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Comentários Sobre “O Senhor dos Anéis” – Uma Introdução à Obra Maior de Tolkien

Tópico em 'Comunicados, Tutoriais e Demais Valinorices' iniciado por Artigos Valinor, 25 Jun 2005.

  1. Artigos Valinor

    Artigos Valinor Usuário

    <P align=right>“Fantasia é uma atividade humana normal. Ela certamente não destrói ou mesmo insulta a Razão; e ela também não embota o apetite pela, nem obscurece a percepção da, veracidade científica. Ao contrário. Quão mais inteligentes e claros são os argumentos, melhor será a fantasia com eles construída. Se os homens estivessem em um estado no qual não desejassem conhecer ou perceber a verdade (fatos ou evidências), então a Fantasia iria repousar até que estivessem todos curados. Se eles estivessem sempre em tal estado (o que não parece de todo impossível), a Fantasia desapareceria e se tornaria uma Desilusão Mórbida.”
    J. R. R. Tolkien, On Fairy-Stories</P>




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    Comentários Sobre “O Senhor dos Anéis” – Uma Introdução à Obra Maior de Tolkien
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    Grande parte dos leitores de O Senhor dos Anéis fica quase que obcecada pelos complexos detalhes da história. Uma outra parcela desses leitores procura ler as entrelinhas da obra para tentar dissecar quais os objetivos de seu autor ao escrevê-la. O Senhor dos Anéis já atraiu críticos ferozes, para quem a obra é um exercício do conservadorismo, bem como defensores audazes em contestar diretamente essa idéia (vide, p.ex. Defending Middle Earth: Tolkien, Myth and Modernity, Patrick Curry). Existe ainda uma outra parcela de leitores que se prende à (eterna ?) discussão sobre a auto-consistência da obra, formando um grande grupo de discussão sobre cada um dos muitos pontos deixado ali em aberto ou então inconsistentes no teor dos vários textos escritos por Tolkien. Muitos desses leitores deixam, assim, de apreciar e observar a obra como o que ela realmente é, um dos melhores romances (ou história fantástica) do século XX. A apreciação da obra merece que seus detalhes possam ser esquecidos face ao conjunto. </P>



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    Para entender a complexa estrutura da obra de Tolkien relacionada à saga do ‘Senhor dos Anéis’ é necessário compreender o contexto em que cada obra foi criada, com objetivos bem diferentes e na maioria das vezes ocultos ao leitor dessa obra, a forma como o livro foi estruturado e algumas influências sobre o próprio autor.</P>



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    As Obras da Saga
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    O Silmarillion (no que toca as versões pré Senhor do Anéis, aquelas existentes no Book of Lost Tales e nos primeiros volumes do History of Middle Earth) foi escrito como um conjunto de ensaios acadêmicos de Tolkien. Seu objetivo era o estudo da evolução da linguagem, como a história (incluindo as respectivas lendas e mitos de cada povo) contribuía para a formação das palavras e de suas raízes fonética. Para criar o ‘élfico’ Tolkien necessitava da mitologia a ele associada, e os vários ensaios do Silmarillion (muitos na forma de poemas) fazem parte desse processo. Essas histórias e poemas eram apresentados em reuniões com seus colegas, dos quais o grupo mais importante foi o dos Inkling’s, de onde várias sugestões foram recebidas e incorporadas. A versão publicada do Silmarillion é uma versão adaptada após a publicação do Senhor dos Anéis, na qual Tolkien (e depois seu filho como editor) procurou ajustar sua mitologia anterior aos fatos citados no SdA, nem sempre com perfeição. As origens do Silmarillion são bem mais antigas do que aquelas do Hobbit ou do Senhor dos Anéis. </P>



