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[ARTIGO] SOBRE LEITORES E BIBLIOTECAS

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Anica, 4 Jan 2008.

  1. Anica

    Anica Usuário

    SOBRE LEITORES E BIBLIOTECAS
    Em tempos virtuais, qual o futuro das “ultrapassadas” bibliotecas, suas estantes, seus acervos e seus freqüentadores?

    Em uma sociedade que caminha, cada dia mais, para a utilização massiva dos meios virtuais, em todas as áreas e com ênfase na educação, que papel é reservado, no futuro, para as bibliotecas? Refiro-me à concepção usual do termo biblioteca, que, aliás, parece ter evoluído bastante em relação ao sentido original, etimológico, da palavra grega bibliotheke — lugar onde se depositam livros.

    A imagem de um depósito de livros traz, de imediato, uma idéia de imobilidade que soa incompatível com o conceito atual de biblioteca, como espaço dinâmico de consulta, pesquisa e estudo. Mas devemos lembrar que é esta também uma das funções primordiais da biblioteca: a de armazenar títulos de forma que se possa reuni-los dentro de uma determinada ordem classificatória. Armazenar, diz o filósofo Jacques Derrida, é também acolher, recolher, juntar, consignar, coligir, colecionar, totalizar, eleger e ler reunindo.

    Armazenar seria, portanto, o primeiro estágio de uma complexa estrutura que inclui desde a escolha do acervo e sua constante renovação até a disposição do objeto livro e dos periódicos num determinado espaço físico. E é neste conjunto que se deve pensar o papel de todos os atores (instituições, bibliotecários, atendentes, professores, alunos, leitores) envolvidos na questão apresentada no início deste artigo.

    Em vez de nos lançarmos à tarefa inútil de prever a sobrevivência ou o desaparecimento do livro e das bibliotecas tradicionais, não virtuais, devemos pensar no perfil do leitor neste início do século 21, num país periférico, com um pé no mundo globalizado e outro (em sua maior parte, diga-se de passagem) num subdesenvolvimento atroz do qual passam longe os benefícios da sociedade tecnológica informatizada. O leitor é, talvez, o elemento-chave dessa reflexão, mesmo porque é para ele que existem, em última instância, os livros e as bibliotecas.


    Visita importante
    Leitor é, entretanto, um termo vago e impreciso — um conceito que tem sofrido transformações radicais ao longo dos últimos quatro séculos. Para se ter uma idéia mais clara, recomenda-se a leitura do ensaio O leitor incomum, do crítico literário francês George Steiner, erudito professor nas universidades de Cambridge e Genebra, autor de livros como Linguagem e silêncio, No castelo de Barba Azul e Nenhuma paixão desperdiçada, coletânea de ensaios publicada pela Record, em 2001, e da qual o referido ensaio faz parte.

    Nele, Steiner relaciona algumas características do leitor do século 18, conforme o pintor francês Chardin o retrata no quadro Le philosophe lisant, completado no dia 4 de dezembro de 1734. Trata-se de um tema comum na época: o de um homem ou uma mulher lendo um livro aberto sobre uma mesa. “Entretanto”, diz Steiner, “se o analisarmos com relação à nossa época e nossos códigos afetivos, a maneira como o pintor se expressou revela, em todos os pormenores e na sua concepção mesma, uma revolução de valores”.

    Que valores são estes, presentes no leitor incomum de Chardin e que são tão diversos dos que estão presentes no ato de ler em nossa sociedade tão mais “desenvolvida” e “avançada”? Ei-los, segundo Steiner, mas de forma resumida:

    1. Em primeiro lugar, os trajes do leitor: formais, cerimoniosos, até. “O que realmente importa é a elegância enfática, a determinação de estar vestido assim naquele momento. O leitor não vai ao encontro do livro em trajes informais ou em desalinho”. Ele vai ao encontro do livro levando a cortesia em seu coração, como quem recebe uma visita importante.

    2. A presença, no quadro, de uma ampulheta, traz para o ato da leitura a noção do tempo. Lembra a condição passageira do leitor (e do homem) em contraste com a longa sobrevivência dos (grandes) livros. “O tempo passa, mas o livro permanece. A vida do leitor mede-se em horas; a do livro, em milênios”, diz Steiner. Tal consciência da efemeridade do ser e da permanência das palavras, nas obras definitivas, aumenta, no leitor, o fascínio e a angústia diante da infinita quantidade de livros que jamais serão lidos por ele. “A areia que cai através do vidro fala-nos igualmente da natureza desafiadora do tempo, que é da palavra escrita, como também da brevidade do tempo disponível para lê-la”.

    3. A presença de três discos de metal em frente ao livro, por sua vez, enfatiza também a brevidade do mundo material quando comparado com a longevidade das palavras.

    4. Em seguida, destaca a pena que o leitor usa para escrever e que é emblemática da obrigação de resposta inerente ao ato da leitura. Leitura esta que, longe da concepção atual de entretenimento, configura-se como uma interação em níveis profundos da compreensão envolvida no ato de ler. “A boa leitura pressupõe resposta ao texto, implica a disposição de reagir a ele, atitude essa que contém dois elementos cruciais: a reação em si e a responsabilidade que isso representa”. Ler bem é, portanto, “estabelecer uma relação de reciprocidade com o livro que está sendo lido; é embarcar em uma troca total”.

