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Cientificidade da economia

Tópico em 'Ciência & Tecnologia' iniciado por Haran Alkarin, 5 Jun 2014.

  1. Haran Alkarin

    Haran Alkarin Usuário

    Opa...

    Tópico onde proponho discutir até que ponto a economia é científica.

    Em princípio (isto é, a despeito de dificuldades técnicas) seria possível falsear uma teoria econômica (isso é, mostrar que uma teoria é errônea mediante dados retirados da experiência)?

    Nesse sentido, por que visões tão diferentes de fenômenos econômicos (por exemplo, o keynesianismo e a visão da escola de Chicago) coexistem sem aparentemente expectativas ou projetos que visam contrapor essas duas visões de forma mais definitiva? Isto é, identificar um ponto fortemente divergente dessas duas visões, e confrontá-la com a experiência (em um sentido lato)? Ou, se isso já foi feito, por que persistem essas visões altamente divergentes?

    É isso.
     
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  2. Grimnir

    Grimnir Usuário

    Acho que o problema central é que não é possível realizar experimentos controlados para testar as teorias, diferente do que acontece com a Física, por exemplo. Assim sendo, podemos dizer que a Economia estuda uma única realização de um processo estocástico. É meio difícil de identifica o processo gerador de dados (keynesianismo e a escola de Chicago, como você citou) se só há uma realização desse processo.
     
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  3. Fëanor

    Fëanor Fnord Usuário Premium

    Exato. Outro ponto, aliado a esse: por lidar com um sistema de altíssima complexidade (a sociedade), onde não é simples (ou sequer é possível de fato) isolar causa e efeito, há sim dificuldades em falsear certas proposições.

    Acho que é preciso ter em mente que a economia - assim como outras ciências sociais - não é "hard science". Confesso que acho meio problemático pensar em algo como "soft science", mas é a única maneira de abarcar as ciências sociais, que são incapazes de lidar com experimentos controlados, mas ainda assim se fundamentam no método científico para formar conhecimento.
     
  4. Haran Alkarin

    Haran Alkarin Usuário

    Mas "experimentos controlados" em que sentido? A astronomia e a paleontologia, por exemplo, não apresentam experimentos plenamente controlados, no sentido que o cientista tem que lidar com os astros e os fósseis que a natureza lhe concedeu. Embora em situação evidentemente mais complicada, vejo a economia em essência na mesma situação, com um amontoado de fenômenos econômicos que ela não pode reproduzir à vontade, controlando e isolando as variáveis do fenômeno. Mas isso não impediria ela de reconhecer padrões, ou mesmo fazer previsões baseadas nesses padrões. Nesse sentido não entendo essa questão dos experimentos controlados como um motivo suficiente para visões de mundo tão divergentes e ainda assim tão duradouras em uma atividade científica.

    Seguindo o que vocês falaram, é esperado que, com maior capacidade de processamento e análise de dados, essas dificuldades referentes à complexidade dos fenômenos econômicos tendam a diminuir, ou há uma dificuldade ainda mais intrínseca, ligado aos fundamentos conceituais de cada uma das diferentes escolas econômicas?
     
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  5. Morfindel Werwulf Rúnarmo

    Morfindel Werwulf Rúnarmo Geofísico entende de terremoto

    Mas astronomia e paleontologia lidam com física, química, biologia e geologia. Com conceitos que podem ser testados e reproduzidos (ou observados) em laboratório. São fenômenos que apresentam padrões. É o que define ciência. Além do método científico tem a apreciação dos pares. Onde os resultados são avaliados por colegas e julgados se são corroborados pelas teorias conhecidas de então. Com ciências humanas e sociais não há nem um nem outro. Se tratam de teorias que só podem ser julgadas e avaliadas na prática. Qualquer tentativa de previsão está sujeita a muitas variáveis (humanas em geral) o que as tornam "não testáveis" nem são possíveis de serem apreciadas pelos pares, se fosse assim não haveria tantas interpretações nem pontos de vista sobre os mais variados fenômenos.

    Se um físico vem com uma teoria a tal teoria só será considerada séria se for baseada em alguma teoria científica. Se for puramente achismo não é ciência.
     
