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Clarice Lispector namorada de Fernando Pessoa?

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Cassio Barros, 20 Jan 2011.

  1. Cassio Barros

    Cassio Barros Usuário

    _ Clarice Lispector foi sim namorada do Fernando Pessoa.

    _ Claro que não. Ela morava no Brasil e ele em Portugal. Eles nem se conheciam. Esse é seu defeito: fazer afirmações sobre o que não tem certeza.


    Não pude ouvir muita coisa além daquela discussão sobre os dois escritores terem tido ou não um romance. Embora preferisse surpreender aquelas duas meninas discutindo sobre as características da obra de cada autor, até que fiquei feliz ao constatar o interesse delas por nomes que não fossem apenas Justin Bieber ou Lady Gaga. Se não fosse minha estranha timidez (um dos meus defeitos), teria dito a elas que Clarice tinha mais ou menos a idade delas quando Fernando Pessoa morreu de cirrose aos 47, o que teoricamente inviabilizaria o suposto romance dos dois.

    Cheguei em casa exausto. Separei na bancada os ingredientes para os crepes que iria preparar, me servi de uma taça de vinho e tirei os sapatos. Ainda de meias, sentei-me no sofá, apoiando as pernas na mesa de centro. Aquela história sobre Clarice Lispector ser contemporânea de Fernando Pessoa não me saia da cabeça.

    Já tinha começado a preparar os crepes quando ouvi batidas na minha porta. Quase cai para trás. Era Clarice Lispector. Não entendi nada. Ela foi logo entrando e me pedindo um cinzeiro. Sem parar de fumar foi falando:_ Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

    _ Tudo bem, dona Clarice, mas é que...

    Não tive chance de completar meu raciocínio. Ela logo me interrompeu:_ Já sei o que você vai dizer. Que pensou que eu estivesse morta e que talvez você esteja ficando louco. Sabe, meu filho, é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo? Mas deixemos de reflexões existenciais. Continue o que estava fazendo. Afinal, eu só bati na sua porta porque senti esse aroma vindo daqui.

    _ A senhora aceita alguma bebida enquanto eu termino de preparar os crepes?

    _ Gosto dos venenos os mais lentos! As bebidas as mais fortes! Dos cafés mais amargos! E os delírios mais loucos. Você pode ate me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: E daí eu adoro voar!!!
    _ O que é isso, dona Clarice? Longe de mim, querer empurrá-la de onde quer que seja. Nem mesmo a senhora confundindo minha cabeça, tentando se passar agora por Bruna Lombardi, eu faria isso. Olha, tenho vinho.

    _ Nunca aprendi a fazer crepes. Na verdade, nunca aprendi direito sobre essas coisas do cotidiano. O que me mata é o cotidiano. Eu só queria exceções. Mas me fale sobre essa receita.

    _ Para a massa do crepe eu bato no liquidificador ½ xícara de farinha de trigo, uma de leite, um ovo, uma pitada de sal e uma de noz moscada. Coloco azeite na frigideira antiaderente e com uma concha vou colocando pequenas porções da massa líquida. Ela seca rápido. Asso de um lado e depois de outro. Dá pra fazer vários crepes com essa quantidade de massa. Depois é só rechear com a mistura de presunto de peru defumado, queijo mussarela, tomate fresco picado, folhas de manjericão e azeite. Desculpa meu nervosismo, mas é que nunca me imaginei...

    _ Deixe-me adivinhar. Você acha que tudo isso aqui não faz sentido algum, não é mesmo? Olha, não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.

    Já estávamos sentados, comendo o crepe quando ouço batidas na minha porta novamente. Vai parecer loucura. Vocês não vão acreditar, mas lá estava Fernando Pessoa._ Deixe-o entrar, meu filho. Ele me segue no Twitter. Deve ter visto o que eu acabei de twiitar do meu celular: “comendo crepe na casa do Cassio”.

    _ Foi isso mesmo. Não resisto a um crepe. Peco pela gula. Esse é um de meus defeitos.

    _ Fernando, até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

    _ Também vejo por esse prisma, Clarice. Se os defeitos existem, existem por algum motivo. Até os defeitos valem a pena. Na verdade, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

    Foi então que me levantei do sofá assustado. Acordei daquele sonho que parecia mesmo real. As batidas enérgicas na porta interromperam meu cochilo. Era minha vizinha, que pela segunda vez tentava falar comigo. Meu carro impedia a passagem do carro dela no estacionamento.

    http://www.entretemperosepalavras.blogspot.com
     
  2. Tayana

    Tayana Usuário

    Gente, que sensacional, dois gênios...
     
  3. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    O que é que tinha nesse crepe, afinal? LSD? Mas acho que esse cozinheiro não estava bem da cabeça desde o começo. Deve ter alucinado com garotinhas falando de Fernando Pessoa e Clarice Lispector. Se fosse eu, já teria engolido meu Prozac logo no começo. Mas fiquei pensando: a Clarice era uma morta viva? Apareceu com algodão enfiado nas narinas?
     
  4. Cassio Barros

    Cassio Barros Usuário

    hehehe...cada ser, um mundo. Não é por acaso que o contato do leitor com o texto fora da cabeça do autor produz um novo texto. Valeu, Luis Henrique. Abraço.
     
  5. Thorondir

    Thorondir Usuário

    Acho que a Clarice nunca falaria algo do tipo "Você pode ate me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: E daí eu adoro voar!!!".

    Cuidado com o fantasma dela, que se ela ler isso, você pode ter problemas. :P
     
  6. Cassio Barros

    Cassio Barros Usuário

    Ainda bem que você notou que essa fala não é mesmo dela, Tauil. Isso foi uma brincadeira que fiz com o fato dessa fala ter se tornado popular na internet depois que alguém atribuiu a autoria a Clarice. Esse trecho, na verdade, é de autoria da BRUNA LOMBARDI. O título do poema é ALTA TENSÃO. Está no livro "O perigo do dragão ". Se você voltar à leitura do meu texto vai perceber melhor esse objetivo.
    Abraço
     

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