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Chama Imperecível e Pré-Socrática

Tópico em 'J.R.R. Tolkien e suas Obras (Diga Amigo e Entre!)' iniciado por Fëaruin Alcarintur ¥, 17 Abr 2004.

  1. Fëaruin Alcarintur ¥

    Fëaruin Alcarintur ¥ Alto-rei de Alcarost

    No nosso mundo, é (ou era) função da filosofia buscar um princípio único para tudo. A busca da arkhé (que é grego para, entre outras coisas, "comando"); essa busca reside na esperança de encontrar algo (a arkhé/princípio único) que ordene, dirija, guie todas as coisas; em suma, a physis, que significa em literal, natureza; mas o significado filosófico de physis é melhor representado como sendo gênese, origem, manifestação. Esse era o tema desenvolvido pelos primeiros filósofos, a Escola de Mileto, que viriam a ser chamados pré-socráticos.

    Tales, considerado o primeiro filósofo na tradição clássica, cria que a água era a tão louvada arkhé; nesse elemento, a physis (existência, "realidade") teria seu princípio único. Segundo o filósofo, a terra era originada a partir do resfriamento e densificação da água; de seu aquecimento, porém, vêm o ar e o vapor, que retorna como chuva, dando início a um ciclo. É claro que essa idéia tem muitas dificuldades, que não convém, contudo, discutir aqui.

    Anaxímenes, também da Escola de Mileto, dizia que a arkhé, que comanda a physis, é o ar, um elemento não tão palpável e nem tão abstrato. Para Anaxímenes, tudo vem do ar; do ar rarefeito vem o fogo, de formas cada vez mais condensadas do ar vêm a água, a terra, etc. O ar é vida e respiração; tudo o que existe é resultado das variações mais inúmeras desse único e singular elemento.

    É em Anaximandro, contudo, que parece residir a maior aproximação com o conceito de arkhé em Tolkien; se tomarmos, é claro, como arkhé, a Chama Imperecível, tão desejada por Melkor e, poder-se-ia dizer, pelos próprios filósofos ("amantes da sabedoria/conhecimento"). Anaximandro, também representante da Escola de Mileto, seria o outro extremo dos três cabeças pré-socráticos (Tales, Anaxímenes e Anaximandro). Tales é o extremo da materialidade, do concreto; Anaxímenes é o meio-termo entre os colegas; e Anaximandro o extremo da eterealidade.

    Anaximandro diz que o princípio único, a arkhé da physis é o chamado ápeiron, que pode ser traduzido como "indeterminado" ou "ilimitado"; conceito que muitos que tentam esclarecer-se sobre a Chama Imperecível parecem aceitar, sabendo dizer o que ela seria, mas sem saber como concretizá-la de fato, em primordial.
    Como a Chama, o ápeiron é eterno. Algo totalmente abstrato em primórdio; responsável, todavia, pela physis, mas sem se fixar diretamente em nenhum elemento palpável da natureza, da própria physis. Ao contrário do conceito de Tales, a idéia de Anaximandro é muito mais livre tanto no âmbito interpretativo como de aceitação como princípio de tudo.

    Dessas três visões da ilustre Escola de Mileto, é a de Anaximandro, indubitavelmente, a que se correlaciona, ou ao menos se aproxima, com o conceito de Chama Imperecível como sendo responsável pela existência. Em Tolkien, a arkhé, o ápeiron de Anaximandro, é nada mais que a própria Chama (e não Eru, como se poderia pensar em prima), enquanto que a physis seria Eä como um todo de realidade, existência, Tempo e Espaço, passível de manipulação. A própria manifestação do ideário de Eru Ilúvatar.

    É estranho pensar em Tolkien usando de um pensamendo filosófico, já que a filosofia e o mito opõem-se conceitualmente; é engraçado notar, entretando, que ao se tentar responder algumas questões pela via da filosofia, acabamos nos aproximando do mito. Do pensamento dos pré-socráticos, podemos fazer uma pequena analogia ao mundo tolkieniano e sua própria filosofia imersa e inerente ao seu mito. Ironicamente, tanto em Tolkien como no nosso próprio mundo, a filosofia parece trazer ainda mais perguntas quando tenta elucidar as anteriores.

    Por ora, é só. :D

    Namárië!!
     
  2. Goba

    Goba luszt

    Almarë nobre Fëaruin, rei das terras de Alcarost! :)

    Usando uma tradução conveniente, estaria me referindo à archés ao invés de arkhés.

    A busca dos pré-Socráticos pelas archés foi nada se não a busca pela explicação do mito. Se este não existisse, a ciência não existiria. Conseqüente do próprio instindo do homem, o mito surgiu para fazer o papel que hoje busca a ciência: explicar. Inerente de nossa natureza, existir sem saber é agonizante. Um exemplo é este mesmo fórum, todos estamos aqui para tentar revelar os mistérios contidos num mundo que não é outro se não o nosso, em uma forma mítica.

    A ciência seria uma evolução do mito. As ciências químicas, físicas e biológicas, em particular, no início de seu desenvolvimento, buscavam explicar o que o homem duvidava que o mito dizia. Graças a céticos, hoje temos muitas explicações do que era a ira de Zeus ou a ferocidade de Poséidon. A dúvida do que afirmavam os mitos com tanta certeza nos levou a buscar respostas, levou os filósofos a buscara as archés.

