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Anglo Saxões e Tolkien

Tópico em 'J.R.R. Tolkien e suas Obras (Diga Amigo e Entre!)' iniciado por Anna De Courcey, 19 Nov 2012.

  1. Anna De Courcey

    Anna De Courcey Usuário



    OsAnglo Saxões como influência na mitologia tolkieniana




    Aideia de punição dentro da mitologia tolkieniana parece-me comoalgo que também sofreu evolução. Se pensarmos que durante o GrandeOcaso as consequências foram de um tipo e séculos depois durante aGuerra do Anel foram totalmente diversas. Primeiro é necessárioentender o que é uma punição. Esta pode ser entendida como algoque está no nível da esfera física, verbal ou psicológica. Sendoalgo que varia de grau e intensidade de acordo com o crime cometido ea pessoa envolvida. Dentro do aspecto evolução dos costumes, apunição e a violência são também plausíveis de uma análise einterpretação de direitos e moral envolvidos. No entanto, estes sãoconceitos modernos e que vão além dos instintos primários ebásicos da humanidade a fim de obter uma dita sobrevivência social.
    Tomandocomo base os antigos povos anglo-saxões descendentes mais diretosdos ingleses do que quaisquer outros povos, o seu sistema de punição,controle e lei são estritamente severos. A justiça deveria seraplicada de modo rápido, direto e eficiente de modo a não sepermitir uma atitude de revelia. Em uma sociedade na qual a guerraocupava o centro das preocupações e funcionava de base para aeconomia e estabilidade social, os castigos corporais e monetárioseram formas bastante diretas de apontar ao indivíduo que sua atitudehavia sido abusiva dentro do meio social. Homens que valorizavam suaforma física de modo a aparecer ameaçadores e conquistadores viamnos castigos mutilatórios sua desonra estampada de modo crítico enotável a todos. Neste contexto, significava muito ser bem sucedidoem uma persuasão, coação ou corrupção dos indivíduosresponsáveis pela lei e aplicação da mesma. Fossem estas por meiosde tesouros ou mulheres a lei poderia ser contornada por muitos queoferecessem aquilo que se almejava.
    Mas,mais importante que a corrupção, residia o seu oposto: a palavra.Esta ocupava uma posição de destaque em um povo muitas vezes vistocomo bruto e insociável. A palavra dada e a promessa cumpridaresidiam como os mais altos valores para reconhecer a moral e nobrezade um indivíduo. Quando alguém se empenhava pela palavra por algoaquilo era algo que não se voltava atrás, por quaisquerjustificativas ou acontecimentos. A partir dos doze anos, qualquer umpoderia vir a ser julgado por crimes considerados maiores pelosjuízes das cortes. Esta era uma idade entendida como o abandono dainfância e o momento no qual todos passam a ter disciplina ejulgamento social. Sabemos hoje, que esta é a entrada naadolescencia e que muitos destes não tem a menor noção deresponsabilidade e cumprimento da palavra, tendo muito ainda queamadurecer.
    Maisdo que um ato criminoso por si só como é visto hoje – algo deagressão e violação do humano – era visto como uma deslealdadecontra a comunidade. Em uma época no qual tantos povos eram vistocomo conquistadores, a união e contato dentro da própria comunidadeera fundamental para a inclusão do indivíduo socialmente e suamanutenção de contatos humanos: sobrevivência social. Dentro destaera necessário a administração das hierárquias sociais dejulgamento e punição dentro de cada agrupamento social ou vila.Dentro dos Condados tínhamos os Hundreds – subdivisões daqueles –que administravam diretamente as questões vitais das comunidades eagrupamentos menores. Era dentro das subdivisões dos Hundreds queexistia a hierarquia para divisões da corte e a correspondenteresponsabilidade de julgamento para cada uma. Estes organizariam umalista com os crimes de maior prioridade e importância e deveriamaplicar as punições correspondentes e necessárias – inclusive oexílio. O interessante é que neste momento a punição poderia seraplicada não apenas ao indivíduo autor do ato, mas talvez ao seupróprio Kin – espécie de entendimento para o termo comunidade –caso a corte entendesse que houve cumplicidade da execução docrime. O rei e as suas cortes deveriam preocupar-se não apenas emaplicar a execução da lei, mas principalmente em ser justo eaustero. Em uma sociedade na qual a palavra e a confiança eramsedimentadas na relação com o próximo trair a lealdade com umjulgamento ímpio ou exagerado poderia desprestigiar a autoridadereal frente à população e ao seu julgamento.
    Sepudéssemos escolher quais os problemas de maior relevância para osreis antigos, sem dúvida estaríamos falando da relação entre oscrimes e a violência com a sua consequente punição. Com a ascençãodo cristianismo dentro, inclusive, das sociedades anglo-saxãs, estavisão de mundo passou a se conectar ainda com as questõesreligiosas e com a exigência cristã de ser vigários de Cristo naTerra. Novamente, o julgamento e a punição eram vistos como maisdelicados do que o crime em si. Se estes fatores, sobretudoreligiosos, não fossem tão importantes talvez a aplicação depenas mais duras e o uso do ferro teria acalmado as estradas e asexecuções. As penas de morte, apesar das demais considerações,era extensamente aplicada nos indivíduos de todas as idades. Um dosreis saxões, Athelstan, é retratado na Crônicas dos Saxõesdesculpando-se com os seus conselheiros por ter de aplicar tantaspenas de morte a jovens. Este mesmo rei, inconformado com a idadeprecoce com a qual tantos estavam sofrendo punições, passou paradezesseis anos a pena de morte. Apesar da aplicabilidade das leissociais ocorrer apenas a partir dos doze anos, há relatos em massade crianças com até mesmo oito anos sofrendo as penalidades deadultos. Seja por serem autoras, co-autoras ou cúmplices na execuçãoou planejamento dos crimes.
