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A união dos complementares - René Guenon

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Paganus, 10 Out 2013.

  1. Paganus

    Paganus Visitante

    Do livro 'O simbolismo da Cruz'
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    Devemos considerar agora, ao menos resumidamente, outro aspecto do simbolismo da cruz que é quiçá o que se conhece mais geralmente, ainda que, pelo menos à primeira vista, não pareça apresentar uma relação muito direta com tudo o que temos visto até aqui: queremos falar da cruz considerada como símbolo da união dos complementares. A este respeito, podemos nos contentar em considerar a cruz como se faz mais frequentemente, sob sua forma de duas dimensoes; além do mais, para voltar daí à forma de três dimensões basta destacar que a reta horizontal única pode ser tomada como uma projeção do plano horizontal inteiro sobre o plano supostamente vertical em que se traça a figura. Dito isto, se considera a linha vertical como a representação do princípio ativo, e a linha horizontal a do princípio passivo; estes dois princípios são designados também, respectivamente, pela analogia com a ordem humana, como masculino e feminino; se os tomamos em seu sentido mais extenso, isto é, em relação a todo o conjunto da manifestação universal, são eles aquilo a que a doutrina hindú dá os nomes de Purusha e de Prakriti [1]. Não se trata de retomar ou de desenvolver aqui as considerações a que podem dar lugar as relações destes dois princípios, mas só de mostrar que, apesar das aparências, existe um certo elo entre este significado da cruz e o que temos chamado de seu significado metafísico.

    Diremos em seguida, sem prejuízo de ir mais adiante sobre isto de uma maneira mais explícita, que este elo resulta da relação que existe, no simbolismo metafísico da cruz, entre o eixo vertical e o plano horizontal. Deve-se entender bem que termos como os de ativo e passivo, ou seus equivalentes, não tem sentido senão em relação um com o outro, já que a complementaridade é essencialmente uma correlação entre dois termos. Dito isto, é evidente que uma complementaridade como a de ativo e passivo pode ser considerada em graus diversos, de sorte que um mesmo termo poderá jogar um papel ativo ou passivo segundo aquele com o qual jogue; mas, em todos os casos, sempre se poderá dizer que, em uma tal relação, o termo ativo é, em sua ordem, análogo de Purusha, e o termo passivo o análogo de Prakriti.

    Porém, veremos depois que o eixo vertical, que liga todos os estados do ser atravessando-os em seus centros respectivos, é o lugar da manifestação do que a tradição extremo oriental chama a ''atividade do Céu'', que é precisamente a atividade ''não atuante'' dePurusha, por qual são determinadas em Prakriti as produções que correspondem a todas as possibilidades de manifestação. Quanto ao plano horizontal, veremos que constitui um ''plano de reflexão'', representado simbolicamente como ''a superfície das águas'', e se sabe que ''Águas'' são, em todas as tradições, um símbolo de Prakriti ou da ''passividade universal'' [2]; na verdade, como este plano representa um certo grau da Existência (e se poderia considerar do mesmo modo qualquer um dos planos horizontais que correspondem à multidão indefinda dos estados de manifestação), não se identifica à Prakriti mesma, mas só a algo já determinado por um certo conjunto de condições especiais de existência (as que definem um mundo), e que joga o papel de Prakriti, em um sentido relativo, em um certo nível dentro do conjunto da manifestação universal.