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  6. Haran Alkarin

    Haran Alkarin Usuário

    Achei um artigo aparentemente interessante, pois sintetiza e linka artigos com opiniões diversas sobre o assunto. Ainda não analisei com mais cuidado, mas aí está:


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    SARANYA KAPUR
    OCT. 24, 2013, 12:17 PM

    Two weeks ago,
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    were awarded the Nobel Prize in Economic Sciences for their contributions to "Trendspotting in Asset Markets."

    Since then, some thinkers have questioned whether economics deserves to be called a "science".

    Here is a round-up of their arguments:

    Liam Halligan (Telegraph UK): "
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    "


    • Economics isn't a science, and as a field, doesn't deserve a Nobel along with the hard sciences like Physics, Chemistry and Medicine.
    • Unlike scientists, economists don't provide solutions to the broad, macro problems humans face today.
    • The research findings of the 2013 winners don't agree with each other, which is the opposite of what "science" is.
    • Economics relies too much on "soft" fields like politics, sociology and history to be a science.
    "Economics is a study of human behaviour – above all, the allocation of scarce resources between competing ends. It requires the analysis of economic, commercial and financial life in all its institutional richness, or it is nothing. A solid grounding in theory and numeracy is essential but so, too, are broad dashes of politics, history, sociology and common sense.

    Recent “Nobel” recipients have been rewarded, instead, for work that claims to have established “certainties”, made “findings” and discovered “relationships” – all of which, when it comes to economics, is bunkum."

    Raj Chetty (New York Times): "
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    "

    • Just because economists disagree does not mean that economics is a "fake" science. Economists today are approaching problems using an empirical, scientific method.
    • While economists may not be close to solving the big picture, "macro" issues with the economy, they have had considerable success with empirically testing "micro" solutions.
    • "Big data" has also helped, as economists now have access to millions of data points which enables them to isolate causal relationships. For example, a
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      with a 2.5 million student dataset was able to isolate the causal effect of high-quality teachers on students’ outcomes as adults.
    "Consider the politically charged question of whether extending unemployment benefits increases unemployment rates by reducing workers’ incentives to return to work. Nearly a dozen
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    have analyzed this question by comparing unemployment rates in states that have extended unemployment benefits with those in states that do not. These studies approximate medical experiments in which some groups receive a treatment — in this case, extended unemployment benefits — while “control” groups don’t."


    Paul Krugman (New York Times)- "
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    "

    • Economics is a science because it can be approached scientifically, and its theories can be tested.
    • However, economists aren't scientists because most of them are too politically polarized to view their findings objectively.
    "Whole subfields of economics, notably but not only business-cycle macro, have spent decades chasing their own tails because too many economists refuse to accept empirical evidence that rejects their approach...all too many economists treat their field as a form of theology instead."

    Caroline Baum (Bloomberg View)- "
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    "
    • With hard sciences like physics, scientific results can be repetitively duplicated, whereas the answer to most of the big economic questions is usually "it depends".
    • Chetty cites examples of studies in unemployment that use the scientific method, but similar studies on the same topic have given wildly varying
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    "Chetty admits that the “fundamental challenge” faced by economists is “our limited ability to run experiments.” Economists may try to hold everything else constant -- “ceteris paribus” -- to test a single variable, but they can’t. Nor can their econometric models, no matter what the economists claim."

    Whoever can put an end to this debate may or may not deserve a Nobel Prize.
     
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  7. Fúria da cidade

    Fúria da cidade ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ

    Me lembro de ter estudado Economia no primeiro ano de engenharia elétrica a "Lei dos rendimentos marginais decrescentes" e que usava como exemplo clássico de uma fazenda. Consideremos em uma produção de arroz dois fatores – terra (fixo) e mão de obra (variável).

    Se a quantidade de terra for constante, os aumentos da produção dependerão do aumento da mão de obra utilizada na lavoura. Nesse caso, a produção de arroz aumentará até certo ponto, mas depois, decrescerá. Assim, a maior quantidade de homens para trabalhar, associada à área constante da terra fará com que a produção cresça inicialmente até certo ponto e após esse período, passe a decrescer.

    Esse talvez pra mim seja um dos poucos exemplos de "análise científica" da economia onde dá pra se fazer um pequeno laboratório de ensaio, mas que concordo que de maneira geral é difícil e complicado pras grandes teorias econômicas e lidando com muitas variáveis.
     
