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Advertência para quando se ler Cortázar

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por heimmrich, 14 Jul 2011.

  1. heimmrich

    heimmrich Usuário

    Vê-se um homem sentado à lanchonete do aeroporto. O check-in estava feito, mas faltavam duas horas até o embarque: chegara muito cedo. Foi à lanchonete tomar o café da manhã. A pressa e o nervosismo dos aeroportos deixavam-no aflito, então sentou-se em uma mesa de frente à parede com um misto-quente em mãos, envolto em um papel fino que deixava passar a oleosidade do misto para seus dedos e que custou seis e cinquenta – lanchonetes de aeroportos também o deixavam aflito.

    Devorou o lanche com uma pressa de vira-lata e ainda faltavam uma hora e cinquenta minutos. Abriu a bolsa que levava consigo, tirou um livro para matar o tempo. Lá pela página vinte levantou novamente os olhos. Percebeu que haviam recolhido o papel oleoso e ele nem havia notado. Era realmente um livro muito bom, para o deixar tão imerso, ou o atendimento era excelente. O garçom flertando com a atendente da loja de chocolates ao lado enquanto um cliente à sua direita implorava por atenção o fazia crer na primeira hipótese.

    Júlio Cortázar. A amiga que lhe indicou disse que ele iria adorar, que era a sua cara. Para ficar tão imerso em ambiente que ele acreditava tão hostil, ela talvez estivesse certa. Apesar do cansaço de ter de esperar ainda uma hora e meia, seu ânimo estava renovado. Há tempos não pegava um bom livro – tornara-se mais crítico e mais chato desde os tempos que lia da mesma forma que comia, quando mais jovem. Decidiu que não era um livro qualquer: tirou seu ipod, colocou Schumman para tocar e se dispôs a ler com atenção redobrada (os fones de ouvido eram apenas para emudecer o garçom que agora deu-se para ensinar história à atendente do quiosque de chocolates).

    82 páginas depois o livro chegava ao fim e ele podia novamente tomar fôlego. Era um ótimo livro (histórias de cronópios e de famas, para quem se interessar), ficou desligado do mundo ao cair nas garras de papel do argentino. Mas não teve muito tempo para ponderar sobre suas qualidades: desesperou-se ao perceber que havia esquecido do tempo. Olhou para o seu relógio de pulso: 11:15. Ufa, ainda faltavam quinze minutos para o embarque. Olhou novamente para confirmar: o relógio estava parado. Levantou-se correndo, na mesma pressa e nervosismo dos outros que antes ele julgou.

    Enquanto corria para o portão de embarque, dentro do avião – onde ele deveria estar – o piloto avisava: “tripulação, preparem-se para a decolagem” e o garçom recolhia o papel lambuzado de óleo que ele havia deixado sobre a mesa. Só foi perceber, minutos depois de brigar com atendentes de embarque protestando que não podia perder aquele voo, a bolsa que, posta sobre o papel, ficara suja assim como seus dedos.
     
  2. imported_Rafaela

    imported_Rafaela Usuário

    Gostei da história! Já passei muito por isso lendo livros bons, inclusive Bestiário do Cortázar!!
     
  3. heimmrich

    heimmrich Usuário

    Opa, muito obrigado Rafaela!
     

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