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Notícias Como escrevi Os resíduos do dia em quatro semanas, por Kazuo Ishiguro

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Bruce Torres, 7 Jan 2015.

  1. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

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    Emma Thompson e Anthony Hopkins na adaptação de “Os resíduos do dia”, de 1993.

    Texto originalmente publicado no
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    .
    Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.

    * * *
    A jornada de trabalho da maior parte das pessoas é extensa. Mas se o negócio é escrever romances, todos concordam que após quatro ou mais horas escrevendo sem parar, a produtividade cai. Eu sempre comprei essa versão, mas à medida que o verão de 1987 se aproximava, acabei por me convencer de que uma abordagem drástica era necessária. Com o aval de Lorna, minha esposa.

    Até então, desde que havia deixado de trabalhar regularmente nos últimos cinco anos, eu fora capaz de estabelecer um ritmo razoável de trabalho e produção. Minha primeira onda de sucesso de público, após meu segundo romance, trouxe consigo, no entanto, um punhado de distrações. Propostas tentadoras de evolução na carreira, convites para jantares, festas e viagens ao exterior, além de montanhas de cartas, não conseguiram senão acabar com a minha rotina “adequada” de trabalho. Eu tinha redigido o capítulo de abertura para um novo romance no verão passado, mas agora, quase um ano depois, não havia progredido em nada.

    Então Lorna e eu concebemos um plano. Nas quatro semanas seguintes, sem dó nem piedade, eu cancelaria minha agenda e procederia ao que enigmaticamente chamamos de “o confronto”. Durante “o confronto”, eu não faria nada senão escrever, das nove da manhã até às dez e meia da noite, de segunda a sábado, com uma hora para o almoço e duas para o jantar. Eu não abriria, responder nem pensar, nenhuma correspondência e não chegaria nem perto do telefone. Não receberíamos ninguém em casa. E nesse período, e a despeito de sua agenda particularmente carregada, Lorna também assumiria a minha parte na cozinha e na limpeza da casa. Esperávamos, assim, que não somente eu produziria quantitativamente mais como atingiria um estado mental em que o meu mundo fictício seria mais real para mim do que o real de fato.

    Eu tinha 32 anos, e tínhamos acabado de mudar para uma casa em Sydenham, sul de Londres, onde pela primeira vez na vida eu tinha um verdadeiro estúdio. (Meus dois primeiros romances tinham sido escritos à mesa do jantar.) Era na verdade uma espécie de conjugado a um lance de escadas, sem porta, mas eu estava emocionado por ter um espaço onde eu pudesse espalhar meus papéis ao redor do jeito que quisesse sem ter de arrumar tudo ao final de cada dia. Enchi a parede descascada com mapas e notas e comecei a escrever.

    Foi assim, basicamente, que
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    foi escrito. Durante “o confronto”, eu escrevi sem censura, não me importando com o estilo ou se algo que eu escrevera à tarde contradissesse algo que eu definira na história pela manhã. A prioridade era simplesmente deixar as ideias brotarem e florescerem. Frases horríveis, diálogo dantesco, cenas que não davam em nada, eu as deixava por ali e continuava a escavar.

    No terceiro dia, Lorna mencionou, durante a minha pausa noturna, que eu estava me comportando de modo estranho. No meu primeiro domingo de folga eu me aventurei ao ar livre, na rua principal de Sydenham, e não parava de dar risinhos — pelo menos foi o que Lorna me contou — pelo fato da rua ser uma ladeira, fazendo assim com que as pessoas que desciam tropeçassem em si mesmas, enquanto os que subiam se esfalfavam e cambaleavam com o esforço. Lorna se preocupou pelo fato de eu ainda ter mais três semanas nesse processo, mas eu assegurei a ela que eu estava muito bem e que a primeira semana tinha sido um sucesso.

    Continuei assim por quatro semanas, e ao fim de tudo tinha mais ou menos concluído o romance: claro que ainda seria preciso muito mais tempo para acertar a escrita de modo apropriado, mas todos os avanços imaginativos vitais tinham se dado durante “o confronto”.

    A bem da verdade, no momento em que assumi “o confronto” eu já tinha feito um bocado de “pesquisa”: livros de e sobre mordomos britânicos; sobre política e relações exteriores no entreguerras; muitos panfletos e ensaios da época, notadamente o de Harold Laski sobre “Os perigos de ser um cavalheiro”. Havia pilhado as prateleiras de livros usados da livraria do bairro (Kirkdale Livros, ainda uma próspera independente) em busca de guias sobre o interior da Inglaterra entre os anos 1930 e 1950. A decisão sobre quando começar de fato a escrever um romance — de começar a compor a história em si — sempre me pareceu o momento crucial. Quanto se deve saber antes de começar a escrever? Começar cedo demais é prejudicial, assim como começar demasiado tarde. Creio que no caso deResíduos eu tive sorte: “o confronto” veio no ponto preciso, quando eu sabia exatamente o bastante.