    Envolta de finas camadas de névoa, no Legendarium já temos a arché dada. A Chama Imperecível está em tudo e em todos, como afirmam os escritos do Professor. Sendo ela algo que dá a vida, cria, ela não pode ser senão uma manifestação do próprio Eru, como é. Não diga que ela é o Uníco, mas sim uma manifestação dele, a origem de toda a vida, e sim o elemento formador de tudo o que é, através da Chama Imperecível.

    A Chama estava com Ilúvatar pois, ao meu ver, era o próprio. Quando ela fora mandada para o Vazio, era uma manifestação deste criando a vida, dando ao Vazio alguma existência, tão desejada por Melkor. A Chama, que era a fonte de toda esta, era a arché de Tolkien.

    E, apenas discorrendo um pouco sobre filosofia, não buscar apoio em mitos era uma característica predominante nos pré-Socráticos. Os pós-Socráticos buscavam apoio nestes sempre, usando-os como alegoria. O exemplo mais famosos é justamente de um de seus discípulos, Platão, que criou o "Mito da Caverna".

    Namarië melin nildo! :D
     
  3. Fingolfin

    Fingolfin Feitiço de Áquila

    Assim... eu não sou um mestre em filosofia, mas vejo a chama mais perto da definição de "Motor non motus" de Aristóteles.

    Aquilo que move o mundo... a origem de tudo.

    Isso vai até de encontro com a Teoria católica do Ainundalë. A Igreja católica tem sua visão de Deus totalmente Aristotélica influenciada principalmente por Santo Agostinho.

    É bem a visão que eu tenho da chama imperecível. Algo inatingivel, origem de tudo. Causa sem consequencia.
     
  4. Fëaruin Alcarintur ¥

    Fëaruin Alcarintur ¥ Alto-rei de Alcarost

    Aiya, Goba!

    Não é a explicação do mito, não é essa a busca dos pré-socráticos; pelo contrário, a busca deles é de responder a certo questionamento sem precisarem se calcar justamente no mito.

    Concordo e sei que o mito surge da ineptidão do homem em explicar certos fenômenos; aspectos da própria physis que não se conseguia justificar sem recorrer a algo divino, ou, escolhendo melhor a palavra, mítico mesmo. Foi a própria disposição do homem em derrubar sua própria criação (o mito) que fez surgir a ciência. O inconformismo de uns evoluiu ao ponto de buscar uma resposta, aqui, recorrendo ao ceticismo, palpável.

    Exatamente, uma manifestação do próprio Eru, não ele. Temos a arkhé tolkieniana dada graças à liberdade do Professor em criar o mito, somente isso; sem ler o que o Professor escreveu que era aquilo, estaríamos no mesmo, desespero, pode-se dizer, que os filósofos têm no "mundo real". Querendo ou não, contudo, a Chama Imperecível chega a ser, de certo modo, inconcebível quando pensamos nela no estado prímevo, ou seja, sem que a própria Existência tivesse início; é algo absolutamente abstrato, como o ápeiron de Anaximandro.

    Agora, caminhemos ao pós-início da Existência; nela, a Chama existe em tudo e tudo é. Ao mesmo tempo, poder-se-ia dizer, a Chama é tão concreta quanto abstrata. Nesse sentido, podemos aproximar o conceito de Chama com o conceito de arkhé de Anaxímenes, desde que ampliemos a idéia do filósofo no sentido de crer não que a Chama seja o ar, mas que a Chama é algo concreto e abstrato; no mais, um meio-termo entre Tales e Anaximandro.

    No estado primordial, contudo, repito-me ao dizer que o conceito de Chama se aproxima da idéia do ápeiron de Anaximandro.

    Justamente esse um de meus pontos; sem dúvida, a Chama é a arkhé de Tolkien; não seria tão seguro em afirmar, contudo, que Ilúvatar e a Chama são a mesma coisa; mas um manifestação do outro. Melkor jamais encontraria a Chama pois ela existe, também, nele mesmo; esse foi um dos erros dele. A Chama é a própria existência, de certa forma, o princípio único de toda a physis (como gênese, realidade); Tudo existe porque a Chama existe. Se Eru originou a Chama ou a Chama é Ele, isso é outra discussão, todavia, existindo Eru ou não, Nada existiria se não existisse a Chama. É por isso que a Chama que é o arkhé, e não Eru.

    Sim, eles buscavam apoio somente como alegoria, nunca como explicação; o próprio conceito da filosofia já se opõe ao do mito; a aproximação de ambos, contudo, é evidente.

    No entanto, a idéia do tópico é permanecer na pré-Socrática mesmo. :wink:
     
  5. Goba

    Goba luszt

    A busca por uma explicação que não a do mito é justamente opôr-se a este, discordar, isto é, duvidar da veracidade do mesmo. Sendo assim, a ciência surgiu duvidando do mito, ou seja, para explicar de maneira lógico o que o mito explicou de maneira mítica.

    O fato da Chama existir em todos, determinando essa existência é justamente o que a torna uma expressão de Eru. Seria algo como sua obra de arte: sem a existência do criador, não haveria de ter a criação. Portanto, se sem a existência da Chama não existiria nada e sem a existência de Eru nada também existiria, suponho que a Chama, fonte de existência, é uma manifestação de Eru, fonte de toda existência.

    Nunca disse que filosofia e mito eram unidos. Mas disse que a filosofia surgiu justamente para contrariar o mito, explicando-o. Do mito, portanto, surgiu a razão.

    Ainda, mesmo que o mito usado pelos filósofos fossem alegorias, o que, afinal são uns mitos, se não uma grande alegoria da vida?

    Cuio mae! :D
     

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