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[Conto] O Fenômeno

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por renandurst, 15 Set 2009.

  1. renandurst

    renandurst Usuário

    O FENÔMENO

    Deus o tocou quando nasceu.

    Essa frase, de um famoso jornalista na época do Terceiro Grand Prix Mundial de Xadrez, se tornara popular. E, de tão repetida, o que era lenda parecia mito contemporâneo, o que era mito parecia entrar na História. Franz Hockelheim, o brasileiro com nome de alemão, o homem com cérebro de computador. O nome era imponente, agora mais do que nunca. Contudo, sua preferência seria eternamente pelo jeito que a tia o chamava: Franzino. A alcunha soava depreciativa e zombeteira, ainda mais se levando em conta os 160 centímetros que portavam menos de 40 quilos de carne branca. Mas pra ele não existia outro tom que não o de mais puro carinho quando vindo da voz doce e companheira de Tia Adelaide, que lhe criara desde os cinco anos de idade, há três décadas.

    Vinte e sete anos atrás ela vira Franzino conquistar seu primeiro campeonato brasileiro de xadrez, sob flashes e aplausos estupefatos. Gritos ecoavam pelo ginásio enquanto o menino prodígio só conseguia prestar atencão às bochechas rosadas e apertadas de alegria de sua tia, que chorava de uma forma que o tocara profundamente, deixando rastros numa memória tão vazia de pessoas, de amigos. Ele estava decidido a trazer felicidade e contentamento àqueles olhos sofridos enquanto vivesse, porque talvez fosse a única maneira de agradecer o cuidado tão especial que Tia Adelaide tivera desde que seus pais abandonaram este mundo, fosse pelos seus feitos, fosse pelo dinheiro milagroso que eles traziam. Franzino só tinha ela em sua vida e a amava por todos os outros amores que lhe faltavam até então.

    Franzino não acreditava no que diziam dele, não mesmo. Chamavam-no de especial e de quase divino numa época em que as estrelas deste país mais uma vez minguavam, enquanto guerras destroçavam nações em outras partes do mundo. Franz Hockelheim fora tocado por Deus onde ninguém mais sequer se aproximava dEle, era o que se pensava.

    Pesquisas científicas de diversos centros no planeta estudavam seus hemisférios cerebrais detalhadamente, submetendo-o a exames dos mais variados métodos, muitas vezes chegando a castigar seu frágil corpo. Junto da inteligência suprema, ele havia nascido com séries de deficiências físicas, das glândulas ao baço, que dificultavam o seu crescimento. Mas havia uma anomalia impressionante em seus genes. Com quase trinta e seis anos agora, ele parecia sim uma criança aos olhos, mas seu cérebro apresentava um desenvolvimento que equivalia a 500 anos de evolução cognitiva acelerada. Através de uma técnica de última tecnologia, houve exames de DNA em parentes de várias linhas e níveis de sua árvore genealógica, e o mais incrível foi terem descoberto traços da mesma anomalia somente em três pessoas: um homem de 15 gerações anteriores, um tataravô e sua tia Adelaide.

    Sim, por puro acaso, a Tia Adelaide era uma forma atávica cento e cinqüenta vezes mais branda da anomalia. O dia em que descobriram isso, houve alarde e tumulto para entrevistar a velha senhora, que simplesmente não sabia o que dizer, que não tinha muito a pensar. Por dias a atenção se centrou sobre ela, enquanto Franzino enfrentava um desafio milionário que já tinha meses, um confronto de xadrez com um supercomputador. Incomodava a pressão estapafúrdia das mídias, agora maior sobre ela. Porém, no fim das contas, ambos concordaram que a notícia viera pra bem, pois assim talvez Franz tivesse mais tempo hábil pra lidar com o desafio, que crescia cada vez mais em dificuldade.

