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Astolfo, o ovo

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por JLM, 28 Jul 2011.

  1. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    [size=x-large]ASTOLFO, O OVO[/size]


    Ajeitei-me até encontrar uma posição confortável na poltrona do cinema. A sala estava do jeito que eu gostava, vazia. Mesmo chegando alguns minutos atrasado, a projeção não havia começado. Observei as mudanças que o cinema sofreu desde a primeira vez em que assisti a uma sessão. A tecnologia é mesmo uma coisa surpreendente. Foi quando as luzes se apagaram. O filme começou.

    - Oi, Jaiminho, o que é isso que você tem embaixo do braço?

    - Oi, turma, isso é um ovo de dragão.

    - Uau.

    - Oh.

    - Sério, Jaiminho? Tá mais parecendo um coco verde.

    - Eu sei, Renato, também pensei isso. Mas fui perguntar ao meu avô o que era e ele me disse que esse é um legítimo ovo de dragão.

    - Aquele seu avô que tempos atrás falou para nós que jogava cartas com E.T.s quando morava em Varginha?

    - É.

    - Aquele seu avô que disse que existe uma cidade embaixo do mar chamada Atlântida e mostrou o lugar no mapa mundi?

    - É.

    - Ok, aquele seu avô é legal, agora eu acredito que é um ovo de dragão. Mas o que vamos fazer com ele?

    - Bem, eu estava pensando em cuidar dele. Já pensou se nasce um filhotinho de dragão? O vô me falou que assim que ele nascer vai acreditar que a primeira pessoa que ele ver é a mãe dele.

    - Legal.

    - Bacana.

    - Show.

    - E que nome você vai dar pra ele?

    - Astolfo, em homenagem ao meu avô.

    - Show.

    - Bacana.

    - Legal.

    As cenas seguintes mostram os garotos em várias brincadeiras junto com o ovo verde. Quando se fantasiam de pirata, vestem-no com um chapéu e um tapa-olho. Quando andam de bicicleta, revezam-se em levá-lo na cestinha ou amarrado na garupa. Ao brincarem de esconde-esconde, pique, polícia e bandido e até de rolar na grama, Astolfo sempre está presente. Fica claro que ele tornou-se um elo entre os meninos, um segredo compartilhado e uma responsabilidade do grupo. Até a cena em que aparecem todos reunidos no quarto de um deles. Estão tristes. Apenas dois ausentes.

    - Isso não podia ter acontecido.

    - Vou sentir falta deles.

    - Como o Jaiminho pôde fazer isso com a gente? Pensei que éramos amigos.

    - Eu também queria ver o Astolfo nascendo. O Jaime não tinha o direito de fugir com o dragão sem mostrar antes para a gente. Isso foi muita trairagem.

    - Foi sim.

    - Quando eu fui lá na casa dele saber mais detalhes, vi que os pais dele também estavam muito tristes. Nem quiseram falar comigo, a mãe dele só chorou quando me viu. Se não fosse o seu Astolfo me chamar em um canto e me contar toda história estaríamos agora sem saber de nada.

    - Aonde será que o Jaiminho estará agora voando nas costas do dragão?

    - Talvez já tenha chegado lá no Reino dos Dragões. O seu Astolfo contou que os dragões nascem com uma memória geográfica e que sempre migram para a lua logo após nascerem. Talvez no próximo verão o Jaiminho volte com o dragão. Mas daí eu não vou deixar ele voar sem me levar junto.

    - Eu também não.

    - Nem eu.

    A próxima cena mostra um velho sozinho, sentado em sua cama, chorando enquanto segura em suas mãos um coco. A tela escurece lentamente.

    As luzes do cinema se acendem e vejo o diretor caminhar lentamente até mim. Perguntou se a adaptação daquela cena havia ficado satisfatória. Sim, eu respondi. Melhor que a da minha memória. Somente muito tempo depois é que fui entender o que realmente havia acontecido. Mas até chegar a esta compreensão, sempre olhava pela janela nas noites de luar e jurava ter visto uma grande sombra voando bem alto.
     
  2. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Muito bom :sim:
    Se não comento mais, é porque estou um tanto quanto atordoado com o final do conto... Sim, sim, muito bom. Isso daria um excelente filme. No começo me lembrou Turma do Didi e no final me lembrou algo dramático e em preto-e-branco... Mas preto-e-branco é o vulto que passou pela janela e que passa nas janelas da vida (sim, num sentido excessivamente machadiano).
     
  3. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    poizé, marvericco. esse é 1 dos casos em q o texto ficou melhor dq eu pensava, e só depois d pronto é q fui ver algumas nuances q ñ tinha percebido da 1ª vez, como a ambiguidade da sombra voando bem alto.
     

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