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    O Silmarillion ainda é a obra mais trabalhada de Tolkien, com sucessivas versões, re-escritura e adaptações ocorridas até sua morte. O caráter acadêmico da obra pode ser percebido, na versão original, pelo teor do inglês utilizado. Tolkien usa uma linguagem elevada, com uso freqüente de estruturas ‘vocativas’ e de palavras no inglês antigo (Old English), cujo uso foi reduzido na versão pós Senhor dos Anéis, mas objeto até mesmo de um pequeno dicionário na edição contida no Book of Lost Tales.</P>
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    Já o Hobbit, segundo contam alguns biógrafos, baseou-se em histórias que Tolkien contava para seus filhos quando pequenos, que foram sendo elaboradas e registradas. Afirmam que a versão enviada aos editores (Allen & Urwin) o foi às custas de uma colaboradora, já que a primeira submissão (outro editor ?) havia sido recusada e Tolkien não queria insistir. Certamente as histórias tinham uma ligação também com os estudos sobre o ‘élfico’, de onde a presença de elfos, anões, orcs e dragões, embora não seja aparente uma ligação mais forte. O próprio Tolkien menciona em uma carta que a escolha de alguns nomes, como Elrond, foi mais devida à dificuldade em obter ‘bons nomes’ e que foi uma sorte (para o SdA) tais nomes estarem relacionados à antiga mitologia élfica.</P>



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    O Hobbit apresenta uma estrutura mais simples em termos de roteiro. Sua linguagem é nitidamente mais simples, como o contar de uma história infantil (não o narrar de uma aventura de forma impessoal), embora isso não queira dizer que é mal escrito. Suas qualidades como livro de aventuras, não apenas com o público infanto-juvenil, o tornaram um best-seller e o público ficou ávido por outras histórias sobre hobbits. A narrativa no Hobbit é bastante linear, a história está sempre focada em Bilbo (não existem tramas paralelas) e seus companheiros anões, e também não é detalhista, basta ver o tempo gasto pela comitiva dos anões para atingir a região dos Trolls, que ocorre no interior do mesmo capítulo. No SdA, Frodo e seus amigos gastam semanas (e vários capítulos) para cumprir o mesmo percurso.</P>



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    Em paralelo, Roverandom também foi escrito com base em histórias criadas para os filhos. Foi rejeitado quando submetido aos editores, após a publicação do Hobbit,  porque queriam mais histórias sobre eles (hobbits). Acabou sendo publicado postumamente.</P>



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    Aqui temos um fator primordial para entender a estrutura do Senhor dos Anéis. Ele foi escrito por solicitação dos editores, que estavam por sua vez pressionados pelo público, querendo histórias de hobbits. O SdA não foi escrito, como o Silmarilion, para ser um conjunto mitológico, mas sim para ser uma história (épica) de fantasia. Na sua composição Tolkien utilizou, de forma magistral, os conceitos que ele mesmo havia estudado e definido para as histórias de fantasia, descritos em seu ensaio “On fairy-stories”, apresentado na Universidade de Saint Andrew em 1938 (alguns atribuem a data exata do seminário em Março de 1939), e considerado pela academia como a melhor das exposições sobre o tema, até hoje. </P>



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    Aquela pressão popular por mais hitórias de hobbits explica porque o herói da aventura não é um homem, como os desígnios do final da terceira era parecem apontar. Podemos pensar que, do ponto de vista ‘humano’ a história poderia ser mais natural se Aragorn fosse o herói a destronar Sauron (Elendil e os seus haviam enfrentado Sauron até em combate corpo a corpo, porque não um herdeiro à altura desse mesmo feito?). A importância de Aragorn será ainda discutida mais adiante e dá subsídio adicional à pergunta acima.</P>



