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Aparência dos Elfos II – A batalha continua

Tópico em 'Artigos Valinor' iniciado por deriel, 5 Abr 2016.

  1. Deriel

    Deriel Administrador

    deriel enviou um novo Artigo

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    Quando comecei a me interessar pelos assuntos
    capilares em relação aos elfos, minhas concepções eram ainda bastante
    incipientes, e meus conhecimentos sobre notas e citações a respeito,
    quase nula. Tudo que eu tinha em mãos eram os livros em português, um
    ou outro ensaio, e minha teimosia.



    Hoje, meus conhecimentos são bastante incipientes,
    tudo que tenho em mãos são os livros em português, um ou outro ensaio,
    uma ou outra nota, muitas discussões, minha incansável teimosia e minha
    inseparável camisa de força! Mas só este pequeno acréscimo já
    justificou um novo texto, posto que alguns de meus antigos argumentos
    caÃram por terra, enquanto outros brotaram das cinzas. Vamos a eles.


    A principal razão de minhas divagações e teorias não é, como sempre
    pareceu, os cabelos de Legolas – meu elfo predileto por unaminidade de
    todos os sentidos – inclusive os intelectuais – o que talvez o
    colocaria em um julgamento um tanto imparcial ... mas Legolas é apenas
    um pivô para um processo bem mais amplo, cuja tônica principal é: qual
    era, afinal, a aparência dos elfos? Havia elfos louros na TM? Havia
    elfos louros fora da casa dos vanyar? Há possibilidades destas famÃlias
    terem se cruzado e gerado outros exemplares diferentes das
    caracterÃsticas básicas e originais de suas estirpes? E as exceções, o
    que fazer com elas?

    A princÃpio, sabe-se que a devastadora
    maioria dos elfos é morena. Esta informação foi sedimentada por uma
    frasezinha dos Apêndices do SDA, que diz :

    " ...seus cabelos são escuros, exceto na casa dourada de Finarfin."


    Tal qual uma famosa frase sobre asas, estas poucas palavrinhas geraram
    toda uma sequência de discussões, interpretações, teorias ferrenhas e
    tendenciosas, das quais eu não me excluo. No entanto, ela carrega em si
    mesma uma gama imensa de contradições, que automaticamente a descartam
    como argumento principal. Vejamos quais são elas:

    1) Na
    primeira versão desta passagem, Tolkien se referia especificamente Ã
    casa dos noldor. Mais especificamente ainda, Ã famÃlia real dos noldor.
    E mesmo aà ela ainda é falha, posto que entre os nobres noldor havia
    elfos com outros tons de cabelos: Idril, Glorfindel, os filhos ruivos
    (!) de Fëanor.

    Aqui, os opositores dizem: mas Idril era loura por ser descendente de uma vanya, e Glorfindel com certeza também era.


    Sim, concordo. Mas de qualquer forma, a afirmação está invalidada.
    Havia, sim, elfos louros na famÃlia nobre dos noldor, fora da casa de
    Finarfin. Isto é inegável, é fato. E explicitamente oposto ao que foi
    afirmado na frase em questão – base e alicerce de muitas teorias.


    2) Ao ser levada para os Apêndices do SDA, a afirmação foi apresentada
    como abrangendo todos os elfos – ou pelo menos todos os eldar. O que a
    desqualifica mais ainda. O que faremos com a pequena turminha dos
    cabelos prateados? Com os cabelos dourados de Thranduil? ( falarei
    sobre o Hobbit daqui a pouco). Com o elfo louro de Lórien? E... com os
    vanyar?

    A famosa frase então deveria ficar assim:

    Mas seus cabelos são escuros, exceto:

    * os vanyar
    * a casa dourada de Finarfin
    * a casa prateada de Thingol
    * alguns descendentes de Indis e de outros vanyar
    * uma pequena parte do povo do Norte
    * um ou outro elfo perdido nas florestas de Lórien


    Em suma: melhor teria feito Tolkien em deixar a afirmação com sua
    intenção original – a casa nobre dos noldor – que arcar depois com as
    inúmeras exceções com que ela iria esbarrar pela frente.

    (
    Parêntese 1 : Eu gostaria aqui de registrar uma observação sobre
    algumas questões estilÃsticas, que acabam dando margem a este tipo de
    especulações: Tolkien gostava muito de certas expressões, como Casa
    Dourada, Dourado/Dourada, Cinzento, Lider Supremo, Mais Velho, entre
    outras. Expressões tÃpicas do estilo do autor, que se repetem
    exaustivamente e nos exaurem... não na estética – belÃssima! – mas na
    herança analÃtica.)

