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[BLOG] Afinal, quem é privilegiado? Algumas ponderações sobre empatia

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Morfindel Werwulf Rúnarmo, 15 Jun 2014.

  1. Morfindel Werwulf Rúnarmo

    Morfindel Werwulf Rúnarmo Geofísico entende de terremoto

    Sempre fiquei muito puta da vida quando eu estou triste e alguém me diz assim “mas pensa só como podia ser pior, você tem saúde, tem onde morar etc”. Como se me sentir superior a alguém fosse magicamente desaparecer com os meus problemas. Não vai.

    Mas existe uma grande diferença entre isso e reconhecer os próprios privilégios.
    Desde que eu rompi minha própria barreira de preconceito com o feminismo e comecei a me envolver, me informar e, principalmente,OUVIR, aprendi o quanto eu sou oprimida por ser mulher e nem sabia. E também aprendi o quanto eu sou privilegiada e sabia menos ainda.

    Sendo mulher, sofro com machismo, com misoginia, com a cultura do estupro e com um monte de outras doenças do patriarcado que diariamente fazem sofrer a todos nós, não só as mulheres. Ainda assim, sou uma mulher cissexual, sempre me senti confortável no meu próprio corpo e nunca me senti confusa ou incompatível com o gênero biológico com que nasci.

    Sou branca, nunca sofri racismo. Nunca fui vítima de homofobia. Nunca precisei pensar em fazer um aborto, nem sofri com violência obstétrica. Não moro na favela, meu bairro classe média me rotula bem pouco, até. Corto um dobrado todo mês pra pagar as contas e vivo tendo que fazer mágica pra sobreviver nessa cidade cara pra caralho que é o Rio de Janeiro, mas estou conseguindo. Nunca fui presa, ninguém me julga por uma passagem na polícia, nunca sofri violência carcerária.

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    Tudo isso são alguns privilégios.Privilégios não significam ser “superior” a ninguém nem garantem que você vai ser mais feliz, muito menos que não terá problemas e sua vida será fácil.Significa que você não vai se deparar com determinados obstáculos na sua frente. E, mais importante, não existe nada como as “Olimpíadas da Opressão”, não, é impossível determinar quem ou que grupo de pessoas é “o mais oprimido”.

    Ainda assim, é muito importante se ter consciência de seus próprios privilégios. Não para “agradecer a deus” nem se sentir sortuda não, plmdds. É uma questão de ter consciência de que existem tipos de opressão da qual você não é vítima direta e, portanto, não tem tanto parâmetro para julgar. Aí vem o ponto fundamental: o que fazer com essa consciência do privilégio?

    Eu percebi que, em mim, despertou principalmente a empatia. Passei a parar pra ouvir o que uma menina negra tem a dizer em vez de forçar meus 2 cents de que ela estaria sendo histérica em ver racismo em determinado comercial, por exemplo. Que ela não tem senso de humor. Parei (bem recentemente) de condenar a Rihanna por não ter feito um auê maior após ter sido vítima de violência doméstica.

    Parei pra ouvir de uma menina trans por que ela se considera misândrica, em vez de falar de cara “que bobagem, não se combate ódio com ódio, você está fazendo igual aos homens que te agridem”. Não, ela não está. Ela está reagindo. Ela tem motivos para ter raiva. Assim como tem uma menina que tenha sido estuprada. Alguém que tenha sofrido abuso sexual. Eu não passei por nada disso, então pra mim é claro que é fácil falar “deixa disso, minha gente, não leva a nada”. Não é da minha conta se leva a alguma coisa,o ódio da vítima não se controla e não deve ser questionado.

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    A partir de então, rolou um insight: por causa dessa porcaria de hierarquia patriarcal e social e eurocêntrica escrota, a probabilidade de eu ser ouvida é maior do que para os exemplos que citei acima. Não, não eu não acho certo que valorizem mais a minha opinião do que a de alguém com menos escolaridade, ou de outra etnia ou aparência. Mas eu posso me aproveitar disso “para o bem”. Eu posso aproveitar que tenham mais boa vontade de me ouvir para falar por todas essas pessoas que não conseguem a mesma voz que eu nos meios em que eu circulo. Pode entrar por um ouvido e sair pelo outro da maior parte das pessoas, mas uma coisa ou outra fica. No caso de amigos que nunca nem tinham parado para pensar sobre determinados assuntos, nossa, já cheguei a sentir algumas vezes que eu tê-los feito pensar um pouquinho chegou a de fato fazer diferença na maneira como eles se posicionam em relação a esses assuntos. É trabalho de formiguinha.