  8. Grimnir

    Grimnir Usuário

    Concordo em parte. Realmente você deu dois bons exemplos. Apesar da astronomia e paleontologia não poderem recriar experimentos, ambas as ciências extrapolam conceitos de outras ciências que podem fazer tais repetições (física e química, por exemplo). Eu não sei, no entanto, se as teorias da astrologia podem afirma categoricamente alguma coisa ou se suas conclusões podem apenas não ser rejeitadas (que é diferente de aceita-las, estatísticamente falando).

    Voltando para a economia, entendo que não temos nenhuma ciência-mãe para sustentá-la. Diz-se que é uma ciência humana aplicada, mas as próprias ciências humandas não são tão científicas asssim, né? Talvez o conceito mais fundamental para ciência econômica seja o comportamento humano, ou como nós tomamos decisões. Existe um lado experimental da economia que procura verificar isso, mas mesmo assim é muito falho. Pq? Pq os experimentos não podem ser perfeitamente controlados. Antes de tirar uma conclusão sobre um experimento econômico, por exemplo, seria necessário estudar se há características individuais não contempladas afetando as decisões individuais.

    Tentando responder a sua pergunta, acho que ainda há uma dificuldade ligada aos conceitos mais fundamentais das escolas. Quase uma questão filosífica.
     
  9. Pearl

    Pearl Usuário

    Astronomia :P


    Hmm. O que eu vou falar é mais uma dúvida. No caso um modelo probabilístico, estatístico, não tentaria corrigir um vies ou tentaria levar em conta uma série de variáveis com a finalidade de normatizar o estudo? Nesse caso, um modelo teórico não poderia ser reproduzível?

    Estabelecer controles perfeitos talvez seja mais fácil na física. Na biologia ou se prende a um modelo perfeito mas o que você chegar de resultado será aplicado apenas ao modelo que nem sempre será extrapolável a outras situações, ou você tentar avaliar as variáveis sobre um modelo e no momento da análise levá-las em conta estatisticamente. Nesse caso um bom delineamento experimental é fundamental. Por exemplo, eu trabalho com estudo em humanos, pacientes, que nunca serão modelos perfeitos (não são ratos de laboratório, com ambiente e alimentação controlados), mas mesmo assim uso de medicamentos ou comorbidades são levadas em conta durante a análise estatística numa tentativa de normatizar. Engraçado, que apesar de ser um fator limitante a resposta de uma pergunta básica justamente por não possuir um controle perfeito, essa resposta obtida é muito mais próxima a população em geral.
     
  10. ExtraTerrestre

    ExtraTerrestre Usuário

    Outro fator importante para a dificuldade de se testar a economia são os fatores políticos. Embora seja possível realizar observações sobre as opções pessoais de consumo, por exemplo, fazer modelos macroeconômicos é muito mais desafiador.

    Como que você vai criar, sei lá, no meio do deserto americano, uma "cidade anarco-capitalista", uma "cidade socialista" e uma "cidade keynesiana" - as três isoladas e autossuficientes - para verificar os resultados teóricos? Quem é que vai permitir que algo que envolve pessoas em uma escala razoavelmente alta seja testado?

    Querendo ou não, o método não-científico, quero dizer, aquele de estudar o comportamento humano a partir de sua subjetividade, foi o que até hoje mais luz conseguiu lançar mais luz sobre os fenômenos econômicos. Mais ciência é preciso, mas para isso acho que vai levar um tempinho ainda.

    EDIT: outra coisa que prejudica muito na hora de tentar modelar a economia é algo que teria algum paralelo com o Princípio da Incerteza. Economia versa sobre intenções, e os diversos atores do mercado mudam seu comportamento ao saber da orientação teórica de quem está nas rédeas da economia. Diferentemente dos astros, nada acontece quando você os observa por um telescópio. E por isso que bolsa de valores, por exemplo, tendem a ser caóticas. O padrão é destruído pouquíssimo depois de ser criado.
     
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  11. Grimnir

    Grimnir Usuário

    Ops! :lol:


    Não entendi. Tem como dar um exemplo?
     
  12. Pearl

    Pearl Usuário

    Rs é complicado. Por isso que eu falei que era uma dúvida. Não sei se eu vou conseguir ser clara.

