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Chutando o Hobbit

Tópico em 'Artigos Valinor' iniciado por deriel, 6 Abr 2016.

  1. Deriel

    Deriel Administrador

    deriel enviou um novo Artigo

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    Quando se trata dos romances de fantasia de J.J.R. Tolkien, a verdade é
    que os crÃticos ou os amam ou os odeiam: com relação à Terra-média, não
    há meio-termo. Este tem sido o caso desde que Tolkien, um filólogo de
    Oxford, publicou pela primeira vez seu romance épico O Senhor dos Anéis em três volumes (A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei),
    entre 1954 e 1955. Em 1956, W.H. Auden escreveu no New York Times que,
    em alguns aspectos, a história de Tolkien sobre a demanda do hobbit
    Frodo para destruir o “Um Anel� de Sauron ultrapassava até mesmo a obra
    Paradise Lost, de Milton. Mas naquele mesmo ano, Edmund Wilson, que
    naquela época era um homem de letras proeminente na América, rejeitou O Senhor dos Anéis como sendo uma “bobagemâ€?, em uma crÃtica para o The Nation,
    intitulada “Ooh, Aqueles HorrÃveis Orcsâ€?. Wilson também atacou os
    defensores de Tolkien, como Auden e C.S. Lewis, observando que “certas
    pessoas – talvez especialmente na Grã-Bretanha – têm um apetite
    vitalÃcio por lixo juvenil.â€?






    A crÃtica zombeteira de Wilson inaugurou uma estimável tradição de
    ataques a hobbit, mas o resistente sucesso da ficção de Tolkien tem
    prejudicado seus detratores literários. Em 1961, Philip Toynbee
    escreveu de forma otimista, no The Observer de Londres, que os trabalhos de Tolkien haviam “partido para um esquecimento misericordiosoâ€?. Quarenta anos depois, O Senhor dos Anéis já vendeu 50 milhões de cópias em inúmeras lÃnguas, influenciando tudo, desde Star Wars até Led Zeppelin, e desenvolvendo por si só o gênero de ficção de fantasia no processo. (O romance de Tolkien de 1937, O Hobbit,
    vendeu quase a mesma quantidade de cópias). Nos dias de hoje, os fãs de
    Tolkien estão fazendo a contagem regressiva das semanas que faltam até
    dezembro, quando A Sociedade do Anel, o primeiro dos três arrasa-quarteirão de Tolkien projetados pela New Line, estreará nos cinemas.





    Na Grã-Bretanha, os méritos literários de Tolkien têm sido o assunto de
    muitos debates públicos. Em 1996, uma pesquisa de 26.000 leitores feita
    pela loja de livros Waterstone coroou O Senhor dos Anéis como “livro do século�. Escrevendo na W: The Waterstone’s Magazine,
    Germaine Greer expressou seu descontentamento com os resultados da
    pesquisa. “Desde que cheguei a Cambridge como estudante em 1964 e
    encontrei uma tribo de mulheres adultas usando mangas bufantes,
    abraçando ursinhos e tagarelando com excitação sobre os feitos de
    hobbits, tem sido meu pesadelo que Tolkien pudesse se tornar o escritor
    de maior influência do século XX. O sonho ruim se materializou.�





    Em sua curta introdução para a edição crÃtica de “O Senhor dos Anéisâ€? de J.R.R. Tolkien,
    feita no ano passado pela Chelsea House, Harold Bloom – o famoso
    “Falstaffiano� professor de inglês de Yale que se auto-designou
    guardador da grande lista da literatura Ocidental – chama o romance de
    Tolkien de “inflado, escrito em demasia, tendencioso e moralista ao
    extremo�. Bloom conclui: “Se Tolkien é ou não um autor para o próximo
    século me parece algo aberto à dúvidas.�





    No entanto, o fato de que Harold Bloom editou dois livros de crÃticas sobre Tolkien sugere que O Senhor dos Anéis
    pode estar à beira de alguma forma de inclusão no cânon da literatura.
    Certamente há suficiente conhecimento sobre Tolkien aà afora para
    confirmar isso. A adoradora legião de defensores literários de Tolkien
    insiste que a história dos hobbits e da Terra-média é um trabalho
    literário notável, original e, acima de tudo, totalmente moderno, que
    tem sido injustamente difamado por literatos esnobes.