    <HR>
    Do ponto de vista de um hobbit como herói, a trama torna-se também mais crível. Caracterizados, desde o Hobbit, por suas habilidades de ‘não serem percebidos’ (stealth) certamente teriam mais chances de entrar numa terra inimiga e chegar ao local de destruição do anel. Aqui já percebemos o espírito descrito na citação de abertura, retirada do famoso ensaio de Tolkien. A fantasia é mais crível quão mais fácil assumi-la com base na razão. Facilita ao leitor acreditar na existência de um hobbit a levar o Anel Um até sua forja original, permitindo que aquele mundo de fantasia seja assimilado. </P>
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    Ainda com respeito à aceitação da fantasia, outro aspecto importante do SdA (não presente, por exemplo, no mais antigo Silmarilion) é sua veracidade técnica. Tolkien usou guias militares para basear as distâncias que podiam ser cobertas por homens em marcha, dando um cunho de veracidade à epopéia. A geografia da Terra Média foi desenvolvida para assegurar ao leitor, por exemplo, que a Companhia do Anel deveria cruzar as Montanhas Nevoentas sem aproximar-se do Gap de Rohan. O ‘lembas’ dos elfos ressurge com destaque para garantir a subsistência, já que não é aceitável a duas (meio) pessoas carregar nas costas a comida necessária para uma jornada de mais de mês (e Mordor já havia sido descrito como uma terra inóspita, árida e bastante estéril, onde não seria também fácil de acreditar no encontro da ração diária). Nos estudos sobre a obra mostra-se a preocupação de acertar cronologicamente as várias tramas e mesmo os ciclos lunares (para os interessados, são baseados naqueles de 1942).</P>



    <HR>
    O Senhor dos Anéis é apresentado como um trabalho de ‘sub-criação’, um ‘mundo secundário’ da mitologia que se relaciona indiretamente ao mundo real. Na introdução e nos apêndices vem a idéia de que o livro narra, por sua vez, feitos registrados em outro livro (The Red Book), este sim relatando os eventos acontecidos em um passado indefinidamente distante (ou próximo, se considerarmos que foi escrito na própria época dos eventos).</P>



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    Embora tenha sido extensamente elaborado (incluindo os apêndices) para que tenha uma completeza própria, o Senhor dos Anéis é por demais complexo para que isso possa ocorrer. Tolkien brincou uma vez ao dizer que no livro existiam apenas dois pontos não explicados, que seriam o nome dos outros dois magos, cinco menos Saruman, Gandalf, Radagast (citados por Saruman em Orthanc quando pergunta se Gandalf queria os cajados dos cinco magos) e a questão dos gatos da rainha Beruthiel (mencionados por Aragorn em Moria). No entanto, vários outros pontos podem ser levantados e mostram que a completeza como obra única não existe, por exemplo: como o rei Nazgul não conhecia o Condado, tendo combatido o reino de Anor naquelas regiões? Por que os nazgul tinham medo d’água? – pode-se assumir que o Anduíno era um rio largo e profundo o suficiente para impedir sua passagem direta, mas eles tiveram que cruzar pelo menos dois vaus (Isen, San Ford) em sua jornada até o Condado. A escolha do nome de Glorfindel realmente está ligada a uma versão em que este elfo, morto em Gondolin, “reencarna”e volta à Terra Médica? Treebeard é mais velho que Tom Bombadil? O Balrog tinha ou não asas? Não é possível esperar que todas essas questões (e certamente muitas outras) tenham respostas. O livro deve ser considerado como seu todo, uma grande obra literária, e não como sendo um dicionário mitológico, em que cada termo tem uma entrada remissiva explicando sua origem e significado.</P>



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    O Roteiro do Senhor dos Anéis
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    Por outro lado, o Senhor dos Anéis foi escrito (re-escrito e revisado um sem número de vezes) durante um longo período até que viesse a ser publicado. Essa publicação foi também em partes (cada um dos três livros que compõem a saga), com um intervalo de anos entre eles (receita repetida pelo Peter Jackson para o lançamento da trilogia filmada), uma vez que assim eventuais resultados de vendas ruins de um volume poderiam ser compensados pela venda melhor de outro dos volumes. Cortes ‘cinematográficos’ asseguram o interesse pela continuidade. </P>