    Deixando agora um pouco de lado a frase
    infeliz, vamos analisar estes casos aà um a um, dentro de argumentos
    mais sólidos – e não necessariamente naquela ordem:

    Tolkien nos fala a respeito dos sindar:


    " Os Mestres do Conhecimento também supuseram que a referência * era
    feita aos cabelos dos Sindar. Elwë de fato tinham um longo e belo
    cabelo de tonalidade prata, mas esta não parece ter sido uma
    caracterÃstica comum dos Sindar, embora fosse encontrada entre eles
    ocasionalmente, especialmente entre parentes próximos ou distantes de
    Elwë (como no caso de CÃrdan) . Em geral os Sindar aparentemente
    pareciam muito com os Exilados, tendo cabelos escuros, sendo fortes e
    altos, ainda que ágeis."

    ( *em nota mais abaixo foi também atribuÃda à s suas roupas)


    Temos aqui, numa passagem bem mais consistente, que a maioria dos
    sindar, tal como os noldor, tinha cabelos escuros. Mas também que
    Thingol e seus parentes – não se diz quem nem quantos – tinham cabelos
    prateados, e não apenas eles. Uma minoria, sem dúvida, diante do imenso
    contingente dos teleri. No entanto, esta minoria existia, e gerou seus
    frutos. Entre outros, Celeborn, CÃrdan... e Oropher. Pai de Thranduil.
    Naturalmente, nossa genética não consegue determinar o que um
    cruzamento de cabelos prateados com cabelos escuros daria. O único caso
    conhecido é o de Luthien, que tinha negras madeixas. Mas um caso
    isolado é pouco para determinar uma regra – e até mesmo utilizar a
    nossa genética para isto é uma insensatez, posto que entre nós não
    existem cabelos prateados, exceto talvez como tentativa de " dourar" os
    cabelos brancos ... De qualquer forma, nada impede que Oropher tenha se
    unido a uma cabelos-prateados – uma prima, talvez – e gerado um filho
    de cabelos claros, que por sua vez se uniu sabe-se lá com quem, mas
    transmitiu seu colorido à prole. Aqui, tudo é especulação – Tolkien não
    deixou nada de definitivo que possa confirmar qualquer conclusão a este
    respeito. Mas é implausÃvel afirmar que a possibilidade de Legolas ter
    cabelos claros é Ãnfima, ou mesmo " impossÃvel" para alguns. Pelo
    contrário, ela é bastante aceitável ... mas aqui eu terei que abrir
    mais dois parênteses:

    A) Oropher era mesmo parente de
    Thingol? Era. Isto está explÃcito tanto no CI como no SDA. Por diversas
    vezes Legolas é apontado como um parente distante de Celeborn – ele
    próprio o chama assim. Alguns alegam que o "parente" nesse caso se
    refere à raça élfica, simplesmente. Ora, por favor! Em todas as suas
    obras e escritos, Tolkien jamais usou o termo parente com esta
    conotação! Para ele, povo era povo, raça era raça, parente era parente
    – ou seja, alguém com laços sanguÃneos. Afirmar que nestes trechos,
    neste capÃtulo especÃfico ele resolveu dar outro significado à palavra
    é desprezar sumariamente o cuidado que o escritor sempre teve ao
    escolher seus termos e suas expressões...

    B) Podemos levar
    em consideração as afirmações do Hobbit? Podemos usar o Hobbit como
    argumento? Afinal, é um texto antigo e tão cheio de absurdos, tão
    distante do legendarium tolkeniano...
    É verdade. No entanto,
    muitas informações do Hobbit foram reaproveitadas na obra seguinte,
    depois de devidamente compiladas, refinadas e adaptadas. Entre elas, a
    figura de Thranduil, na pessoa de seu filho. Ora, no Hobbit Tolkien
    descreve Thranduil e parte de seu povo como louros. Mais prá frente,
    ele resolve colocar a maioria dos elfos morenos. E agora? Seria
    extremamente fácil para o autor eliminar este problema citando a mãe de
    Legolas, ou mesmo descrevendo-o mais minuciosamente. Em vez disto, ele
    preferiu deixar o caso em aberto, e quem sabe incluir Thranduil ( e
    talvez seu filho, pela imaginação dos leitores) naquela minoria élfica
    que desfilava seus cabelos claros pela TM, a despeito da famosa Frase
    Finarfin. Era mais fácil, mais barato e naturalmente compreensÃvel:
    sendo Oropher um parente distante de Thingol, nada impedia que ele – e
    sua estirpe – tivesse cabelos claros. Ou seja – o fato não ia contra
    nenhum de seus argumentos posteriores, nem constituÃa nenhum absurdo
    dentro das histórias subsequentes. Logo, não há porque desconsiderá-lo

    (bem como muitos outros). Resumindo: o Hobbit pode servir de fonte sim.
    Desde que tenha sido uma passagem reaproveitada, destramente adaptada e
    não modificada ou contestada posteriormente, não vejo porque deverÃamos
    descartá-lo sumariamente. Tolkien teve mil oportunidades de consertar
    os cabelos de Thranduil. Se não o fez, é porque não achou necessário,
    ou achou por demais trabalhoso de ajustar. E a lacuna na descrição de
    Legolas – um personagem importantÃsssimo – é um indÃcio claro disto.

