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Autor da Semana Bárbaros seios: uma leitura do conto "Bárbara", de Murilo Rubião

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Excluído046, 2 Jan 2012.

  1. Excluído046

    Excluído046 Banned

    O conto Bárbara, de Murilo Rubião, já foi objeto de estudo de inúmeros ensaios, artigos, entre outros. Dentre esses estudos, destacam-se os que ressaltam características do conto que apontam sua filiação à literatura fantástica, da qual o principal expoente na Literatura Brasileira é o escritor mineiro Murilo Rubião.
    Ao se distanciar das leituras do conto Bárbara pautadas pelo Fantástico, pretender-se-á, neste trabalho, fazer uma interpretação deste conto que aborde, prioritariamente, aspectos concernentes à relação sadomasoquista que permeia o relacionamento de três personagens da história: Bárbara, a protagonista, o marido – narrador homodiegético, isto é, ele é personagem, mas não protagonista, - e o filho do casal.

    O conto em questão, no que tange ao enredo, tem uma narrativa simples, com uma linguagem direta, sem descrições intensas, o que contribui para que uma interpretação imediata do conto seja a de que a questão principal abordada nele é a do consumismo, uma vez que Bárbara deseja intensamente tudo o quê pode – e não pode – ter, usufruir.

    Em Bárbara tem-se a narração da estranha relação entre uma mulher, de nome homônimo ao título do conto, e o seu marido, que se empenhava para contemplar aos pedidos absurdos feitos por ela. A cada desejo realizado, ela engordava. “Bárbara gostava somente de pedir. Pedia e engordava” (RUBIÃO, 2010, p. 27).
    Depois de algum tempo, preocupado com a robustez da esposa, o narrador-personagem ameaçou não mais atender aos seus pedidos. Diante desta atitude, Bárbara ficou triste e isolou-se. Algum tempo depois, seu ventre começou a crescer assustadoramente, então seu marido procurou um médico, que lhe tranquilizou, pois “aquela barriga imensa prenunciava um filho” (RUBIÃO, 2010, p. 29). Por temer que Bárbara sofresse de grave moléstia e isso prejudicasse o bebê, o marido implorou que a esposa lhe pedisse algo, e, então, voltou, prontamente, a saciar-lhe os desejos.

    Assim que a vontade de Bárbara voltou a ser atendida, seu corpo ganhou proporções gigantescas, o que fez com que seu marido temesse pelo nascimento de um filho gigante que, assim como a mãe, tivesse aquela estranha mania de pedir. Temor que não se confirmou, pois “nasceu um ser raquítico e feio, pesando um quilo”. (RUBIÃO, 2010, p. 29)

    Desde o nascimento, a criança foi veementemente rejeitada por Bárbara, que se recusou até mesmo a alimentá-la. Bárbara não demonstrava afeto pelo filho, “apenas por não o ter encomendado” (RUBIÃO, 2010, p.29). Com a mesma intensidade com que repelia o filho, Bárbara continuava a pedir coisas estranhas para seu esposo e, consequentemente, a engordar, atingindo, desse modo, dimensões incalculáveis.

    Destaca-se, dentre os inusitados pedidos da protagonista do conto, o de um navio. O marido comprou-lhe o transatlântico, o desmontou- e o levou até Bárbara, que permaneceu nele até o dia em que olhou fixamente para o céu e fez seu último pedido, queria uma estrela, o marido foi buscar.

    O substantivo próprio Bárbara nos remete ao substantivo simples bárbaro, que, por sua vez, é utilizado para designar o indivíduo: “sem civilização, rude; cruel, desumano”. (FERREIRA, 2000, p.88). Dentre essas acepções, interessa-nos especialmente os vocábulos “cruel” e “desumano”, pois eles parecem se encaixar em algumas atitudes cometidas pelas protagonista do conto desde a sua meninice.

    Bárbara era menina franzina e não fazia mal que adquirisse formas mais amplas. Assim pensando, muito tombo levei subindo em árvores, onde os olhos ávidos da minha companheira descobriram frutas sem sabor ou ninhos de passarinho. Apanhei também algumas surras de meninos aos quais era obrigado a agredir unicamente para realizar um desejo de Bárbara. E se retornava com o rosto ferido, maior se lhe tornava o contentamento. Segurava-me a cabeça entre as mãos e sentia-e feliz em acariciar-me a face intrumescida, como se as equimoses fossem um presente que eu lhe tivesse dado. (RUBIÃO, 2010, p.27)

    A partir do trecho acima, pode-se depreender que a relação entre Bárbara e o seu marido, desde a época em que eram namorados, caracterizava-se pela tentativa dele de atender aos pedidos dela, mesmo que, para isso, fosse acometido por situações em que era exposto à crueldade. A satisfação da protagonista do conto era mais intensa justamente quando o namorado sofria - ela “sentia-se feliz em acariciar-me a face intrumescida, como se as esquimoses fossem um presente que eu lhe tivesse dado” (RUBIÃO, 2010, p. 27) – o que evidencia, por parte de Bárbara, um certo sadismo, isto é, “prazer com o sofrimento alheio” (FERREIRA, 2000, p.619).

