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As 7 poesias mais conhecidas da literatura brasileira

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Chatov, 27 Mar 2010.

  1. Chatov

    Chatov Usuário

    Aqui vai uma lista dos poemas brasileiros (vou logo avisando: Fernando Pessoa é PORTUGUÊS!) que considero os mais conhecidos da história. Com certeza, o amigo leitor, já se deparou alguma vez na vida, em casa no trabalho ou até mesmo na rua, entre um rebolation e outro, com alguma passagem de um dos poemas abaixo:

    7 º - Versos Íntimos - Augusto dos Anjos

    Esse poema (meu favorito) do escritor paraibano Augusto dos Anjos, o pai do movimento simbolista no Brasil, não é exatamente o mais conhecido da história, mas é um dos preferidos dos professores de literatura Brasil a fora. Possivelmente o leitor já deve ter se deparado com ele em algum livro, apostila ou prova.

    [align=center]VERSOS ÍNTIMOS

    Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
    Enterro de tua última quimera.
    Somente a Ingratidão - esta pantera -
    Foi tua companheira inseparável!

    Acostuma-te a lama que te espera!
    O Homem que, nesta terra miserável,
    Mora entre feras, sente inevitável
    Necessidade de também ser fera

    Toma um fósforo, acende teu cigarro!
    O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
    A mão que afaga é a mesma que apedreja.

    Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
    Apedreja essa mão vil que te afaga.
    Escarra nessa boca de que beija!

    Augusto dos Anjos[/align]

    6° - Navio Negreiro - Castro Alves

    Um dos poemas mais conhecidos e belos da literatura brasileira e mundial. No poema, o escritor baiano dar voz aos sem vozes, descrevendo como era o transporte dos negros durante o período da escravidão. O poema como um todo não é lá muito conhecido, uma vez que ele é imenso, entretanto, a sua IV parte é bastante conhecida. Você, caro leitor, muito provavelmente em alguma época de sua vida já teve que escutar o glorioso cantor baiano Caetano Velosso declamando a IV parte do poema. Sendo assim, vamos a parte interessante do poema.

    [align=center]Navio Negreiro

    IV

    Era um sonho dantesco... o tombadilho
    Que das luzernas avermelha o brilho.
    Em sangue a se banhar.
    Tinir de ferros... estalar de açoite...
    Legiões de homens negros como a noite,
    Horrendos a dançar...

    Negras mulheres, suspendendo às tetas
    Magras crianças, cujas bocas pretas
    Rega o sangue das mães:
    Outras moças, mas nuas e espantadas,
    No turbilhão de espectros arrastadas,
    Em ânsia e mágoa vãs!

    E ri-se a orquestra irônica, estridente...
    E da ronda fantástica a serpente
    Faz doudas espirais ...
    Se o velho arqueja, se no chão resvala,
    Ouvem-se gritos... o chicote estala.
    E voam mais e mais...

    Presa nos elos de uma só cadeia,
    A multidão faminta cambaleia,
    E chora e dança ali!
    Um de raiva delira, outro enlouquece,
    Outro, que martírios embrutece,
    Cantando, geme e ri!

    No entanto o capitão manda a manobra,
    E após fitando o céu que se desdobra,
    Tão puro sobre o mar,
    Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
    "Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
    Fazei-os mais dançar!..."
    E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
    E da ronda fantástica a serpente
    Faz doudas espirais...
    Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
    Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
    E ri-se Satanás!...
    (...)

    Castro Alves
    [/align]
    5º - Vou-me Embora pra Pasárgada - Manuel Bandeira


    Você leitor, talvez não esteja lembrando quem é o autor do 5º poema mais conhecido da história brasileira. Então, vou refrescar a sua memoria. Manuel Bandeira é o escritor que pegou tuberculose na adolescência e passou o resto da vida dizendo que ia morrer. Detalhe, o cidadão morreu com 82 anos. Entre outras coisas, o poeta pernambucano foi o responsável pele célebre discurso Os sapos, lido durante a semana de arte moderna de 22.