    5. E, por último, algo que envolve todos esses elementos presentes no quadro — o fólio, a ampulheta, os medalhões e a pena: o silêncio. Um silêncio que, na pintura, “se manifesta inequivocamente pela qualidade da luz, pela textura da composição”. A leitura é, para o leitor do século 18, representado na obra, um ato silencioso e solitário. “Trata-se de um silêncio vibrante de emoção e de uma solidão abarrotada de vida.”


    Acesso fácil
    O contraste deste leitor com o de hoje em dia reflete bem a noção benjaminiana de “perda da aura” da obra de arte — noção esta que se aplica perfeitamente ao livro, como objeto cultural. Longe de se constituir num objeto de culto, o livro, na sociedade de massa, popularizou-se, com todas as vantagens que isto proporciona, mas também com todos os riscos que isto acarreta. Se, por um lado, ele está mais acessível — grandes obras da literatura universal estão disponíveis, hoje, por exemplo, a qualquer pessoa nas bancas de revista —, poucos são, em termos proporcionais, aqueles que lhe dão o devido valor.

    Nada mais irônico que o fato de que as gerações que dispõem, hoje, de um tesouro inimaginável ao seu alcance, seja a que menos se interesse por ele. A idéia de aproximar-se do livro cerimoniosamente, “com a cortesia no coração”, torna-se incompreensível, quando não risível.

    É até difícil imaginar a existência de grandes volumes empoeirados, em bibliotecas misteriosas e labirínticas, ao gosto de Borges, quando se pode percorrer as ruas da cidade, entrar e sair de ônibus e metrôs, com uma obra-prima da literatura, no formato pocket book, metido no bolso do casaco. A revolução editorial causada pelas brochuras é, sem dúvida, co-responsável por essa disseminação da leitura, pela facilidade do acesso ao livro, mas há também grandes limitações para o leitor mais exigente.

    Como diz Steiner: “Não se consegue em brochura — ou apenas raramente se consegue — a obra completa de um autor. Não se tem acesso, nessas edições populares, ao que é considerado, por juízos de valor do momento, a produção inferior de um autor. Entretanto, a leitura autêntica da obra de determinado escritor só é possível quando a conhecemos integralmente, quando podemos também nos debruçar com solicitude — ainda que impacientes e ranzinzas — sobre suas deficiências e assim construir nossa própria percepção da validade de sua obra”.

    O leitor rápido, fragmentário, superficial e não “cortês” das brochuras e dos pocket books, incapaz muitas vezes de “reagir ao texto”, dando-lhe uma resposta crítica, parece ser sintomático de uma civilização na qual ocorre uma “atrofia da memória”, “característica principal da educação e da cultura a partir da metade do século 20”. Atrofia esta que se acentua com os processos de leitura online. Se o leitor de Chardin é aquele capaz de ler com atenção, de “fazer silêncio dentro do silêncio”, conforme definição de Steiner, como poderemos caracterizar o internauta? Ou caracterizar este seria, de certa forma, reforçar o estereótipo do jovem agitado, impaciente e imediatista, para o qual a leitura é apenas uma forma pragmática de obter informações para atingir um objetivo específico (fazer um trabalho, uma prova), inclusive copiando, sem pudor, trechos inteiros de obras sem dar-lhes o devido crédito?

    É claro que entre o estereótipo do leitor profundo e solene, do século 18, e o do leitor superficial e informal, do século 21, existe uma variedade de tipos de leitores — mas não podemos deixar de reconhecer que são dois modelos emblemáticos e que correspondem a um certo espírito de época. Num tempo em que a experiência cede cada vez mais espaço para a informação fragmentada e descontextualizada, a imagem do internauta, saltando de um site para outro, no espaço virtual do hipertexto, se sobrepõe cada vez mais à dos amplos salões das bibliotecas com seus leitores solenes e silenciosos.


    Revolução editorial
    A discussão sobre o desaparecimento ou não da mídia livro parece ociosa. Aliás, como é de conhecimento geral, mas que parece ser freqüentemente esquecido pelas pessoas, a existência dos computadores e da internet tem facilitado a própria difusão das obras impressas: publicam-se mais livros hoje do que em qualquer outro momento da humanidade. Como bem lembra Jason Epstein, em O negócio do livro: passado, presente e futuro do mercado editorial (Record, 2002), as novas tecnologias permitem a uma máquina “copiar, digitalizar e armazenar para sempre qualquer texto criado, a fim de que outras máquinas possam buscar esse conteúdo e reproduzir cópias instantaneamente a pedido em qualquer parte do mundo, seja em forma eletrônica, baixada por uma taxa para um chamado e-book ou dispositivo similar, seja em forma impressa e encadernada por uns poucos dólares a cópia, indistinguível na aparência dos livros brochurados de fabricação convencional”.

