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[Conto] A Segunda Vinda

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Bruce Torres, 21 Abr 2014.

  1. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

    O reteté foi muito aquela noite. A igreja se incendiava com um furor pentecostiano tal que nem se dizia que o Espírito descia feio uma pomba, mas como um falcão. A exortação do presbítero enchia o ar de tal maneira que nenhum som de fora invadia aquele espaço.


    - É o poder do Nosso Maravilhoso Senhor Jesus Cristo, irmãos! Vejam quão manifesto Ele se faz agora, aqui, perante nós! Glorifica, Igreja. Abençoa este Povo Santo!


    Cada um orando ao seu modo, batendo contra o peito baixinho [ou gritando], olhando pro teto [ou pro chão], em pé, de joelhos, se jogando deitado, voando feito um míssil pelo espaço aberto entre os bancos.


    - Faça sua voz ecoar ao Mundo, Igreja! – berrou o presbítero. – Que a Glória manifesta aqui se espalhe por todos para que contemplem a Obra do Senhor!


    Apesar de parecer que ninguém ouvia naquele tumulto, aquele povo de centenas ganhou voz de milhares, mesmo crianças gritando e se lançando em reteté com uma voz que podia mesmo tomar forma adulta. Mais grossas, elas anunciavam e prenunciavam tanto a Humildade como a Punição, a Redenção e o Julgamento Final.


    - Não haverá para com esta cidade menor juízo que aquele aplicado à Sodoma! Em verdade, o Senhor lhes diz que Sodoma sofrerá menos rigor que esta geração pecaminosa, que ousa duvidar e questionar as palavras do Senhor. E da sua boca, meu irmão, - e apontou o presbítero para um rapaz no banco da frente – sairá palavras de Salvação para ti e tua casa. Então se apresse, faça a Obra e glorifique ao Senhor!


    Ao ouvir isso, Gui, a quem lhe fora apontado o dedo, se lançou ao chão, de forma humilhante, pedindo para que o Sangue do Cordeiro o limpasse. Os diáconos foram até o rapaz consolando-o, dizendo que “o Pecado era um problema mas que tudo era perdoado e que ele poderia ser um Novo Homem”.


    - Mas tenha pressa, irmão, pois o Fim está à porta – disse o diácono.


    Ainda no chão, ouviu o canto retumbante por uma senhora avançada em anos, sua Noemi pessoal, exclamando:


    “Seja bendito o Cordeiro,

    Que por nós na Cruz padeceu.

    Seja bendito o Seu Sangue

    Que por nós, pecadores, verteu.”


    Movido por essas palavras, Gui se levantou, olhou pro teto chorando e pediu por Perdão e Misericórdia. Deus aceita a todos, logo, por que não ele? Ele havia feito algo errado? Talvez, porque o Pecado tem formas mil de se manifestar. Viver já é um pecado, pois somos Filhos do Pecado. Ao perceber e aceitar isso em seu coração, decidiu que seu ânimo seria tão ou mais fervoroso que o daquela igreja, daquele povo. Ele pertencia a uma Pátria diferente, a Pátria Celestial. De lá sairia pra anunciar as Boas Novas a sua família.


    O culto terminado, o presbítero foi ao seu encontro e o congratulou pela decisão:


    - Irmão, agora saia daqui e leve a Palavra até os seus. Mas lembre-se: o Pecado está em toda parte. Vigiai e orai sempre. Que a Paz do Senhor esteja convosco.


    Os demais irmãos se despediram de Gui na porta da igreja, deram suas bênçãos ao novo discípulo e se despediram, expressando a vontade de ver seu novo Irmão na Fé junto com seus familiares na semana seguinte.


    Gui agora seguia por uma viela vazia, com um sorriso de ponta a ponta, decidido a ser um Soldado da causa. Ele faria de tudo para que o Leão de Judá sentisse orgulho dele. Ao tirar o celular pra avisar que estava a caminho de casa, um vulto jogou-o contra a parede. Mal tinha notado que havia mais alguém ali, mas sentiu algo frio próximo da garganta.


    - A grana, moleque. Me passa tudo – dizia a voz sem feições claras. Era quase um sussurro, mas soava como um rugido pra Gui.


    - Cara, eu não tenho nada comigo além do meu celular e da minha Bíblia.


    - Como é que é? Cê acha que eu sou otário, seu moleque?! É dia de pagamento e cê não tem dinheiro contigo?


    Gui soluçava:


    - Não tenho, mano.


    - Não te dei essas liberdade, cara. Mano é o corno do teu pai, ouviu bem?


    O rapaz olhava para os lados, olhava mesmo pra cima, pedindo em súplica inaudível por ajuda.


    - Tá rezando, é? O santinho tá rezando, é?


    - Tô sim, senhor.


    O assaltante olhou pra Bíblia no bolso do rapaz e disse:


    - Sabe, sempre quis provar aquela história de que Deus protege os seus. Vamos tirar a prova?


    Afastou-se com a arma apontada pra cabeça de Gui e disse:


    - Você diz não ter nada consigo, não é? Bem, eu não tenho nada comigo além disto aqui. – Acenou pra arma. – É minha por herança, direito, ou coisa assim. Sabe, até aparecer alguém aqui isso não tem a menor serventia. Engraçado isso, né?


    - Hã, o que o senhor quer fazer?


    - Você não tem nada? Então nada você perderá, afinal, você confia no Poder do Homem de Cima, não é?


    - Com todo o meu coração.


    - Eis sua Prova de Fé, meu caro Abraão – e levantou a arma na direção de Gui.


    Naquele instante, Gui gritou “Ei, eu tenho...”, mas as palavras morreram em sua boca. O flash veio em tons de laranja. Vinha como um dragão faminto em sua direção, seus olhos não tendo velocidade suficiente pra fechar as pálpebras antes que as garras lhe alcançassem. O tempo estacou naquele momento em que a Besta vinha, mas não vinha. E tudo se acabou.


    Naquele momento eterno ao qual o Universo estava alheio, o corpo de Gui se remexia, sua boca querendo dizer uma prece que ficava engasgada na garganta, não podendo fugir ao Castigo que lhe aguardava agora. Olhos abertos pela última vez, via o outro se misturando à Escuridão Original, pra onde estava sendo tragado agora, seu novo Lar.
     
    Última edição: 4 Jul 2014
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