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    A interrupção no primeiro volume deixa o leitor ávido de saber o que vai acontecer às duplas de hobbits (Frodo/Sam, Merry/Pippin), mas deixa também outras questões em pé. Uma delas é o próprio destino de Gandalf, não muito assimilado após a queda em Khazad Dum. Outra, que nem todos os leitores percebem na primeira leitura, são as palavras do narrador quando Aragorn e Frodo deixam Cerim Amroth, ainda em Lothlórien: “para nunca mais retornar como um homem vivo”. O leitor que tenha se identificado com Aragorn como um ‘salvador da pátria’ (ou dos hobbits, nesse caso) fica perplexo querendo saber o que lhe vai acontecer mais à frente, para não retornar (“será que ele também irá morrer?”). </P>
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    Naquela visão de roteiro fica mais claro entender, por exemplo, a morte e ressurreição de Gandalf. Ele tinha que sair da trama, pois do contrário não seria crível assistir à dissolução da companhia e à aventura de Frodo e Sam até Orodruin. Como introduzir para que Gandalf deixasse os dois seguirem sozinhos após algum ponto em Ithilien? Também não seria aceitável que um dos portadores dos anéis élficos pudesse entrar em Mordor sem ser detectado por Sauron. A notar que essa retirada de Gandalf da trama já havia acontecido duas vezes. No Hobbit, Gandalf vai ao Conselho de Magos para permitir que Bilbo seja o herói a partir da travessia de Mirkwood (já tentaram imaginar como isso seria possível com o mago por perto?). Mesmo no SdA, Gandalf teve que ser aprisionado em Orthanc para que os hobbits pudessem fugir dos cavaleiros negros ao longo de sua jornada até Rivendell. Como imaginar que Frodo pudesse colocar o anel e ser ferido pela lâmina morgul em Weathertop com Gandalf a seu lado? </P>



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    Entretanto, Gandalf deve retornar. A construção de sua personagem como um auxílio enviado pelos Valar (Olórin, que seja) não facilita seu simples desaparecimento da obra. Gandalf volta para desempenhar um papel importante na Guerra do Anel. Recupera Theóden, subjuga (com auxílio dos Ent) Saruman, sustenta Gondor. Novamente seria menos aceitável essa fantasia sem a presença de um poder superior, capaz de transmitir fé e esperança mesmo sob a presença da sombra. Por outro lado, o retorno (ou o enganar) da morte é uma constante em várias mitologias e mesmo em contos de fada (vide Branca de Neve, por exemplo), assim nada mais natural que incorporar essa passagem no texto (depois de um providencial ‘coma’ decorrente da luta com o balrog, para permitir que a companhia deixe Lothlórien sem saber de seu retorno). Perturbações de como justificar esse retorno, seja por meio de hröa ou fëa, somente surgiram após o estrondoso sucesso do livro nos Estados Unidos e ao assédio dos fãs querendo saber sobre todos os detalhes da obra e incapazes de aceitar que numa obra dessa dimensão a coerência total é praticamente inviável.</P>



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    Aproveitando o argumento anterior, Gandalf deve novamente ser retirado de cena após a tomada dos portões de Gondor pelo rei Nazgul, para o que serve magistralmente a chegada de Pippin com as notícias sobre a loucura de Denethor. Essa é a única forma de permitir a morte do rei feiticeiro pelas mãos de Merry e Eówyn! Os nazgul não estavam (observado pelas intervenções de Gandalf durante o cerco do Pellenor e da cidade) à altura de enfrentá-lo. Com o cavaleiro branco na batalha, seria difícil ao nazgul atacar Theóden de forma tão eficaz e permitir o corpo a corpo que serviu à sua (nazgul) destruição.</P>



