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Basta um tiro.

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Breno C., 8 Jun 2008.

  1. Breno C.

    Breno C. Usuário

    Bastou que o primeiro tiro varasse a minha perna, para eu perceber que aquela coisa toda não daria certo. Talvez eu sempre soubesse que tentar matar a minha própria mulher na frente de seu amante não fosse dar certo desde o início, mas como eu iria adivinhar que o sujeito também tinha uma arma? Acho que ninguém pode recriminar a minha ignorância exasperada. Não dizem por ai que todo castigo para corno é pouco? Então que seja assim, morrer com um tiro bem dado e ainda por cima dado pelo amante de minha mulher, não seria má idéia.

    Toda essa loucura começou a mais ou menos duas semana, quando eu, o corno, percebi que a conta do celular da minha tão amada e adorada esposa, estava povoada por ligações de longa duração para só um único número. Tenho que admitir que aquilo me deixou desconfiado, porque de primeira ninguém conclui que está sendo traído, por mais que essa seja a conclusão mais obvia para a situação. Eu sou um cara tranqüilo e como nunca havia passado pelo constrangimento de ser logrado do meu direito de ser o único homem a se deitar com a minha esposa, não senti ou percebi que a desgraçada estava me passando para trás. Ela, em momento algum, demonstrou que estava me traindo, muito pelo contrario, o tratamento dispensado a minha pessoa só fez melhorar, eram caricia a todo momento em que nos encontrávamos juntos, conversar mais sacanas antes de nos “deitarmos” e beijos apaixonados em publico, como se ela quisesse dizer ao mundo que eu era dela e ela era minha. Deixei me levar por tudo isso. Não deixei que meu coração fosse tomado por sentimentos ruins em um só instante, e estava cada vez mais confiante nos sentimentos que me reinavam a mente.

    Como é tolo o coração que ama. Dei tudo o que pude aquela mulher. Se fosse preciso iria até o inferno só para vê-la sorrir mais uma vez, eu iria, e iria de cabeça descoberta e peito nu a espera de mil lanças de fogo. Não me considero um ser humano displicente e muito menos alienado, e é por isso que acredito que fui enganado e não me deixei enganar como tantos outros maridos.

    Essa situação de fogo sem queimar foi-se alongado por duas semanas até aquele fatídico dia em que vi a maldita conta jogada encima da mesa. Algumas pessoas diriam que seria melhor não ver, porque “o que os olhos não vêem, o coração não sente”, mas eu sei que isso é uma mentira deslavada e que foi melhor que eu visse logo a conta que denunciava os atos criminosos de minha companheira. Meu Deus, imagine só por um momento se ela, a desgraçada sem escrúpulos, sem alma, sem coração, desse cria do meliante? O que seria de minha pobre alma? Ela estaria em pedaços, eu tenho certeza. Porque não sou homem de tirar a vida de quem ainda nem nasceu e também sei que iria amar essa criança, mesmo sabendo que ela não era fruto de meu amor e nem carne de minha carne.

    Abri a conta sim, mas não vi nada demais, então fui indaga-la sobre o ocorrido. “Querida, que ligações são essas aqui na conta do seu celular?” A desalmada ficou calada. Foram aqueles dez segundos precedidos da resposta “Que ligações?!”, que me fez começar a ter duvidas. Ligamos para a operadora, ou melhor: eu liguei para a operadora, porque ela se absteve do caso e disse para eu não dar importância era só não pagar a conta e contestar, mas eu liguei e contestei diretamente com a operadora que presta o serviço telefônico. A resposta da que eles me deram foi mais convincente do que a da minha esposa. “Desculpe pela demora senhor. Aconselhamos que o senhor entre primeiro em contato com o telefone em questão, para ter certeza de que não ouve realmente um contato com a parte, para que depois o senhor nos ligue novamente afim de contestar.” Desliguei o telefone sem ouvir o muito obrigado pela preferencia, afinal de contas ela havia acabado de esfregar a traição de minha mulher na minha própria face.

    Achei por bem seguir a sugestão dada pela telefonista. Comecei então a caçada, no mesmo dia liguei para o telefone em questão, usando um telefone publico para não chamar a atenção. “Aló! Pode falar – a voz era grossa – Não vai falar nada não seu babaca? – ele ainda insultava – Vai se ferrar, ficar passando trote é coisa de moleque!” Minha garganta já estava seca quando ele desligou o telefone. Eu ainda não podia concluir nada só com aquele telefonema. Resolvi ligar usando o telefone dela, assim ele poderia dar algum passo em falso, poderia até atender o telefone já dizendo algo que o incriminasse. Esperei que a mulher a quem um dia eu chamei de minha, entrasse no banho, então fui até o celular e troquei o chip conspurcado pelo meu chip ainda virgem de traições. Mais uma vez liguei. “Amor? Não fala nada, acho que seu marido tá desconfiado do nosso rolo. Alguém me ligou hoje e não falou nada, to achando que foi o idiota! Não me liga mais não com teu telefone, deixa para ligar do orelhão. Te amo. Te espero hoje lá no nosso ninho de amor.” Desliguei o telefone, não podia mais ouvir nada.