    Era início do inverno quando o placar estava 350 para o homem e 375 para a máquina, depois de 40 partidas de xadrez e 20 de matemática pura. Tia Adelaide adentrava o quarto de seu sobrinho carregando uma bandeja com chá preto e torradas, que sempre estimulavam a mente já exausta do gênio, mergulhado na imensa poltrona de couro.
    — Se eu fui tocado por Deus, seu chazinho foi feito com água sagrada, tia – brincava ele, cuspindo farelos de torrada.
    — Ô, meu querido, que é isso... são só feitos com muito carinho, carinho da sua tia.
    — Carinho de mãe – olhou de lado pro rosto redondo e emocionado dela – já disse, carinho de mãe. Não sei como eu poderia vencer um desafio desses sem a senhora por perto.
    Tia Adelaide fez um longo e pesado cafuné no cabelo ralo.
    — Com o dom que Ele te deu, você pode vencer qualquer desafio.
    — Eu sei, todos acreditam no meu dom. Mas pra mim, basta que a senhora acredite em mim. Basta a sua fé, tia.
    Ela o abraçou pelo pescoço, beijando sua nuca, enquanto lágrimas escondidas escapavam por entre os sulcos do rosto castigado pelo tempo. Em contraste, a pele lisa e imaculada de Franzino brilhava por sobre o rubor. Ele também chorava, por dentro. Por fim, ambos levantaram os olhos pra tela do computador.
    — Mas, e então, como está a partida?
    — Tô perdendo, tia – Franz fez um muxoxo poucas vezes visto por ela, que arqueou as sombrancelhas, limpando as lágrimas com o braço – esse computadorzinho Sony-Kindermann é o meu melhor inimigo até hoje, não tenha dúvida. Raramente encontro brechas pra explorar. Agora estou parado desde manhã numa nova prova de matemática, tendo problemas com uma função esquisita, que eu nunca vi em computador algum dessa série.

    Franzino coçou a nuca, apoiando o queixo na outra mão, olhar novamente fixo na tela, investigando todas as variáveis possíveis. Tia Adelaide se surpreendeu, e fez a volta na poltrona para fitar seu sobrinho mais atentamente. Ele tinha algo nos olhos que ela não podia decifrar, mas estranhara.
    — Está tudo bem, meu filho? Você me parece um pouco longe...
    Ele rapidamente virou o olhar pra ela, como se já esperasse a pergunta.
    — É, tia... na verdade tem algo me incomodando, sim – falava olhando pro chão, pensativo.
    — O que é? Me fala. Nunca te vi incomodado em meio a tantos raciocínios.
    — É que o problema é por causa sua...
    — Ué, que foi? Eu estou bem, querido.
    — Eu sei, mas sabe... me incomoda a senhora ficar se expondo assim pra mídia. Nas últimas duas semanas eu tive o maior período de paz e tranqüilidade desde meus treze anos, tudo bem, mas não queria que isso se desse em troca dessa pressão sobre a senhora.
    Tocada, ela acariciou o rosto preocupado de Franzino.
    — Ah, meu filho, não se preocupe com isso não. Eu lido bem com essa gente. Pra falar a verdade, acho até divertido. E afinal está te ajudando, não é?
    Franzino baixou a cabeça, parecendo consternado de repente.
    — É... pode ser... Mas não acho que a senhora esteja preparada pra esse caos todo não. Eu sei bem como é, são mais de vinte anos de assédio, tia. Até seitas religiosas vieram atrás de mim, até em conferências de paz eu compareci. Meu Deus, você lembra quando leiloaram a camiseta que eu usei quando venci Sid Aslan?
    — Claro, como podia esquecer! Muito eu passei aquela camiseta e agora ela está exposta em uma cúpula de vidro! – riu, sozinha na empolgação.
    — É, ela poderia nos sustentar por toda a vida, mesmo sem os vários prêmios que ganho. Você me entende, tia? Sabe que estou preocupado, agora. Poderia fazer o favor de se expor menos a eles? Acho que vai ser melhor pra todo mundo, principalmente pra senhora.
    — Claro, meu filho, claro – ela deu tapinhas no ombro dele – não se preocupe. Vou impedir que essa gente passe sequer do portão. Precisamos mesmo de descanso.

    Franzino concordou com a cabeça, sem muita convicção. Deu um beijo na testa dela e levantou rapidamente o corpo esguio da poltrona, mais disposto, aquecendo novamente o coração de Tia Adelaide.
    — Vou lá pegar a manteiga e uma faca. Essas torradinhas ficam muito melhor com manteiga! Não, tia, pode deixar que eu pego, não tem problema.

    Ele foi caminhando lentamente, saindo do quarto em direção ao corredor alto e enorme que levava à cozinha. Tia Adelaide ficou ali, escorada na poltrona, admirando seu franzino, tão preocupado e generoso com ela. Não demorou muito para que a velha senhora voltasse os olhos cansados à tela do computador, curiosa.

    Padrões brancos e verdes se formavam sobre um fundo azul cintilante, com números aleatórios surgindo na linha de baixo. À primeira vista, aquilo pareceu cansar ainda mais seus globos, que recém haviam passado por uma cirurgia de correção de grau. Ela estava prestes a abandonar o olhar dali, quando algo surgiu, fulminante.