    Vamos agora aos outros casos:


    X) Glorfindel: Este é fácil. Glorfindel nasceu em Aman, filho de um
    noldo com uma vanya. Era considerado noldo porque a classificação é
    legada pelo pai. E resolvido o problema.

    Sem dúvida. E
    assim como Finwë e Indis, e os pais de Glorfindel, pode ter havido
    muitas outras uniões de noldor e vanyar em Amam, ou mesmo na TM, antes
    da Grande Marcha. Em momento algum Tolkien discrimina estas uniões, nem
    as coloca como coisas raras, tal como aconteceu entre elfos e humanos –
    tão raras que foram até enumeradas. Mas entre as famÃlias élficas,
    parecia ser fato até comum. Além dos dois citados ( apesar de um ser
    mera suposição), temos ainda Finarfin, Galadriel ... todos casados com
    membros de outras famÃlias. E como eles, muitos outros podem ter feito
    o mesmo, segundo suas palavras:

    " Devido ao intercasamento
    o cabelo dourado dos Vanyar algumas vezes mais tarde apareceu entre os
    Noldor, notavelmente no caso de Finarfin e seus filhos Finrod e
    Galadriel, em cujo caso eles vieram da segunda esposa de Finwë, Indis
    dos Vanyar..."

    Mas por que então não foram todos
    mencionados? Porque não eram personagens importantes na história, oras!
    Quantos soldados noldor seguiram Fëanor em sua insana excursão à TM ?
    Quantos deles não poderiam ser frutos de uniões noldor/vanyar,
    noldor/teleri, e terem herdado o tÃtulo de noldo de seus pais, tal qual
    Glorfindel? E por isso Tolkien ia sair mencionando um a um, tal qual os
    exércitos homéricos?
    (o que aliás teria sido fantástico!).


    É preciso deixar claro que um ou outro exemplar com tipo fÃsico
    diferente não descaracteriza toda uma raça. Os noldor (ou quem
    preferir, todos os elfos ) continuam sendo aà primordialmente uma raça
    de cabelos escuros e olhos cinzentos ... e como todas as raças, com
    suas exceções, seus desdobramentos, suas miscigenações. Fazendo uma
    comparação grosseira: se cruzarmos um chinês com uma sueca,
    provavelmente teremos um chinezinho louro. Ou um suequinho de olhos
    puxados. E nem por isso os chineses vão deixar de ser descritos como "
    morenos de olhos puxados".

    Mas, porque Glorfindel tinha
    seus cabelos tão destacados assim, se ele não era uma rarÃssima
    exceção? Seu nome significa exatamente isto, cabelos dourados. E deve
    tê-lo recebido justamente por ser fato inédito um noldo louro, certo?
    Bem, ou ele é bem mais velho que Finarfin, ou não era tão inédito
    assim. Mesmo porque sua casa – a casa da Flor Dourada – sugere um belo
    clã de lourÃssimos noldor desfilando por Gondolin. Pode ter sido por
    causa de sua beleza – os cabelos de Glorfindel, como o de Galadriel,
    não eram simplesmente louros. Eram de uma beleza exuberante, a ponto de
    justificar num, o nome, na outra, a cobiça. E isto me lembra mais uma
    coisa. O argumento de que – toda vez que um cabelo era exceção, Tolkien
    o mencionava. É verdade, mas o mencionava à medida em que isto era
    relevante para a história – e afora as questões linguÃsticas ( como
    Glorfindel) ou literárias ( como certos humanos), Galadriel e Túrin são
    um dos poucos (senão os únicos) exemplos que eu me lembro. Sendo que
    Glorfindel nem precisaria ter sido mencionado: ele carrega esta
    informação no próprio nome. Então, Tolkien estaria apenas explicando aÃ
    a origem de mais uma raiz da lÃngua élfica. Outros casos não passam de
    figurações, de conceitos e valores literários, como veremos no próximo
    caso:

    Y) O elfo louro de Lórien. Um coadjuvante, um anônimo
    qualquer que aparece por dois segundos no livro, e desaparece com a
    mesma facilidade. No entanto, ele devia ser um assombro, devia causar
    espanto em quem o via. Um elfo louro em Lórien! Um sinda, um silvestre,
    ou mesmo um avari, de madeixas douradas! E no entanto, Tolkien o
    descreve com a casualidade que descreveria uma grama verde, um céu
    cinzento, uma margarida amarela ... um simples componente de cenário, a
    simples descrição de um personagem, uma simples figura de retórica.
    Como se encontrar um elfo louro entre os mallorns fosse a coisa mais
    comum do mundo. E não era? Uma coisa é certa. Tolkien não precisava
    absolutamente ter citado os cabelos deste elfo. E no entanto citou.
    Sendo ele uma exceção ou não, citou. Casualmente. Naturalmente. Como
    sendo realmente a coisa mais comum do mundo.