    Devemos precisar também outro ponto, que se refere diretamente à consideração do ''Homem Universal'': falamos mais trás deste como constituído pelo conjunto ''Adão-Eva'', e dissemos em outro lugar que o casal Purusha-Prakriti, tanto em relação à toda manifestação quanto mais particularmente em relação a um estado de ser determinado, pode ser considerado como equivalente ao ''Homem Universal'' [3]. Por conseguinte, desde este ponto de vista, a união dos complementares deverá ser considerada constituindo o ''Andrógino'' primordial de que falam todas as tradições; sem nos estendermos mais sobre esta questão, podemos dizer que o que é importante entender aqui, é que, na totalização do ser, os complementares devem encontrar-se efetivamente em um equilíbrio perfeito, sem nenhum predomínio de um sobre o outro. Por outro lado, há de se destacar que a este ''Andrógino'' é atribuído em geral a forma esférica [4], que é a menos diferenciada de todas, posto que se estende igualmente em todas as direções, e que os pitagóricos consideravam como a forma mais perfeita e como a figura da totalidade universal [5]. Para dar assim a idéia da totalidade, assim como já dissemos, a esfera deve ser indefinida, assim como são os eixos que formam a cruz, e que são três diâmetros retangulares desta esfera; em outros termos, porque a esfera está constituída pela própria irradiação de seu centro, não se fecha jamais, posto que esta irradiação é indefinida e preenche o espaço inteiro por uma séria de ondas concêntricas, cada uma das quais reproduz duas fases de concentração e de expansão da vibração inicial [6]. Estas duas fases são, além do mais, elas mesmas, uma das expressões da complementaridade [7]; se, saindo das condições especiais que são inerentes à manifestação (de modo sucessivo), as consideramos em simultaneidade, ambas se equilibram uma à outra, de sorte que sua reunião equivale na realidade à imutabilidade principial, do mesmo modo que a soma dos desequilíbrios parciais pelos quais se realiza toda manifestação constitui sempre e invariavelmente o equilíbrio total.

    Enfim, uma precisão que tem também sua importância é a seguinte: dissemos há um momento que os termos de ativo e passivo, que expressam só uma relação, podiam ser aplicados a diferentes graus; disto resulta que, se consideramos a cruz de três dimensões, na qual o eixo vertical e o plano horizontal estão em relação de ativo e passivo, se poderá considerar também, além do mais, a mesma relação entre os dois eixos horizontais, ou entre o que eles representam respectivamente. Neste caso, para conservar a correspondência simbólica estabelecida em primeiro lugar, ainda que estes eixos sejam ambos na realidade horizontais, se poderá dizer que um deles, o que joga o papel ativo, é relativamente vertical em relação ao outro. Por exemplo, se consideramos a estes dois eixos respectivamente como o eixo solsticial e o eixo equinocial, assim como dissemos antes, conforme o simbolismo do ciclo anual, poderemos dizer que o eixo solsticial é relativamente vertical em relação ao eixo equinocial, de tal sorte que, no plano horizontal, desempenha analogicamente o papel de eixo polar (eixo Norte-Sul), e o eixo equinocial desempenha então o papel de eixo equatorial (eixo Leste-Oeste) [8]. Assim pois, em seu plano, a cruz horizontal reproduz relações análogas às que são expressas pela cruz vertical; e, para voltar aqui ao simbolismo metafísico que é o que essencialmente nos importa, podemos dizer também que a integração do estado humano, representada pela cruz horizontal, é, na ordem de existência a que se refere, como uma imagem da totalização do ser, representada pela cruz vertical [9].

    [1] Ver El Hombre y su devenir según el Vêdânta, cap. IV.

    [2] Ver El Hombre y su devenir según el Vêdânta, capítulo V.

    [3] Ver El Hombre y su devenir según el Vêdânta, capítulo IV.

    [4] A este respeito, se conhece o discurso que Platao, no Banquete, põe na boca de Aristófanes, e cujo valor simbólico, apesar de evidente, é desconhecido quase por completo pela maioria dos comentadores contemporâneos. Algo completamente similar se encontra, em um certo aspecto, do simbolismo do yin-yang extremo oriental, de que vamos tratar mais adiante.

    [5] Entre todas as linhas de igual comprimento, a circunferência é a que possui a máxima superfície, e a esfera é a que contém o volume máximo; do ponto de vista puramente matemático, essa é a razão porque estas figuras eram consideradas como as mais perfeitas. Leibnitz se inspirou nesta idéia em sua concepção do ''melhor dos mundos'', que define, entre a multidão indefinida de todos os mundos possíveis, aquele que encerra mais ser ou realidade positiva; mais, como já indicamos, a aplicação que faz desta idéia está desprovida de todo alcance metafísico verdadeiro.

