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Conto [ as antefaces da lembrança imperfeita ]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por alefemartins, 27 Nov 2011.

  1. alefemartins

    alefemartins Usuário

    Olá! Este foi um conto que eu fiz na Oficina de Criação Literária da faculdade. Espero que gostem, é extenso rs. Boa leitura!! Obs.: não consegui editar com parágrafos :(

    AS ANTEFACES DA LEMBRANÇA IMPERFEITA
    Alexandre Ferreira Martins

    Em um deslocamento suntuoso, erguia o braço esquerdo para agarrar o cordão invisível que a sustentava durante o passo e, com o braço direito, imitava o abraçar de um cavalheiro valsante. Quanto ao arabesco, a estrela de execução era ela; sustentava o corpo com apenas a ponta do pé esquerdo enquanto erguia a perna direita no ar, imóvel. A coluna ereta e o pescoço elevado davam a elegância que lhe era única, unindo a graciosidade dos contornos que a dança exigia à suavidade com que era capaz de realizar cada passo.

    Desde que Sofia entrou pela porta da escola de dança para matricular-se nas aulas de balé, a professora Desirée teve a certeza de que a menina seria um prodígio. Era uma normalista, mas a padronização não regrava a agilidade da jovem — possuía o caminhar esbelto e o olhar analítico que lhe eram naturais. Tanto é verdade que ela, na primeira aula, observou os movimentos das veteranas e conseguiu executá-los com destaque. Talvez os tenha feito mais belamente do que qualquer uma das meninas que as precedia no tempo de aulas. A dedicação de Sofia era extraordinária e admirável.

    Ao esvaecer do crepúsculo, após o término do ensaio para a primeira apresentação de Sofia, uma mulher apareceu-lhe no vestiário da escola de dança e começou a discursar sobre como o cotidiano da dançarina era desprezível. A criatura trajada de preto, com o rosto coberto por um véu negro e purpurinado, levou Sofia para passear em uma nuvem de céu chuvoso. O mais incrível era que a roupa da criatura que a levava para um lugar desconhecido, não molhava. Já a bailarina estava encharcada. Os louros cachos do cabelo alisaram-se pelo acúmulo da água, de uma chuva forjada, que penetrava por entre os fios. O clássico tutu branco contraiu-se, tamanha era a intensidade da chuva. Mas Sofia não se preocupou em estar ensopada pela água que parecia penetrar-lhe os poros epiteliais. Queria descobrir para onde a tenebrosa mulher a levava.

    Dentro de um quarto escuro que se materializou ao redor das duas, a nuvem desintegrou e Sofia caiu em cima de um tapete plumado. Um pouco tonta, levantou do chão apoiando-se na cabeceira de uma cama gigantesca. Parecia que tomara a pílula de Alice, a menina do País das Maravilhas. Os objetos mostravam-se maiores do que o normal, ou ela estava menor do que parecia. A mulher que acompanhava Sofia não mais vestia preto; estava agora com um vestido branco e, quando virou o rosto para a jovem, Sofia espantou-se. A criatura era uma fase da bailarina refletida em um espelho, aparentemente mais velha. O calendário na parede indicava um tempo incompreensível, uma data indecifrável.

    A mulher ofereceu-lhe a mão e conduziu-a até a porta do cômodo – tratava-se de uma enorme tábua de madeira, cuja maçaneta cintilava em um brilho interno, alumiando parte do quarto. Sofia abriu a porta e deparou-se com um salão repleto de pessoas mascaradas. Os tamanhos dos objetos voltaram ao normal e Sofia começou a reconhecer onde estava. Pelas costas, a cópia envelhecida da bailarina aplicou-lhe um feitiço e a jovem, de repente, viu-se trajada de um longo vestido roxo. Cobrindo a metade esquerda de seu rosto, estava uma anteface rubra, bordada a fios de ouro e com o desenho ladeado de uma rosa, contornada por pedras de safira.
    Sofia estava em sua casa. Identificou o local assim que viu o lustre de cristal que a mãe ganhara de presente no primeiro aniversário de casamento. O colossal ornamento francês fulgurava mais do que o normal naquela estranha noite.

    Misturando-se aos convidados do baile de máscaras, Sofia viu-se perdida em um local tão íntimo aos olhos. Quando tornou o olhar novamente para o lustre, a mão de um homem a segurou pelo braço e a arrastou dizendo que precisava apresentá-la a algumas pessoas. Diante de um casal elegantíssimo, o homem mascarado, que colocava o braço de Sofia entre o dele, apresentou-lhe como sendo sua esposa. Disfarçadamente, a jovem assustou-se com as palavras do homem que jamais vira. Monossilábica, Sofia somente assentia aos comentários do homem, isso porque o semblante das duas pessoas à frente, transparecia a aceitação das palavras que lhes eram ditas. Saltou da boca de uma de uma das duas pessoas uma congratulação direcionada a Sofia, o que foi um estranhamento a primeira vista.

    No ímpeto do labirinto que se havia criado na imaginação de Sofia, o tempo parou e a jovem pode ver o ambiente estatizado. Indivíduos paralisados em suas respectivas posições, como se todos executassem, com a particularidade de verdadeiros bailarinos, seus próprios passos dançantes. Eram estátuas vivas. Apenas ela conseguia caminhar em meio àqueles corpos imóveis que aparentavam dirigirem-lhe os olhares – era ela a estrela do evento.