    Agora, vamos
    à questão dos vanyar. Se havia elfos louros que não eram vanyar, por
    que eles eram então assim chamados? Porque eles eram louros em quase
    sua totalidade. E não por serem os "únicos" louros. E olha que até
    entre eles parecia haver exceções ... vejamos o que nos diz Tolkien:


    " O nome ( vanyar) se referia ao cabelos dos Minyar, que era em quase
    todos os membros do clã amarelo ou dourado profundo. Esta era
    considerada uma caracterÃsticas bela pelos Noldor (que amavam o ouro),
    embora eles tivessem em sua maior parte cabelos escuros."


    (Parêntese 2: Esta paixão dos noldor pelo dourado bem sugere inúmeras
    uniões dele com as belas vanyar ... opinião puramente pessoal.)


    Vejam que aqui há uma outra pequenina contradição, posto que ele cita
    os noldor como em maioria morenos (por origem), enquanto que em outra
    ocasião ele dá a entender que os únicos louros por lá eram os
    descendentes vanyar. Então...

    Outra vez eu vou fazer uma
    comparação grosseira. Imagine que você tem duas famÃlias vizinhas. Uma
    tem um casal moreno, com um filho moreno e outro louro ( sim, isto é
    perfeitamente possÃvel, acreditem).
    E na outra, todos são
    exuberantemente louros. Como a gente diria? Vou lá na casa dos louros.
    Prá quem? Para a segunda famÃlia, é claro. E com isto eu acabei de
    renegar completamente o outro lourinho do vizinho.

    Mas –
    mesmo admitindo que, a princÃpio, apenas os vanyar eram louros, ainda
    há aquela questão de suas uniões com os noldor. As uniões anônimas que
    podem ter ocorrido em Aman. Que podem ter ocorrido na TM, com os
    teleri, após o retorno dos noldor ( entre eles os já frutos de tais
    uniões). Que pode estar ocorrendo até hoje (!) em Valinor.


    Eu, particularmente, não apenas acredito nestas uniões, como acredito
    que havia elfos louros também entre os teleri. Ainda que raros, e
    independente de cruzamento direto com os vanyar, o que parece não ter
    ocorrido:

    " Uma vez que os Lindar tiveram pouco contato
    com os Vanyar tanto na Marcha ou mais tarde em Aman, o nome não era
    muito usado por eles para o Primeiro Clã."

    Entre os noldor,
    já acho mais difÃcil – era realmente uma raça morena por natureza. Os
    louros "naturais" pareciam ser rarÃssimos, e a maior parte com certeza
    era mesmo fruto de suas uniões com os vanyar. E, somando a tudo Ã
    parcela dos prateados de Thingol... teremos:

    Todos os elfos são morenos , exceto:

    Certos e comprovados:

    1) O povo de Finarfin ( tido em certas circunstâncias como os
    únicos)
    2) A filha de Turgon
    3) Glorfindel e toda sua "Casa da Flor Dourada"
    4) A turminha prateada de Thingol
    5) O assombroso elfo de Lórien
    6) Uma boa parcela de ascendentes e descendentes de Fëanor – os ruivos.

    Nos controversos:

    6) Thranduil e uma parte de seu povo
    7) Legolas ?

    8) Por último e o mais controverso, por compreender ainda uma questão
    de tradução – não só de idioma, mas também de interpretação literária –
    Celegorm – o pretenso filho " louro" ( que eu já admiti como apenas
    "claro") de Fëanor. Este, eu nem citei anteriormente, por não ter mesmo
    (ainda!) argumentos suficientes.

    É , acho que tirando este rol de exceções e mais algumas, os outros deviam ser morenos mesmo....


    Bem, como apelo final, eu gostaria de comentar a reticência do próprio
    autor em ser taxativo quanto a este ou aquele aspecto, que foi
    destacada através dos grifos. Tolkien fala o tempo todo em maiorias,
    minorias e exceções. Mas nem mesmo entre os vanyar ele usa o termo
    totalidade.

    Portanto, não há como excluir exemplares nesta
    ou naquela raça. Minorias não são determinantes de nada. Mas que elas
    existem ( e perturbam um bocado), isso existe...
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