto às críticas e sugestões e eu costumo dá-las, não com a pretensão de que sejam acatadas, mas, porque gosto de dizer o que penso diante do que vejo.

    Você e também os demais membros do MP me verão falar sobre mil coisas por aí, talvez sem pé e nem cabeça, mas sou prolixa e não penso em mudar, é verdade que "quando se fala o que quer houve o que não quer", mas acho que isso sempre vale a pena.

    Boas inspirações literárias pra vc... :)
    Bjs da angel
    ;)
     
  5. Breno C.

    Breno C. Usuário

    Pode deixar que o "Yan" tem só 15 anos e não gosta de ler, logo é bem difícil dele aparecer por aqui.

    Não, não é. Nada (incluindo os pensamentos) que venha do seu interior vai ser baboseira, isso vale para todos os humanos.

    Cada vez que você pede desculpas, acaba se excedendo. Estamos aqui para nos expormos. Temos que ler o que o outro membro escrever e refletir sobre aquilo. E aqui não costuma rolar brigas não, o pessoal é bem calmo.

    Muito obrigado e quero ler alguma coisa que você tenha escrito.
     
  6. Angélica

    Angélica Visitante

    Oi Breno, valeu pelos comentários mas ó, se eu me exceder não poderá dizer que não foi avisado :sim:

    E quanto a ler o que escrevo, impossível, eu não escrevo nada, apenas leio... Mas se um dia eu resolver escrever, eu te aviso... bj da angel ;)
     

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