    [align=center]Vou-me embora pra Pasárgada

    Vou-me embora pra Pasárgada
    Lá sou amigo do rei
    Lá tenho a mulher que eu quero
    Na cama que escolherei

    Vou-me embora pra Pasárgada
    Vou-me embora pra Pasárgada
    Aqui eu não sou feliz
    Lá a existência é uma aventura
    De tal modo inconseqüente
    Que Joana a Louca de Espanha
    Rainha e falsa demente
    Vem a ser contraparente
    Da nora que nunca tive

    E como farei ginástica
    Andarei de bicicleta
    Montarei em burro brabo
    Subirei no pau-de-sebo
    Tomarei banhos de mar!
    E quando estiver cansado
    Deito na beira do rio
    Mando chamar a mãe-d'água
    Pra me contar as histórias
    Que no tempo de eu menino
    Rosa vinha me contar
    Vou-me embora pra Pasárgada

    Em Pasárgada tem tudo
    É outra civilização
    Tem um processo seguro
    De impedir a concepção
    Tem telefone automático
    Tem alcalóide à vontade
    Tem prostitutas bonitas
    Para a gente namorar

    E quando eu estiver mais triste
    Mas triste de não ter jeito
    Quando de noite me der
    Vontade de me matar
    — Lá sou amigo do rei —
    Terei a mulher que eu quero
    Na cama que escolherei
    Vou-me embora pra Pasárgada

    Manuel Bandeira[/align]

    4º - Poeminha do Contra - Mario Quintana

    Sim, este é o mesmo poema que você já viu em duzentos mil "quem sou eu do orkut". Além de ser um dos poetas favoritos dos fazedores de "quem sou eu" de orkut. O escritor guacho foi vítima de uma das maiores injustiças da ABL: o poeta tentou por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma das ocasiões foi eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Ao ser convidado a candidatar-se uma quarta vez, e mesmo com a promessa de unanimidade em torno de seu nome, o poeta recusou.


    [align=center]Poeminha do Contra

    Todos estes que aí estão
    Atravancando o meu caminho,
    Eles passarão.
    Eu passarinho!

    Mario Quintana[/align]

    3º - Soneto da Fidelidade - Vinicius de Morais

    O escritor, compositor e boa vida carioca é autor de vários dos poemas mais conhecidos do Brasil. Escolhi esse, pois é o mais conhecido. Uma curiosidade sobre o autor, é que o mesmo odiava o apelido de "poetinha".
    [align=center]
    Soneto da Fidelidade

    De tudo, ao meu amor serei atento
    Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
    Que mesmo em face do maior encanto
    Dele se encante mais meu pensamento.

    Quero vivê-lo em cada vão momento
    E em seu louvor hei de espalhar meu canto
    E rir meu riso e derramar meu pranto
    Ao seu pesar ou seu contentamento.

    E assim, quando mais tarde me procure
    Quem sabe a morte, angústia de quem vive
    Quem sabe a solidão, fim de quem ama

    Eu possa dizer do meu amor (que tive):
    Que não seja imortal, posto que é chama
    Mas que seja infinito enquanto dure.

    Vinicius de Morais[/align]

    2º - Canção do Exílio - Gonçalves Dias

    O 2º poema mais conhecido da literatura brasileira foi escrito durante o período em que o escritor maranhense Gonçalves Dias estava estudando em Portugal, dai o nome "Canção do Exílio". O escritor morreu durante um naufrágio e, segundo a lenda, foi devorado por tubarões.


    [align=center]Canção do Exílio

    "Minha terra tem palmeiras,
    Onde canta o Sabiá;
    As aves, que aqui gorjeiam,
    Não gorjeiam como lá.

    Nosso céu tem mais estrelas,
    Nossas várzeas têm mais flores,
    Nossos bosques têm mais vida,
    Nossa vida mais amores.

    Em cismar, sozinho, à noite,
    Mais prazer encontro eu lá;
    Minha terra tem palmeiras,
    Onde canta o Sabiá.

    Minha terra tem primores,
    Que tais não encontro eu cá;
    Em cismar — sozinho, à noite —
    Mais prazer encontro eu lá;
    Minha terra tem palmeiras,
    Onde canta o Sabiá.