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    E é mais ou menos isso que a maior parte das feministas espera dos homens que se consideram apoiadores da causa. Não é repúdio ao gênero masculino a gente não querer que eles apareçam com destaque na Marcha das Vadias, não querer ver megafone na mão deles pra falar de feminismo, não querer até mesmo que eles ganhem a alcunha de feministas — lembrando que tudo isso ainda é muito debatido e controverso dentro do feminismo e é óbvio que eu não falo por todas, é impossível falar por todas.

    Assim como eu faço no meu Facebook cheio de classe média branca; na minha família que felizmente tem uma cabeça ótima mas po, eles são coroas, cresceram no subúrbio, estudaram em colégio militar; no meu trabalho em que todos os funcionários de cargos mais “intelectualizados” nasceram e cresceram na Zona Sul… É muito mais importante pra gente que os homens deem um puxão de orelha no colega do futebol que faz piada machista, por exemplo. Ali é um espaço em que a nossa voz não é ouvida.

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    É super bacana saber que cada vez mais homens tenham curiosidade e empatia legítimos pelas nossas questões; mas os nossos protestos, a organização das marchas, até os eventos e grupos de Facebook… são espaços que a gente teve que criar pra conversar e se expressar sem a voz de um homem se sobrepor.

    E a minha maior decepção até agora, nessa minha ainda iniciante jornada dentro da militância não é a intolerância e/ou incompreensão dos homens — que eu já esperava, claro. Mas a das mulheres. E não, não tô falando das mulheres despolitizadas que reproduzem discurso machista, não, mas das que se recusam a abraçar e apoiar as mulheres trans*.

    Tive uma discussão via Facebook com meninas que estavam fazendo uma
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    Chamando-as de misóginas. Dizendo que elas teriam privilégios em relação a mulheres cis por não serem vítimas de violência que apenas mulheres que podem engravidar sofrem. Porque elas nunca vão morrer em um aborto clandestino, por exemplo. Bem, mulheres estéreis também não vão.

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    Você vê algum homem nessa imagem?​


    Eu acabei cansando de discutir depois de um tempo, mas maior do que a raiva foi a minha tristeza de ver mulheres se mobilizando, militando, para fazer isso de uma maneira tão porcamente politizada, tão preconceituosa, tão segregadora. Foi um choque, de verdade, me deparar com essas garotas no feminismo. Uma decepção enorme vê-las dizendo que somos oprimidas por termos nascido com uma vagina, como se ser mulher se resumisse a isso. As próprias trans* são provas vivas de que a vagina não é o problema. Homens afeminados também. Tudo associado ao universo feminino (até mesmo o que foi imposto, e não natural dos nossos cromossomos, como não ter pelos) é visto como vergonhoso, inferior e superficial perante às “coisas de homem”.

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    Reconhecer seu privilégio não é achar que o outro merece mais do que você. Não é ter pena do outro. Não é dizer amém a tudo o que outro diz porque, coitado, ele é menos privilegiado. É simplesmente aprender a enxergar além do próprio umbigo e ser capaz de respeitar um ser humano que tem problemas diferentes dos seus.

    Mas tem muitos em comum, também, pode ter certeza.
    Meninas, apoiem as irmãs. Deixa esse negócio de oprimir para o patriarcado.

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  2. Clara

    Clara Que bosta... Usuário Premium

    Perfeito.
    E isso pode abarcar todos os tipos: os homens com relação às mulheres; dos héteros aos gays; às raças.
    É a velha e boa empatia, é perceber que existem problemas que você não enfrenta (e provavelmente nunca vai enfrentar) mas com os quais muita gente diferente de você tem que lidar todos os dias, muitas vezes a vida inteira.

    Do meu ponto de vista, só o fato de alguém ter opinião própria, parar pra pensar e não sair por aí espalhando frases feitas tipo: "Essa gente não tem o que fazer"; "O mundo não tem mais graça porque não se pode fazer piadas de...[preto, gay, loira]" ; "Isso é frescura"; "Estamos vivendo uma ditadura...[gay, politicamente correta, yadayada]" já é um avanço e tanto.
     
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