    Em retrospecto, identifico todos os tipos de influências e fontes de inspiração. A seguir, dois dos menos óbvios:

    1) Em meados dos anos 1970, ainda adolescente, assisti a um filme chamado A conversação, um suspense dirigido por Francis Ford Coppola. No filme, Gene Hackman é um especialista em vigilância autônomo, o cara a quem apelam os que querem grampear e gravar em segredo as conversas de outros. Hackman deseja obsessivamente ser o melhor em seu campo — “o maior grampeador da América” —, mas fica cada vez mais incomodado ao perceber que as gravações que ele fornece a seus poderosos clientes podem gerar graves consequências, até mesmo assassinato. Creio que o personagem de Hackman foi um modelo inicial para Stevens, o mordomo.

    2) Certa noite, quando eu já dava o Resíduos por terminado, ouvi Tom Waits cantando “Ruby’s arms”. É uma balada sobre um soldado que não acorda sua amada ao sair para embarcar no trem de madrugada. Até aí, nada de estranho. Mas a música é interpretada na voz roufenha do típico deslocado americano totalmente incapaz de reconhecer suas emoções. A certa altura, quando o cantor declara que seu coração está partido, isso é quase insuportavelmente emocionante, por conta da tensão entre o sentimento em si e da enorme resistência em, obviamente, conseguir ser capaz de expressar isso em palavras. Waits canta o trecho com magnificência catártica, e é possível sentir toda uma vida de estoicismo durão desmoronando frente a uma tristeza esmagadora. Ao ouvir isso, eu reverti uma decisão que tinha tomado, a de que Stevens permaneceria emocionalmente travado até o fim amargo. E eu decidi que em apenas um ponto — e um que eu teria que escolher com muito cuidado — sua rígida barreira iria rachar, e um até então trágico e oculto romantismo seria vislumbrado.


    * * * * *
    Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki, Japão, em 1954, e mudou-se para a Inglaterra aos cinco anos. É autor de
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    ,
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    e
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    Seu romance
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    ganhou o Booker Prize em 1989. Em junho, a Companhia das Letras lança seu novo livro, O gigante enterrado.

    Fonte:
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  2. Calib

    Calib Visitante

    Aha! O homem fica escrevendo e a mulher na cozinha, né?


    XD


    A sério: acho interessantes relatos assim para dar uma ideia do processo criativo das pessoas. Melhor que isso só mesmo quando o sujeito registra tudo num diário como poucos fazem. André Gide registrou todo o processo criativo d'Os Moedeiros Falsos num diário, que inclusive foi publicado como livro também. Quero ler os dois em sequência. XD
     
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  3. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

    Eu só tenho o Diário, @Calib . :tsc:
     
    • LOL LOL x 1
  4. Calib

    Calib Visitante

    Puxa. Eu tinha aqui um exemplar sobrando d'Os Moedeiros até estes dias, mas dei pra @Malkyn
    Malz aê. Cê acha fácil em sebo, pelo menos.
     
  5. Ana Lovejoy

    Ana Lovejoy Administrador

    bizarro isso de conhecer o filme mas não o livro. fiquei lendo o texto e sempre que lia "resíduos" pensava "VESTÍGIOS!!!!!!!!!"
     
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  6. G.

    G. Ai, que preguiça!

    Estou para ler esse resíduos um tempão, desde que li Não me abandone jamais e adorei... mas sempre esqueço de comprar esse quando tô a fim de torrar em livros :dente:
     
  7. Malkyn

    Malkyn The Siren

    Quer que eu empreste pra ele? Acho que o @Bruce Torres é daqui de SP, não?
    Se for, a gente marca no metrô e eu te empresto... Estou lendo Decamerão, vai demorar um pouco pra eu ler outra coisa XD
     
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  8. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

    Eu mesmo vi o filme antes. P*** filme bom! E o livro também é muito bom.
     
  9. Calib

    Calib Visitante

    @Bruce Torres e @Malkyn se organizem aí. Super-recomendo um encontro. :grinlove:


    Sobre o Kazuo Ishiguro... Confesso que fiquei meio assim com um pé atrás. Mas nem é culpa dele propriamente dito. É que vi aquele filme Never let me go e achei uma droga. Mas o "droga" foi para a situação toda muito pouco crível e sem explicação nenhuma. Daí julguei que a culpa fosse do livro (risos). Talvez eu deva começar por esse aí mesmo, que me parece ser uma obra com mais "sucesso de público e crítica" do que a outra, tanto o filme quanto o livro.
     
  10. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

    Nem vi o filme e nem o li o livro - difícil seria fazer o inverso, né? - de Never Let Me Go, mas caramba, todo mundo fala bem desse livro, e o filme é roteirizado pelo Alex Garland - só vi um filme do Romanek até hoje, Retratos de uma Obsessão, que eu gostei bastante. Bom, a conferir ambos.

    BTW, me achavam muito parecido com o Ishiguro na época do colégio. :lol:
    --- Mensagem Dupla Unificada, 8 Jan 2015, Data da Mensagem Original: 8 Jan 2015 ---
    Sim, eu sou daqui. :lol: Vejamos um dia, então. :yep:
     
  11. Ana Lovejoy

    Ana Lovejoy Administrador

    ô loco, que turma legal que vc andava na escola. se meus colegas fizessem alguma menção ao paulo coelho já era muito :eek:
     
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