    Clarões e feixes de luz se espalharam por imensa parte de seu cérebro, e ela podia ver grandes descargas e novas sinapses se formando. Neurônios saltaram do escuro mil vezes mais forte, disfarçados em pensamentos e teorias que pululavam, inéditas na mente de Adelaide. Num instante, os livros de aritmética que lera na juventude voltavam à memória e agora pareciam ridículos e infantis, e teoremas apresentados nos últimos tempos no jornal das oito horas soavam patéticos e charlatões, ou ineditamente geniais à sua concepção da realidade. Mais importante do que tudo, as partidas de xadrez do próprio sobrinho, que ela tanto amava e admirava, passaram ao status de banais e simplórias.

    Em segundos, Adelaide havia dado um salto quântico dentro de si mesma que quase fritara seu cérebro, e sua visão ganhara novas cores e nenhum padrão na tela cansava mais seus olhos, que viam longe, muito longe, para dentro e para fora do espaço-tempo. Lentamente ela curvou a coluna enrijecida sobre o teclado e digitou cinco números no campo de resposta que piscava, enquanto o colar de rosário balançava em frente à tela azul. Cada tecla era um passo adiante, como a realização de um poder há muito escondido. Não era um traço genético minúsculo, como afirmavam, era o poder puro, a mente suprema se manifestando.

    Franzino parou diante da porta com a manteiga e a faca em mãos, quando sua tia apertou finalmente o Enter. No canto esquerdo superior da tela, um placar desceu e os números 350 saltaram para 395, e o nome de Franz Hockelheim ficara verde novamente. O computador falava “Well done” na caixa de diálogo enquanto uma luz verde piscou na máquina de fax à direita do computador, e uma folha foi impressa com diversas seqüências de números e códigos. O celular de Franz começou a tocar. Assim que parou, o silêncio engoliu o grande quarto.

    Franzino assistira a tudo, estupefato. Assustada e alarmada, sua tia se virou pra falar algo. Mas ela apenas abrira a boca, não conseguia falar. Suas mãos tremiam, como se o poder fosse grande demais para controlar, como se a força da mente se somatizasse sem dó. Ou algum outro sentimento estava por trás daquilo.

    Para Franzino, sentimento algum importava agora. Ele só conseguia fitar a tela, enquanto adentrava lentamente o quarto, se aproximando da poltrona. A manteiga caiu, pintando de amarelo lustroso o couro e o tapete. Ele se virou para sua tia com os olhos escancarados e as íris minúsculas. A boca ameaçava se mexer.
    — Eu... eu... – era só o que tia Adelaide conseguia balbuciar. Então o olhar de Franzino ficou mais agudo, como a ponta da faca que ainda segurava.

    Lágrimas começaram a rolar do rosto frágil e estupefato quando ele ergueu a mão e, num movimento muito rápido, deslocou o ar em golpes que jamais se imaginaria que ele tivesse a força física de desferir. A pequena faca entrou muitas vezes no rosto, pescoço e colo da velha senhora, que, sem reação alguma, apenas erguia os braços conforme ia ao chão, se banhando em sua própria poça de sangue. Estirada, Adelaide ainda segurou o calcanhar do sobrinho, que com uma força descomunal parecia enterrado no tapete. Franz deu então o golpe derradeiro na nuca.

    A faca caiu, e o homem tocado por Deus contemplava com pavor suas pequenas mãos, manchadas em vermelho vivo. E assim lhe encontraram; na mesma posição e feição, com o coração parado, várias horas depois.

    Por muitos anos ainda se discutiu o que Franz vira nas mãos. Se fora o temor pelo que acabara de cometer, se fora o dom que ele descobrira não ser tão genúino.

    Para mim, ele simplesmente não queria perder o posto de a mais perfeita máquina criada pela natureza. Ainda bem que eu, a parte mais importante do corpo daquela reles senhora, resisti. Agora, mergulhado neste tubo de suspensão, acho graça desses homens de branco que me admiram.

    Não só eles, mas o mundo me contempla. E se rende.

    Eu sou Deus.
     
  2. Roderick

    Roderick Banned

    Mas que conto mais esquesito em!
    Mas eu gostei foi divertido ver o desenrrolar da louca história misturando Deus.
     
  3. TiagoAlexandre

    TiagoAlexandre Usuário

    Um conto muito bem escrito e bastante interessante e original, no mínimo. Parabéns. Contudo, não gostei do final (terceiro parágrafo a contar do final). Apesar de ser ateu, acho que teria ficado melhor um outro final, talvez um em que não demonstrasse um deus tão egocêntrico. Talvez um final menos abrupto, por assim dizer. Mas sem contar com isso só posso dizer que este conto é 5 estrelas.
     

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