    Eu vou falar por exemplo mais ou menos do que eu faço, eu estudo lesão vascular em pacientes com demência, com algum comprometimento cognitivo e controle. E como eu disse, pacientes não são modelos perfeitos, eu tento controlar uma série de variáveis. Peso, idade, sexo, se fumou ou não, comorbidades (diabetes, hipertensão, colesterol alto). Para que a princípio eu consiga parear esses três grupos e eu consiga responder a pergunta se um desses três grupos apresentam maior tendência a lesão vascular. Mais para frente em uma análise multivariada eu poderia obter uma resposta, por exemplo, que falasse assim, paciente de sexo tal, com obesidade e diabetes, estão mais propensos a um quadro de demência.

    Vou dar um exemplo na economia, com grande chance de falar muita asneira, mas é só um exemplo:

    Eu tenho uma pergunta do tipo:

    Quais situações econômicas apresentam a maior probabilidade de gerarem situações de bolha?

    Faço um estudo retrospectivo de lugares que passaram pela situação de uma bolha e comparo uma série de parâmetros econômicos, exemplo:

    PIB
    Renda per capita
    Condições de crédito
    Índice de inflação

    Levo para uma análise estatística, tipo uma análise multivariada ou uma correlação e chego a um resultado do tipo, uma maior facilidade de condições de crédito leva a uma maior propensão a geração de bolhas. Um modelo estatístico mais complexo poderia até quantificar e dar probabilidade disso.

    Nesses casos, esse tipo de estudo não seria reproduzível? Ou científico?
     
  13. Fëanor

    Fëanor Fnord Usuário Premium

    Você até pode utilizar modelos estatísticos como o descrito¹, e encontrar resultados que até sejam válidos. O problema é a dificuldade de extrapolação dos resultados, por diversos fatores, dentre os quais: 1) assimilação do conhecimento por parte dos agentes, o que significa que eles podem usar o conhecimento do passado para alterar a trajetória de um evento semelhante em situações futuras; 2) a economia é um sistema não-ergódico, isto é, não é possível afirmar que o futuro se dará como o passado, a dinâmica do sistema sofre mudanças devido à diversos fatores (tecnologias, instituições, comportamentos irracionais, etc.); 3) as diferenças de contextos frequentemente são muito grandes, o que significa que sempre sobram componentes não explicados para influenciar o fenômeno, dentro os quais alguns que inclusive são de mensuração difícil ou impossível, como as preferências dos indivíduos, seus sistemas de valores, etc.

    Esses fatores, no entanto, não impedem que pesquisas encontrem padrões que, ainda que não permitam extrapolação em termos precisos, podem dar uma descrição bastante realista dos principais fatores comuns que estão relacionados com o fenômeno. Por exemplo: você pode encontrar resultados que indiquem que bolhas estão de fato muito associadas à expansões do crédito em níveis muito acima do normal, então você sabe que excesso de crédito pode ser bastante perigoso. Mas então surgem outras questões: o que é um nível de crédito muito acima do normal? Qual é o nível em que isso passa a representar um perigo real? Como é de se esperar, as respostas para tais questões, além de serem de difícil mensuração, podem variar muito em diferentes contextos, tanto no tempo como no espaço.

    Além disso, entram os tais outros componentes que não foram considerados no modelo (seja por falta de dados ou por serem variáveis não mensuráveis). Digamos que estejamos analisando bolhas imobiliárias em específico. Além do crédito, naturalmente eu preciso levar em consideração diversos outros fatores da estrutura de oferta e demanda de imóveis: renda e preferências dos consumidores, estrutura da indústria de construção, características locais (tanto da localização em si quanto de leis e regulamentações sobre construção urbana) e até conexões com outros setores da economia. Ainda, existem outros aspectos de âmbito mais macro que também podem estar relacionados com o fenômeno: estabilidade econômica, perspectivas futuras, fluxos migratórios... Enfim, a questão é que sempre há variáveis adicionais que não entram no modelo. À medida que você consegue incluir mais dessas variáveis, seu modelo torna-se mais preciso, mas também mais específico para aquela realidade e contexto, perdendo parte de sua capacidade de generalização.

    Talvez parte desse trade-off possa vir a ser reduzido com o uso cada vez maior de modelos de big data. Logicamente que uma quantidade imensa de dados também é inútil se não se desenvolverem métodos adequados para seu tratamento e análise. Mas é uma perspectiva interessante que vem surgindo.