    [6] Esta forma esférica luminosa, indefinida e não fechada, com suas alternadas concentração e expansão (sucessivas desde o ponto de vista da manifestação, mas na realidade simbultâneas no ''eterno presente''), é, no esoterismo islâmico, a forma do Rûh muhammadiyah; é a esta forma total do ''Homem Universal'' que Deus ordenou aos anjos que adorassem, assimo dissemos mais atrás; e a percepção desta mesma forma está implícita em um dos graus da iniciação islâmica.

    [7] Indicamos mais atrás que isto, na tradição hindú, está expresso pelo simbolismo da palavra Hamsa. Encontra-se também em alguns textos tântricos, posto que a palavra ahasimboliza a união de Shiva e Shakti, representados respectivamente pela primeira e a última letra do alfabeto sânscrito (do mesmo modo que, na partícula hebraica eth, o aleph e o thau representam a ''essência'' e a ''substância'' de um ser).

    [8] Esta precisão encontra concretamente sua aplicação no simbolismo da suástica, de que trataremos mais adiante.

    [9] A propósito da complementaridade, ressaltaremos também que, no simbolismo do alfabeto árabe, as duas primeiras letras, alif e be, são consideradas respectivamente como ativa ou masculina e como passiva ou feminina; sendo a forma da primeira vertical e sendo a da segunda horizontal, a reunião de ambas forma a cruz. Por outro lado, posto que os valores numéricos destas letras são respectivamente 1 e 2, isto concorda ainda com o simbolismo aritmético pitagórico, segundo o qual a ''mônada'' é masculina e a ''díada'' feminina; a mesma concordância se encontra além disso em outras tradições, por exemplo na extremo oriental, na qual, nas figuras dos koua ou ''trigramas'' de Fo-hi, o yang, princípio masculino, é representado por um traço inteiro, e o yin, princípio feminino, por um traço cortado (ou melhor, interrompido em seu meio); estes símbolos, chamados de as ''duas determinações'', evocam respectivamente a idéia da unidade e da dualidade; não é necessário dizer que isto, como no próprio pitagorismo, deve ser entendido em um sentido completamente diferente que o do simples sistema de ''numeração'' que Leibnitz havia imaginado encontrar aqui (ver Oriente y Occidente). De uma maneira geral, segundo o Yi-king, os números ímpares correspondem ao yang e os números pares correspondem aoyin; parece que a idéia pitagórica do ''par'' e do ''ímpar'' se encontra também no que Platão chama o ''mesmo'' e o ''outro'', que correspondem respectivamente à unidade e à dualidade, consideradas além do mais exclusivamante no mundo manifestado -- Na enumeração chinesa, a cruz representa ao número 10 (a cifra romana X, não é, ela também, senão a cruz disposta de outro modo); se pode ver aqui uma alusão à relação do denário com o quaternário: 1+2+3+4 = 10, relação que estava figurada também pelaTétraktis pitagórica. Com efeito, na correspondência das figuras geométricas com os números, a cruz representa naturalmente o quaternário; mais precisamente, a representa sob um aspecto dinâmico, enquanto que o quadrado o representa sob seu caráter estático; a relação entre estes dois aspectos está expressa pelo problema hermético da ''quadratura do círculo'', ou, segundo o simbolismo geométrico de três dimensões, por uma relação entre a esfera e o cubo à qual tivemos ocasião de fazer alusão a propósito das figuras do ''Paraíso terrestre'' e da ''Jerusalém Celeste'' (ver El Rey del Mundo, cap. XI). Finalmente, a respeito disto, observaremos ainda que, no número 10, as duas cifras 1 e 0 correspondem também respecitvamente ao ativo e ao passivo, representados, segundo outro simbolismo, pelo centro e a circunferência, simbolismo que pode ser vinculado ao da cruz ressaltando que o centro é a marca do eixo vertical sobre o plano horizontal, no que, então, deve-se supor que a circunferência esteja situada, que representará a expansão deste mesmo plano por uma das ondas concêntricas pelas quais se efetua; o círculo com o ponto central, figura do denário, é ao mesmo tempo o símbolo da perfeição cíclica, isto é, da realização integral das possibilidades implícitas em um estado de existência.
     

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