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    O roteiro ‘cinematográfico’ aparece ainda na estrutura da obra a partir do segundo volume (As Duas Torres), em que temos a cena mudando para os respectivos autores de forma alternada: Aragorn e companheiros para Merry, Pippin e Treebeard na primeira parte, até sua reunião em Isengard, com a respectiva quebra ao final dessa parte, quando Gandalf e Pippin partem para Minas Tirith. Na outra metade do volume seguimos Frodo e Sam até o desastroso encontro com Shellob.</P>



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    A mesma estrutura repete-se em O Retorno do Rei, em que vemos por partes a viagem de Gandalf e Pippin e sua chegada a Gondor, com o cerco da cidade e a quebra dos seus portões, a Marcha da Companhia Cinzenta (‘desaparecida da história logo após cruzar Lamedon, só reaparecendo no ápice da batalha do Pellenor), a marcha de Rohan para acudir Minas Tirith, a batalha nos campos do Pellenor e a marcha até os Portões de Mordor onde são recebidos por um emissário que traz objetos portados por Frodo e Sam. Apenas depois de formado esse suspense final é que são revelados os detalhes do percurso dos dois hobbits no território inimigo e a maneira pela qual a missão é completada.</P>
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    É ainda interessante ver o SdA como a elegia entre o bem e o mal é muito mais sutil do que num simples conto de fadas. Ao final, o anel é destruído por Gollum, pois Frodo já não conseguia cumprir sua missão. Nesse aspecto fica mais fácil entender a história pela noção maquiavélica de que “o poder corrompe”. Frodo, apesar das suas boas intenções, é corrompido ao final pelo poder do Anel. Gollum já o tinha sido há centenas de anos e não deixa de ser interessante observar que o próprio anel causa sua destruição (o mal tende a agir contra si mesmo?). Nas páginas anteriores Frodo, usando o anel por sobre o tecido do manto, comanda Gollum a se jogar nas fendas da terra se atacá-lo novamente pelo anel. O cumprimento dessa ordem (reforçada pelo anel) causa a perdição de Gollum e, junto com ele, do Um Anel. Ao longo do SdA salvam-se aqueles que resistem ao Anel (Bilbo, Sam, Gandalf, Aragorn, Galadriel) e são punidos os que cedem a ele (Isildur, Boromir, Saruman, Gollum). Frodo, sendo o herói de grande parte da aventura, não poderia ter um destino assim tão dramático, assim é punido de forma mais leve, com a perda de um dedo e a dor que o perseguirá até partir para o Oeste (e quem sabe o que acontecerá por lá? As palavras de Arwen, quando lhe oferece seu lugar naquele navio, dão a entender um longo período até que venha o esquecimento da dor.).</P>




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    O Rei, sua Rainha e a Redenção do Herói
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    Um ponto a analisar é o perfil de Aragorn, embora seja um personagem introduzido tardiamente na história (nas primeiras versões do SdA esse papel era ocupado também por um hobbit). No início da narrativa sua realeza fica dormente, apenas despertando de forma explícita quando chegam a Rohan. Embora a história seja de hobbits, Aragorn é o verdadeiro rei, que retorna após, digamos, a expiação dos erros de sua linhagem. Nesse retorno existem alguns pontos notáveis. </P>



    <HR>
    Um daqueles pontos, não muito claro no destaque da obra em seu corpo principal (mas objeto dos apêndices) é sua ligação com Arwen, restaurando ali a linhagem dos dois troncos (elfos e homens) da linha de Beren e Lúthien. Indiretamente, ao se observar as árvores genealógicas do Silmarilion, observa-se também nessa união final a junção dos antigos ramos das famílias dos homens e dos elfos. </P>



    <HR>
    A renúncia de Arwen à partida para o Oeste, escolhendo o destino mortal dos homens, reflete a escolha feita por sua antecessora. Essa união elimina também a presença de uma alta linhagem élfica na Terra Média (embora seja mencionado em alguns textos que Elladan e Elrohir permaneceram ainda em Rivendell após a partida de Elrond, não mais existem descendências assumidas), deixando aos homens (como raça) a herança dos dois grandes ramos dos filhos de Erú e, dos elfos, deixando apenas a lembrança de grandes feitos, que serão recordados somente como histórias mitológicas (seguindo em muito a evolução histórica da mitologia anglo-saxônica).</P>