    O narrador demonstra, durante todo o conto, sua dedicação e amor à Bárbara, e ela, pouquíssimas vezes, concede-lhe migalhas como retribuição. Mesmo consciente do desprezo da esposa, o narrador não consegue se afastar dela, “por mais absurdo que pareça, encontrava-me sempre disposto a lhe satisfazer os caprichos” (RUBIÃO, 2010, p. 27). E embora relutasse, algumas vezes, em atender aos pedidos, acabava cedendo: “vencia-me a insistência do seu olhar, que transformava os mais insignificantes pedidos numa ordem formal.” (RUBIÃO, 2010, p. 28).
    A ânsia do narrador em atender aos inusitados pedidos da esposa, mesmo que isso provocasse o seu sofrimento, ressalta sua condição de masoquista, visto que o masoquismo pode ser entendido como “o prazer que se sente com o próprio sofrimento”. (FERREIRA, 2000, p. 450). Assim, entende-se que a relação entre os dois compreende determinado grau de sadomasoquismo, uma vez que Bárbara sente prazer com o desdobrar-se do esposo para atender aos seus pedidos, e ele, mesmo que tenha de se prejudicar para atender aos pedidos da esposa, continua a fazê-lo, como se pode perceber pela passagem do conto na qual o narrador-personagem conta que teve de comprar a casa do vizinho porque Bárbara queria o Baobá que tinha na propriedade.

    Ao possuir o tronco tombado da árvore, Bárbara ficou “feliz e saltitante, lembrando uma colegial” (RUBIÃO, 2010, p. 30) e “passava as horas passeando sobre o grosso tronco (RUBIÃO, 2010, p. 30). Sabe-se que o baobá é uma “árvore gigantesca, bombacácea, cujo tronco, considerado o mais grosso tronco do mundo, é rico em reservas de água” (FERREIRA, 2001, p. 87). O fato de a protagonista do conto deleitar-se com o grosso tronco e ter perdido o interesse pela árvore quando ela estava seca, “ao ver seco o baobá, desinteressou-se dele” (RUBIÃO, 2010, p. 30) nos leva a inferir sobre a encenação de uma possível dimensão erótica do episódio, do qual se pode depreender a articulação do sadismo de Bárbara, uma vez que para que o seu desejo fosse saciado, a planta foi arrancada do chão, e, não muito tempo depois, por não ter como entrar em contato com o solo, para renovação e manutenção da seiva, morreria. A relação de Bárbara com a árvore remonta, de certo modo, o ato sexual, por meio do elencar, seguindo uma sequência semelhante a dos processos que envolvem a relação sexual, de os vocábulos “tronco”, “grosso”, culminando em um momento de felicidade extrema, de gozo da personagem, quando ela é saciada pela água do tronco.

    A relação sadomasoquista é encenada, no conto Bárbara, de Murilo Rubião, dentre outros recursos, pela dicotomia que permeia o conto, apresentada por palavras que pertencem ao campo semântico dos “excessos” e da “escassez”. Os excessos são pontuados pelo uso de expressões referentes à Bárbara, tais como: “engordava”, “crescimento do seu corpo”, “avolumando”, “mórbida”, “engordava incessantemente”, “barriga imensa”, “colossal barriga”, “mulher gordíssima”, “terrivelmente gorda”, entre outros.

    A escassez, que tem como seus representantes no conto o marido e o filho de Bárbara, está expressa não só pela ausência quase total de adjetivos referentes a eles, mas principalmente pelas privações às quais a protagonista fazia com que eles fossem submetidos.

    Ao basear-se nos estudos de Melanie Klein, organizados por Segal (1975), pode-se dizer que uma das leituras do sadismo é a de que ele advém da relação da criança com o seio da mãe. A criança que recebe de mamar sempre que quer, acaba por constituir-se como sádica. Uma vez que, por ter recebido muito, ela nega oferecer algo aos outros.