    Não permita Deus que eu morra,
    Sem que eu volte para lá;
    Sem que desfrute os primores
    Que não encontro por cá;
    Sem qu’inda aviste as palmeiras,
    Onde canta o Sabiá."

    Gonçalves Dias[/align]

    1° José - Carlos Drummond de Andrade

    O poema mais conhecido da literatura foi escrito pelo escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade, um farmacêutico nascido na cidade de Itabira. De tão conhecido que ele é, a expressão "E agora, José" virou uma gíria popular, usada em situações complicadas.

    [align=center]José

    E agora, José?
    A festa acabou,
    a luz apagou,
    o povo sumiu,
    a noite esfriou,
    e agora, José?
    e agora, Você?
    Você que é sem nome,
    que zomba dos outros,
    Você que faz versos,
    que ama, protesta?
    e agora, José?

    Está sem mulher,
    está sem discurso,
    está sem carinho,
    já não pode beber,
    já não pode fumar,
    cuspir já não pode,
    a noite esfriou,
    o dia não veio,
    o bonde não veio,
    o riso não veio,
    não veio a utopia
    e tudo acabou
    e tudo fugiu
    e tudo mofou,
    e agora, José?

    E agora, José?
    sua doce palavra,
    seu instante de febre,
    sua gula e jejum,
    sua biblioteca,
    sua lavra de ouro,
    seu terno de vidro,
    sua incoerência,
    seu ódio, - e agora?

    Com a chave na mão
    quer abrir a porta,
    não existe porta;
    quer morrer no mar,
    mas o mar secou;
    quer ir para Minas,
    Minas não há mais.
    José, e agora?

    Se você gritasse,
    se você gemesse,
    se você tocasse,
    a valsa vienense,
    se você dormisse,
    se você cansasse,
    se você morresse...
    Mas você não morre,
    você é duro, José!

    Sozinho no escuro
    qual bicho-do-mato,
    sem teogonia,
    sem parede nua
    para se encostar,
    sem cavalo preto
    que fuja do galope,
    você marcha, José!
    José, para onde?

    Carlos Drummond de Andrade [/align]

    Pois é, companheiros, está é minha lista. Qual é a de vocês?
     
  2. Anica

    Anica Usuário

    acho que entre os mais conhecidos essa lista faz um bom resumo. se eu fosse incluir algo mais, já repetiria auto, tipo
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    do Drummond :sim:
     
  3. -Arnie-

    -Arnie- Usuário

    Tem aquele techo de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, que está em tudo que é livro didático:

    Essa cova em que estás
    com palmos medida
    é a conta menor
    que tiraste em vida.
    É de bom tamanho,
    nem largo nem fundo,
    é a parte que te cabe
    deste latifundio.

    Acho que é assim, acho que errei na forma hm/
     
  4. Mi Müller

    Mi Müller Usuário

    Boa lista, estes dias vi um arttgo que falava que o Drummond detestava que a poesia José se resumisse para o grande público apenas pela frase: E agora José!
    O poeminha do contra do Mário é mesmo uma unanimidade XD

    estrelinhas coloridas...
     
  5. imported_Wilson

    imported_Wilson Please understand...

    Podia jurar que essa letra era do Chico, da música "Funeral de um lavrador". A letra toda é muito bonita.

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    Última edição por um moderador: 6 Out 2013
  6. Clara

    Clara Que bosta... Usuário Premium

    O Chico musicou a poesia do João Cabral, Wilson. :sim:
     
  7. Muito boa a lista, consegue sintetizar bem alguns dos grandes poemas brasileiros, especialmente Versos Íntimos e Vou-me embora pra Pasárgada (dois dos meus mais prediletos poemas).

    Sem conter meu ímpeto de dar pitacos, acho que
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    (Alphonsus Guimaraens) cairia bem aí.
     
  8. -Arnie-

    -Arnie- Usuário

    Um poema conhecidíssimo de Augusto dos Anjos é a Psicologia de um vencido:

    Eu, filho do carbono e do amoníaco,
    Monstro de escuridão e rutilância,
    Sofro, desde a epigênese da infância,
    A influência má dos signos do zodíaco.

