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Aman, Yvý marãeý, Terras-sem-mal

Tópico em 'Comunicados, Tutoriais e Demais Valinorices' iniciado por Artigos Valinor, 25 Jun 2005.

  1. Artigos Valinor

    Artigos Valinor Usuário

    De tão batida nestes tempos de pseudo-espiritualidade, a idéia parece banal - a de que as mitologias de todos os povos da Terra são, essencialmente, variações sobre o mesmo tema; manifestações de um inconsciente comum a todos nós, buscando lidar com algumas questõezinhas encardidas, mas básicas - o que é ser humano? O que é preciso fazer para ter vida plena e responsável neste mundo e no outro [se existir um outro]? Não sei quanto a vocês, mas é isso que me atrai de forma tão irresistível para a obra tolkieniana. E é incrível descobrir que, aqui do nosso lado, no chão onde agora pisamos, povos tão diferentes dos que inspiraram a mitologia de Tolkien enfrentaram esses problemas de uma forma tão semelhante à dele.
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    No início da Era Cristã, o interior do continente sul-americano foi sacudido por uma gigantesca peregrinação, cujos efeitos se fazem sentir até hoje. Do Paraguai até a fronteira sul da Amazônia, a nação tupi-guarani avançava para o Leste, liderada por profetas chamados caraíbas, que a exortavam a atingir o Grande Oceano e, mais que isso, cruzá-lo. Além do Mar, diziam os caraíbas, estava Yvý marãeý, a Terra-sem-mal, morada dos deuses, onde a doença, a tristeza e a morte não existiam. Quando os europeus aportaram aqui em 1500, praticamente todo o litoral brasileiro, além de muitas áreas do interior, havia sido tomado pela nação tupi-guarani. Mesmo com a colonização portuguesa e espanhola, essa raça orgulhosa - que se auto-denominava Avá, "os Homens" por excelência - continuou a procurar o Grande Oceano. Já no início do século XX, tribos guaranis ainda chegavam a São Paulo, vindas do Paraguai. Diante da impossibilidade de atravessar o Mar em corpo, os caraíbas incitavam seu povo a alcançar a Terra-sem-mal em espírito, e participar, ainda em vida, da felicidade dos deuses. </P>
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    Yvý marãeý, o lugar sem mácula onde os deuses ainda gozavam da felicidade primitiva, reproduz com perfeição o termo quenya Aman - "a [terra] abençoada, livre do mal". Entre os guaranis modernos, que vivem no Paraguai e nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, a crença é de que a Terra-sem-mal, a princípio, não estava separada de nosso mundo. Porém, as faltas dos homens fizeram com que os deuses desencadeassem o dilúvio, cindindo definitivamente nosso mundo do deles. O que restou aos homens foi Yvý mbae"meguá - a Terra Doente, onde nada mais é como fora no princípio. Eis outro conceito caro a Tolkien, que em sua obra toma a forma de Arda marred, a Arda Desfigurada, um dos grandes temas do Silmarillion. </P>
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    Contam ainda os guaranis que Ñamandu, o Criador - nome que quer dizer "Pai verdadeiro-primeiro" - criou os homens a partir da sua palavra divina, pronunciada em forma de canção, antes que qualquer outra coisa fosse criada. Como Ilúvatar, o "Pai de Todos", ao dizer Eä!, é a Palavra de Ñamandu - ayvu - que faz o mundo existir. Dentro de cada ser humano, como que uma fração dessa grande Palavra, dessa Chama Imperecível, ainda vive, chamada ñe"ë - a fala, o dom da palavra. Quando uma criança nasce, dizem os guaranis que "uma palavra tomou um assento", isto é, que mais uma das frações do poder criador de Ñamandu tomou forma e vida, e adentrou o mundo.</P>
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    Pode parecer irônico o fato de que, ao chegar às praias do Grande Mar, os tupi-guaranis não se depararam com sua Aman, sua Terra-sem-mal, mas deram de cara com o fogo e o aço dos portugueses e espanhóis. O que se seguiu é, entre nós, tristemente bem conhecido. Contudo, ainda hoje, apesar de tudo o que sofreram, a esperança ainda vive entre eles, tão pungente quanto a destas linhas: "Pois os Dúnedain consideravam que até os homens mortais, se tivessem esse dom, poderiam contemplar outras épocas que não fossem as da vida de seus corpos. E sempre ansiavam por escapar das sombras de seu exílio, e de algum modo enxergar a luz que não se apaga. E surgiram relatos sobre homens perdidos nas águas que haviam encontrado a Rota Plana, e chegaram a Aman". Ou a Yvý maräeý. </P>
    Tradução de Reinaldo J. Lopes
     

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