    Um espelho de armação dourada criou-se atrás de Sofia e mãos desconhecidas, saltadas de dentro do espelho, pararam a jovem que andava a observar a trivialidade de cada estátua humana criada pela pausa do tempo. As mãos duras e gélidas apertavam os braços delicados da dançarina a ponto de provocar uma dor latejante nos locais pressionados. Sofia virou o corpo e reencontrou a mesma figura que antes a conduzira até a porta do quarto escuro. A moça então agarrou o braço que a prendia e tentou repeli-lo, sem êxito. Acabou por ser puxada àquele espelho, penetrando-o.
    Um imenso lago refletia a luz do luar no momento em que nele Sofia era jogada. Enquanto caía de uma altura incalculável, pôde escutar vozes enfurecidas que repetiam freneticamente a frase “Mexa-se, Dance!”. Por vezes escutava a voz dos pais, mas em outras também aparentava escutar a voz da professora. Os brados se alternavam na medida em que o seu labirinto mental inaugurava mais e mais caminhos mirabolantes durante a queda. Com medo, Sofia ergueu os braços para tentar submergir com segurança. E mergulhou.

    Bateu de joelhos em um piso de mármore, não os machucando tanto, graças ao volumoso vestido que trajava, o mesmo do baile de máscaras. Apoiou as mãos sobre o chão e equilibrou-se para levantar. Olhou a sua volta e percebeu que estava no banheiro da suíte de sua mãe, defronte para o espelho que cobria quase por inteira uma das paredes. Abaixo, o lavabo permanecia organizado. Pelo espelho, avistou alguns porta-retratos que ficavam sobre a cômoda da suíte; eram fotos dela com o suposto marido, aparentando cenas de muita felicidade — em uma das imagens, inclusive, o homem segurava o queixo de Sofia beijando-lhe a testa, enquanto ela sorria singelamente com o canto dos lábios.

    Algum tempo depois de admirar a imagem, zumbidos ecoaram pelo ambiente e, não suportando o barulho que estouraria seus tímpanos, a jovem tapou os ouvidos com as mãos e cerrou os olhos. Quando o som parou, ela ergueu as pálpebras e atrás de si, pelo espelho, o mesmo homem das fotografias, com metade do rosto coberto pela máscara, enrolava no pescoço dela um grosso pedaço de corda.

    Segurando firme pelas duas pontas da corda, o homem começou a apertar o objeto contra o pescoço de Sofia, puxando-o, enraivecido. Ela começou a gritar, mas logo perdeu a voz, pois lhe faltara o ar. Em poucos segundos, o sangue começou a sair por sua boca e depois pelos olhos, transfigurando a face ainda mascarada e pincelando o roxo do vestido, que logo enegreceu por onde o sangue penetrava. O homem arrancou a máscara da face da bailarina, e uma rosa encarnada desenhou-se no rosto nu, com o líquido que transbordava ininterruptamente. Mas Sofia não morreu, ainda conseguia ver toda vida que jorrava de seu interior. As pedras de safira descolaram do adorno, caíram no chão e o marido impiedoso nelas pisou, despedaçando-as. O homem abraçou a bailarina e ergueu o corpo feminino, quase desfalecido, encenando um dos passos que ela executara nas aulas de balé. Ele era o seu cavalheiro valsante e a corda não era invisível, estava lá, enrolada em suas mãos que não conseguiam se erguer. Foi preciso que o marido distendesse o braço da jovem para que os dois realizassem juntos a última dança, cuja perfeição se ausentava ao passo que Sofia, perturbada, admirava uma rosa depositada sobre parapeito da janela.

    “E um, e dois, e três...” era o que Sofia murmurava quando a mãe acordou-a do sono em pé. A jovem dançava sem parar em meio às rosas do jardim da mansão, porém não notara que se perdera em imaginações. A mãe a chamava para se aprontar, pois logo começaria a primeira apresentação de Sofia no teatro da cidade, e nada poderia dar errado.

    As poltronas do teatro lotavam e, muito tensa, no camarim, a bailarina vestia as sapatilhas enquanto escutou a professora conversar com um rapaz. Prontamente, os dois vieram em sua direção e Desirée apresentou o filho Thomas, cujo rosto era familiar, mas Sofia não sabia dizer de onde o conhecera. Ele também era bailarino. Disse entender o nervosismo da execução em público, afinal, apesar da excelência demonstrada no decorrer das aulas, Sofia não estava livre de cometer deslizes na dança – isso seria normal. Ela agradeceu o incentivo e despediu-se do rapaz, que lhe deu um abraço de boa-sorte.

    No momento em que as cortinas do teatro se abriram, Sofia estava deitada na madeira do palco à espera do primeiro soar dançante. Ao som de Masquerade Suite, ela deu início à dança. Era a musa Terpsícore entre piruetas, saltos e deslocamentos braçais. Repetia o passo que o homem mascarado obrigara seu corpo ensanguentado a executar. Sofia, pois, recordou-se da metade do rosto do mentor de sua quase morte e deu-se conta de que ele e Thomas eram a mesma pessoa. A bailarina sentiu cortarem-lhe a corda invisível que a sustentava e caiu sobre a madeira. Ressoaram pelo teatro vozes indignadas e dotadas de preocupação. O filho da professora de dança subiu às pressas até o palco e segurou em seus braços o corpo desacordado de Sofia.

    No camarim, ela despertou e viu que ao seu lado estava Thomas. Espantada, ordenou aos berros que ele saísse do local e o rapaz, sem entender a fúria repentina, deixou-a sozinha. Sofia olhou para as sapatilhas nos pés, depois para vestimenta que lhe cobria o corpo inteiro, e despiu-se. Desorientada por lembranças de um futuro incerto, a jovem pegou uma tesoura na gaveta da penteadeira, começou a recortar o calçado e, logo, também talhou a roupa do espetáculo. A figura da mulher que a levara para a viagem atemporal desfez-se no espelho do camarim e um reflexo real de Sofia surgiu, de onde jamais deveria ter saído.
     

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