    Profundissimamente hipocondríaco,
    Este ambiente me causa repugnância...
    Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
    Que se escapa da boca de um cardíaco.

    Já o verme — este operário das ruínas —
    Que o sangue podre das carnificinas
    Come, e à vida em geral declara guerra,

    Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
    E há de deixar-me apenas os cabelos,
    Na frialdade inorgânica da terra!
     
  9. Ashe

    Ashe Usuário

    Linda a lista. Realmente conhecidíssimos.
     
  10. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    eu acrescentaria outra:

    "No meio do caminho" é o que se pode chamar de poema-escândalo. Publicado pela primeira vez na modernista Revista de Antropofagia, em 1928, deflagrou uma saraivada de críticas na imprensa.

    Violentos, irônicos, corrosivos, os críticos simplesmente desancavam o autor dos versos e diziam, em suma, que aquilo não era poesia.

    Reacionários e gramatiqueiros, eles se sentiam provocados pelas repetições do poema e pelo "tinha uma pedra" em lugar de "havia uma pedra".

    Em 1967, para marcar os 40 anos do poema, Drummond reuniu o extenso material publicado sobre ele no volume Uma Pedra no Meio do Caminho -- Biografia de um Poema (Editora do Autor).

    Vale aqui fazer apenas uma pergunta. Havia milhares de poemas modernistas que a crítica conservadora achava ruim ou desqualificava como literatura.

    Por que, então, detonaram todas as suas baterias contra a pedra no caminho?

    Seria talvez pelo fato de que Drummond — o mais completo modernista — pôs realmente o dedo na ferida e incomodava mais?

    Fonte:
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  11. Marcileia

    Marcileia Usuário

    Adorei a lista e acho que representa bem as poesias conhecidas (apesar de eu não ler muitas poesias)...
    Acho o soneto do Vinícius maravilhoso, não só esse, mas os outros também :grinlove:
     
  12. °Hii°

    °Hii° Visitante

    a lista tá realmente ótima acho so que eu acrecentaria

    Poema de Sete Faces

    Quando nasci, um anjo torto
    desses que vivem na sombra
    disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

    As casas espiam os homens
    que correm atrás de mulheres.
    A tarde talvez fosse azul,
    não houvesse tantos desejos.

    O bonde passa cheio de pernas:
    pernas brancas pretas amarelas.
    Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
    Porém meus olhos
    não perguntam nada.

    O homem atrás do bigode
    é sério, simples e forte.
    Quase não conversa.
    Tem poucos, raros amigos
    o homem atrás dos óculos e do -bigode,

    Meu Deus, por que me abandonaste
    se sabias que eu não era Deus
    se sabias que eu era fraco.

    Mundo mundo vasto mundo,
    se eu me chamasse Raimundo
    seria uma rima, não seria uma solução.
    Mundo mundo vasto mundo,
    mais vasto é meu coração.

    Eu não devia te dizer
    mas essa lua
    mas esse conhaque
    botam a gente comovido como o diabo.

    Carlos Drummond de Andrade

    :beijinho:
     
  13. Aline Guiotti.

    Aline Guiotti. Usuário

    Adoro o Soneto da Fidelidade. Escutei ele uma vez na sétima série e nunca mais esqueci. Quanto aos outros eu nem comento, por não gostar de poesia.
     
  14. imported_Rafaela

    imported_Rafaela Usuário

    Olha pessoal, nunca fui chegada a poesia, sei lá, não sinto nada quando leio nem entendo bulhufas. Mas, agora que estou cursando Letras, tenho que estudar poemas brasileiros e portugueses, principalmente agora, no 2º semestre, que tenho Teoria da Lírica. Só que meu prof é tão bom que, não me faz gostar, mas ao menos me interessar.

    Achei muito interessante a teoria do poema Soneto da Fidelidade, é legal que o meu prof tira o romance que esconde a verdadeira mensagem dos poemas e músicas.
     
  15. aces4r

    aces4r Usuário

    Uma vez eu e uns colegas de classe fomos declamar José para 500 pessoas, eu esqueci tudo. E agora José o que eu faço, eu esqueci o poema...