    Enfim, eu escrevi isso tudo para dizer que sim, há ciência por trás da aplicação de métodos estatísticos à economia, mas existem inúmeros pontos que demandam muito cuidado na interpretação dos resultados obtidos, assim como existem diversas fragilidades nos próprios métodos. O mundo e a economia são demasiadamente complexos, então a tarefa de encontrar padrões, relações, nexos de causalidade é bastante complicada, e sua extrapolação ainda mais. Sabem aquela história de que o único mapa que pode explicar uma dada região com 100% de fidelidade é equivalente à própria região? Com a economia não é diferente. Usar modelos naturalmente implica em perder algo, e às vezes é o detalhe faltando que pode mudar toda a história, uma vez que sistemas não-ergódicos são muito sensíveis à condições iniciais. Por maior que fosse a quantidade de dados que você dispusesse e por mais robustos que fossem os métodos à sua mão, muito dificilmente você poderia prever um evento como o 11 de Setembro (eventos que o Nassim Taleb chama de Cisnes Negros) e todo seu impacto sobre a sociedade.

    ----

    ¹: eu inclusive cheguei a utilizar uma ideia semelhante na dissertação, utilizando de um método que cria uma distribuição contrafactual para verificar diferenças entre indivíduos pertencentes à grupos diferentes (no meu caso, o objetivo era verificar a diferença de rendimentos entre trabalhadores formais e informais)
     
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  14. Paganus

    Paganus Visitante

    Não se pode estudar os fenômenos econômicos, sociais e históricos como se estuda os fenômenos físico-químicos, biológicos, simplesmente porque se tratam de fenômenos de natureza diferente, de apreensão cognitiva diversa, de natureza de objeto completamente diferentes. Isso é meio óbvio mas parece que o cadáver positivista insiste em se levantar de sua tumba e querer reduzir toda a realidade, mesmo a realidade que é, por sua própria natureza, irrepresentável cientificamente, imensurável, que escapa a essa objetificação, a essa reificação característica. Não que eu queira dizer que o método das ciências naturais, aliás, os diversos métodos e teorias sejam formalmente errados, necessariamente fechados mas é um fato que querer estender a natureza de um dado físico para a natureza de um dado social, em termos cognitivo, é uma heresia, uma blasfêmia epistemológica.

    Isso é meio óbvio até, mas deveria se ter em mente primeiro proceder a uma análise madura, talvez mesmo fenomenológica, dos objetos, apurar suas naturezas, condicionamentos, as formas de seus relacionismos e objetificações, enfim, enfrentar esse eterno problema da epistemologia das ciências humanas e sociais de frente, com coragem e firmeza, e de forma una, interdisciplinar, congregando o mundo das ciências e da reflexão filosófica, linguística, histórico-social.

    Ficar se focando se esta ou aquela ciência, pela sua própria natureza, é 'científica' ou não, não é só um erro grosseiro e antiquado, mofado mesmo, além da ingenuidade daqueles que assim procedem, crendo que essa simples proposição é ideologicamente neutra.

    Eu não considero a economia uma ciência mas não posso afirmar que essa minha condenação de sua cientificidade não seja ideológica. É óbvio que é ideológica, está diretamente atrelada à minha crítica da modernidade em sua idolatria pelo fenomenismo econômico, por uma apreciação quase que estritamente materialista da vida, das relações humanas, das formulações e enunciações cognitivas, éticas, estéticas etc.

    Outro ponto a se colocar: independente da economia ser uma ciência ou não, como posso colocar essa questão sem me manifestar ideologicamente, ou seja, cientificamente, objetivamente? E, se não for possível assim pensá-la, se a economia, como a linguística e outras ciências humanas, for enformável, influenciável, formada por toda uma carga de posicionamentos ideológicos seja na elaboração de suas teses seja na descrição dos fenômenos, de que forma posso articular um pensamento que, se não puder esbater a multipolaridade ideológica aqui presente, possa apresentá-la em sua inteiridade, para uma reformulação epistemológica.

    Esse é o eterno e não resolvido drama gnosiológico de todas as ciências humanas...
     