    <HR>
    Aos homens é destinada a quarta era e isso, novamente para a aceitação da fantasia, facilita a transposição de eventos distantes na Terra Média aos da nossa própria raça humana (esse objetivo estava mais claramente definido nas primeiras versões do Silmarillion, em que Aelfwine viaja até Tol Eressea e onde a região anglo-saxônica é identificada pelos ‘restos’ de Beleriand).</P>



    <HR>
    Ainda no tocante a Aragorn, realçando mais sua importância na trama, é considerar o papel de Arwen. </P>


    Alguns julgam em Galadriel o mais forte personagem feminino no Senhor dos Anéis. Minha opinião é de que Galadriel representa, sim, o mais forte personagem élfico ‘acumulado’ no Senhor dos Anéis, onde o ‘acumulado’ representa sua importância na mitologia anterior à narrativa. Seguramente, oriunda ainda do tempo das árvores e tendo percorrido todo o caminho das guerras em Beleriand na primeira era e o confronto com Sauron durante a segunda, ela chega ao final da terceira era com uma história própria que não pode mais ser ultrapassada. </P>
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    <HR>
    Entretanto, minha opinião é de que a personagem de Arwen é mais importante no Senhor dos Anéis. Embora apareça praticamente no apêndice, sua escolha por Aragorn é um dos motivos para que este se dedique ao combate de Sauron e à restauração do orgulho dunedáin. Arwen assume nessa escolha um papel até então apenas assumido por sua antecessora, filha de uma Maiar (uma criatura ‘angelical’). Não menos simbólica é a menção no texto do SdA sobre sua semelhança física a Lúthien. Nesse contexto, torna-se evidente o destaque atribuído (mesmo que tardiamente na composição da história) a Aragorn no SdA. Ele é, ali, indiretamente elevado à estatura dos antigos heróis de Beleriand na medida que Arwen abandona seu destino ‘imortal’ para a ele se ligar em uma vida mortal e limitada. Essa renúncia, assumida muito antes de Aragorn se revelar a seu próprio povo, é a maior demonstração da grandeza do futuro rei e justifica a personagem de Arwen.</P>



    <HR>
    É ainda Arwen a perceber a impossibilidade de cura de Frodo na Terra Média e oferecer-lhe o lugar no barco que irá para o Oeste (e fica inconsistente quem ofereceu um lugar a Bilbo e, nos anexos da história, a Sam), ocupando aquele que a ela seria destinado. Fica claro nas cartas escritas por Tolkien que foi ela a ‘negociar’ com os Valar, por intermédio de Olórin/Gandalf, a permissão para que Frodo ( & Bilbo & Sam em continuidade) pudesse viajar para Aman e lá purgasse sua culpa e ferimentos. Assim ela oferece a renúncia a um local ‘encantado’ àquele que sofreu tormentos para livrar a Terra Média de um grande mal. O argumento anterior, sobre a extinção da alta linhagem dos elfos na Terra Média, é reforçado simbolicamente pela morte de Arwen. Ao deitar-se em Cerim Amroth e deixar a vida, apenas a lembrança dessa linhagem permanece na Terra Média. Nesse ponto (notem que está em um apêndice) encerra-se a saga dos elfos, iniciada no Silmarilion. No volume XII da “History of Middle-Earth” Christopher Tolkien discute que seu pai pensou em encerrar o SdA justamente com o final da história de Arwen, devido à importância que ele via na personagem e seu relacionamento com o rei Elessar. Provavelmente o atraso no volume III da obra, causado em grande parte pela montagem dos apêndices, impediu que essa versão se concretizasse.</P>



