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Complexo Eva - Capítulo 01

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por imported_Wilson, 9 Mar 2009.

  1. imported_Wilson

    imported_Wilson Please understand...

    [size=medium]COMPLEXO EVA capítulo 01
    [/size]

    [align=justify]O homem da máscara vermelha


    As pás da hélice cortam o ar ao seu redor, movendo o grande pássaro de metal sobre a Cidade Escura. Torres de metal e concreto deslizando ameaçadoras contra o céu rosa morte do fim de tarde na ilha. Luzes piscando em grandes máquinas auto sustentáveis, máquinas construindo máquinas. A névoa densa e negra esconde os pés da cidade, esconde o que acontece lá embaixo, ninguém jamais desce lá. Algumas outras naves voam no horizonte esfumaçado da Velha Tóquio. Naves privadas de empresas e mercenários, encomendas sigilosas. Um céu envolto em mistérios. A Cidade Fantasma. Um deserto de edifícios e antenas e pó e segredos que não querem ser encontrados. Cormac voava em direção ao Velho.

    - Estamos quase chegando - disse o piloto pelo intercomunicador. Cormac voava sozinho.

    A Torre Prometeu, onde o Velho construíra seu reduto solitário, já revelava sua silhueta no mais adiante. A torre tinha a aparência de um velho castelo europeu elevado a proporções megalomaníacas, com gárgulas, demônios, anjos e ninfas gigantescas escalando suas laterais, constelações e planetas esculpidos na rocha, contra a poeira nefasta que a tudo cobria aquele cemitério de concreto. Toda a fachada da torre, em cada detalhe entalhado no ferro e na pedra, fora feita em apenas alguns dias, por um exército furioso de nanoconstrutores solto ao redor dela.

    À medida que a torre crescia à sua frente, a nave desacelerava, e pendia sua cabeça em direção às luzes vermelhas que piscavam na plataforma coberta. A cúpula de aço que a revestia abriu-se como um olho ao despertar, o pássaro negro da Honda pousou suavemente sob o zumbido pesado dos motores e das hélices, sob o eco cavernoso da cidade morta ao redor deles, sob o sopro maldito do vento. Não haviam humanos na plataforma, não com a cúpula aberta. O ar na Velha Tóquio fora declarado há alguns anos atrás (e só piorou com o tempo) como altamente danoso ao corpo humano. A nave no chão, a cúpula fechou-se com um estrondo. A porta da nave abriu-se e Cormac desceu a rampa retrátil que se estendeu a seus pés. Um dróide de recepção o esperava.

    - Olá, Sr Holden, o Mestre o aguarda no domo superior. Se o senhor me acompanhar, o levarei até lá.

    A nave da Honda calou seus motores e esperou na plataforma até que Cormac voltasse.

    Cormac acompanhou o dróide da plataforma a um imenso elevador circular, atravessando amplos e desocupados corredores de cobre. Na parede do elevador, a pintura de um campo de batalha inglês, o gramado verde se estendendo com pinheiros e lagos, cavaleiros em armaduras imponentes e soldados rasos desmembrando uns aos outros com espadas e lanças e machados, sob a fumaça dos canhões e das carabinas, com cachorros de caça e raposas e pássaros no céu impossivelmente azul e branco. Música clássica céltica tocava nos alto falantes.

    Cormac não sabia por que estava ali. Não via o Velho há alguns anos e não era de sua conduta receber os agentes em sua moradia, mesmo sendo Cormac um dos mais antigos. A existência do Velho ao longo dos anos tornara-se praticamente uma lenda no meio da espionagem internacional, assim como todas as histórias ao seu redor eram facilmente tomadas por mito.

    Muitas histórias eram contadas sobre o Velho. Alguns chegaram a arriscar palpites sobre uma possível origem alienígena, ou sobre como ele havia sido construído como um projeto do governo que saíra do controle. A verdade é que o poder do Velho ia muito além do que a maioria achava. Tudo isso, apenas por ter sido o criador de uma das mais requisitadas agências de espionagem privada do mundo: a Cógnito. Algo sobre o Velho, no entanto, não podia ser questionado de maneira alguma por ninguém: ele tinha dinheiro. Muito, muito dinheiro. O tipo de dinheiro que o colocava em um plano de existência à parte do resto do mundo. O domo superior talvez fosse um dos maiores exemplos disso.

    Projetado pelo próprio Fujio Ijio, criador e visionário da gigante japonesa no ramo de simulações sensoriais que carregava seu nome. O domo fora um presente seu para o Velho.

    - Tome, ponha isso em sua nuca. - O dróide lhe entregou um pequeno retangulo de plástico bege, com tampo de slide. Dentro, havia um selo de aparência metálica e textura gelatinosa. Cormac já havia usado aquilo uma outra vez e tinha sido uma das experiências mais alucinantes e esquisitas e surrealmente belas de sua vida. Colou o selo na nuca, e com um choque gelado ele aderiu-se perfeitamente à sua pele.