    Embora ainda marginalizados na academia, os Tolkenianos podem estar ganhando espaço. Em maio, a Houghton Mifflin publicou J.R.R. Tolkien: Autor do Século,
    uma extensa defesa da ficção de Tolkien feita pelo professor da
    Universidade de St. Louis T.A. Shippey. Shippey é um estudioso sério, e
    de fato passou a ser detentor da cadeira de lÃngua inglesa e literatura
    medieval na Universidade de Leeds, quando Tolkien a deixou vaga em
    1925. O livro de Shippey foi lançado um ano atrás no Reino Unido e
    causou debates tipicamente cruéis: um crÃtico a rejeitou como sendo “um
    trabalho de polêmica tÃpica de revistas de fãs discutido de forma
    beligerante.�





    No começo do mês, o Instituto Medieval da Universidade Ocidental de
    Michigan em Kalamazoo – cuja reunião anual é o ponto zero para
    medievalistas profissionais – devotou três sessões inteiras a Tolkien
    pela primeira vez. O conhecimento de Tolkien havia há muito atraÃdo os
    medievalistas; seu famoso texto de 1936, “Beowulf: O Monstro e os CrÃticosâ€? foi recentemente anotado pelo poeta da Universidade de Harvard (e tradutor de Beowulf) Seamus Heaney como “a publicação que se destacaâ€? em matéria de crÃticas a Beowulf.
    “As pessoas estão começando a levar Tolkien seriamente�, diz o
    professor de inglês da Universidade de Maryland e apresentador em
    Kalamazoo Verlyn Flieger, que publicou dois livros sobre Tolkien. “Ele
    já esteve morto por tempo suficiente.�





    Em certos aspectos, o conhecimento sobre Tolkien lembra o conhecimento
    sobre James Joyce, digamos, ou sobre William Faulkner. CrÃticos
    derramam-se sobre a correspondência de Tolkien e seus papéis e
    rascunhos não-publicados – muitos dos quais foram postumamente lançados
    por seu filho e promotor literário Christopher Tolkien – buscando dicas
    sobre a mente e universo imaginado do escritor. Há biografias e
    bibliografias de Tolkien; há organizações de estudos sobre Tolkien; há
    Tolkenianos de universidades assim como inúmeros independentes.





    Da mesma forma que aconteceu com Joyce, a linha entre estudos sobre
    Tolkien e grupo de fãs de Tolkien fica um pouco tênue. Considere a
    professora de inglês Jane Chance, da Universidade de Rice, que
    organizou os painéis de Tolkien no Kalamazoo, publicou dois livros
    sobre Tolkien e ensina “Inglês 318: J.R.R. Tolkien�. O resumo soa como
    muitas outras aulas de literatura das faculdades: “O curso traçará a
    tensão entre o exÃlio ... e a comunidade, diferenciação e heroÃsmo,
    identidade e marginalização, vingança e perdão.�





    Mas quando perguntei à Chance como é ensinar Tolkien, a resposta dela
    foi surpreendente: “Eu posso apenas responder de forma muito pessoal,
    por ter ensinado Shakespeare e Tolkien: não vejo nenhuma
    diferença.�.Certamente que O Senhor dos Anéis
    é um texto rico e de várias camadas, e que seu autor era um homem de
    grande conhecimento e imaginação que criou um vasto e detalhado mundo
    ficcional de surpreender a mente, completo com sua própria história,
    civilizações e lÃnguas. Fazer um tour pela Terra-média com Tolkien pode
    ser como fazer um tour pelo Mediterrâneo com Heródoto. Ainda
    assim, quando os Tolkenianos conclamam as honras de “autor do século� e
    atacam as cercas ao comparar seu homem com o Bardo, não é de se admirar
    que os tipos como Harold Bloom estejam evitando dar seu selo de
    aprovação.





    Além disso, parte dos problemas para alguns dos mais céticos crÃticos é
    a cultura polÃtica que o cercava. Alguns detratores, como Greer, não
    conseguem esquecer os anos 60, quando pichações e camisetas “Frodo
    Viveâ€? eram abundantes. Apesar das polÃticas católicas conservadoras –
    alguns diriam reacionárias – de Tolkien, O Senhor dos Anéis tornou-se
    leitura obrigatória para adeptos da contra-cultura durante a era do
    Vietnã. Os ativistas anti-guerra viram, no conselho do mago Gandalf de
    destruir o poderoso porém corruptor Anel, em vez de usá-lo como uma
    arma contra Sauron, uma clara alusão ao flagelo das armas nucleares.
    Defensores do meio-ambiente, enquanto isso, apontaram para os amados
    Ents de Tolkien, as criaturas arbóreas ruminantes que “despertam� para
    proteger sua floresta de Fangorn do amante de machados Saruman – que
    com sua mente de metal e rodas ... não se importa com coisas que
    crescem, exceto as que lhe servirem no momento�. E também há os
    freqüentes intervalos dos hobbits para aproveitar os cogumelos e “erva
    de fumo�. Adeptos da maconha sentiram que sabiam exatamente onde
    Tolkien estava se dirigindo.