    <HR>
    Ainda mais interessante é observar em Aragorn o redimir dos personagens épicos anglo saxônicos. Ele é o rei que retorna após milênios, trazendo a glória a seu povo. Nesse processo ele surge como o restaurador do caráter dos reis de outrora (os senhores de Númenor até Elendil), sem cometer o erro de mostrar orgulho exagerado, como no Beowulf ou de Beorthnoth no Battle of Maldon (esses poemas do inglês antigo foram bastante estudados por Tolkien e tiveram influência sobre suas obras). Ao contrário desses dois exemplos da antiga literatura anglo-saxônica, Aragorn não subestima o inimigo em nome de seu próprio orgulho passado ou de um espírito de cavalheirismo. Esse conceito, que Tolkien analisou em seu ensaio ‘Ofermod’ causou a morte daqueles heróis e, mais importante ainda, provocou danos a seus povos e reinos. </P>



    <HR>
    No Beowulf o herói parte para combater o dragão sem o apoio de seus cavaleiros e levemente armado, em nome de seu orgulho e feitos passados, buscando talvez uma morte gloriosa. O objetivo só é alcançado por que um dos cavaleiros vem ajudá-lo e conseguem destruir o dragão, embora o herói esteja mortalmente ferido. No lamento por sua morte surge a crítica pelo comportamento, pois ela trará os inimigos do reino a afligir seu povo.</P>



    <HR>
    Um comportamento semelhante foi descrito no Battle of Maldon. Nesse caso os invasores viking estão contidos pelas forças de duque Beorthnoth em uma passagem de vau que pode ser defendida com facilidade. O invasor, argutamente conhecendo seu inimigo, solicita ao duque permissão para que suas tropas cruzem o vau, de forma que um combate ‘limpo’ possa ser realizado. Com isso os ingleses são derrotados e o duque é morto juntamente com todos os integrantes de sua heoröwerod, cavaleiros de sua família ou próximos a ela. </P>
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    <HR>
    No estudo acima mencionado, Tolkien analisa as duas obras e mostra que em ambas o respectivo compositor critica duramente aquele comportamento senhoril, que traz desgraça a seus povos em nome de um orgulho próprio. A análise do inglês antigo mostra esse descontentamento em grau elevado (o adjetivo em inglês antigo, que deu título ao ensaio, aparece apenas duas vezes em verso, uma delas atribuído a Beorthnoth, a outra a Lúcifer!).</P>



    <HR>
    As influências dos estudos de Tolkien nessas obras antigas são evidentes no Hobbit/SdA. Por exemplo, o canto final na ‘Batalha dos Campos do Pellenor’ trás forte inspiração do Battle of Maldon, onde o nome dos membros da heoröwerod de Beorthnoth, caídos junto a ele na batalha, são mencionados com a dor de não vê-los mais com suas características de vida; o poema no SdA também faz o mesmo tipo de elegia aos heróis das várias raças que ali pereceram.</P>



    <HR>
    Nesse contexto assim discutido, Aragorn não desdenha o uso das armas do inimigo em nome de um combate ‘limpo’. Ao levar seus seguidores pelas Sendas dos Mortos e atrair para seu auxílio o exército dos mortos, ele está abdicando da ‘pureza’ dos cavaleiros medievais, que apenas usavam armas leais. Aragorn usa contra seu inimigo (Sauron, de fato) as próprias armas deste, a sombra dos que já estão mortos e o pavor que eles causam (comparem com aqueles dos espectros do anel) para combater meros inimigos ‘vivos’, homens como ele. Nessa hora ele surge como o oposto de Beowulf ou Beorthnoth, preocupando-se em garantir seu (futuro) reino e povo, mesmo pelo uso de armas ‘reprováveis’ (no contexto de outras histórias). Aragorn redime esses heróis anglo-saxônicos ao não apresentar o “ofermod”.</P>