    O selo servia como um receptor. A cúpula do domo superior transmitia sinais de simulaçao sensorial wireless, moduladas especialmente para cada um que estivesse ali dentro, baseado em informação colhida pelos selos. O elevador era uma espécie de transição. Quando Cormac aplicou o selo em sua nuca, a pintura ganhou vida, o cavalo que olha para um lado, ao piscar os olhos, vira para outro, as nuvens se moviam e flechas que nunca ficavam paradas também nunca caiam em seu destino, a guerra virtual feita em tinta eletrônica seguia sem ter um início ou fim. Havia náusea envolvida nesse processo.

    Quando as portas do elevador se abriram, Cormac se viu dentro do que parecia um enorme salão de festas medieval, com andaimes e intricados complexos de tábuas e polias, onde um jovem pintor desenhava no teto. Cormac olhou para cima, para a pintura. Havia um funeral. Com seres místicos e deuses pagãos. Chovia tristeza e choravam amarguras. Um caixão era carregado, a Morte guiava a todos com um cajado retorcido, os céus tremiam por baixo de sombras de criaturas mais antigas que o homem, vozes ecoavam como se da cova de mil mortos, mas a canção não se fazia entender. Havia dor ali. Dor humana e real. Nada que Cormac não tivesse visto antes.

    - Ah - disse o Velho, olhando para cima também, com um sorriso débil no rosto - me diga se não é uma das coisas mais belas que você já viu em sua vida - o Velho abanava sua mão comprida e fina na direção de Cormac. - Sonhei com ela ontem à noite - Cormac chegara ao seu lado e ele desviou a atenção da gigantesca pintura viva que decorava o seu céu particular - Vamos, caminhe comigo.

    Andavam por um amplo corredor de pedra escura, com pisos de mármore e colunas onde tochas brincavam com suas sombras na parede. O Velho parecia agora bem mais envelhecido do que Cormac se lembrava. Toda a terapia genética e reconstrução de tecidos não disfarçavam a solidão da idade. Estava em seus olhos.

    Da última vez que estivera ali, caminharam por uma versão restaurada da selva Amazônica, descalços na vegetação que subia até os joelhos, acompanhados por macacos que se balançavam de galho em galho e por um grupo de índias que os seguiam curiosas, que existiam apenas no limite de seu campo de visão. O Velho contava histórias dos primeiros dias da agência, de seus primeiros inimigos, suas primeiras missões, um presidente argeliano suicidado num quarto de cabaré, o ministro chinês com farpas de metal na garganta, o satélite coreano sequestrado, a guerra krakoviana iniciada com um bilhete falsificado, relembrava cada ato seu de violência realizado ao longo dos anos, com a espirituosidade de um delinquente de 15 anos de idade, vangloriando-se de suas conquistas. Se ele não o fizesse, dizia, alguém mais o faria. Era um trabalho e ele era bom e não havia problema em gostar do que fazia.

    Dessa vez, no entanto, caminhavam em silêncio. Um silêncio pesado e incômodo. Um silêncio que ecoava contra a rocha nua daquele tenebroso corredor que chegava a um fim.

    Havia uma imponente porta de madeira ao final. Cormac não esperou que o Velho pedisse, adiantou-se e abriu a porta. Uma câmara rubra e negra como a morte,onde um homem os esperava com a máscara do demônio. Não haviam portas, nem janelas. Estavam em uma masmorra. O homem na máscara não se mexia.

    - Quem é ele? - perguntou Cormac, contornando o homem, passando o dedo no limo das paredes e na seda quente sobre as lamparinas, quase esquecendo que nada daquilo era real, que na verdade caminhava em círculos no meio de um grande vão vazio, no alto da mais alta das torres da Velha Tóquio. Tocou a nuca e sentiu o selo gelado sob a ponta do dedo. Quando chega-se a esse ponto, como diferir o real do ilusório?

    - Isso - disse o Velho, aproximando se da figura mascarada no centro na sala - é o meu demônio. Ele é uma parte de mim.

    Localização e replicação de áreas do cérebro humano. Módulos de personalidade.

    - A cópia de parte de minha mente representada por um soft senciente. Eu o coloquei nessa sala para que eu não me esquecesse. Ninguém deveria esquecer. O mal que mora em nossa alma. O demônio que somos em parte do que fazemos. Eu o coloquei aqui como lembrança dos meus erros.

    Cormac estava parado ao lado do Velho, admirando os detalhes, as ranhuras, as cores daquela máscara demoníaca, com chifres que brotavam de toda sua extensão. Cormac não ousava tocá-la.

    - Eu já lhe contei alguma vez - disse o Velho, virando em sua direção - que tenho uma filha?[/align]
     

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