    Quando ainda não era casado, eu me perguntava o que levava uma mulher a trair seu marido, porque sempre acreditei que se você não ama uma pessoa, deve se separar dela o mais rápido possível, afim de evitar sofrimentos. Me deu nojo ouvir aquele português mal falado, e ainda por cima com uma voz grosseira e sem harmonia, mais parecendo a voz de um ogro rouco. O que será que ela havia visto nele? Beleza? Não pode ser, eu mesmo não sou tão feio ao ponto de merecer um chifre. Minha cabeça estava inundada de perguntas gosmentas e sem sentido.

    Não demorou muito para eu passar os estágio. Sai do corno chorão ao corno ofendido e vingativo. Durante uma semana persegui cada passo da meretriz procurando flagra-la em seu ato de destruição do nosso casamento. E durante uma semana nada vi, talvez porque liguei e eles estavam tentando me despistar, mas não iria ser tão fácil. Eu estava decidido: iria matar todos os dois.

    Um belo domingo, depois da missa, ainda me pergunto como ela podia freqüentar a missa ao meu lado e depois ainda se confessava. “Amor, tenho que ir até a casa de uma amiga que está com a mãe doente. Liga não, tá bom?! Deixei o almoço na geladeira.” Ela estava começando a absorver o português hediondo do desgraçado. Não fiquei ali parado, segui-a dentro de um taxi. Pelas minhas contas ela não foi muito além de cinco quarteirões da nossa casa. Como ela podia me trair bem ali? Parou o carro de frente a uma casa rosa, mas entrou em um prédio que ficava enfrente. Depois que entrou, a porta não se fechou como deveria e eu entrei atrás. Subi as escadas me guiando pelo barulho que os tamancos dela faziam na escada de pedra, tamancos esse que eu havia dado. Parou no terceiro andar.

    Não podia fazer aquilo, eu pensava, não era um assassino. Mas me lembrei da voz de monstro no telefone, e nada no mundo seria capaz de aplacar a raiva que sentia dele, eu tinha que mata-lo. Deixei passar uma hora e então entrei no corredor de paredes brancas. Passei enfrente a cada uma das portas, eram 6, e das seis cinco tinham nomes femininos, nomes de velhinhas, as mesmas podiam ser mães doentes de amigas. Mas o sexto nome não me deixou outra escolha: João Carlos Ribeiro e Costa. JC, João C., J. Carlos, de fato não importava muito. Toquei a campainha depois de tampar o olho mágico com uma fita crepe. Passos. “Quem é?” A voz dela. “E do correio senhora.” Nunca havia disfarçado a voz.

    Aquele era o momento. Ela abriu a porta e me olhou bem de frente. Estava com os cabelos soltos, um roupão de seda rosa e um sorriso alegre bem no meio do rosto. O sorriso se desfez ao ver que não era bem o correio que estava ali. Minha mão tremia, mas ainda sim levantei a arma, e para meu espanto, ela não se mexeu, acho que já esperava algo do tipo. O tiro saiu seco e fez eco por todo o corredor. Eu deixei uma lágrima cair. Lá dentro ele deve ter ouvido, qualquer um ouviria. Correu de um cômodo qualquer até o quarto, provavelmente era o mesmo no qual ele acabaram de ter suas intimidades de “casal”. Andei lento até a porta do cômodo maculado pelos crimes de adultério. Agora arma não balançava mais, estava firme. Quando cheguei a porta ouvi outro tiro e senti a perna arder, mas tinha certeza de que o tiro não havia saído da minha arma. Olhei para perna e vi que ela sangrava então cai no chão.

    O mundo já não estava mais em camera lenta agora. Eu estava ferido, o osso que sustenta meu corpo havia se partido e eu estava jogado ao chão, com meu inimigo de faroeste do outro lado da porta só esperando para vir me dar mais um tiro.

    Então é assim que tudo está terminando: eu jogado ao chão e ele me esperando. O que vai acontecer não é mais da minha conta. Já dei a ela o que merecia. Agora, talvez seja eu que mereça morrer. Só me pergunto se ela vai estar lá do outro lado me esperando
     

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