    E acrescenta, adiante: “Máquinas que podem imprimir e encadernar cópias unitárias de textos com o tempo serão itens domésticos comuns, como as máquinas de fax hoje em dia”. Em outras palavras: já existe tecnologia para que uma pessoa, numa remota localidade do mundo, no Himalaia ou na Amazônia, possa baixar, copiar e imprimir seus próprios livros, formando sua biblioteca particular, sem sair de casa.

    Mais do que a sobrevivência ou não do livro, a questão mais premente hoje diz respeito à sobrevivência dos modelos de produção e comercialização, dos direitos autorais, dos grandes conglomerados editoriais, mistos de editoras e livrarias, que, tal como os da música, perdem cada dia mais o controle sobre seus títulos. Mas isto já é tema para um outro artigo. O que se pode dizer, no momento, é que há, de fato, uma revolução sem precedentes em curso — uma revolução jamais imaginada pelo hierático leitor incomum do quadro de Chardin.

    Autor: Carlos Ribeiro • Salvador – BA
    Fonte:
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  2. Paulo

    Paulo Cabeça de Teia

    Gostei bastante desse artigo. Mais pelo exercício que ele propõe do que por concordar com as teses expostas.

    Isso é interessante, e está diretamente relacionado - tal como o autor aponta - com a noção de perda da aura concebida por Benjamin. No entanto, mas do que a acessibilidade que isso acarreta, o que me parece ser realmente importante é a possibilidade de crítica que ocorre com o fim da deferência.

    Ler tal como o personagem desse quadro faz é assumir uma posição que não é só de respeito em relação ao livro, mas de inferioridade explícita. Se o respeito pelo livro é algo do qual sentimos falta (ainda que não em nós, mas nos outros!), este é certamente mais prejudicial do que benéfico.

    Não ter deferência para com o livro implica em encará-lo (e toda leitura é uma pequena batalha) em condições de igualdade. Estou disposto a ouvir o que o autor quis dizer através desse livro, mas farei isso de maneira crítica. Talvez seja esse o maior respeito que se possa prestar à uma obra literária. Ler criticamente é ler com atenção. E, conforme é salientado pelo texto, ler criticamente resulta em um diálogo de valor inestimável entre o leitor e a obra.

    Em relação ao tempo, novamente, ele enfatiza essa inferioridade do leitor em relação ao livro. Mas o que eu acho ruim aí é a idéia de ler com o tempo contado. =P

    Gosto de ler quando posso me demorar no livro o quanto eu quiser. Obviamente não deixo de ler no ônibus, ou no metro, por conta disso, mas a idéia de perder o ponto é mais interessante do que ter um limite rígido para parar a leitura.

    Essa é a melhor parte da reflexão dele. Escrever comentários ao lado do texto é fundamental. Não sei se isso funciona para literatura, ao menos é algo que eu nunca fiz. No entanto, em "livros acadêmicos" isso é fundamental.

    Tão bom quanto fazer esses comentários é os ler algum tempo depois. Torna-se um registro de determinada leitura que você fez na época e que, com freqüência, é bastante diversa da que você faz tempos depois.


     
  3. Paulo

    Paulo Cabeça de Teia

    Gostei bastante desse artigo. Mais pelo exercício que ele propõe do que por concordar com as teses expostas.

    Isso é interessante, e está diretamente relacionado - tal como o autor aponta - com a noção de perda da aura concebida por Benjamin. No entanto, mas do que a acessibilidade que isso acarreta, o que me parece ser realmente importante é a possibilidade de crítica que ocorre com o fim da deferência.

    Ler tal como o personagem desse quadro faz é assumir uma posição que não é só de respeito em relação ao livro, mas de inferioridade explícita. Se o respeito pelo livro é algo do qual sentimos falta (ainda que não em nós, mas nos outros!), este é certamente mais prejudicial do que benéfico.

    Não ter deferência para com o livro implica em encará-lo (e toda leitura é uma pequena batalha) em condições de igualdade. Estou disposto a ouvir o que o autor quis dizer através desse livro, mas farei isso de maneira crítica. Talvez seja esse o maior respeito que se possa prestar à uma obra literária. Ler criticamente é ler com atenção. E, conforme é salientado pelo texto, ler criticamente resulta em um diálogo de valor inestimável entre o leitor e a obra.

    Em relação ao tempo, novamente, ele enfatiza essa inferioridade do leitor em relação ao livro. Mas o que eu acho ruim aí é a idéia de ler com o tempo contado. =P

    Gosto de ler quando posso me demorar no livro o quanto eu quiser. Obviamente não deixo de ler no ônibus, ou no metro, por conta disso, mas a idéia de perder o ponto é mais interessante do que ter um limite rígido para parar a leitura.

    Essa é a melhor parte da reflexão dele. Escrever comentários ao lado do texto é fundamental. Não sei se isso funciona para literatura, ao menos é algo que eu nunca fiz. No entanto, em "livros acadêmicos" isso é fundamental.

    Tão bom quanto fazer esses comentários é os ler algum tempo depois. Torna-se um registro de determinada leitura que você fez na época e que, com freqüência, é bastante diversa da que você faz tempos depois.


     

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