    O próprio Tolkien não era fã desses fãs, dentre os quais alguns até
    hoje encaram o famoso comentário “Eu sou de fato um hobbit� como um
    convite para se encontrarem e se vestirem como os personagens da obra.
    David Bratman, antigo editor do informe sobre estudos tolkenianos
    Mythprints, diz que os “cultos deploráveis� a Tolkien (nas palavras do
    próprio autor) não deveriam ser usados contra ele (Tolkien). “Artistas
    não deveriam ser culpados por atraÃrem seguidores tolosâ€?, concordou
    outro crÃtico britânico em 1992, “—ou se devessem ser culpados,
    deverÃamos também depreciar Blake, Byron, e D.H. Lawrence.â€?





    Fãs vestidos de elfos à parte, por que não deveria ser admitido o
    ingresso de Tolkien ao panteão literário? Bom, uma razão, alegam seus
    detratores, é que sua prosa é intoleravelmente arcaica. “Às vezes,
    lendo Tolkien, me recordo do Livro de Mórmon�, escreve Bloom. Os versos
    de Tolkien – que recheiam o texto de O Senhor dos Anéis – é geralmente
    considerados até piores.





    Mas as objeções crÃticas a O Senhor dos Anéis não são meramente
    estilÃsticas; muitos consideram as sensibilidades de Tolkien
    pré-modernistas, até mesmo retrógradas. A visão de mundo de Tolkien
    estava longe de olhar para frente. Ao contrário, seus traumas de
    juventude da Primeira Guerra Mundial o tornaram recluso e devotamente
    anti-moderno para o resto de sua vida. “Alguém precisa passar
    pessoalmente sob a sombra da guerra para sentir sua opressão�, escreveu
    Tolkien. “Por volta de 1918, todos os meus amigos mais próximos estavam
    mortos, menos um.â€? E assim Tolkien enterrou-se no estudo de lÃnguas
    antigas e na construção de uma teoria de fantasia – exposta em seu
    influente ensaio “Sobre Contos de Fadas� – enfatizando seu poder em
    acessar realidades profundas e talvez mÃticas sob a superfÃcie da vida
    cotidiana.





    Freqüentemente, esta teoria – e a literatura que deveria incorporá-la –
    tem sido zombada como sendo escapista. Dessa forma, o fardo ficou a
    cargo dos Tolkenianos mostrar que, apesar de seu arcaÃsmo, Tolkien era
    mesmo assim um autor moderno. Shippey, por exemplo, vê O Senhor dos
    Anéis como um trabalho moderno infalÃvel em sua tentativa, por meio do
    modo fantasioso, de lidar com maior dos traumas do século XX: a
    evidência de mal humano radical apresentado pelas duas guerras
    mundiais. Durante o sÃtio à cidade de Minas Tirith pelas forças de
    Mordor em O Retorno do Rei, Tolkien fornece esta cena de um disparos
    por meio de catapultas:





    “Por todas as ruas e alamedas por trás do Portão caÃam pequenos
    projetos redondos que não explodiam. Mas, quando os homens corriam para
    saber o que poderia ser aquilo, soltavam gritos ou choravam. O Inimigo
    estava arremessando para dentro da Cidade todas as cabeças daqueles que
    tinham caÃdo na luta... Eram horripilantes de se olhar, pois, embora
    estivessem esmagadas e disformes, e alguns tivessem sido cruelmente
    estraçalhadas, muitas ainda conservavam seus traços, indicando que
    aqueles homens tinham morrido em sofrimento.�


    Embora esta chuva de cabeças ocorra num mundo de fantasia, o sentido do
    brutalmente horrÃvel transmite a experiência de Tolkien como veterano
    das trincheiras na I Guerra Mundial. De fato, Shippey agrupa Tolkien
    com George Orwell, Kurt Vonnegut e William Golding como sendo autores
    que se voltaram para fantasia ou mundos imaginários a fim de lidar com
    experiências traumáticas de guerra. Nem 1984, nem Animal Farm – que
    ocuparam o segundo e terceiro lugares, respectivamente, atrás de O
    Senhor dos Anéis na pesquisa da Waterstone – poderiam ser descritos
    como trabalhos de “realismo� literário. No entanto, aceitamos a ambos
    como respostas profundamente sérias e polÃticas à s experiências de
    Orwell com o fascismo e comunismo.





    Tolkien alega que ele jamais cedeu a alegorias em seus escritos, mas
    ele não negou “aplicabilidade�. Dessa forma, O Senhor dos Anéis pode
    ser lido como sua resposta à modernidade, ao mundo das guerras
    catastróficas, armas terrÃveis, e a industrialização, que Tolkien
    sentiu ser a destruidora de sua amada Inglaterra eduardiana e rural
    (representada em seus livros pelo pacÃfico, se não paroquiano, lar do
    “Condado�). E se o Um Anel de Tolkien representa a tecnologia, ou a
    orgulhosa capacidade humana de adulterar a natureza, então a mensagem
    é: destrua-o para sempre.