    Me senti uma avestru.
     
  16. _Paulinha

    _Paulinha Usuário

    Adorei a lista. Gosto muito de todos os poemas do tópico e também, com a mesma intensidade dos pitacos dados por todos.
    Um poema que para mim é muito conhecido - sempre vinha nos livros didáticos é:

    Meus oito anos - Casimiro de Abreu.

    Oh ! Que saudades que tenho
    Da aurora da minha vida,
    Da minha infância querida
    Que os anos não trazem mais !
    Que amor, que sonhos, que flores,
    Naquelas tardes fagueiras,
    À sombra das bananeiras,
    Debaixo dos laranjais !

    Como são belos os dias
    Do despontar da existência !
    - Respira a alma inocência
    Como perfumes a flor;
    O mar é - lago sereno,
    O céu - um manto azulado,
    O mundo - um sonho dourado,
    A vida - um hino d'amor !

    Que auroras, que sol, que vida,
    Que noites de melodia
    Naquela doce alegria,
    Naquele ingênuo folgar !
    O céu bordado d'estrelas,
    A terra de aromas cheia,
    As ondas beijando a areia
    E a lua beijando o mar !

    Oh ! dias da minha infância !
    Oh ! meu céu de primavera !
    Que doce a vida não era
    Nessa risonha manhã !
    Em vez das mágoas de agora,
    Eu tinha nessas delícias
    De minha mãe as carícias
    E beijos de minha irmã !

    Livre filho das montanhas,
    Eu ia bem satisfeito,
    Da camisa aberta o peito,
    - Pés descalços, braços nus -
    Correndo pelas campinas
    À roda das cachoeiras,
    Atrás das asas ligeiras
    Das borboletas azuis !

    Naqueles tempos ditosos
    Ia colher as pitangas,
    Trepava a tirar as mangas,
    Brincava à beira do mar;
    Rezava às Ave-Marias,
    Achava o céu sempre lindo,
    Adormecia sorrindo
    E despertava a cantar !

    .........................................................................................

    Oh ! Que saudades que tenho
    Da aurora da minha vida,
    Da minha infância querida
    Que os anos não trazem mais !
    Que amor, que sonhos, que flores,
    Naquelas tardes fagueiras,
    À sombra das bananeiras,
    Debaixo dos laranjais !
     
  17. _Paulinha

    _Paulinha Usuário

    E já que estamos falando de poesia brasileira, peço permissão para postar um Soneto lindo de Machado de Assis, que fala sobre nossa eterna insatisfação com o que temos e nosso irremediável desejo de ter o que não temos (acredito que todos, absolutamente todos, temos frustrações, mas o que no torna felizes ou infelizes é a maneira como lidamos com elas).

    Círculo vicioso

    Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
    “Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
    Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
    Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

    “Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
    Que, da grega coluna à gótica janela,
    Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela”
    Mas a lua, fitando o sol com azedume:

    “Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
    Claridade imortal, que toda a luz resume”!
    Mas o sol, inclinando a rútila capela:

    Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
    Enfara-me esta luz e desmedida umbela…
    Por que não nasci eu um simples vagalume?”…

    Machado de Assis
     
  18. nanamft

    nanamft Usuário

    Um poema que sempre via em apostilas e livros didáticos era "Via Láctea", de Olavo Bilac:

    Via Láctea
    "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
    Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
    Que, para ouvi-las, muita vez desperto
    E abro as janelas, pálido de espanto...

    E conversamos toda a noite, enquanto
    A via láctea, como um pálio aberto,
    Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
    Inda as procuro pelo céu deserto.

    Direis agora! "Tresloucado amigo!
    Que conversas com elas? Que sentido
    Tem o que dizem, quando estão contigo?"

    E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
    Pois só quem ama pode ter ouvido
    Capaz de ouvir e de entender estrelas".


    Olavo Bilac
     
  19. _Paulinha

    _Paulinha Usuário

    Esse é mesmo lindo. E os dois últimos versos são tão famosos que já os vi até escritos em muros.
     

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