  15. Pearl

    Pearl Usuário

    Bom, eu vou falar uma opinião bem pessoal. Extrapolação de resultados é difícil! Simples. De novo, eu vou falar que por exemplo, o resultado da minha pesquisa também vai ser um resultado daquela população em si. Pode ser que no Japão por exemplo, por razões genéticas, alimentares ou mesmo culturais, esse resultado não seria reproduzível lá. E aí entra o que você falou:

    E é assim que o conhecimento vai sendo formado. Com hipóteses sendo testadas e retestadas, enfrentando suas limitações, mas mesmo assim produzindo resultados válidos. Quando a gente sai da estatística e vai para modelos matemáticos provavelmente você tem resultados mais robustos e com reprodutibilidade maior. Mas se eu pensar mesmo na física, até o século 19, centrada principalmente na mecânica clássica de newton, não conseguia extrapolar seus resultados para eventos num mundo muito micro ou de grandes corpos. E o que aconteceu no século 20? A física se partiu em três, física clássica, quântica e relativistica.

    Por isso que eu falo que extrapolar resultados é algo em si difícil, mas isso faria das ciências econômicas em uma não ciência? Eu sinceramente acho que não.

    Talvez nesse contexto de ciência, o maior desafio das ciências econômicas seja algo que está no texto do Haran:

     
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  16. LuizWsp

    LuizWsp A torch in the dark In Memoriam

    Gostei da discussão. Não tenho muito a acrescentar porque sou meio leigo no assunto.

    Sempre procuro olhar as coisas de forma objetiva. Nesse assunto em questão, o que importa pra mim não é o quanto a economia pode explicar um fenômeno que aconteceu, mas sim se pode nos ajudar a prever um fenômeno que ainda não aconteceu.

    Na meteorologia, por exemplo, não me interessa muito como são formadas as tempestades, mas como esse entendimento pode nos trazer o benefício de controlar ou no mínimo prever o comportamento delas.

    Não tenho muita certeza, mas me parece que existem milhares de economistas estudando e trabalhando com análise de mercado e finanças no mundo todo e mesmo assim as crises chegam sem nenhuma forma de aviso, e algumas crises que vários deles alertam nunca chegam a acontecer. Por isso sou inclinado a achar que tudo isso não passa de achismo.

    Já fiz alguns cursos e li alguns livros sobre bolsa de valores, por exemplo, e apesar de todos tentarem se basear em números e gráficos, eu saía de todos eles com a sensação de que o pessoal estava tentando adivinhar um evento aleatório com base em eventos passados, o que não existe em estatística.

    Talvez no futuro torne-se uma ciência, mas atualmente, acho que é tudo especulação.
     
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  17. Ranza

    Ranza Macaco

    Na verdade Luiz, muitos previram as crises que passamos recentemente, e muito ainda prevem coisa pior, mas nesse ponto vale citar de novo o que o Haran falou e a Pearl ressaltou.

    As vezes você não precisa ser gênio para prever que algo está acontecendo e que aquilo vai feder, mas precisa ser desapegado o suficiente para mudar seus conceitos e evitar que aquilo aconteça. Muitas crises econômicas ao longo da história aconteceu por causa de gente que simplesmente se prendia as teorias de um determinado pensamento, e olha só, após que elas estouraram, criaram se novas teorias e modelos por simplesmente as pessoas não aceitarem os ocorridos, Keynes é um exemplo disso.
     
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  18. Fúria da cidade

    Fúria da cidade ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ

    Justamente por ter uma essência que começa nos hábitos de consumo da sociedade é que é complexo analisar a economia cientificamente como um todo e mesmo entre os países, um modelo econômico pode ser excelente pra um, razoável pra outro e péssimo pra outro. Dá pra prever algumas coisas, mas não tudo. Embora seja um segmento que acho um porre estudar, respeito pela complexidade das variáveis com que tem que lidar e que não é fácil gerenciar.
     
  19. Ranza

    Ranza Macaco

    Mas o fato de que modelos diferentes funcionam em lugares diferentes não descaracteriza o caráter científico não.
     
  20. Morfindel Werwulf Rúnarmo

    Morfindel Werwulf Rúnarmo Geofísico entende de terremoto

    Caracteriza. Uma característica do método científico é a repetição dos resultados. Se sob mesmas condições surge um novo resultado os resultados passados "não servem pra nada".
     

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