    Alguns estudiosos enxergam nas anti-tecnológicas visões de Tolkien uma
    poderosa tensão enviro-Luddita [1]. Em seu livro de 1997, Defendendo a
    Terra-média: Tolkien, Mito e Modernidade, Patrick Curry trata Tolkien
    como um tipo de precursor do movimento Verde – um Lorax literário. “Em
    todos os meus trabalhos eu tomo partido das árvores contra todos os
    inimigos delas�, escreveu Tolkien em 1972. Porém, há em Tolkien mais do
    que apenas a admiração pela natureza; há o oposto, uma profunda
    desconfiança em relação a todas as coisas “não naturais�. Quando o mago
    Saruman tem a presunção de remendar a natureza, o Ent Barbárvore reage
    dizendo “Isto seria um mal negro!� Os Jeremy Rifkins e Kirkpatrick
    Sales do mundo – juntamente com outros opositores da pesquisa de
    genoma, clonagem e biotecnologia humana – encontrariam um espÃrito
    familiar em Tolkien. Neste caso, o Unabomber também.





    Mas provavelmente, a razão principal pela qual Tolkien não foi bem
    aceito pela maioria dos crÃticos, é que seus escritos não estão de
    acordo com os princÃpios do modernismo literário. A linguagem de
    Tolkien em sua maior parte aniquila a ironia, suas imagens tendem a ser
    genéricas e, com algumas exceções, seus personagens são inexplorados.
    Em Aspectos de um Romance, que é a marca registrada da teoria
    modernista literária de E.M. Forster, história e enredo são gentilmente
    zombados. Mas em O Senhor dos Anéis, o enredo é, provavelmente, o
    elemento literário mais irresistÃvel. Leitores imersos em literatura
    modernista simplesmente não sabem como responder à prosa de Tolkien.





    Eles também têm trabalho para compreender a abordagem filológica de
    Tolkien: ele estudou literatura e história das lÃnguas com a mesma
    ênfase. Tolkien uma vez escreveu sobre seus livros que “a invenção das
    lÃnguas é a fundação... Para mim, os nomes vêm antes e a história
    segueâ€?. Ao ler isto, os crÃticos compreensivelmente acusaram Tolkien de
    usar jogos de palavras para composição de literatura. Shippey observa
    com tristeza que isto ocorre simplesmente porque, na batalha por
    ascensão em meio a paradigmas literários que competem dentro da
    academia, a filologia perdeu.





    É muito difÃcil agora buscar um curso de filologia do tipo que Tolkien
    aprovaria em qualquer universidade britânica ou americana. Os
    misologistas[2] venceram, no mundo acadêmico; assim como os realistas,
    os modernistas, os pós-modernistas, os desprezadores da fantasia. Mas
    eles perderam fora do mundo acadêmico.





    E é a isto que os Tolkenianos se apegam. Ao celebrar a resistente
    condição de best-seller de Tolkien, eles implicitamente reivindicam um
    mandato para buscar do passado os valores, modos acadêmicos e gostos
    literários que nos permitiriam melhor apreciar seus escritos. E, no
    entanto, considerando seu amplo ataque à modernidade, pode ser que a
    tentativa de pensar em Tolkien como escritor para este século falhe
    inevitavelmente.





    Ainda assim, os Tolkenianos tem a surpreendente popularidade de O
    Senhor dos Anéis a seu lado – um fator-chave na reputação literária de
    Charles Dickens, por exemplo. Alguns Tolkenianos observam, com
    conhecimento de causa, que os filmes que estão para chegar vão, sem
    dúvida, conectar a geração Harry Potter a Senhor dos Anéis (embora os
    puristas possam estar secretamente nervosos sobre McLanche Feliz dos
    Hobbits). Enquanto isso, crÃticas referentes à obra de Tolkien já se
    tornaram um corpo de trabalho substancial, muito do qual não pode ser
    rejeitado de cara como panfletagem de fãs. Quando se trata de Tolkien,
    diz Jane Chance, “o popular se transformou em canônico� – ou, de
    qualquer forma, está ficando cada vez mais assim. Em última análise, a
    estatura literária de Tolkien pode ser garantida por puro impulso.








    Notas de Tradução





    [1] "Ludita" se refere a Ludd, lÃder de uma revolta contra máquina e manufatura, na Inglaterra da Revolução Industrial


    [2] misologistas são pessoas que querem vencer uma discussão, não chegar à verdade através da discussão



    [este texto foi originalmente publicado em 06 de abril de 2001]
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