    <HR>
    Esse papel contrasta com o de Isildur, seu antecessor em linha direta e herdeiro de Elendil. Isildur assume as características de Beowulf ou Beothnoth ao não destruir o anel. Nessa hora seu orgulho e desejo de poder falam mais alto do que a razão, e a punição decorrente atinge não só a ele (como com aqueles heróis) mas também a sua família (Aratan, Cyrion, Elendur) e reino (não imediatamente). A perda da glória do seu povo é culpa direta daquele orgulho e apenas por um redentor, capaz de recusar aquelas mesmas características, será aquela glória restaurada.</P>



    <HR>
    Epílogo
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    É ainda interessante ressaltar a influência das histórias antigas da mitologia anglo-saxônica e celta em Tolkien. No caso específico do Beowulf, sobre o qual Tolkien também  escreveu um ensaio ímpar, encontramos a “descrição” de “Smaug” e seu  tesouro; o herói deve descer a cavernas no fundo de um lago para combater um ogro (alguém recorda as Barrowdowns ?), nesse combate ele usa uma espada ali encontrada, que é ricamente decorada – adamascada – e que “se derrete” após aplicar o golpe mortal no monstro (não soa similar à espada de Merry contra o rei Nazgul?). Essa história, bem como o Battle of Maldon, foram estensivamente analisadas por Tolkien nos anos imediatamente precursores de suas obras de fantasia e assim foram mais lembradas.</P>



    <HR>
    Outras influências podem ser encontradas. Muitos leitores pensam que Tolkien obteve fama graças ao SdA, entretanto isso apenas pode ser considerado verdade em se tratando do grande público. Bem antes do Hobbit ou do SdA Tolkien já era um escritor com grande fama nos meios literários ingleses. Seu ensaio sobre o Beowulf é ainda considerado como um dos marcos na análise desse famoso (e estensivamente estudado) poema do inglês antigo. A tradução (com um de seus alunos) do Sir Gawain and the Green Knight é ainda considerada a melhor já realizada. Tolkien publicou, ainda na década de 20, um dicionário do inglês antigo e foi o mais jovem editor do Oxford Dictionary. O ensaio sobre histórias de fantasia, que serve de abertura a este texto, é usado na maioria dos cursos de literatura em universidades de língua inglesa e serviu de modelo para gerações de escritores pós Segunda Guerra. Esse conjunto de realizações teve influências no SdA e nas outras obras da Saga. Contra Tolkien pesa, além da sua natural formação vitoriana (e conservadora), sua tentativa de perfeccionismo. Seus escritos eram revisados e re-escritos um sem número de vezes (tanto é que seu filho conseguiu editar nada menos que 12 volumes com as diversas versões dos textos do Silmarillion e SdA). Entretanto, quando não havia mais espaço para novas anotações ele simplesmente escrevia tudo de novo, porém baseando-se na memória (segundo conta o próprio filho). Isso causou um sem número de grafias para o mesmo nome e, claro, inconsistências menores dentro dos textos (vide a clássica questão da origem dos Orcs). Já após o sucesso do SdA, pressionado pelas incontáveis hordas de fãs, ele ainda tentou – sem muito sucesso, diga-se – compatibilizar alguns pontos ao longo daquelas obras. Com isso surgiram textos sobre a reencarnação dos elfos, se Glorfindel era ou não o mesmo elfo de Gondolin, sobre o corpo e espírito não só dos elfos mas também dos seres corrompidos por Morgoth, se Morgoth podia apenas corromper ou tinha o poder de também criar, etc... Esses textos (ou pelo menos aqueles que podem ser razoavelmente recuperados) foram publicados na série “History of Middle Earth” e podem servir de referência ao leitor mais curioso (embora praticamente apenas se encontrem na língua inglesa).</P>



    <HR>
    No entanto esses problemas podem ser considerados menores face ao conjunto da obra e à sua qualidade, linguística e literária. A melhor abordagem às obras de Tolkien é simplesmente apreciá-las como o são, algumas das melhores histórias existentes na literatura mundial.</P>
     

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