    À luz da teoria de Melanie Klein, pode-se fazer uma leitura da personagem Bárbara como sádica. Ela tinha a satisfação de todos os seus desejos, mas não satisfazia o desejo de ninguém e, por vezes, sentia prazer em ver os outros sofrerem.

    O sadismo de Bárbara se manifestou desde a tenra idade, quando o namorado – que viria a se tornar o seu marido – “retornava com o rosto ferido maior se lhe tornava o contentamento” (RUBIÃO, 2010, p.27) e perdurou pela sua vida de casada, perpassando até mesmo a sua condição de mãe, quando ela, ao ser questionada pelo marido sobre o fato de que se ele comprasse um navio não teria recursos para comprar alimentos para o garoto, declarou não se interessar pelas necessidades do filho, “não importa o garoto” (RUBIÃO, 2010, p. 30).

    Nesta perspectiva, a protagonista do conto pode ser entendida como uma “mãe má”. Embora tivesse um seio que, por estar cheio de leite, poderia ser considerado como um “seio bom”, ela fez com que ele fosse transmutado em “seio mau”, pois era “indiferente ao pranto e à fome do menino” (RUBIÃO, 2010, p.29), e não o alimentava. “Enquanto ele chorava por alimento, ela se negava a entregar-lhe os seios volumosos, e cheios de leite”. (RUBIÃO, 2010, p.29).

    O fato de Bárbara se recusar a alimentar o filho justifica a pequenez menino que “tinha que ser carregado nos braços, pois anos após o seu nascimento continuava do mesmo tamanho, sem crescer uma polegada” (RUBIÃO, 2010, p. 29). Bárbara não se interessava pelas necessidades do filho, mas tinha todos os seus desejos saciados pelo marido, narrador do conto, que embora se dedicasse inteiramente à esposa, e dela recebesse “frouxa ternura” (RUBIÃO, 2010, p. 27), não a abandonava, o que caracteriza uma postura masoquista.

    Além de, assim como o filho, ser submetido ao sadismo da esposa, o narrador-personagem, alegoricamente, pode ser entendido como “seio bom” não só por alimentar os caprichos da esposa – o que ressalta sua condição de masoquista - mas principalmente por ser aquele que, ao exercitar o ato de narrar, alimenta o leitor com uma saborosa história.


    REFERÊNCIAS:


    FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio século XXI: o minidicionário da língua portuguesa. 4ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

    RUBIÃO, Murilo. Bárbara. In: Murilo Rubião - obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

    SEGAL, Hanna. Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago Editora LTDA, 1975.
     
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  2. Alia Atreides

    Alia Atreides Active Member In Memoriam

    Cléo humilhando os meros mortais...

    Eu sempre fico com vontade de ler os livros/contos que você fala sobre, só preciso arrumar tempo para isso. =/
     
  3. Arringa Hrívë

    Arringa Hrívë um papo e um bom chimarrão... Usuário Premium

    Confesso que nem sempre tenho vontade de ler o que ela indica, mas na maioria das vezes sinto! Só falta eu ter como chegar na biblioteca, porque TA DIFÍCIL. =/
    Murilo Rubião, autor brasileiro de literatura fantástica, interessante, porque realmente não tenho nenhuma bagagem de leitura brasileira fantástica.
    É um bom livro para começar?
     
  4. Excluído046

    Excluído046 Banned

    Só hoje que vi a pergunta da Blandz. Olha, o Murilo Rubião é só o maior representante da literatura fantástica brasileira. Então, começar por ele é algo que eu aconselho a todo mundo que se interesse pela literatura fantástica brasileira (e como faz muito tempo que não apareço neste tópico, se não estou enganada, cê já leu algo dele, né?). Depois cê pode ir procurar José J. Veiga, que é outro escritor maravilhoso. Sério.
     
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  5. Arringa Hrívë

    Arringa Hrívë um papo e um bom chimarrão... Usuário Premium

    Sim, li aquele do coelho (título, cadê você?) :think: nomes, nomes, eles me odeiam.

    Achei gostoso de ler, fiquei empolgada com a forma diferente dele, mas não encontrei mais obras do Murilo na biblioteca do curso, então estou deixando para quando ficar empregada mesmo. rs
     
  6. Excluído046

    Excluído046 Banned

    Cê leu "Teleco, o coelhinho", né? Muito lindinho.
     
  7. Excluído045

    Excluído045 Banned

    Achei interessante a análise sobre o baobá. Pura mitologia. :)
     

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