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Café da Manhã dos Campeões - Kurt Vonnegut

Rodovalho

Usuário
Histórias dentro de histórias. O próprio autor dentro de um livro de ficção. Vonnegut achava que sofria esquizofrenia. É estranho pensar num louco consciente de sua própria condição, mais estranho (ou não) ainda é um louco que discute a própria loucura no livro que escreve. Ok, é bem normal autores usarem alter egos em suas obras, mas autor e alter ego baterem um papo entre si? Os livros e todas suas personagens são baseadas na experiência pessoal do autor, sendo apenas o autor livre pra criar.

Café da Manhã dos Campeões conta a história de Kilgore Trout, o alter ego de Vonnegut, e de Dwayne Hoover. Kilgore Trout é um escritor fracassado de ficção científica e Dwayne Hoover é um vendedor de carros bem sucedido, que enlouquece de vez depois de ler ficção científica. A imaginação de Kilgore Trout rende vários sinopses de histórias dentro do próprio livro, cada história mais bizarra que a outra tentando explicar os absurdos que vivemos no nosso dia a dia a partir de um ponto de vista mais absurdo ainda. Rir pra não chorar. Dwayne passava por uma crise de meia idade e estava suscetível à loucura. A gota d'água foi um romance de Trout sobre o único ser com livre arbítrio no mundo inteiro, rodeado por máquinas que só foram construídas pelo Criador para estimular esse ser livre a dar respostas imprevisíveis para entreter esse Criador. Cúmulo do egocentrismo.

No final das contas, Dwayne é mesmo uma criatura feita para entreter o autor e o leitor. Uma criatura sem livre arbítrio, como nós do lado de cá das páginas sabemos e muitas vezes tentamos esquecer quando lemos qualquer ficção.

Vonnegut usou de uma crítica ácida para descrever o país onde vivia e seus costumes. Já estamos cansados de saber dessas coisas óbvias. Uma dos trechos que mais me chamaram a atenção foi uma crítica à própria literatura, dizendo que somos condicionados pela ficção a acreditar que existem personagens secundários, que o leitor é levado a pensar que ele mesmo é um protagonista. E o que os autores fazem com personagens secundários? Se livram deles pra desenrolar a trama, muitas vezes os sacrificando. Nada mais que normal. Um avião cai e aparece um número insensível contando os mortos. Até que ponto somos antipáticos aos outros? Por outro lado, até que ponto a empatia é saudável?

Bom, essa é a história de um homem que enlouquece por levar a sério a ficção. Não seria sensato levar a sério um livro como esse.
 
Um pequeno trecho do livro que eu tive preguiça de traduzir:

I thought Beatrice Keedsler had joined hands with other old-fashioned storytellers to make people believe that life had leading characters, minor characters, significant details, insignificant details, that it had lessons to be learned, tests to be passed, and a beginning, a middle, and an end.

As I approached my fiftieth birthday, I had become more and more enraged and mystified by the idiot decisions made by my countrymen. And then I had come suddenly to pity them, for I understood how innocent and natural it was for them to behave so abominably, and with such abominable results: They were doing their best to live like people invented in story books. This was the reason Americans shot each other so often: It was a convenient literary device for ending short stories and books.

Why were so many Americans treated by their government as though their lives were as disposable as paper facial tissues? Because that was the way authors customarily treated bit-part players in their madeup tales.
And so on.

Once I understood what was making America such a dangerous, unhappy nation of people who had nothing to do with real life, I resolved to shun storytelling. I would write about life. Every person would be exactly as important as any other. All facts would also be given equal weightiness. Nothing would be left out. Let others bring order to chaos. I would bring chaos to order, instead, which I think I have done.
If all writers would do that, then perhaps citizens not in the literary trades will understand that there is no order in the world around us, that we must adapt ourselves to the requirements of chaos instead.

It is hard to adapt to chaos, but it can be done. I am living proof of that: It can be done.
 
Está na minha lista de próximas leituras, depois de Matadouro 5 fiquei bem, bem (BEM), interessado na obra do Vonnegut.
 

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