    Muitosdiscutem que as autoridades usavam de crueldade contra os criminosos,mas também podemos ver o quanto de iniquidade estes criminosospoderiam vir a aplicar se tivessem mais chances de atuação social eliberdade. Hoje, os direitos humanos julgam que todos têm direito aum julgamento justo e livre de favorecimentos ou desfavorecimentossociais – com justiça. No entanto, vemos que dia após dia aviolência cresce e multiplicam as mortes e assassinatos. Poderíamosentão dizer que uma suavidade social poderia estar ajudando a formarmonstros? Bom, mas isto é tópico para outros artigos e outrasdiscussões. Vou agora relacionar a apresentação acima com algunsmomentos que julgo importantes para ilustrarmos estas questõesdentro do universo de Tolkien.
    Porque não começar pelo próprio Ocaso de Valinor? É, eu sei quepoderíamos dizer que é a ideia de primitivo dentro da sociedadetolkieniana. Mas gostaria de retroceder ainda mais. Retroceder para aQueda de Melkor. Eu, por muito tempo, nunca entendi porque Melkortinha sido tão brutalmente exilado – não tanto como depois ele ofoi. Eu sempre pensei de uma forma um tanto liberalista: poxa, se elequer assumir o poder, temos que aceitar uma boa disputa e competição.Afinal, se Ilúvatar não estava conseguindo segurar a peteca, eleteria que aprender com a competição. Sim, eu sei, Melkor tentou econseguiu corromper muitos e desestabilizar a ideia e vivência deequilíbrio. Mas, então, em todas as sociedades humanas já tivemosmomentos parecidos. O que importa é o poder e as disputas fazemparte do pacote. Mas, depois de um tempo, começei a conectar todosos eventos desastrosos da Terra-Média com a atitude primeira deMelkor e assimilei o quanto aquele atitude primeira desestabilizou atudo e a todos. Mesmo em um primeiro momento existindo o entendimentode um desejo de revolução de uma nova atitude com relação a umanova dominação social, afinal o que seria da mobilidade social senão houvesse substituição de líderes e posições.
    Adecisão da expulsão e exílio de Melkor podem parecer algo de tomdefinitivo demais, no entanto foi a decisão mais acertada parasilenciar uma possível pior revolução e arrebanhamento de maisgente para dentro de uma possível destruição e violência contrademais indivíduos. Pensando como a sociedade anglo-saxã, foi umaquebra de lealdade contra o grupo e os ideais em comum. Sendo umaatitude de modo tão intenso e com tão grandes repercursões queteve como consequencia merecida a sua completa exclusão e isolamentode contato com os semelhantes. Se foi uma atitude dura?Provavelmente, mas a consequencia de uam exposição social seriamuito maior para uma rebelição em massa por exemplo. Os ideais deMelkor feriam e agrediam a muitos, portanto quaisquer atitudespopulares que venham a ter tal consequencia considero como algomaligno e digno de ser banido – Ilúvatar, pelo jeito, pensou assimtambém.
    Amaldição sofrida pelos elfos talvez seja o fardo eternamentecarregado por uma raça que não consegue se redimir do seu passadode sombras e atos violentos. Dentro das ideias punitivas dos saxõesum exílio e maldição eternos para os elfos talvez seja encaradocomo uma atitude por demais dura. Seria a pena de morte uma puniçãomais branda por desafiarem os deuses? Os elfos, com sua pureza einocencia, foram talvez condenados a uma punição maior que o SenhorMelkor.
    Oque dizer então da auto-punição sofrida pelo próprio Gollum? Pormais de quatrocentos anos ele passou os seus dias isolados e sob ainfluencia que o Um Anel lhe trazia. Isto por si só, então, deveriaser uma punição digna de exclusão e isolamento. No entanto, anoção de castigo e punição na Terra-média evoluiu tanto quantoaqui. Portanto o que inicialmente era entendido como castigospuramente fisicos ou corporais, evoluiu para um conceito de castigosmuito mais voltados para o lado moral e psicologico. Entretanto,havera punição maior do que auto aplicar-se? Talvez sim e talveznão, mas o ser humano parece ter evoluido para uma tendencia a seauto mutilar e sofrer em silencio em todas as sociedades ao longo dosseculos. Podemos dizer então que essa é uma tendencia que começouno meio externo e evoluiu para a interiorização psicologica?
    Citeidois exemplos, o caso de Melkor com os elfos e em seguida o caso deGollum. Poderíamos concluir dizendo dos próprios homens na TerraMedia? O homem de Gondor no inicio dos tempos era aquele que cedia àstentações e desejos, o homem da época de Aragorn era aquele queresistia e se auto punia como forma de resistir às tentações. Mastalvez a maior punição dos homens tenha sido serem abandonados naTerra Media sós e entregues ao próprio destino sem o auxiliopiedoso de nenhuma raça, nem mesmo para lhe oferecer uma possíveleducação e inteligencia superiores. Um castigo que não passou pelaagressão, mas que atingiu diretamente o psicologico e o emocional.Uma pena mais forte?
    Apesarde falarmos em evolução dos costumes e das penalidades socialmenteaplicadas, ainda temos como base em nossa sociedade grande partedaquilo que foi idealizado pelos chefes saxões. Seja na facilidadecom a qual alguém é libertado do sistema prisional oferecendocompensações ao sistema ou à vitima, seja nas agressões extrasistema que os presidiários recebem como forma de aplicar uma liçãoou ainda no temor que temos de sermos capturados pelo sistema e nãosabermos nosso futuro. Muito do que foi elaborado naqueles tempostrnaformou para sempre as questões de lealdade social e cumplicidadedentro de um sistema.
     

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